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Ouriquense

12
Jun17

O discurso de Sobrinho Simões

Eremita

Com a curiosidade espicaçada pelos elogios a Manuel Sobrinho Simões (MSS) no Bloco Central, fui ouvir o seu discurso do 10 de Junho. Esta é uma pulsão inusitada, pois não costumo ligar a discursos protocolares. Mas a MSS darei sempre o benefício da dúvida, em parte por ainda sentir um entusiasmo corporativo, apesar de ter abdicado da ciência há quase 10 anos, e também por ter assistido a algumas das suas aulas e percebido que se trata de um ser excepcional, pela inteligência e empatia.

 

O seu principal mérito, além da postura relaxada, foi a ousadia. Mesmo tendo em conta a enorme predisposição natural para nos embevecermos com os elogios ao novo povo, falar na genética dos Portugueses no "dia da raça", para usar a expressão do Estado Novo, é um desastre anunciado que só um homem com o charme de MSS seria capaz de evitar. A sua estratégia assentou em duas ideias. Apresentou primeiro, como testemunho das nossas migrações, a distribuição geográfica mundial de alelos (versões de genes) de cunho lusitano associados à paramiloidose, à doença de Machado-Joseph e ao cancro da mama; embora haja um toque de deformação profissional neste entusiasmo algo desconcertante pela geografia da enfermidade, ao grande patologista tudo se perdoa. Depois, MSS referiu-se à diversidade genética do genoma dos Portugueses como prova da nossa abertura ao mundo, o que soou a paráfrase da ideia de que o português inventou o mestiço. Ora, como símbolo de uma sociedade inclusiva e um povo tolerante, o genoma multiétnico do lusitano é uma ideia simpática apenas à superfície e no limite branqueadora das "limpezas de sangue" que fomos fazendo. De resto, "a reduzida percentagem de mulheres na emigração portuguesa" por comparação com a emigração para os EUA, explica mestiçagem, o que é uma visão desancantada. É verdade que nunca MSS reduziu o povo à sua genética e sempre a mencionou para referir que somos todos parentes uns dos outros, mas se a nossa sociedade fosse mais instruída e realmente inclusiva, tendo as minorias étnicas voz e poder, o elogio não teria sido tão consensual. 

  

 

11
Jun17

A morte do escritor

Eremita

Na semana passada, a morte do poeta Armando Silva Carvalho coincidiu com uma jornada excursionista de jornalistas da imprensa, da rádio e da televisão, promovida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, à aldeia de Estevais, para apresentação de um livro sobre Trás-os-Montes, de José Rentes de Carvalho. (...) Comparada com a generosidade jornalística a que esta excursão étnico-literária teve direito, a morte de um dos nossos grandes poetas contemporâneos teve uma repercussão escassa, demasiadamente escassa. (...) Esta comparação subentende uma queixa, mas devo dizer que só a formulei para dizer a seguir que é uma queixa sem razão. E baseio-me nas palavras sábias de um grande poeta e ensaísta alemão, Hans Magnus Enzensberger, que escreveu em 1988 um artigo que se chama O grau zero dos media ou porque é que todas as queixas contra a televisão são sem objecto. São sem objecto, escreveu Enzensberger, porque consistem em criticar a televisão em função do que ela não é, como se não estivesse a cumprir a sua missão. (...) Que direito temos nós de lhe atribuir uma tarefa que não está no horizonte das suas promessas? Fazer dos media o alvo de todas as críticas, a propósito de matérias das quais eles se alhearam há muito, é errar o alvo e uma perda de tempo. António Guerreiro, Público

