Sexta-feira, 3 de Março de 2017
Sexta-feira, 03 de Março, 2017

É reconfortante saber que não sou o único a tropeçar no infinitivo flexionado e que estou em boa companhia



Eremita às 09:01
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Quinta-feira, 2 de Março de 2017
Quinta-feira, 02 de Março, 2017

Li o artigo da Visão sobre o mais recente interrogatório a Ricardo Salgado, um "exclusivo" que, a julgar pela capa, a Sábado também publica em exclusivo esta semana. As declarações evasivas de Salgado são absurdamente cinematográficas e o modo como a realidade tem vindo a escrever este enredo causa grande embaraço aos guionistas profissionais. Entre mais um provérbio de outras geografias, lapsos de memória, "garantia fiduciária" como o cúmulo do eufemismo para "suborno", uma quinta enigmática e declarações desconcertantes sobre o génio de Henrique Granadeiro para a vitivinicultura, Salgado atribui ao diabo a autoria de uma coincidência de datas comprometedora. Tendo eu ainda vivo na memória o capítulo dos Karamásov em que Ivan alucina e dialoga com o diabo, não hesito em afirmar que o diabo de Salgado é muito menos verosímil do que o de Dostoiévski e descaradamente mais ex machina. Sobre a falta de escrúpulos estamos ainda no domínio das alegações, mas concluo já que falta na equipa de assessores de Salgado alguém com uma sólida formação em Humanidades.



Eremita às 09:25
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Quinta-feira, 02 de Março, 2017

Nem sempre um blogger diz mal de um cronista da imprensa de referência por inveja. De resto, o que irrita este blogger não é um cronista em particular, mas a acumulação de colunas semanais na imprensa escrita e espaços de comentário na rádio e TV por cronistas generalistas que não têm um ângulo de análise suficientemente original ou pertinente para tantos palcos. Para que conste, desta vez nem estou apenas a pensar em Seixas da Costa, pois abundam outros exemplos: Pedro Adão e Silva, Pedro Marques Lopes, Isabel Moreira, Daniel Oliveira, Pacheco Pereira, etc. 



Eremita às 09:05
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Quarta-feira, 1 de Março de 2017
Quarta-feira, 01 de Março, 2017

Desconfio que as minhas gémeas só dão os abracinhos enternecedores quando estão na presença de outros. Mas sei que, sozinhas ou acompanhadas, a chupeta e o brinquedo da outra são sempre os mais cobiçados.


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Eremita às 10:21
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Quarta-feira, 01 de Março, 2017

Passou por Ourique um adolescente vestindo uma sweater com o desenho de uma enorme cara redonda e estilizada, de sorriso rasgado, a lembrar o bonequinho dos anúncios da Regisconta ou - para os mais novos - um emoticon. O contraste entre a cara do adolescente e o sorriso estampado na sweater não podia ser maior. As minhas filhas têm roupa parecida, mas são bebés sorridentes. Não descarto a hipótese de o adolescente ainda vestir a roupa que a sua mãe lhe compra e ser vítima de um desajuste temporal que tende a atingir o zénite precisamente na adolescência. Mas admitamos a seguinte hipótese alternativa: conhecendo o sorriso e comunicando-o ao mundo através da sweater, o adolescente optou por não sorrir. Não seria sequer um capricho, dada a combinação por vezes letal de acne, peer pressure, descoordenação motora, ejaculação precoce e existencialismo. 



Eremita às 09:54
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Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2017
Segunda-feira, 27 de Fevereiro, 2017

[republicação com menos gralhas; primeira publicação a 21.02.2017]

Fátima-13-outubro-1917.jpg

Foto de 13 de outubro de 1917, mostrando testemunhas do "milagre do sol". Foto D.R

 

 

No Público, António Araújo, o estimadíssimo blogger que assina o Malomil, tenta a quadratura do círculo que é manter viva a possibilidade dos milagres de Fátima sem abdicar do cepticismo. Como seria de esperar, Frei Bento Domingues aplaudiu. Eu nem queria entrar neste debate, mas meu ateísmo despertou da sua longa hibernação e agora é pior do que uma criança embirrenta, não me deixa em paz. Desenvolverei em horário pós-laboral. 

 

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partir de uma recensão de Fátima – Milagre ou Construção?, de Patrícia Carvalho, António Araújo (AA) revê a bibliografia sobre o tema e cita José Barreto (Religião e Sociedade, 2002, pág. 65), para frisar que chegou o tempo de “desarmar o velho e com frequência estéril debate sobre a autenticidade (sobrenaturalidade) das aparições reconhecidas pela Igreja" e "evidenciar a pertinência do seu estudo sob uma variedade de outros ângulos”. Os ângulos serão múltiplos. É possível reflectir sobre Fátima enquanto fenómeno antropológico, sociológico e fazer até uma historiografia da historiografia de Fátima. O que causa alguma perplexidade é a aparente necessidade que AA sente de manter no ar a possibilidade de ter havido um milagre. Excluindo o desejo natural de não ser confundido com um panfletista anticlerical e um respeito algo paternalista pelos crentes, não se percebe por que motivo AA não arrumou a patranha do milagre de Fátima num parágrafo, até porque a "variedade de outros ângulos" ganharia em espectacularidade se se assumisse, como recomenda o bom senso, que Fátima está assente numa mentira.

