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Ouriquense

24
Jun17

Não perder esta oportunidade

Eremita

A empatia e a capacidade de mobilização decaem com a distância física a que a tragédia ocorre e o seu espraiamento no tempo, o número de repetições, o grau de inevitabilidade e a nossa dissemelhança com as vítimas, obedecendo a uma fórmula matemática que podemos não saber deduzir, mas intuímos. Reformulando em lei: quanto mais próxima (no espaço e na História), rara, aguda e evitável a tragédia, maior o seu impacto psicológico. Há razões para que assim seja, incluindo o tribalismo ancestral, que não tem boa imprensa, mas alguém que sinta a morte de um chinês da China como a de um amigo de infância ou que, por suposto respeito pelos milhares que morrem de "doença prolongada", reprima a comoção ao saber de uma catástrofe repentina que vitimou dezenas de pessoas, estará a deixar-se trair pela sua razão e a perder humanidade, sem que se perceba o que ganhou em troca. Isto é óbvio, mas não impediu que António Guerreiro escrevesse um texto informado a lembrar que "a biopolítica das catástrofes é reactiva e funciona à medida do que acontece em tempos curtos", para contrastar a comoção e aparente reacção à fulminante tragédia de Pedrógão Grande com a baixíssima prioridade que damos à lenta desertificação do Alentejo. Também o Xilre se sentiu tentado a fazer um exercício de relativização, chamando a atenção para outras mortes, pois "entre 2005 e 2015 morreram nas nossas estradas 6.694 pessoas, mais do dobro do número de vítimas do ataque às Twin Towers". O exemplo escolhido é infeliz, sendo a principal conclusão que retiramos dos dados da Pordata a grande diminuição do número de mortos na estrada nas últimas três décadas, o que, curiosamente, serviu para que Rui Tavares destilasse alguns ensinamentos para nos livrarmos dos incêndios. Adiante, porque o mais desconcertante nas reflexões de António Guerreiro e Xilre é ambos mostrarem que conhecem a lei do decaimento da empatia e mobilização, mas ainda assim se revoltarem contra ela, como se fosse possível e vantajoso descartá-la. Não é. E não vejo grande vantagem em criticar-se a biopolítica das catástrofes neste momento.

 

A morte de 64 pessoas num incêndio rural é uma tragédia e - muito provavelmente - uma vergonha para o Estado. Estamos perante uma oportunidade rara para mudar a política de prevenção de incêndios, o ordenamento do território e eventualmente a estrutura da propriedade rural. Do que precisamos agora é de uma estratégia para que não se legisle à pressa só para mostrar trabalho, mas sem que se perca também momentum. É preciso muito talento político para encontrar a justa medida numa altura em que todos exigem o apuramento de responsabilidades e uma urgência incompatível com a resolução do problema, que mesmo no melhor dos cenários será lenta e gradual. De resto, não há grande razão para optimismos. Nos EUA, um país politicamente mais evoluído do que Portugal, nem o terrível tiroteio na Sandy Hook Elementary School, em plena governação Obama, fez com que fosse criada legislação para restringir o porte de arma. Mas são também muitos os exemplos por esse mundo fora de legislação e regulamentos, sobretudo na área da segurança, feitos em resposta a catástrofes que se revelaram escolhas sensatas. 

23
Jun17

Blogs: entradas e saídas

Eremita

[Publicado a 17.6.17; actualizado a 19.6.17 e a 23.6.17]

 

Entraram na lista de blogs:

 

Aspirina B

A Destreza das Dúvidas

Delito de Opinião

Diário do Purgatório

 

Saíram (por inactividade):

 

Vida Breve

Yesterday Man

 

Ao contrário do que escrevi há uns dias, os blogs Homem à Janela, de Alberto Velho Nogueira, e Morre Clara Brow não desapareceram, apenas mudaram de endereço: vão ao Anti-prefácios. (o novo Homem à Janela) e ao novo Morre Clara Bow.

