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Ouriquense

27
Out17

Do jornalismo intriguista

Eremita

É visível a excitação de David Dinis com o fim do bom entendimento entre Marcelo e Costa. Quanto a Paulo Baldaia, parece não perceber que a fábula da rã e do escorpião não se aplica, a menos que lhe alteremos o final, porque com o seu índice de popularidade, neste momento Marcelo pode dar as ferroadas que entender. O sapo morreria e o escorpião chegaria à outra margem no topo de um cadáver que flutua. [Adenda às 13:11] Naturalmente, o membro mais inteligente do Governo apressou-se a desvalorizar os desabafos dos deputados do PS. 

25
Out17

Santana's way

Eremita

Santana Lopes, na TVI, acabou de usar a expressão "postulado triplo". Depois, salvo erro, não chegou a explicar o terceiro postulado, mas é um detalhe irrelevante. Não estaria condenado a morrer em Ourique se, nos momentos definidores da minha vida, tivesse invocado um postulado triplo. Até arrisco dizer que "postulado duplo" já teria feito diferença.  

25
Out17

César de Oliveira

Eremita

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Salvo erro, apenas a imprensa regional lembra que Tiago Martins Oliveira, o homem que estará à frente da Estrutura de Missão para a Instalação do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais, é filho de César de Oliveira, um historiador e político com ligações ao PS, falecido prematuramente em 1998. É um facto relevante? Nem por isso, pois há décadas que oiço falar do interesse de Tiago Oliveira pelo problema dos fogos e o seu currículo basta para calar os mais críticos. A única questão é saber por que motivo as redacções de direita não transformaram esta nomeação numa oportunidade para continuar a pontuar no seu surf sobre a onda de indignação. Terá sido por haver verdadeiros casos de amiguismo na governação de Costa ou será que são hoje raros os jornalistas que se lembram de César de Oliveira, sobretudo depois de excluirmos os que confundem o historiador com um seu homónimo ligado ao teatro e à RTP?

25
Out17

Poesia involuntária

Eremita

Com as primeiras chuvas, surgem os acidentes de viação e aumenta a oferta de corações saudáveis.

Manuel Carrageta,

Presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia (lido pela primeira vez aqui)

 

O Embaixador Seixas da Costa considerou que houve falta de "sensibilidade e bom senso" nas declarações de Manuel Carrageta, mas esta frase, ainda que forjada por uma deformação profissional que faz com que um homem lembre o lado bom da sinistralidade nas estradas, é notável pela crueza, a singular associação das condições climatéricas à disponibilidade de um órgão de simbolismo tão grande e, sobretudo, a proeza de transmitir ideias batidas, como a oposição entre vida e morte e o ditado "a sorte de uns é o azar de outros", de um modo inovador, que compensa largamente a insensibilidade do Presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia. Não é sequer uma frase imprópria para cardíacos

25
Out17

Dois omniscientes conversam

Eremita

Actualidades

Entre os omniscientes, já ninguém duvida do impacto do caso Harvey Weinstein no comportamento dos homens. Eles referem-se, naturalmente, ao comportamento fino, a detalhes mais sob o controlo do inconsciente do que de uma razão alerta. São coisas que escapam à imprensa, mas em que os omniscientes reparam, pois o seu acesso à big data precede a invenção da big data propriamente dita. As bestas capazes de fazer valer o seu poder para obter satisfação sexual a qualquer custo estão a mudar de comportamento, claro. Mas não mudam o comportamento fino, são frios e pragmáticos. O quarto de hotel transferiu-se para geografias exóticas, de modo a que eles continuem a fazer o que sempre fizeram e farão; os arranjos preparatórios soam agora mais dúbios e subtis, sendo levados a cabo por terceiras, quartas, quintas figuras, segundo esquemas tão complicados como os da lavagem do dinheiro, para que nem uma escuta secreta faça prova; os acordos de confidencialidade tornam-se mais blindados; há hoje cláusulas que nunca serão escritas: ameaças de morte, alusões ao ácido sulfúrico, eu sei lá - mas eles sabem, sabem tudo. A devido tempo, tudo isto será conhecido. Por isso, entre os omniscientes ninguém sente a angústia de não poder passar estas informações para a imprensa, uma quebra nas regras do jogo castigada com a perda da omnisciência. Resta-lhes a análise do comportamento fino. São estranhas as suas conversas. 