 

Em jeito de ressalva, adianto que não li - nem conto ler - um único livro sobre o dito milagre de Fátima; tudo o que escreverei neste texto tem por base passagens e citações que aparecem no texto de AA e mais um ou outro dado que apanhei de ouvido nesta conversa com Patrícia Carvalho. Esta minha ignorância é instrumental, pois reparo que quanto mais uma pessoa lê sobre Fátima, mais se afunda num irresistível vórtice de caudal palavroso. Do princípio ao fim, Fátima é um "evento de palavras" (AA cita Paolo Apolito), talvez demasiadas. Porque, salvo erro grosseiro da minha parte, o essencial resume-se em poucas linhas: as bases empíricas do milagre de Fátima são apenas relatos incongruentes, nomeadamente os dos três pastorinhos, com destaque para Lúcia, que tinha 10 anos no dia da suposta aparição, e a quem a mãe - que nunca acreditou no milagre -  "lia a obra devocional Missão Abreviada (1859), do padre Manuel Couto, onde se fala das aparições de La Salette, e de quando dois pastorinhos franceses viram 'Nossa Senhora no meio da luz mais brilhante'", e em vários relatos de crentes já condicionados pelos relatos dos pastorinhos e predispostos a não tirar os olhos do Sol até verem um sinal qualquer. Em suma, Fátima é uma construção cujos alicerces são testemunhos fantasiosos de crianças e de crentes predispostos a acreditar, que a Igreja instrumentalizou com mestria. Esta é a interpretação mais óbvia, que não tem nada de anticlerical. Mas AA seguiu outro caminho. 

 

"Escrever sobre Fátima é tão insensato como não fazê-lo", não é só a bela frase de abertura do texto de AA, mas a primeira de várias falácias (obviamente, é muito mais insensato escrever sobre Fátima) a que AA recorre para manter no ar a dúvida sobre o milagre. Faça-se justiça a AA. Ao longo do texto, o autor frisa que as evidências "não satisfazem os critérios da veracidade histórica" e que "fora da órbita confessional" as interpretações apresentadas pelos apologistas de Fátima não podem ser aceites. Mas vejamos estes três argumentos:

 

1. "Todavia, do mesmo modo que o “estremecimento da alma” que sentimos ao ver a Procissão do Adeus não deve ser determinante para acreditarmos nas aparições, o facto de Fátima se ter tornado uma “monótona feira de mau gosto” não se afigura decisivo quer para favorecer a crença quer para confirmar a descrença".

 

Sem dúvida. Mas alguém argumenta que o milagre não existiu porque Fátima se tornou uma "monótona feira de mau gosto"? 

 

2. "... se uma listagem das “aparições” pode descredibilizar Fátima, levando a supor que as aparições da Cova da Iria pouco diferem de centenas de fenómenos semelhantes, também pode sustentar-se, nos antípodas, que a marca do reconhecimento oficial a singulariza e distingue em face de manifestações que só na aparência lhe são próximas."

 

AA força a incerteza traçando outra bissectriz de um ângulo irrelevante. O milagre de Fátima continuaria a ser altamente improvável se não houvesse mais aparições. E a "marca do reconhecimento oficial" de nada vale, tendo em conta o historial da Igreja e o uso ritualizado que faz dos métodos científicos. 

 

3. ... não é possível figurar as reservas originais a Fátima como peça de uma estratégia preconcebida de credibilização e propaganda; que esse cepticismo originário seria mais tarde alvo de aproveitamento, disso não há dúvida – mas também não pode duvidar-se de que, por uma razão ou outra (inclusive, razões políticas, no quadro hostil da Primeira República), a Igreja teve uma atitude inicial de moderação e prudência no tratamento das “visões” dos pastorinhos. Simplesmente, daí não deve, uma vez mais, extrair-se qualquer ilação, positiva ou negativa, quanto à veracidade das aparições da Virgem.

 

Aqui AA perde-se em teorias da conspiração que, de novo, em nada contribuem para averiguar da veracidade do milagre. 

 

Estes três argumentos são particularmente curiosos porque é o próprio AA quem condena a impugnação do alegado milagre a partir de elementos que lhe que são "extrínsecos". Pelos vistos, o que se pode fazer é recorrer a elementos extrínsecos para alimentar a dúvida. A pergunta que fica é: não serão extrínsecos os elementos que levam AA a suspender a sua descrença de base em relação ao milagre de Fátima mas não a toda uma série de patranhas que vem documentando com graça inigualável no seu blog Malomil, como as crianças índigo? Não serão os elementos extrínsecos - isto é, a construção - essenciais à consolidação e persistência dos mitos fundadores? É bem possível que não valha hoje a pena discutir a veracidade de Fátima, como não vale a pena discutir a existência de Jesus enquanto figura histórica, pela falta de elementos, pela natureza do debate, que será sempre inconclusivo, pois é muito difícil provar formalmente que algo não existiu e há uma grande predisposição para acreditar em milagres, e ainda pelas enormes construções - um culto e uma religião - que se ergueram a partir de alegados factos. O cristianismo, há muitos séculos, e muito provavelmente também já Fátima têm uma existência que não depende de provas materiais. Nesse sentido, sim, vale a pena avançar para outros planos, mas sem que o arquivamento do debate sobre a veracidade do milagre venha acompanhado por uma série de argumentos ofuscadores e seja interpretado como uma desistência por parte dos cépticos. Um ateu não praticante pode aceitar o arquivamento e ser sensível à sofisticação teológica de Ratzinger e Bento Domingues, que privilegiam a "perspectiva do vidente" e enquadram as visões como estando sujeitas às “possibilidades e limitações do sujeito que as apreende”, mas só por ingenuidade não veria tais interpretações como uma forma de legitimar testemunhos. 