Com alguma periodicidade, António Guerreiro oferece-nos crónicas de pendor algo niilista que valem como exercício de estilo. Pressente-se que Guerreiro não acredita verdadeiramente nas "palavras sábias" do ensaísta mencionado. A crítica pressupõe uma ideia (um modelo) daquilo que o objecto que se critica deveria ser, o que coloca vários problemas ao crítico, da irredutível subjectividade à incapacidade de reparar nos raríssimos casos em que o objecto reinventa o modelo, mas recusar uma idealização seria abdicar da crítica. Sem perder muito tempo com a comparação a José Rentes de Carvalho, um escritor que Guerreiro parece desprezar, a pergunta que fica é: a morte de Armando Silva de Carvalho teve uma repercussão escassa? Qual o termo de comparação? A morte de Mário Soares? A de algum outro poeta - estamos todos a pensar no mesmo - recentemente desaparecido? Ou resultará a expectativa de Guerreiro do pressuposto de que, entre todas as vocações que deixam legado para o grande público, é o escritor quem mais namora em vida a imortalidade, pelo que o momento da sua morte é crucial para se avaliar da intemporalidade da obra? Não sabemos, mas é raro ouvir-se o lamento pela repercussão escassa da morte de um cientista, jurista, político, etc. Não há nada mais habitual do que morrer no esquecimento, mas no caso do escritor dá direito a notícia, lamento e até indignação. Se alguém tiver dúvidas, recomendo a leitura de Pensar, do Vergílio Ferreira que pressentia já a chegada da morte. 

 

Que repercussão nos media teve a morte de Armando Silva Carvalho? Os artigos mais longos foram os do Público, (reproduzido pela Assírio e Alvim) e do "i",  que publicou um testemunho de José Manuel Vasconcelos. Houve artigos mais curtos no DN (reproduzido pelo Centro Nacional de Cultura) e na revista Sábado, bem como várias notas publicadas na imprensa ou nas páginas de instituições, a saber: a Associação de Professores de Português, o Avante!, o Círculo da Inovação, o DGLAB, o Diário de Leiria, o DGLAB, o e-Global, o Esquerda.net, o Expresso, o Instituto Camões, o Jornal da Caldas, o Jornal do Luxemburgo, o Jornal de Mafra, a Lux, o Net Madeira, o Notícias ao Minuto, o Óbidos Diário, o Observador, a Rádio Cruzeiro, a Rádio Renascença, o Redator, o Tomar TV e uma referência en passant no Macau Hoje. Houve também comunicados: da Presidência da República, do Ministro da Cultura e da APE. Os blogs que reagiram com textos originais, citações dos artigos de imprensa ou publicação de poemas do poeta foram: ArposeAté ao FimAntologia do EsquecimentoO Bicho das LetrasCompanhia de Insegurosblog de Luís Soares, Da LiteraturaLvsiosO Melhor AmigoModo de Usar & co.No País da MagiaOlá BibliotecaProsimetronQue Fazer Desta SebentaRuas com HistóriaSomos LivrosA Viagem dos Argonautas e Voar Fora da Asa. Não frequento as redes sociais para poder ser mais exaustivo neste levantamento. É pouco? É justo? Armando Silva Carvalho merecia manchetes e abertura nos telejornais? Um Ípsilon especial inteiramente dedicado à sua obra? 

 

Portugal tem mais astrólogos do que astrónomos* e poetas do que leitores de poesia. Qual a dimensão da comunidade de verdadeiros leitores de poesia em Portugal? 5 mil? Não chegará seguramente aos 50 mil. Que importância social tem hoje a poesia? Contra mim falo, pois não o suporto, mas que outro poeta depois de Manuel Alegre marcou uma geração? Que poemas escritos depois de Cântico Negro, de José Régio, sem a boleia de uma canção, se declamam por aí de cor nas noites de boémia? Alguém duvida que, daqui a 200 anos, do século XX sobrarão Fernando Pessoa e talvez Herberto Helder, sendo todos os outros hoje tidos por relevantes remetidos para antologias colectivas, trabalhos de académicos, os alfarrabistas do futuro e as bibliotecas de meia dúzia de literatos enciclopédicos?

 

Nada tenho contra Armando Silva Carvalho, antes pelo contrário; li com enorme prazer e fascínio o livro (de prosa epistolar) que escreveu a meias com Maria Velho da Costa. Mas hoje, quando morre um escritor, impõem-me um peso na consciência que me leva a querer adquirir a obra completa do defunto. Esta mania de que estamos permanentemente em falta com os nossos escritores, alimentada por afinidades electivas e matreirices de livreiro, tem de acabar. Não há literalmente tempo para tanta dar atenção a tanta gente, entre mortos, vivos e obras que alguém se lembra de ressuscitar. Nem tempo, nem dinheiro, nem ansiolíticos. 

 

A repercussão da morte do editor Vitor Silva Tavares foi escassa, pelo menos para mim. A repercussão mundial, em Espanha e em Portugal da morte de Paco de Lucia, um génio absoluto, foi escassíssima, pelo menos para mim. Mas o que significa isto? Apenas que a estima de quase todas as pessoas por estas duas criaturas excepcionais fica muito aquém da minha, o que é imensamente gratificante. 

