Quinta-feira, 9 de Março de 2017
Quinta-feira, 09 de Março, 2017

[Notas em permanente contradição até Julho de 2017]Ricardo-Araújo-Pereira-1.jpg

Ricardo Araújo Pereira (RAP) frisa que não se trata de um trabalho académico, mas no seu A Doença, o Sofrimento e a Morte... reproduz a tradição académica vetusta dos títulos modestos, tantas vezes iniciados pela expressão "Contributo para" (ou "Contribuição para"), pois lembrou-se de inserir o característico "Uma espécie de..." no subtítulo que explica tratar-se de um "... manual de escrita humorística". A autodepreciação é um traço forte e aborrecido de RAP, mas seria injusto condená-lo pela capa, já que também Mário de Carvalho, quando tentou explicar a sua arte, fez o mesmo: "Quem disser o contrário é porque tem razão". Não vou ao ponto de descrever a incapacidade de um autor dizer ao que vem como um caso de "não-inscrição" lusitana (Zé Gil), pois basta afirmar que o livro de RAP não é um guia, nem um manual, nem uma master class ministrada pelo actual príncipe dos humoristas portugueses, nem sequer um contributo para isto ou aquilo, mas um panegírico ao humor e aos humoristas. E quem disser o contrário é parvo. 

 

O livro colheu comentários muito elogiosos (1, 2, 345 e 6) e é preciso andar pelos blogs para descobrir alguma crítica negativa. Esta unanimidade na imprensa diz muito do prestígio de RAP enquanto humorista sofisticado e culto que "escreve bem", mas diz mais ainda sobre a falta de preparação e de tempo dos críticos que se instalaram na imprensa. Porque A Doença, o Sofrimento e a Morte... só é um bom livro se comparado à produção literária dos pares lusitanos de RAP; como objecto autónomo, dissociado do seu autor e do contexto nacional, trata-se de um livro fraco, para não dizer medíocre, em que o talento está tão presente como a preguiça e a urgência em publicar qualquer coisa que fosse a tempo de ser vendida no Natal de 2016. Na introdução, RAP traça uma panorâmica incompletíssima e desactualizada das teorias sobre o humor. Seguem-se capítulos com títulos inspirados, mas que apenas camuflam a mais estereotipada organização de tópicos que podemos encontrar nos manuais sobre o assunto e na Wikipedia. Sem negar o mérito na cuidada e ampla escolha de exemplos, a análise de RAP vai muito pouco além do óbvio, em parte por não se basear numa verdadeira teoria universal do humor, lembrando algumas aulas que se encontram no Youtube sobre improvisação musical dadas por quem nada sabe de harmonia ou não quer assustar o público com demasiada teoria. No fim, RAP oferece-nos a sua grande ideia, explicando-nos que temos sentido de humor porque é a única forma de lidarmos com a certeza de que vamos morrer, uma tese que elevaria o humor à condição de grande arte, não se desse o caso de o humor já ser, sem ter precisado da ajuda de RAP, uma grande arte, e de a teoria de RAP ser absurda, o que tende a condenar as teorias. Quem quiser saber algo sobre o humor não deve perder tempo com o livrinho de RAP, pois existe um livro infinitamente mais ambicioso, exaustivo e complexo, rico em exemplos analisados à luz de uma verdadeira teoria do humor; chama-se Inside Jokes (creio que não está traduzido, o que é uma pena). 

 

Continua.  Continua mesmo, mas preciso de terminar algumas leituras, pois o texto em que pensei obriga-me a recorrer à psicologia evolutiva, o que me deixa a dar voltas na cama. Entretanto, relembro que, apesar de dar ares de estratégia de fidelização de leitores, a ideia do post-folhetim, isto é, um texto que vai crescendo ao longo de alguns dias, já praticada no post "O Problema de Ricardo Araújo Pereira", destina-se a baixar a minha ansiedade e forçar-me a terminar os livros que abro; o Ouriquense, inicialmente pensado como sebenta de escrita, é cada vez mais sobretudo um estímulo às minhas leituras. 

 

 

 

 



Eremita às 09:42
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