 

 

23
Jun17

A vantagem acidental da hegemonia do "tudólogo"

Eremita

Para que serve um "tudólogo", aquela figura que escreve e fala sobre tudo nos media? Em Portugal, o grande tudólogo é Pedro Adão e Silva, um homem que escreve e fala sobre política, desporto, música pop e surf. Adão e Silva é um caso excepcional entre os "tudólogos", porque percebe mais de política do que o tudólogo típico e tem um discurso muito claro e eloquente. Mas também é um caso exemplar por actuar nas duas arenas de eleição do "tudólogo", a saber, a política e o futebol. Assim de cabeça, lembro-me de Paulo Baldaia, Daniel Oliveira, Pedro Marques Lopes, Joana Amaral Dias, Ricardo Araújo Pereira, Francisco José Viegas... O que fará com que tanta gente se tome por especialista em política e futebol ou, o que me parece mais pertinente, o que nos leva a dar-lhes atenção quando falam e escrevem sobre futebol? Possivelmente, a familiaridade. O "tudólogo" estabelece com o seu público uma relação de empatia (ou antipatia estimada) e não pode assustar pela exibição de um conhecimento que nos pareça inatingível. A identificação com o tudólogo deve ser possível. E uma das utilidades do "tudólogo", ainda que de mérito discutível, é fornecer ao leitor uma opinião fácil sobre qualquer coisa, com base numa afinidade que se vai construindo ao longo do tempo. Por outras palavras, cada leitor identifica-se com um dado "tudólogo" ou com uma constelação de "tudólogos" e sabe-se predisposto a concordar com o que o seu "tudólogo" escreve, qualquer que seja o tema que marque a actualidade. Outra das utilidades do "tudólogo", também de mérito discutível, é a inversa da anterior, isto é, cada leitor pode alimentar um ódio de estimação por um "tudólogo" ou constelação de "tudólogos" e sabe sempre onde encontrar um texto que lhe dará o prazer da irritação e do desprezo. Mas a grande e inequívoca vantagem de uma opinião pública dominada pelos "tudólogos", ainda que totalmente acidental, é o pano de fundo de mediocridade e mediania que cria, perfeito para que brilhe o ocasional especialista. Leiam este texto do economista João Rodrigues sobre Economia, publicado hoje no Público. Leiam-no juntamente com o resto da opinião publicada do dia. Não será preciso acrescentar mais nada.

 
Neoliberalismo para totós
 
 

Tendo como pano de fundo as eleições legislativas britânicas, a The Economist sintetizou assim a história recente da economia política do país: “Nos últimos quarenta anos, o Reino Unido foi dominado pelo neoliberalismo, um credo que procurou adaptar algumas das posições do liberalismo clássico do século XIX a um mundo onde o papel do Estado tinha aumentado”. Esta constatação de facto foi acompanhada pelo mais parecido que o eleitor encontrará ali com uma autocrítica, ou não estivéssemos perante uma revista que condensa semanalmente os argumentos neoliberais sobre tudo que é humano, tendo uma forte influência ideológica em tantos editoriais em Portugal.

As “mudanças sísmicas” associadas ao Brexit e ao suposto abandono da herança de Margaret Thatcher pelos dois principais partidos seriam então uma resposta aos “fracassos do neoliberalismo”: da maior crise financeira desde a Grande Depressão ao aumento significativo das desigualdades de rendimento e de riqueza, passando por privatizações que geraram piores e mais caros serviços públicos, mas mais lucros privados, tornando popular a renacionalização de vários sectores.

 

Entretanto, é de registar o inusitado rigor analítico com que o termo neoliberalismo é usado, em linha com o melhor conhecimento nas ciências sociais e humanas, mas em contraste com a repugnância que tal termo ainda causa na ignorante ou cínica sabedoria convencional. O neoliberalismo é de facto a visão do mundo hegemónica nas últimas quatro décadas entre as elites e não só. As suas origens intelectuais remontam aos anos trinta do século XX, começando por ser um esforço minoritário para renovar o liberalismo clássico, tentando dissociá-lo das ideias do laissez-faire e do Estado reduzido a um guarda-nocturno, consideradas incapazes de fazer face aos vários “colectivismos” desglobalizadores que floresciam num contexto de crise generalizada.

 

A intuição central é a de que a reconstrução da ordem capitalista terá de ser o produto de um exercício deliberado de poder político, exigindo intervenções constantes para criar e manter mercados, idealmente exercidas por elites tecnocráticas protegidas da refrega democrática. Tais intervenções passariam pela privatização de activos, pela liberalização e re-regulação financeiras e comerciais conformes à expansão global dos mercados. A liberdade reconquistada de circulação de mercadorias e de capitais exerceria por sua vez um efeito disciplinador sobre os Estados, limitando a democracia, obrigando-os a desenhar políticas monetárias e orçamentais em consonância com os interesses das fracções mais extrovertidas do capital.