 

* A autoria da fórmula "mais astrólogos do que astrónomos" é, salvo erro, de Carl Sagan.

 

 

09
Jun17

Boys will be boys

Eremita

Há uns dias, um rapaz que frequentava a mesma escola da mais velha da L. foi apanhado por um comboio. Parece que, a altas horas da madrugada, resolvera caminhar entre os carris de headphones nos ouvidos. Duvido que estivesse a apreciar a suave voz de João Gilberto quando o comboio o colheu. O álcool ou alguma outra droga terão contribuído para este comportamento, mas não ignoremos o óbvio: a morte estúpida, a morte violenta e a morte estúpida e violenta são coisas de homem - estatisticamente falando, claro. A natureza, precavendo-se contra a apetência dos meninos e rapazes para o risco, fez com que nasçam mais bebés do sexo masculino do que do sexo feminino, talvez uns 105 para 100, respectivamente, pois a teoria das estratégias evolutivas estáveis diz-nos que na idade reprodutiva devemos ter o mesmo número de fêmeas e machos*.

 

Nunca tinha pensado na queda para o risco como uma explicação para o meu velho desejo de ter filhas em vez de filhos, que justificava por ser o cenário que melhor contraria a tentação latente e trágica de ver a criança como um prolongamento no tempo da minha existência, um estafeta a quem se entrega um testemunho pesado de ansiedades e frustrações. Mas agora que elas existem, anima-me também o relativo alívio de saber que provavelmente não grafitarão em locais de difícil acesso, nem tirarão selfies à beira de precipícios, nem serão vítimas de uma facada ou tiro, a culminar uma qualquer escalada de orgulhos de peito feito ou até um acto de heroísmo. Mas isto não é para se dizer a uma mesa.

 

* Sendo incontestável que algumas sociedades exacerbam este viés pela prática do infanticídio de bebés do sexo feminino, o desequilíbrio começa por ser natural.

06
Jun17

As bebés na barragem

Eremita

É possível que a água enclausurada confine a imaginação, que só um horizonte com o mar a tocar no céu, em jeito de final aberto, nos leve a povoar o longínquo e as profundezas de monstros marinhos. Deixo a última palavra aos antropólogos estudiosos das tribos dos grandes lagos norte-americanos, que são água a perder de vista e um caso de estudo excelente para testar esta teoria, mas parece-me incontroverso que uma versão de As 20 000 Léguas Submarinas em água doce seria uma farsa. Apesar das piranhas que devoram um boi em minutos e da descarga eléctrica do poraquê, suficiente para deixar um cavalo inconsciente, apesar dos crocodilos, caimões, gaviais, aligatores e jacarés, representantes de um mundo antigo em que o planeta era povoados por criaturas assustadoras, há poucos monstros de água doce imaginários - parafraseando os Ornatos Violeta, o solitário monstro do lago Ness precisa de amigos. Talvez por isso não tivesse recusado logo a proposta da americana, mas pedindo ao surfista que nos acompanhasse. 

 

Com os anos, aprendi a confiar em Jaime, o único surfista vivo de Ourique. Quando o vi pela primeira vez, sentado na prancha a meio da barragem à espera de uma onda, senti-me logo seduzido pelo absurdo da cena. Apesar de nos conhecermos há já vários anos, por respeito e pudor nunca lhe perguntei o que o leva a fazer surf na barragem, estando as ondas atlânticas a uma hora de distância; o importante é haver um projecto de vida. Pedi-lhe que no dia seguinte entrasse com a prancha e vigiasse os gestos da americana. Eu fizera a pesquisa prévia, confirmando que a Infant Swimming Resource é mesmo uma instituição, mas causava-me ainda espécie que a americana tivesse insistido em realizar as sessões de treino na barragem, havendo em Ourique pelo menos uma piscina. E preocupava-me que, sob a camuflagem de programa de prevenção do afogamento de crianças, a americana fosse uma cristã evangélica que andasse pelo interior do país a baptizar por imersão completa as nossas crianças. Lê-se na carta que a americana insistiu que lêssemos, quando nos abordou no café:

 

"They asked, “Where’s Trevor?” and I looked beside me and said, “He was just here; he must have gone to find Brad,” but before I could finish the thought, I panicked and began to look toward the pool. I looked into the shallow end and saw nothing, and then I looked toward the deep end and could not believe my eyes. There was our sweet Birdie in the deep end next to a pair of sunglasses. He must have seen the sunglasses and reached for them—not understanding the depth of the water—no splash, no sound. How could this have happened?? He was just sitting right next to me!!!...It happens so fast. Please take pride in knowing that your child is going to benefit from over 45 years of research and knowledge that has been developed by Dr. Harvey Barnett. He has dedicated his life to creating this amazing program and saved so many children’s lives with his techniques."