 

Em suma, a argumentação de AA sugere que estamos perante um impasse no que toca à veracidade do milagre de Fátima, como se houvesse tantos bons argumentos a favor como argumentos contra. Esta contabilidade está, como é óbvio, errada. Mas há mais. Ao belo adágio “tudo o que é recebido, é-o com os meios de quem recebe” (Tomás de Aquino), citado por AA, devemos responder com o oportuno "extraordinary claims require extraordinary evidence" (Carl Sagan). Porque quando lemos AA, parece que o alegado milagre de Fátima é um acontecimento trivial que está apenas em dúvida pela inexistência de provas irrefutáveis. Ora, a fraqueza das provas explica apenas um pouco da nossa incredulidade, pois a natureza do alegado fenónemo, da ordem do sobrenatural, desafia a razão. Conclui AA: 

 

Mas, acima de tudo, o Santuário recebe anualmente milhões de cidadãos anónimos, que aí vão pelos mais diversos motivos. Por razões íntimas, pessoalíssimas, que a cada qual dizem respeito, e como tal, devem merecer o respeito de todos. Mesmo dos que não crêem em Deus ou não são católicos; ou dos que, sendo-o, não acreditam nas aparições de Fátima e na sua mensagem. Mas não será o respeito pelos outros, crentes e não-crentes, a principal mensagem de Fátima e o seu maior desígnio?

 

Creio que a História, acima de tudo, deve respeitar a verdade, independentemente as convicções pessoais de cada um. Que Fátima receba anualmente milhões de cidadãos ou ninguém é um elemento extrínseco que nada nos diz sobre a veracidade do tal milagre e todos os elementos de que dispomos sugerem que, com toda a probabilidade, o milagre não existiu. Um ateu não praticante não se incomoda com Fátima, pois sabe que alguma forma de religião será sempre importante para alguns. Mas a entronização do milagre de Fátima só pode ser vista como um misto de vitória na secretaria e progressão na carreira por antiguidade, ou seja, sem qualquer mérito. 

 

 

 

 



Eremita às 10:34
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Segunda-feira, 27 de Fevereiro, 2017

Nem me tinha apercebido que houve noite de Oscars. Premeia-se demasiado. Vivemos tempos de meritocracia histérica*, expressão que não deve ser interpretada como uma valorização excessiva do mérito mas como uma caricatura da valorização do mérito com fins mercantilistas. Não contem com o Ouriquense para alimentar essa máquina, deixemos João Lopes fazer esse trabalho sujo. 

 

* Roubado a James Woods, que cunhou o termo "histerical realism". 



Eremita às 09:18
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Domingo, 26 de Fevereiro de 2017
Domingo, 26 de Fevereiro, 2017



Eremita às 10:31
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Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2017
Sexta-feira, 24 de Fevereiro, 2017

 

Esta conversa tem méritos que vão além da presença de Slavoj Žižek. Não conhecia Stephen Kotkin, autor da biografia de Estaline que alimenta a conversa, mas fiquei rendido à voz (lembra Joe Pesci), à excêntrica introdução, ao humor deadpan algo falhado e à sapiência. Como explicar a pulsão sanguinária de Estaline? Žižek e Kotkin desconsideram as interpretações psicanalíticas, mas não têm uma explicação alternativa que vá além do contexto da época, em que o sacrifício de seres humanos tinha sido trivializado pela Primeira Grande Guerra. A seguir ouvi uma conversa entre Rui Unas e Cláudio Ramos sobre fama, imprensa cor-de-rosa e patrocínios.



Eremita às 10:08
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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2017
Quinta-feira, 23 de Fevereiro, 2017

 

Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos

Polpas seus cabelos
Resíduos de lar
Nos degraus de Laura
A tinta caía

No móvel vazio
Convocando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas

A fúria crescia
Clamando vingança
Nos degraus de Laura
No quarto das danças

Na rua os meninos
Brincando e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa

 

 



Eremita às 11:00
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Domingo, 19 de Fevereiro de 2017
Domingo, 19 de Fevereiro, 2017

[actualização]

Admito que já me pelei por ler uma entrevista a Lobo Antunes. As entrevistas a Lobo Antunes e análises da sua obra* revelam uma figura em estado de perpétuo enamoramento consigo próprio, incapaz de falar sobre o mundo fora do registo autobiográfico. Lamento, mas ninguém, ninguém mesmo, nem sequer Richard P. Feynman, pode ser assim tão interessante. Ao passar pelo O Elogio da Derrota, reparei que Lobo Antunes voltou à carga e desferiu mais uns uppercuts no fantasma de José Saramago. Não perderei tempo com este cúmulo da vergonha alheia. Apenas me ocorreu que, além de Lobo Antunes, também os outros três do quarteto de romancistas portugueses da segunda metade do século XX consagrados, entretanto desaparecidos ou fora da vida pública, isto é, a caprichosa Agustina, o indolente Vergílio Ferreira e o vaidoso Saramago, revelavam uma obsessão ridícula com a posteridade. São como as crianças: dá-se-lhes atenção durante 50 anos e começam logo a pensar que serão eternos. Quando será que os melhores escritores de uma geração e, regra geral, todos os artistas, aceitarão que têm tanto direito à imortalidade quanto os melhores engenheiros, médicos ou juristas? Que raio de gente. 

 

12.2.2017

* Exceptuando os casos de Rui Cardoso Martins e Mário Crespo, Lobo Antunes tende a despertar a atenção de mulheres em estado de deleite: Ana Margarida de CarvalhoAlexandra Lucas Coelho, Anabela Mota RibeiroAna Paula Arnaut, Fátima Campos Ferreira, Isabel LucasMaria Alzira Seixo,  Maria Luisa Blanco e Susana João Carvalho.

 

Adenda: Ao contrário de José Sócrates, hoje um homem abandonado que só alguns ainda vão ouvindo por obrigação profissional, e do que António Lobo Antunes escreve em livros que quase ninguém lê, o que o escritor diz em entrevista, ainda que  sempre a mesma coisa dita da mesma maneira, continua a despertar um interesse surpreendente. No Público, António Guerreiro voltou a escrever sobre a ideia de génio e, no Homem à Janela, Alberto Velho Nogueira comparou os estilos de Saramago e Lobo Antunes de uma forma que vos fará brilhar na próxima vernissage, quando alguém forçar os maniqueísmos do costume: Beatles ou Stones? Dostoiévski ou Tolstói? Chico ou Caetano? Etc.