 

No entanto, o neoliberalismo foi bem para lá destas últimas opções de política, hegemónicas a partir dos anos oitenta. Tratava-se, e trata-se, também de pensar um lugar para outras intervenções supletivas do Estado, capazes de corrigir eventuais falhas dos mercados em algumas áreas, afirmando a ideologia da concorrência mercantil. Alguns exemplos: na educação defende-se a separação do financiamento, pelo menos parcialmente público, da provisão, fundamentalmente privada, favorecendo assim o capitalismo educativo; no ambiente, corrige-se, supostamente, as chamadas externalidades negativas, como a poluição, com a criação de mercados para as emissões; na política social, defende-se a substituição dos direitos sociais universais por intervenções selectivas e dirigidas, com menor impacto redistributivo. E assim sucessivamente. Sendo um ismo em última instância utópico, o neoliberalismo está sempre por realizar, de forma acabada, na prática.

 

Margaret Thatcher sintetizou de forma impar o que está em causa: “a economia é o método, o objectivo é mudar a alma”, ou seja, convencer-nos de que “a sociedade como tal é coisa que não existe, só existem indivíduos e as suas famílias”, imersos em mercados, incluindo os financeiros, cada vez mais importantes, forçados a aceitar os seus resultados, por mais iníquos que sejam. Para tal foi e é necessário enfraquecer decisivamente todas as formas de acção colectiva que funcionem como freio e contrapeso, em particular os sindicatos, esteios dos direitos de cidadania social, que proclamaram desde o pós-guerra, em tantos países, que a força de trabalho não pode ser tratada como se fosse uma mercadoria. De Thatcher às troikas, passando por Pinochet no Chile, a consistência é espantosa. A austeridade é só um dos meios disponíveis.

 

Tendo sido também responsável, através dos comissários britânicos, pela construção do mercado único europeu nos decisivos anos oitenta, a elite dominante no Reino Unido decidiu ficar de fora da moeda única, dado que tinha confiança no seu poder, não precisando de mais mecanismos disciplinares externos. Afinal de contas, Thatcher tinha declarado que o seu maior triunfo era o novo trabalhismo de Tony Blair, ou seja, a ausência de alternativas. As mais inseguras elites do continente, em particular da França e do Sul, viram no Euro um meio de reforçar a integração supranacional, entregando poderes soberanos decisivos a instituições pós-democráticas e que tinham no seu ADN as regras económicas ortodoxas do ordoliberalismo, ou seja, da versão alemã deste paradigma.

 

Para lá da força dos interesses, o lastro institucional deixado pelo neoliberalismo, em particular na escala supranacional, é uma das razões para a sua resiliência, para a dificuldade em reverter regras que transferem sistematicamente recursos de baixo para cima, mesmo depois dos desastres comprovados. Este é um dos puzzles hoje debatidos na economia política. Creio que a convicção, partilhada por muitos dos seus supostos adversários, de que a globalização, em geral, e as suas expressões radicais no continente europeu são irreversíveis, também é parte da explicação para a dificuldade experimentada. Assim, não há mesmo alternativas decentes para os povos. João Rodrigues, Público.

 

Nota. Este artigo sintetiza alguns argumentos de um capítulo escrito para o livro Economia com Todos, que assinala os dez anos do Ladrões de Bicicletas, blogue de economia política crítica.

 

22
Jun17

"Having rivers of reward without earning reward"

Eremita

Infinite Jest é uma distopia futurista passada num futuro próximo, que provavelmente corresponde já ao nosso passado recente (o romance foi terminado no princípio dos anos 90). Um dos temas centrais do livro é o vício. A seguinte passagem, sobre experiências em que se estimula os centros do prazer, é já uma alusão ao filme Infinite Jest, que tem um papel importante no enredo do livro, por se tratar de uma obra tão hipnótica que o espectador não consegue deixar de a ver e perde o interesse em tudo o resto:  

 

'What happened was that Olders and the Canadian neuroscientists happened to find, during all the trial and error, that firing certain electrodes in certain parts of the lobes gave the brain intense feelings of pleasure.' Steeply looked back over his shoulder at Marathe. 'I mean we're talking about intense pleasure, Rémy. I'm remembering Olders called these little strips of stimulatable pleasure-tissue p-terminals.’