 

Não percebi se era o seu relato, se a mãe do pequeno Birdie estava diante de nós, mas passei o resto do dia a sacudir imagens horrendas da cabeça com movimentos de pescoço bruscos; eram imagens estranhas, de uma estética e crueza incompatíveis, como se tiradas de um improvável filme dos irmãos Coen com argumento de David Foster Wallace e Chuck Palahniuk. Ao fim do dia já tínhamos usado o número que a americana nos deixara, confirmando o nosso interesse em formar as gémeas nas técnicas de prevenção do afogamento. De noite, falámos do espírito de missão de quem sofre uma tragédia, enquanto eu contava as notas de 20 euros para pagar à americana a primeira semana do curso. "We are getting closer to Not One More Child Drowns".

 

 

  

05
Jun17

Um cobarde ou talvez não

Eremita

[Publicado a 5.6.17; reformulado a 6.6.17]

 

Num Répliques recente (a partir do momento 9'23''), o intelectual Alain Finkielkraut mostrou-se surpreso por se ter descrito a tragédia de Manchester como um atentado "cobarde". Disse ele, fazendo lembrar um comentário de Bill Maher à coragem dos terroristas do 11 de Setembro, que morrer por uma causa não pode ser entendido como um gesto cobarde. Esta interpretação literal do epíteto "cobarde" é surpreendente num homem com a inteligência e cultura de Finkielkraut, pois parece-me óbvio que com a acusação de cobardia se pretende apenas frisar a extrema vulnerabilidade das vítimas deste atentado, muitas delas crianças e adolescentes. Ou talvez não surpreenda assim tanto, pois a acusação de cobardia tem uma carga negativa tão grande que até o veterano Finkelkraut, insuspeito de simpatias multiculturalistas e crítico de qualquer relativização esquerdista do terrorismo islamita, se sente incomodado quando acusam um terrorista de cobardia.

 

Obviamente, escrevo a pensar na polémica em torno do embaixador José Júlio Pereira Gomes, acusado de cobardia por Ana Gomes e Luciano Alvarez. É uma acusação tão penalizadora que todas as dúvidas devem ser esclarecidas. Para esse esclarecimento, as conclusões apressadas dos profissionais da indignação, prontos a queimar o diplomata, bem como os elogios genéricos feitos por amigos ou colegas, são irrelevantes. O que se pede é um relato rigoroso do que se passou em Timor há 18 anos e a divulgação dos documentos relevantes (passagens de diário não são prova de nada), pois o que entretanto é público não deixa ninguém esclarecido. E eu até sou o primeiro a reconhecer que o heroísmo do líder que põe em causa a segurança daqueles que dele dependem não é coisa nobre. Mas neste momento só queria mesmo saber o que aconteceu. 

"... não estando em causa o percurso profissional, falta a Pereira Gomes o perfil psicológico. (...) Tenho dúvidas de que o embaixador Pereira Gomes tenha capacidade para aguentar situações de grande pressão. Não inspira confiança e autoridade junto dos seus subordinados nos serviços de informações." Ana Gomes

Desde o primeiro contacto, Ian Martin insistiu em que deviam ser imediatamente evacuados, enquanto o embaixador Pereira Gomes, embora pressionado in loco, quis protelar a decisão de partir até ao último momento. Carlos Gaspar, Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI-UNL).

 

Comecemos pela “ordem expressa” do Governo para a saída. Dizia o PÚBLICO em manchete no dia 10 de Setembro de 1999: “Observadores portugueses saem de Díli contra a vontade de Lisboa.” Na notícia, escrita por mim ainda em Timor na madrugada do dia da evacuação, relato os muitos esforços feitos pelo Governo português junto de Pereira Gomes, nomeadamente de António Guterres, nas 48 horas anteriores, para que a missão ficasse pelo menos até à chegada dos homens do Conselho de Segurança da ONU. Relato ainda discussões entre Pereira Gomes e António Gamito e Francisco Alegre, o diplomata júnior da missão, que sempre insistiu e tudo fez para que a missão não abandonasse Timor.