 

A obra de Lobo Antunes se é frágil é por ser uma proposta sem fundamento crítico, um modo de escrever sem apreciação crítica, sem uma modalidade racional em relação ao que é o escrever; a sua literatura é uma expressão sentimental, não na procura do sensível mas do estereotipado. Saramago tem uma escrita clássica, "composta", gramaticamente racional; pertence a outro mundo, regula-se pela tradição das literaturas escritas em português, de António Vieira a Aquilino Ribeiro, e em relação ao mundo da ficção em geral, através da ideia de cultura. A ideia literária de José Saramago está na racionalidade da escrita, tendo sido feita com a consciência do que é a elaboração de um discurso racionalizado. E que o discurso literário é um discurso funcionalizado pela ideologia e pela explicação do sensível. A escrita de Lobo Antunes tem relações com a impotencialidade da escrita que se resume ao que o escritor pensa ser um modo expressivo e imediato e que se funde na realidade da incapacidade; um tipo de impotencialidade/incapacidade poderia ser visto positivamente se se admitisse que a impotencialidade estivesse inscrita criticamente na sua obra. (...) A impotencialidade seria então uma saída dos convencionalismos que se poderão atribuir a José Saramago; e não só convencionalismos mas a convicção que Saramago tinha de que a estructura ficcional estaria próxima da estrutura racional. Saramago não seria um inventor de uma escrita que fugisse ao domínio do escritor, que lhe escapasse. Não é que Lobo Antunes tenha essa escrita fluida, perniciosa que escape ao controle e que não se saiba exactamente como se constitui, se há entre a escrita e o autor, de permeio, um inconsciente activo ou um consciente passivo, ou uma comunicação que pertence a um sistema que descontrola a necessidade de captar a explicação para fornecer a chamada incapacidade, a impotencialidade a que me referi. O sistema de Lobo Antunes não é um desequilíbrio entre os dois níveis de consciência ou duas fronteiras económicas da gestão pessoal do social. É uma elaboração a partir da linguagem "figée" que se contrai em sentimentalidade numa discursividade em conformidade com a pulsão regida pela legitimidade natural de uma linguagem comum que explica a sentimentalidade habitual. O que a escrita de Lobo Antunes demonstra é uma incapacidade de sair do lugar comum sentimental. Nem sequer é Art Brut na medida em que a escrita de Lobo Antunes é controlada pela visão direccional do discurso, imposta pela linguagem comum que nada significa a não ser a sua própria banalidade organizativa (e não só linguística) e que se prende ao próprio desenrolar da quotidianidade analisada à superfície. Nada em Lobo Antunes escapa ao controle. Alberto Velho Nogueira



Eremita às 08:44
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Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2017
Sexta-feira, 17 de Fevereiro, 2017

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Começa a fazer falta um novo Quo vadis que dê rumo ao Ouriquense. Importa discutir três questões, a saber:

 

1. Depois de Pessoa, ainda faz sentido cultivar uma heteronímia de grande rigor?

2. A propósito da figura do Judeu, mas também em termos genéricos, pode um autor criar uma personagem que o supere em inteligência?

3. Que heurística seguir para ligar por link todos os textos do Ouriquense? 

 

Até domingo, sobretudo se chover.

 


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Eremita às 13:06
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Sexta-feira, 17 de Fevereiro, 2017

Soube da leucemia de um dos dois filhos pequenos de uma mulher com quem quase casei e de quem me fui afastando civilizadamente. Fiquei abalado, fiz o que se esperaria de uma pessoa com empatia e muito mais poderei fazer; esta não é uma notícia para se arquivar com um post

 

Sabemos sempre o que fazer - fazer tudo - quando o problema surge no círculo restrito dos nossos; sabemos também o que fazer - não fazer coisa alguma - quando o problema está fora do círculo restrito. Até que um dia deparamos com um episódio sério e percebemos que está tudo errado. Não basta um círculo restrito, pois melhor seria um cilindro, um cilindro restrito em que a dimensão vertical descrevesse o tempo. E não basta conhecer o raio do círculo (duplo sentido) se não soubermos a grossura do risco com que se traçou a sua circunferência. É nesse risco que vamos equilibrando os nossos funâmbulos, sem saber que destino lhes dar. Por certo, temos apenas isto: que não podem regressar, nem os podemos abandonar. 



Eremita às 09:30
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Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2017
Quinta-feira, 16 de Fevereiro, 2017

Felizes os que conhecem apenas o anticlímax no quarto, porque no notário é muito pior. 



Eremita às 16:31
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Quinta-feira, 16 de Fevereiro, 2017

Não uses a escrita para corrigir a oralidade alheia. 

 

 



Eremita às 13:12
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Quinta-feira, 16 de Fevereiro, 2017

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Lobo Antunes foi vencido por Saramago e sofre, sofre, sofre, incansável como o coelhinho da Duracell. Aqui no Ouriquense, somos mais sábios a escolher os nossos adversários. No que toca à métrica das visitas e coisas afins, andamos há anos num mano a mano com a Escola de Condução Ouriquense Lda., invejável dona do domínio "Ouriquense.com", o que nos condenou a uma carreira provinciana. Nas últimas semanas, conseguimos ultrapassar a escola, mas é uma glória a prazo. Obviamente, tenho os instrutores da escola por profissionais eticamente irrepreensíveis que cumprem uma vocação e imagino que ressaquem a derrota  apontando dardos ao brasão do Ouriquense colado no centro de um alvo. Mas acertar no Lucky Luke deve ser fraco consolo. Man up, boys. Catch me if you can... 