 

Entre dois omniscientes, não há segredos, nem informação privilegiada, nenhuma obsessão com a verdade e a mentira. Os omniscientes não se surpreendem com nada e, sendo certo que conhecem a curiosidade, não a praticam. Diferem nas opiniões, e por isso conversam, mas um inteira-se daquilo que o outro lhe conta uma ínfima fracção de segundo antes de o ouvir, como se a realidade fosse já um eco do seu saber. Não é fácil explicar isto. Talvez assim: o leitor pega em dois fantoches e faz as falas de ambos (esta parte é fácil). Agora, com o diálogo a correr, imagina-se como um dos bonecos, mas sem deixar de ser quem é (esta parte é mais difícil). Mesmo que o exercício falhe, devemos aceitar, sem grande indignação, que estes homens, sabendo tudo, falem de pequenos nadas, factos tão imperceptíveis e irrelevantes para nós como, desde o caso Weistein, a diminuição progressiva da distância entre o local em que se encontra um homem segundo o que diz pelo telemóvel à namorada e a sua localização verdadeira, o aumento brutal da variância do tempo médio entre o momento em que o homem pensa em saudar a colega com um beijo e o concretiza, a improbabilidade crescente de, ao abrir uma porta no local de trabalho, se encontrar apenas um homem e uma mulher, a queda abrupta nos sms com que o homem anuncia à sua mulher a concretização de uma tarefa de âmbito doméstico ou familiar cuja conclusão só ocorre poucos segundos ou minutos depois do envio da mensagem, entre outras manifestações de uma consciência masculina em transformação. 

 

 

24
Out17

Da recusa da matéria-prima

Eremita

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in Maus, Art Spiegelman

Penso em Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, de Gonçalo M. Tavares, em Os loucos da rua Mazur, de João Pinto Coelho (que, em rigor não é sobre a Shoah, mas lida com perseguições a judeus na Segunda Grande Guerra Mundial), em Os Olhos de Himmler, de Rui Nunes. Sinto diante destes livros um grande desconforto, como se realmente pensasse que se o escritor não sofreu como Primo Levi, deve ficar calado, a menos que laços de sangue o habilitem a escrever sobre uma experiência terrível que não viveu na pele. Restrição e racialização da imaginação, é isso, Eremita? Será que, pelo menos, esta aliteração horrenda que te obriga a um esforço de superação? Hesitas sobre se um gói pode ficcionar o sofrimento dos judeus, um branco as catanadas no Ruanda, um homem a violação de uma mulher, Eremita? Haverá para ti alguma saída airosa? Thought experiment: num mundo exaurido de recursos naturais, todo o mármore existe na forma de obra de arte, excepto um bloco. A quem deve ser dada a honra de o esculpir? 

 

Continua. Espero. Noites difíceis. Bebés aos berros. Alguma embriaguez de cansaço. Pensamentos originais, excitação intelectual. A investigar: eventual correlação positiva entre a tortura do sono e a produção artístico-científica. 

22
Out17

A braços com um problema?

Eremita

 

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João Porfírio, Observador

 

Em certos círculos urbanos e laicos, os abraços ternos de Marcelo parecem irritar e até escandalizar mais do que os apalpões não consentidos de Donald Trump. Na mente do conspiracionista que só descobre inteligência no cinismo, os abraços do Presidente são os de um altruísta por calculismo, enquanto Trump apalpa porque é uma besta, sim, mas uma besta genuína. O conspiracionista cínico, em regra uma criatura pouco social, não consegue conceber como natural a empatia de Marcelo. Ora, tal como a lascívia não se finge, por impossibilidade fisiológica, também ninguém consegue ser tão empático com tanta gente durante tanto tempo se o sentimento não for natural. Podemos acrescentar que a empatia Marcelo é potenciada pelo seu catolicismo, o cargo que ocupa e até mais por um faro político do que pelo sentido de Estado que estava a faltar ao país no princípio da semana. Mas que ninguém duvide da sua empatia. Por fim, devemos lembrar que o maquiavelismo não se esgota na máxima de que é muito mais seguro o príncipe ser temido do que amado. 

18
Out17

Demissão, por favor

Eremita

10 mortos and counting... A ministra está desacreditada, sem autoridade para implementar mudanças e provavelmente sem cabeça. A sua demissão não é um gesto "sacrificial", é a única medida a tomar depois da publicação do relatório da Comissão Técnica Independente que analisou o que se passou em Pedrógão Grande a 17 de Junho e da tragédia de ontem. A casmurrice de Costa ainda lhe pode sair cara. 

Adenda I: 27 mortos e 51 feridos. Meses depois de Pedrógão Grande, o que está a acontecer é uma vergonha. 

Adenda II: 31 mortos. "As comunidades têm de se tornar mais resilientes", diz a nossa ministra. Isto significa exactamente o quê? Que devem superar rapidamente a perda dos seus entes queridos?  "Para mim seria mais fácil, pessoalmente, ir-me embora e ter as férias que não tive, mas agora não é altura de demissões", diz a nossa Ministra. Por favor, desapareça. 

Adenda III: 35 mortos. Se a estes somarmos os de Pedrógão Grande, são 100 mortos. 

Adenda IV: 36 mortos, 63 feridos e 7 desaparecidos. O Primeiro-ministro defende que "não é tempo de demissões", mas sim de "soluções". Eis um bom exemplo de uma falsa dicotomia. 

