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Ouriquense

26
Nov16

A minha mulher e Ricardo Araújo Pereira

Eremita

Captura de ecrã 2016-11-26, às 09.19.59.png

Se a mulher se fascina por um pintor, um escritor ou até um cantor de charme, o homem tolera; estatisticamente, o homem é mais filistino do que a mulher e tende a subestimar o poder de sedução da arte. Se a mulher se interessa por um desportista ou actor de cinema, o homem conforma-se; ele sabe que a beleza dos corpos exerce um fascínio irresistível e passageiro. Mas se a mulher se interessa por um humorista, o homem desespera. Se só alguns arriscam um poema de amor e ainda menos confiam no seu olhar, todos esperam que uma piada, uma boutade ou outro aparte, um gesto ou esgar no momento exacto, um trocadilho ou até uma anedota, seja um testemunho sintético da sua grande inteligência e sensibilidade. Uma tese popular, com o poder explicativo ilusório da psicologia evolutiva, diz que o humor é coisa de homens, um talento apreciado pelas fêmeas que se teria apurado ao longo das gerações, isto é, como característica sexual secundária em nada distinta na génese da cauda exuberante do pavão macho. Conheci suficientes mulheres hilariantes para não acreditar neste humor como dimorfismo sexual, retirando da tese apenas a associação do humor à sedução e ao sexo, em todas as combinações de género e número que o leitor conceber. Feita a ressalva, a resposta de Jessica Rabbit, quando interrogada sobre o seu fascínio pelo coelho, encontra-se amiúde nas revistas femininas para mulheres de classe média alta que gostam de fintar as convenções do amor romântico sem ceder à superficialidade da atracção apenas física ou material: "he makes me laugh". Ora, o riso é uma reacção física mais difícil de simular do que outras e, quando suscitado pelo humorista profissional, impõe-se como prova definitiva nos espaços domésticos que tínhamos por inexpugnáveis. É esta associação do humor à sedução e à resposta física irreprimível que faz com que, mesmo sendo o humor uma das artes menos prestigiadas, o humorista seja o mais perigoso dos objectos de desejo entre as profissões, com a possível excepção do cardiologista pediátrico. 

 

Ricardo Pereira Araújo (RAP) é a maior ameaça à paz conjugal dos portugueses na casa dos quarenta por combinar um talento de humorista inquestionável a outras características apelativas, a começar pela fama e o sucesso. Apesar de em muitas fotografias ele surgir com expressões caricaturais à custa de um abuso do sobrolho, trata-se de um homem atraente, com traços másculos e uma altura que nos esmaga, culto e com as opiniões apresentáveis da esquerda bem pensante. Naturalmente, a minha mulher adora RAP, as filhas da minha mulher adoram RAP, as nossas bebés adorarão RAP um dia e a minha mãe adoraria que eu me vestisse como RAP. Este quadro coloca alguns problemas, sobretudo porque eu não consigo deixar de gostar de RAP. Quando percebi que a minha mulher era fã do humorista, tentei forçar o meu desdém pela figura, não indo além de concluir que as suas crónicas - tão apreciadas - veiculam opiniões triviais e sofrem de excesso de técnica, e que, enquanto voz da esquerda, falta estofo ao humorista. Mas quando o ouço falar, é impossível não lhe reconhecer uma graça e inteligência que cedo fizeram dele o herdeiro natural de Herman José. A solução foi evitar escutar ou ver RAP na presença da minha mulher, pois quando a ouvi rir por causa dele com a alegria que me encanta senti algo que apenas conhecia da literatura, do cinema e de alguns desabafos de amigos, mas que me era tão estranho e abstracto como o medo para os Normandos até ouvirem o canto do bardo Assurancetourix: o ciúme. 

 

 

 

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