Eremita às 11:08
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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2017
Quarta-feira, 15 de Fevereiro, 2017

[Em actualização permanente até 26.2.2017]

 

Sem tempo para a bloga, deixo apenas uma entrada, ao correr da dactilografia e em registo de note to self, sobre a declaração de amor de Miguel Esteves Cardoso (MEC) a Maria João, sua mulher, publicada ontem, muito possivelmente por ter sido o dia de São Valentim. A Portugal não têm faltado intelectuais públicos especializados no amor, como o mencionado MEC, a explicar o amor desde para aí 1984, Pedro Paixão, um escritor e figura pública muito apreciado nos anos 90 e princípio deste século, hoje algo desaparecido e a escrever livros (como um ensaio sobre Darwin que apenas eu li) ignorados pela crítica,  o inevitável Lobo Antunes das cartas à mulher enviadas de África, e o poeta e serial blogger (nova paixão, novo blog? A doutrina divide-se) Pedro Mexia, só para não sair de Lisboa, nem ir buscar grandes amantes mortos, como o O'Neill. Também haverá mulheres, mas - como se perceberá - estou-me nas tintas para elas. Trata-se de um grupo muito heterogéneo no culto que fazem da mulher, que pode ir do amor puro, simples e generoso de Esteves Cardoso ao amor pontuado pela misoginia e o ressentimento, algo entre um Pavese mais soft e um Houellebecq mais pudico, como se lê em alguns texto de Pedro Mexia.  Escrever coisas...

 

Será que nós, os simples de espírito sem o ofício da paixão por escrito, que não voltámos a arriscar um verso depois da pós-graduação, lemos as declarações de amor dos virtuosos do amor sem sobressalto? Sem sermos tomados pela dúvida? Como não, se podem ser tantas? A mais clássica, domesticada pelo intelecto, ainda sem revelar grande fragilidade, apesar de erguida como um dique holandês: amará ele o ser amado ou o seu estado de enamoramento? E logo depois todas as outras, rompendo irremediavelmente o dique: seria eu capaz de amar como ele ama? Alguma vez alguém me amou como ele ama? O que pensará o meu amor ao ler o que eu estou a ler? Mas por quem se tomam estes gajos, para andarem pelos jornais a exibir arrebatamento e provas de extrema sensibilidade? Julgam que tamanho amor os eleva? Ou será que até lhes agrada a equiparação ao homem avantajado que adora passear-se no balneário nu e demoradamente, consciente do impacto do seu caralho bamboleante na cabeça dos outros homens?   Usar um comentário à crónica de MEC como exemplo da reacção dos "simples de espírito". Complexificar.

 

Juntar algo mesmo desconcertante (ajuda-me, Senhor). Concluir frisando o apreço por MEC, Paixão e Mexia (revelar as fugazes interacções com cada um deles? Para quê?). 

 

Continua



Eremita às 10:16
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Sábado, 11 de Fevereiro de 2017
Sábado, 11 de Fevereiro, 2017

Fausto.jpg

Ao contrário do Judeu, Fausto é um puro produto da minha imaginação. Esta criatura surge mencionada pela primeira vez num Quo vadis (a série do metadiscurso) de Janeiro de 2010, em que revelo vontade de criar no Ouriquense "um braço politicamente armado". A personagem é um citadino que, como eu, se instalou no campo e teria características do Pessoa empreendedor e outros traços de Bouvard e de Pécuchet. Há seis anos, planeava uma personagem menos estúpida do que os dois franceses, "mas apenas por chauvinismo - ou então porque Flaubert era infinitamente mais inteligente do que eu e só o génio ser capaz de criar o seu contrário". Em seis anos, sendo verdade que Fausto quase não apareceu, uma frase bastou para o distinguir das outras figuras do Ouriquense, que em 2012 se pronunciaram sobre o dia de São Valentim: "Entre o amor e o controlo dos meios de produção, o alentejano não pode hesitar". Fausto assinou apenas um texto na coluna Contra Lisboa, em Maio de 2011, intitulado "Uma Solução para as Desigualdades Sociais", em que propõe - creio que com uma originalidade que vai beber ao jogo Monopólio  - uma ritualização do capitalismo a partir de um tecto salarial de 10 000 euros. Apesar da aura de empreendedor, até hoje, no Ouriquense, Fausto apenas tentou desenvolver duas ideias. A primeira foi um projecto editorial que não chegou sequer à edição zero, cujo insucesso Fausto atribui a uma qualquer justiça divina que o puniu por ele ter traído o voto popular ao manipular a sondagem para o nome da revista; Fausto já me garantiu que quer "relançar" [sic] a revista e, desta vez, o nome não será plebiscitado, pois já foi escolhido: "A Grande Ogiva do Sul", palavras pela primeira vez combinadas por Hernâni Lopes, que foi economista, embaixador e ministro das finanças. A segunda ideia foi criar perto de Ourique um cemitério que fosse um montado. Escrevi então (versão revista e aumentada): "Ourique ficaria com o maior cemitério do território nacional e ali seria sempre Primavera, pois Fausto está seguro da existência de uma variedade de trigo rasteirinho que está verde e espigado todo o ano. Em qualquer altura do ano uma parte da seara estaria a ser ceifada, para que os pequenos roedores e répteis ficassem desprotegidos e as águias de asa redonda nunca abandonassem aquele céu, de resto também rico em planadores, asas delta, balões de ar quente e até parapentes vindos de lugares longínquos, como a serra de Monchique, o castelo de Marvão e a pousada de Palmela, porque os estreitos caminhos serpenteantes que ligavam os sobreiros-jazigo de família desenhariam o mais belo dos labirintos, quase hipnótico quando vistos das alturas, tornando-se aquele aquele espaço aéreo um local de culto muito estimado pelos praticantes da aeronáutica, nunca invadido por máquinas ruidosas e drones. Veremos então se Fausto confirma em 2017 o que andou a prometer nos últimos anos. E talvez se esclareça de uma vez por todas se Fausto é o homem que aparece nos sonhos de toda a gente. Não que eu acredite em arquétipos, pero que los hay, los hay. Ou não