' "P" wishing to mean "the pleasure."

'And that their location seemed maddeningly inexact and unpredictable, even within brains of the same species — a p-terminal'd turn out to be right up next to some other neuron whose stimulation would cause pain, or hunger, or God knows what.’

(...)

'Because they were theorizing that these quote "rivers" or terminals were also the brain's receptors for things like beta-endorphins, L-dopa, Q-dopa, serotonin, all the various neurotransmitters of pleasure.’

'The Department of Euphoria, so to speak, within the human brain.’

There was no hint or suggestion yet of dawn or light.

'But not humans yet,' Steeply said. 'Older's earliest subject were rats, and the results were apparently sobering. The Nu— the Canadians found that if they rigged an auto-stimulation lever, the rat would press the lever to stimulate his />-terminal over and over, thousands of times an hour, over and over, ignoring food and female rats in heat, completely fixated on the lever's stimulation, day and night, stopping only when the rat finally died of dehydration or simple fatigue.’

 

Naturalmente, é o vício em alguma droga dura que mais depressa associamos à total dependência e obsessão com a próxima dose. Mas o grande vício do nosso tempo, pela novidade e abrangência demográfica, é o das redes sociais. Hoje, o leitor de Infinite Jest não deixará de reparar na completa ausência (vou a meio) de referências à internet e, em particular, às redes sociais. De certa forma, não ter previsto no princípio dos anos 90 a explosão da internet, quando já existia em França o precursor Minitel, é um falhanço enorme do autor enquanto futurista. Wallace faz de um filme o grande objecto de perdição, o que não surpreende quem conheça os seus escritos sobre a televisão, e é possível que um autor preocupado com a solidão estivesse pouco predisposto imaginar as redes sociais, que têm uma dimensão ambivalente, por serem capazes de  promover tanto o isolamento como a vivência em comunidade. Por outro lado, o modo como Wallace trata a nossa relação com o prazer não é nada datado e não perde pertinência por não ficcionar as redes sociais, antes pelo contrário, parecendo destilar a essência do nosso tempo ou a própria intemporalidade. Isto confirma a minha suspeita antiga de que tudo o que se tem escrito sobre as redes sociais, num anacrónico estado de espanto permanente, seja em tom catastrofista ou revelador de um entusiasmo incondicional, é uma boa treta. 

 

21
Jun17

A sensatez

Eremita

Manuel Carvalho é, provavelmente, o cronista mais sensato a escrever em Portugal.  Na crónica, a sensatez é inimiga do estilo e não satisfaz o leitor que procura divertir-se, surpreender-se e indignar-se. Os nossos cronistas mais elogiados, de Pulido Valente a João Pereira Coutinho, passando por Ricardo Araújo Pereira, são propositadamente insensatos. Ora, com o passar dos anos, começa a faltar paciência para a insensatez. Manuel Carvalho deve ter poucos leitores jovens e nunca ganhará um prémio pelas suas crónicas, mas continuará a ser lido com atenção em Ourique. 

19
Jun17

Sepultar os vivos, cuidar dos mortos

Eremita

Não conheci presidente mais talhado para veicular a dor de uma nação do que Marcelo Rebelo de Sousa; nem o Obama da voz timbrada se aproxima do virtuosismo do nosso presidente. A empatia natural de Marcelo, treinada pelo seu catolicismo e reforçada pelo mais alto sentido de Estado faz dele um super-herói da empatia e dos "afectos". Não estou a ser cínico. No imediato, Marcelo é precioso. Resta apenas saber se, num segundo tempo, o comportamento de Marcelo não será contraproducente. Conhecemos bem a capacidade de resposta do Presidente às calamidades: ele é sempre o primeiro a chegar. Mas não se sabe se Marcelo, sempre frenético, tem a paciência, persistência e teimosia necessárias para acompanhar as operações de rescaldo e aplicar a sua magistratura de influência no trabalho de bastidores de que dependerá, por exemplo, a prevenção dos incêndios do Verão de 2018. Quando vejo o Marcelo solidário, fico sempre com a dúvida de saber se estou a assistir à caridade cristã como meio para erradicar a pobreza e a miséria ou como fim que se realiza na expressão dos bons sentimentos. 