Adenda V (a 17.10.17): 37 mortos, 71 feridos e uma pessoa desaparecida. Vozes que não escrevem no Observador e pedem a demissão da Ministra: Nicolau Santos, Francisco AssisPedro Tadeu, João Pedro Henriques ... Só podem ser misóginos, está visto. Naturalmente, o embaixador Seixas da Costa contemporiza. Entretanto juntei a famosa bandeira invertida, que na simbologia militar é um pedido de socorro.

Adenda VI (a 17.10.17): 41 mortos. Marcelo fala às 20:30. 

Adenda VII (a 17.10.17): Marcelo Rebelo de Sousa não podia ter sido mais claro na sua comunicação. A Ministra tem de sair.

Adenda VIII (a 17.10.17):

Quem escreveu o discurso de Marcelo? O historiador António Araújo? Pedro Mexia? O próprio Marcelo? Aaron Sorkin? Nunca saberemos. Mas sabemos que Valupi, como outros zeladores do PS, sentiu necessidade de nos dar um banho de cinismo e pequena política e que Pedro Santos Guerreiro amuou, por se ver reduzido à sua condição de mero mestre do trocadilho. São sinais reveladores da excepcionalidade deste discurso. A figura de estilo mais difícil de manejar é a anáfora, mas Marcelo usou-a sem cair no ridículo, num crescendo controlado e teatralidade q.b. "Pode e deve" soou sempre justo. Ainda mais notável, mais notável até do que ter assumido um peso na consciência, foi Marcelo ter dito a palavra "colmeias". Creio que nenhum presidente disse "colmeias" numa comunicação ao País e nenhum outro se atreverá.

Nunca um Presidente encarnou tão bem as funções de representação. Foi uma encenação? Foi uma interpretação? Claro que foi. Mas faz parte do que se espera de um líder nestas alturas. Ninguém acredita que Marcelo ande a acordar de noite por causa de um pesadelo recorrente em que é perseguido por fantasmas de Pedrógão Grande, mas só por ingenuidade se fará uma interpretação literal do peso na consciência que o Presidente assumiu. Ontem o Estado foi Marcelo, devido a duas tragédias vergonhosas e à inépcia de António Costa. Estas circunstâncias dificilmente se repetirão e este será o discurso da(s) presidência(s) de Marcelo - os historiadores podem começar o seu trabalho. O discurso de Marcelo atenua uma das maiores vergonhas da nossa democracia, que é a ausência de uma frase ou passagem em discursos oficiais que resista à triagem do tempo. As nossas consciências estão ainda dominadas por aquele inconfundível frémito de Santa Coba Dão que deu voz a frases insuportavelmente memoráveis, como o insidioso  "Não discutimos a Pátria e a sua História...". Marcelo provou que um bom discurso em Portugal e em português é compatível com a democracia, que não estamos condenados a uma formalidade estéril e aborrecida, nem a buscar arrebatamento às escondidas nos discursos das peças de Shakespeare que estão no Youtube. Tentou-se de tudo para resolver este problema, inclusive o outsourcing de eloquência e autoridade que acontece a 10 de Junho, quando são figuras de relevo da sociedade civil que ficam incumbidas de falar à nação. Mas Sobrinho Simões, Alçada Baptista e outros nada conseguiram. Sendo Portugal uma nação sem relevância histórica, são raríssimos os momentos em que um discurso pode "ecoar na eternidade". É um pouco paradoxal que seja Marcelo, ainda há poucos anos reconhecido sobretudo pelo seu maquiavelismo, a quebrar esta péssima tradição dos discursos sem chama. Seria até um pouco divertido, se este fosse um tempo para graças. 

 

Adenda IX (a 17.10.17) Constança Urbano de Sousa demitiu-se. Soube-se agora que a ministra pediu a demissão logo após a tragédia de Pedrógão Grande e que apenas permaneceu no cargo a pedido de António Costa. Este dado atenua substancialmente a má imagem da ministra e eu reconheço não ter pensado neste cenário, provavelmente por ter cedido à tentação de me julgar moralmente superior a todos os responsáveis políticos por estes tristes eventos. Enfim, está reposta a normalidade no Ouriquense e retomamos de imediato a nossa missão. Pelo Baixo-Alentejo, o montado, o porco preto e a guitarra clássica. 

 

Adenda X (a 20-10-17): Se me permite, não se trata de uma "espécie miúda de vingança tresloucada", mas de estabelecer prioridades. A reputação das instituições é mais importante do que a reputação de quem por elas passa. A demissão era necessária para regenerar a confiança e a autoridade, mas não é suficiente. De resto, não me deu especial gozo assistir à demissão da ministra, foi sobretudo um alívio, ainda que um "alívio alheio".  

 

 

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