Eremita às 23:34
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Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2017
Sexta-feira, 10 de Fevereiro, 2017

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Um dia detalharei como os seus pais chegaram a Portugal e ele criou raízes em Ourique. Sem pretender adensar o mistério, chamo a atenção para as parecenças do Judeu com o escritor Joseph Brodsky, quando já homem feito e algo calvo. O que se segue não é novidade, apenas revisão da matéria dada: o Judeu não é sefardita, mas asquenaze, por muito que as más-línguas insinuem que o Ouriquense denota uma das afectações mais involuntariamente provincianas do ficcionismo luso contemporâneo, a saber, povoar histórias ocorridas em geografias incertas de personagens com nomes de cidadãos da Europa Central; o Judeu é pai de Adriano, um jovem adulto que acumula a condição de gay de Ourique e homossexual instrumental do Ouriquense; o Judeu foi cientista e hoje persegue a máquina do movimento perpétuo, mas com lucidez, ou melhor, para que não fiquem dúvidas, como performance; como tantas vezes sucede com os homens bons, o Judeu fez-se misógino para não odiar a mulher que lhe causou tanta tristeza; ao contrário do que escrevi em tempos na tábua de personagens do Ouriquense, ele não é uma mistura do cigano Melquíades (Márquez) com o velho Atílio (da telenovela O Casarão) que pretendia fazer ouro a partir do esterco que remexia numa banheira - essa opinião só a terá quem não o conheça bem, como sucedia comigo em 2011; aproveito também para emendar o ano: não foi em 2011 e será em 2017 que o Judeu transita de personagem a autor do blog. Com tanta emenda, é oportuno confirmar que ele possui uma boa biblioteca

 



Eremita às 10:44
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Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2017
Quinta-feira, 09 de Fevereiro, 2017

Sétima entrada de Canhotismo: a Coligação das Minorias ou simplesmente A Coligação das Minorias ou A Educação de um Revolucionário ou Julião: um Percurso Político ou outro título qualquer.

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Apesar do vício da internet, Julião também foi influenciado por livros. Todos mentem sobre as obras que marcaram as suas vidas e Julião confirmaria esta regra numa daquelas entrevistas televisivas de consagração, mas antes de ser famoso ele teria reconhecido que o livro da sua vida não é nenhum clássico da literatura e nem sequer pertence a uma categoria nobre, pois trata-se de uma obra de vulgarização científica publicada no princípio dos anos 90 por um médico canadiano que nunca atingiria o estatuto de estrela do firmamento académico. O que chamou a atenção de Julião no título The Left-Hander Syndrome: The Causes and Consequences of Left-Handedness foi a palavra "syndrome" - uma síndroma; ou síndrome, palavra ainda feminina. Ele já lera sobre o canhotismo e adquirira uma sólida cultura de Trivial Pursuit em livros simpáticos escritos por jornalistas, curiosos ou reformados empreendedores: era capaz de enumerar os canhotos mais famosos da História, sabia que "sinistrismo" é um sinónimo revelador do estigma em tempos associado ao canhotismo, deslumbrava os amigos com relatos do clã Kerr, guerreiros escoceses exímios no manejo da espada com a mão esquerda, que construíram nos seus castelos escadas de caracol em que os degraus torneiam o eixo central com a orientação adequada a que um canhoto ganhasse vantagem nas espadadas contra os inimigos (em regra, dextros) que tentassem subir, e a presença de qualquer animal de estimação servia-lhe de pretexto para explicar que, ao nível da espécie, apenas o homem e o papagaio mostram um desequilíbrio claro na proporção de dextros e canhotos, com predomínio daqueles no homem e destes nas aves que falam. Julião sabia isto e muito mais, mas no fundo desprezava a cultura do facto deslumbrante e desgarrado. Sempre que não resistia à tentação de encantar os amigos com a sua canhotologia, Julião ressacava na cama, ainda acordado, para ser depois visitado em sonhos por um papagaio de peito viril e kilt escocês em pandã com as penas verdes, que o arranhava na cara enquanto recitava o início do Gettysburg Address, num timbre desagradável e sempre a mesma coreografia: "Four score and seven years ago [arranhadela com a pata esquerda] our fathers brought forth [arranhadela], upon this continent [arranhadela dupla], a new nation, conceived in liberty, [arranhadela] and dedicated to the proposition that "all men are created equal".

 

Continua

 

 



Eremita às 09:58
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Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2017
Quarta-feira, 08 de Fevereiro, 2017

Evitem psicólogos, psiquiatras e amantes com ambições literárias.*

 

* Não inclui a ambição de publicar uma graphic novel



Eremita às 11:24
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Quarta-feira, 08 de Fevereiro, 2017

 

No meu trabalho de tradutor de segunda categoria (sou um nègre de cientistas brasileiros explorado por uma empresa norte-americana) uso uma Computer Assisted Tool, ou seja, o texto é vertido na língua de chegada por um programa informático e o que depois faço é corrigir a máquina. Há uns dias, a máquina interpretou "Verão temperado" como "Summer clavier", o que só pode ter sido um acto de sedução. Senti-me tentado a deixar passar, o que teria sido um acto de revolta. Curiosamente, não conheço melhor música para aumentar a produtividade do que O Cravo Bem Temperado



Eremita às 10:06
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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2017
Terça-feira, 07 de Fevereiro, 2017

Por pressão ideológica, o Parlamento mostrou-se incapaz de aproveitar o desejado avanço nos direitos procriativos das mulheres para corrigir a aberração que é negar a crianças geradas com recurso a bancos de gâmetas o direito a conhecer a identidade dos progenitores biológicos. A ideologia que sustenta esta violação ululante do direito de personalidade diz-nos que a parentalidade é uma construção social. Mas a contradição salta à vista: se a parentalidade é uma construção social, então os pais de verdade não deveriam sentir-se ameaçados pela possibilidade de o filho que educam querer conhecer a sua ascendência biológica, nem precisariam de uma mentira caucionada pelo Estado e o negócio da procriação: a de que os seus filhos surgem por geração espontânea, sem ascendência. Naturalmente, um projecto ideológico bem gizado prevê formas de apaziguar as consciências, pelo que andamos há décadas a ser convencidos  de que é por se atender ao superior interesse da criança que se exclui o progenitor biológico da sua existência, mesmo que a criança, ainda criança, jovem ou já adulto expresse o desejo de o conhecer.