17
Jun17

Adão e Silva e Daniel Oliveira lavam mais branco

Eremita

A nomeação de Lacerda machado para a administração da TAP não tem, por si só, nada de condenável. Não há qualquer conflito de interesses em alguém que negociou a reversão de uma privatização e uma empresa em nome do Estado ser nomeado para representar esse mesmo Estado nessa mesma empresa. Daniel Oliveira

 

O que seria, de facto, uma pouca vergonha é que alguém que tivesse estado envolvido na negociação de uma privatização do lado do Estado, após a conclusão do processo, migrasse para a empresa privada, por indicação dos acionistas privados. Pedro Adão e Silva.

 

No Expresso, Pedro Adão e Silva e Daniel Oliveira, como meninos de coro afinados, tentam convencer o leitor de que, ao contrário dos casos de Ministros que durante os seus mandatos acautelaram a sua saída do Governo para empresas privadas que terão beneficiado, a ida de Lacerda Machado para a administração da TAP configura uma migração de sentido inverso. Logo, como a primeira migração é perversa, a segunda só poderá ser virtuosa. Nestes momentos de ofuscação motivada por simpatias políticas, é oportuno recordar o que Manuel Carvalho escreveu a 17.4.17 sobre Lacerda Machado:

 

Um negociador desta estirpe é uma espécie de rei Midas que qualquer primeiro-ministro que se preze gosta de ter ao seu alcance. Sendo amigo, melhor ainda. O problema é que, ao que se sabe (e sabe-se o suficiente), Diogo Lacerda Machado continua mostrar na sua esfera de acção profissional zonas de atrito com o interesse público, em particular com o da TAP. A começar, ele continua a ser administrador dos interesses de Stanley Ho em Portugal o que, por princípio, não seria impedimento para que interviesse como agente especial do Governo nas negociações da TAP, se o seu capítulo de defensor de legítimos interesses privados na transportadora aérea estivesse em absoluto enterrado no passado da VEM. Ora, não é o caso. Como o PÚBLICO revelou, “Stanley Ho tem ligações ao grupo chinês que quer comprar a TAP”. Um pouco mais de prudência, ou de pudor, teria, por isso, desaconselhado a intervenção de Diogo Lacerda Machado no processo.

Vejamos porquê. Uma das novidades que saíram das negociações que fizeram reverter a maioria do capital da transportadora para a esfera do Estado é a entrada indirecta dos chineses da Hainan Airlines na TAP. Quer dizer, a Hainan ficou dona de uma fatia das acções da brasileira Azul e como a Azul tem uma fatia de acções na TAP, logo os chineses são, indirectamente, donos de uma parte da TAP. E o que é que isto tem a ver com Diogo Lacerda Machado? É que, em Hong Kong, o seu “patrão”, Stanley Ho, tem uma sociedade com a Hainan Airlines. Sem muito esforço, é possível colocar em cima da mesa uma relação de interesses, ainda que remotos, ainda que indiciários, ainda que pouco fluidos, entre o negócio da TAP e o empresário macaense. Ou seja, o Diogo Lacerda Machado que representava o Governo era o mesmo Diogo Lacerda Machado administrador de uma sociedade de um empresário macaense que partilha interesses económicos com uma empresa chinesa envolvida nessa mesma negociação com o Estado.

Dizer que esta relação é por si só justificativa de um ataque ao Governo por presumível alimentação de negócios suspeitos de falta de transparência pode ser um exagero. Mas já não é exagero nenhum afirmar que, face à importância e sensibilidade do negócio da TAP, Diogo Lacerda Machado não reunia condições para desempenhar o papel que desempenhou. Custa a perceber que o melhor homem do mundo para defender o interesse do Estado seja um gestor com este passado e este presente de associações à TAP e a Stanley Ho. Como escreveu no PÚBLICO Pedro Sousa Carvalho, “não haverá entre os 17 ministros, os 41 secretários de Estado, os não sei quantos assessores e adjuntos ou entre os 650 mil funcionários públicos alguém com competência para representar o Estado nessas negociações?”.

Há outras perguntas. António Costa sabia destas ligações à TAP e percebeu que ao autorizar a entrada dos chineses estava a desfiar uma remota ponta de ligação ao patrão do seu amigo? Porque não se fez um escrutínio prévio a esta nomeação? Alguém acredita que se uma escolha destas fosse feita pelo anterior Governo (ou o de Sócrates, ou outro qualquer antes dele) teríamos o Bloco e o PCP mudos e quedos como estão em relação ao passado e ao presente do agente especial do primeiro-ministro?