 

Causa surpresa. A criança não estranha pais homossexuais; são inúmeros os estudos que o provam. Aparentemente, só não se adaptará à coexistência de pais verdadeiros e pais biológicos. Mas porquê? Onde está o Q.E.D? Será que o estudo empírico desta questão não é do interesse dos pais verdadeiros (receosos de uma variável a mais nas suas vidas), nem do Estado e das clínicas de fertilidade (receosos da escassez de dadores de gâmetas voluntários)? Alguém duvida da existência de famílias homossexuais que optaram por não negar aos seus filhos o direito a conhecer os progenitores biológicos, que poderiam ser objecto de estudo? Alguém acredita que a reinvenção dos modelos de família com apoio do Estado atingiu a perfeição, assente numa mentira? Duvido. Como em quase tudo, é só uma questão de tempo - provavelmente uma geração ou menos - até se corrigir a lei sem comprometer o muito que entretanto se avançou. Do que precisaremos é de outros protagonistas, gente de um pós-feminismo, porque quem fez a luta dos direitos reprodutivos das mulheres deslumbrou-se com as conquistas recentes e não é sequer sensível ao problema que levanto. 



Eremita às 10:22
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Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2017
Segunda-feira, 06 de Fevereiro, 2017

Tenho um carinho de tipo corporativo por académicos em que é grande o desajuste entre a tese e o exemplo apresentado para a sustentar. Se há toda uma literatura que pode ser explicada pela ansiedade da influência, isto é, a ideia (cristalizada por Harold Bloom) de que cada escritor sente o peso dos escritores que o precederam, existe também uma literatura que se explica pela influência da ansiedade. Que esta brincadeira com as palavras não nos distraia: percebe-se que o autor está mais refém da sua ansiedade de partilhar ideias que o habitam (influência da ansiedade) do que da reputação de autores passados (ansiedade da influência) quando recorre à actualidade para as catapultar o mais longe possível, falhando de modo absurdo, como quem arma a catapulta com um fardo de algodão.

 

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O caso mais recente, que roça o paroxismo, é o de uma crítica de José Miguel Pinto dos Santos a Silêncio, o último filme de Martin Scorcese, no cada vez mais incontornável Observador. Para não complicar a discussão, aceitemos que vivemos num tempo novo, marcado pela "pós-verdade", ainda que a propaganda e a mitificação actuais não sejam novidade (pensemos no amor cego dos intelectuais do Ocidente pela União Soviética). Ora, a "pós-verdade" é a catapulta de Pinto dos Santos. O que há de extraordinário no artigo é o autor interpretar o acto de ficcionar parte de um episódio histórico como um sinal de que a "grande falha civilizacional hoje é epistemológica". Qual foi o crime de Scorcese e de (creio) Shūsaku Endō, que escreveu o romance em que se baseia o filme? Escreve Pinto dos Santos:

"... é lamentável que (...) [se tente] sub-repticiamente passar por realidade o que não passa de ficção usando uma técnica ardilosa: juntando a um [sic] personagem histórico de carne e osso duas figuras fantasiosas de padres que nunca existiram. O autor poderia ter escrito a mesma estória sem lá ter posto o personagem histórico Cristóvão Ferreira e a novela seria só novela; também poderia ter feito um relato fatual, com o [sic] personagem histórico Cristóvão Ferreira acompanhado de outros personagens históricos, como Chiara ou Cassola, e teria então escrito História. Mas escolheu misturar tudo."

Parece, então, que misturar factos e ficção é um pecado e um pecado do nosso tempo, o que nos levaria a concluir que o relato de Fernão Mendes Pinto, só para não sairmos do Japão, onde decorre a acção de Silêncio, é absolutamente fiel aos factos ou então pura ficção. Enfim, a opinião de Pinto dos Santos só pode mesmo ser explicada pelo fenómeno da influência da ansiedade. Enquanto a ansiedade da influência é um fenómeno global, a influência da ansiedade caracteriza sobretudo culturas periféricas pouco habituadas aos holofotes. Tendo antes escrito um artigo de História algo obscuro sobre os Jesuítas no Japão do século XVII, que aproveitou - e bem - para divulgar no seu texto no Observador, seria injusto e primário ver na ansiedade de Pinto dos Santos um desejo de protagonismo. O que a sua ansiedade denuncia é um desejo de recuperar aquilo que ele julgava pertencer-lhe por mais ninguém o reclamar, como se o usucapião também se aplicasse às ideias. Desta vez foi Pinto dos Santos, mas qualquer académico honesto vos diria que calha a todos. 

 

 

 



Eremita às 09:14
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Domingo, 5 de Fevereiro de 2017
Domingo, 05 de Fevereiro, 2017

[Amadurecimento em curso]

Reuni de emergência com o Judeu (in loco) e Fausto (por videoconferência).

 

A situação interna é precária. Esgotado o programa da Geringonça, há o risco de o tacticismo de circunstância prevalecer sobre uma estratégia para a legislatura. Não podemos ficar indiferentes.

 

A situação internacional deteriorou-se. A Europa não sabe lidar com o isolacionismo de Trump. E se Marine Le Pen ganhar as presidenciais francesas, deixará de haver União Europeia, qualquer que seja o resultado das eleições na Alemanha. Precisamos de agir. 

 

Vim para Ourique em 2008, retirando-me do mundo. Em 2008, o mundo começou a funcionar mal. Coincidence? Creio que sim, mas até a coincidência pode ser galvanizadora. Não posso mais aconchegar-me no niilismo escapista que tem sido este blog

 

Distribuímos pelouros. O Judeu fica com a ciência, a tecnologia, a educação, o nature versus nurture e o conflito israelo-palestiniano. Fausto ocupar-se-á da política autárquica e da viabilização económica do Cotovio, a nossa propriedade, tendo imposto como condição ir publicando a sua poesia no Ouriquense (cedi, porque sou um cidadão do mundo). A literatura em prosa, o metabloguismo, a marcação colunista-a-colunista, todas as séries que têm feito o Ouriquense e as relações internacionais, nomeadamente com a Região Autónoma da Madeira e o Japão, serão as minhas tarefas.  

 

Por Portugal. Contra Trump. Por Ourique. Por uma suinicultura sustentável, com consciência social e recursos intelectuais para rebater Peter Singer.  Pela memória de Vitor Silva Tavares. Pelas minhas filhas. Pelas filhos dos outros. Até pelos filhos dos colunistas do Observador.  

 



Eremita às 10:03
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Domingo, 05 de Fevereiro, 2017

 

 



Eremita às 00:06
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Sábado, 4 de Fevereiro de 2017
Sábado, 04 de Fevereiro, 2017

Até ontem, a interacção física mais polémica que tinha tido com as minhas filhas era o já clássico beijo na boca, uma prática que conto abandonar quando elas começarem a formar memórias para a vida, o que me parece ser uma solução de compromisso sensata. Mas ontem uma das gémeas (não digo nomes) colocou o dedo dela na minha boca. Até aqui, nenhuma novidade. O problema foi a seguir ter colocado o mesmo dedo na boca dela, com um timing em nada distinto do que dois amantes fazem na cama. 


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Eremita às 13:00
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Sábado, 04 de Fevereiro, 2017

Vivi seis anos em Nova Iorque, nos primeiros dois anos como bolseiro português e depois a pagar os impostos que financiaram a Operation Iraqi Freedom. Em parte por causa dessa guerra, comecei a escrever nos blogs no desaparecido Blogue de Esquerda (como convidado) e depois num blog individual, o A Memória Inventada, que encerrei no princípio de 2008, pouco depois de regressar a Portugal. O meu convívio em Nova Iorque foi sobretudo cosmopolita, isto é, entre expatriados, incluindo muitos portugueses, europeus, indianos e sul-americanos. Devo ter conhecido bem cerca de uma dezena de norte-americanos, incluindo duas namoradas e sem contar com Joe, um dos porteiros do meu prédio e pothead desde os anos 70, com quem tive inúmeras conversas de circunstância. Em seis jantares de Thanksgiving, só um foi passado num lar norte-americano, o que dá uma medida da minha falta de imersão na cultura norte-americana WASP (os brancos, anglo-saxões e protestantes). Naturalmente, creio ainda assim ter absorvido por difusão passiva parte da mundivivência de um norte-americano, que é profundamente diferente da do português no modo como se relaciona com o trabalho, o Estado e a democracia representativa. Mas jamais utilizei ou utilizarei os meus anos de vida em Nova Iorque como argumento de autoridade para escrever sobre os EUA, com excepção que passo a concretizar. Apesar de Pacheco Pereira, um cronista muitos furos acima da média, também o que se escreve sobre Trump começa a ser dominado pelo fenomenal João Miguel Tavares, o caso de sucesso mediático mais intrigante dos últimos anos, pelo que a seguinte recomendação me pareceu pertinente: se querem acompanhar e perceber a política norte-americana, ouçam todas as sextas o The Political Gabfest



Eremita às 12:15
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Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2017
Sexta-feira, 03 de Fevereiro, 2017

1. Na RTP3, Miguel Vale de Almeida e Pedro Norton discutem a precariedade laboral. Mas quando um homossexual bonito fala com um heterossexual bonito, parece que falam sempre sobre outra coisa, como se interpretassem uma expectativa tacitamente frustrada. 

 

2. O canal Baby TV parece acreditar na ideia de que pôr bebés a escutar Mozart fará sobredotados e, como quem escolhe música pelo título, passa a Eine Kleine Nachtmusik. Felizmente, a Baby TV também tem a Big Bugs Band, uma animação inspirada no desenho, música e movimento. Só é pena desenhador ter feito uma aranha com três pares de patas. Milhões de bebés andam a ser enganados diariamente, é toda uma geração a lavrar no erro antes mesmo de falar. As consequências antecipam-se catastróficas.

 

3. No Expresso da Meia Noite, Bernardo Ferrão continua a parecer um estagiário à experiência. Pelo contrário, Jaime Nogueira Pinto continua a falar com a pose de senador que dispensa senado. No fundo, é tudo uma questão de atitude.  



Eremita às 23:05
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Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2017
Quinta-feira, 02 de Fevereiro, 2017

Comprei a 3ª edição (primeira edição das Quasi), de 2007; a primeira edição é de 1942 (o livrinho verde). Considerado o único romance do surrealismo lusitano e até uma obra-prima, foi desprezado por Mário Cesariny e Pedro Oom, que caracterizaram o "Surrealismo minhoto" de António Pedro como uma  "pacoviada" [1]. O prefácio do autor e a dedicatória a Aquilino Ribeiro estão cheias de maneirismos, mas a leitura do primeiro capítulo foi a primeira experiência de leitor gratificante em 2017. É bem possível que uma escrita económica de enorme poder imagético seja o veículo ideal para o absurdo. 

 

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PS: Esta entrada foi escrita com os os pés ontem à noite e corrigida hoje de manhã. Na verdade, este é um padrão recorrente no Ouriquense.

 

 

 

 



Eremita às 22:35
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