E é então aqui que encaixa a informalidade com que António Costa deixou correr o pano. Não estando Diogo Lacerda Machado completamente à margem de eventuais conflitos de interesses no negócio da TAP, ao menos que se submetesse desde o início a um qualquer tipo de vínculo contratual com a função pública. Ter negociado o processo da TAP na condição de franco-atirador do Governo que, ao mesmo tempo, mantinha um pé nos assuntos de Stanley Ho e um passado de bons negócios com a TAP, é, enfim, uma história digna de uma república das bananas. Depois da pressão generalizada (até do Bloco e do PCP), o Governo lá tratou de enquadrar as suas funções num contrato . Era bom que nos desse agora muitos e bons argumentos para ficarmos sem a mínima réstia de dúvidas de que Diogo Lacerda Machado agiu do princípio ao fim com o exclusivo empenho em defender o interesse nacional, e não em busca de um novo e putativo negócio da China.

16
Jun17

Agência Europeia do Medicamento em Ourique

Eremita

Screen Shot 2017-06-16 at 09.20.28.png

 

Conterrâneos e outros,

 

Qual é a medida do bom senso? O selo do bom senso aparece quando, de modo tão irreprimível como uma gargalhada ou uma bufa, damos de imediato razão a quem habitualmente criticamos. Tem razão Paulo Rangel quando põe em causa a decisão da uma candidatura de Lisboa à Agência Europeia do Medicamento (AEM). Lisboa colecciona já duas agências europeias. Não há nenhuma cidade com três agências. É preciso acrescentar mais alguma coisa? Que a euforia dos lisboetas não comprometa os destinos da pátria. Mas acrescento: que o complexo de inferioridade dos portuenses não nos comprometa também. E acrescento ainda mais: esta não é uma discussão para ser liderada por colunistas presunçosos deslumbrados com a União Europeia, como o senhor Rui Tavares, autoproclamado autor da ideia de trazer a AEM para Portugal. Sejamos sérios. Portugal tem de libertar-se da polarização Lisboa-Porto e não pode ser o colunismo centralista a liderar a descentralização. Cai sobre nós, minha gente, sobre nós, o fardo de assumir a descentralização de forma simbólica, radical e até revolucionária no contexto europeu. Todas as agências europeias estão localizadas em cidades. É tempo de inverter este viés absurdo. Uma agência europeia pouco pode fazer por uma cidade com um milhão de habitantes, mas a sua instalação num burgo de pequenas dimensões seria revitalizadora para o tecido urbano e social. É tempo de pôr os interesses das localidades à frente dos interesses dos burocratas que trabalham nas agências, gente há tanto tempo a circular nos corredores do poder que se esqueceu do verdadeiro espírito de serviço público. Tentemos essa experiência! Contra Lisboa, contra Bruxelas até, mas pelos alentejanos e toda a enorme coligação silenciosa e silenciada de europeus que vivem em pequenos burgos. Meus caros, a AEM tem de vir para uma vila e essa vila será Ourique! Ao seu papel central e fundador no imaginário lusitano, Ourique junta características únicas para acolher uma instituição dedicada ao medicamento. O Baixo-Alentejo é hoje habitado por uma população idosa com particular queda para o suicídio. Haverá melhor escolha para a localização de uma agência dedicada aos remédios? Como se não bastasse, ficando Ourique a 58 km de Beja, a AEM iria finalmente transformar o aeroporto de Beja numa valência que não envergonharia a pátria. Mas a característica principal, meus amigos, é mesmo a pequenez da nossa vila. Assumamos a natureza revolucionária e confrontacional da nossa candidatura. Somos menos de 2000. A AEM iria deslocar para Ourique um número considerável de famílias que teriam um enorme impacto demográfico, arquitectónico, social e económico. De repente, Ourique passaria a vila cosmopolita, o que exigiria uma escola internacional, outras gastronomias, uma oferta cultural dinâmica, novos negócios, boas casas, quem sabe se um ringue de curling... Seríamos um caso de estudo, um exemplo incontornável para todos os movimentos descentralizadores à escala europeia e até mundial. A nossa Ourique não pode continuar exclusivamente agarrada à economia do montado. Não queremos ser apenas a capital do porco preto. Devemos também chamar a nós o desígnio de porta-estandarte de todos os deserdados da centralização europeia! Chamo-me Fausto Gomes e aprovo esta mensagem. 

 

 

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