 

Diz a notícia: “Ontem, com a iminente retirada da ONU, ao princípio da noite em Díli, a missão portuguesa decidiu abandonar o território. Francisco Alegre disponibilizou-se para ficar. Às 5 da manhã em Díli, pouco antes de se iniciar a retirada, o Ministério dos Negócios Estrangeiros voltou a insistir para que a missão ficasse. José Júlio Pereira Gomes argumentou contra a permanência, mas, perante a insistência do gabinete de Jaime Gama, acabou por dizer que havia um voluntário, precisamente Francisco Alegre. Francisco Alegre aceitou ficar, mas começou de imediato a ser acusado pelos seus colegas de missão de estar a dividir o grupo. Houve, nomeadamente, alguma chantagem emocional sobre Alegre, acusando-o de estar a pôr em causa a vida de pessoas. Às 5h45 de Díli, o Ministério dos Negócios Estrangeiros, em nome da unidade do grupo, aceitava que todos se retirassem. José Júlio Pereira Gomes justificava a partida considerando que a sua missão ‘terminou no dia em que foi divulgado o resultado do referendo’ e que ‘não estava a fazer nada em Timor-Leste porque estava sitiado na sede [da ONU].

(...)

Quanto ao resto (“timorenses – e seus familiares – que tinham trabalhado com a nossa missão de observação e connosco se tinham refugiado nas instalações da UNAMET foram evacuados [retirados] connosco e em virtude da nossa intervenção"), houve, de facto, na missão quem se preocupasse com eles, mas não foi nunca José Júlio Pereira Gomes. Nem no dia em que as casas dos observadores portugueses e a sede da missão foram atacadas, logo após a divulgação do resultado do referendo, nem nos dias em que esteve sitiado na missão da ONU... Luciano Alvarez, Público

 

Passámos a tarde debaixo de fogo e sob a ameaça iminente de uma invasão da casa pelas milícias. Dada a evidente falta de vontade do Governo indonésio para nos proteger e a completa incapacidade do Governo português em nos dar qualquer tipo de ajuda, o chefe da missão, depois de consultar Lisboa, conseguiu que a UNAMET assumisse o compromisso de nos receber na sua sede, um extenso edifício e terreno murado, onde havia cerca de uma centena de militares das Nações Unidas mais 100 funcionários civis. Foi para aí que nos dirigimos numa Díli já a arder e sob tiroteio, sendo recebidos à chegada por uma saraivada de tiros vindos da estrada próxima que fizeram várias vítimas entre os timorenses, muitos dos quais debandaram.

Ao longo dos dias seguintes, a cidade de Díli transformou-se num cemitério deserto e as dificuldades da UNAMET em conseguir aceder aos seus depósitos de comida e outras necessidades acentuaram-se ao ponto de se ter entrado em racionamento de água para beber. No dia 8 de Setembro, o chefe de missão da UNAMET comunicou à missão portuguesa que havia a possibilidade iminente de evacuar toda a gente para a Austrália, incluindo os timorenses, e que se não aproveitassem a boleia não haveria outra, nem haveria onde ficar, uma vez que a cidade de Díli estava a arder.

(...)

A escolha era, portanto, entre ficar em Díli sem ter onde e à mercê das milícias, ou aproveitar a evacuação do seu pessoal que a UNAMET ia levar a cabo. Compreende-se que o Governo de Lisboa tivesse preferido que alguém da missão portuguesa ficasse em Díli. Mas era evidente que a missão, enquanto tal, não poderia subsistir a uma evacuação da UNAMET.

Foi assim que o Governo português acabou por determinar a saída de toda a gente, a 10. A missão portuguesa foi evacuada juntamente com a UNAMET para Darwin, na Austrália, e levou consigo dezenas de timorenses do seu staff e respectivas famílias. Estes são os factos. Na minha opinião, não vejo que um chefe de missão responsável, que tinha a responsabilidade da segurança e vida de dezenas de pessoas, pudesse ter tomado outra decisão ou aconselhado Lisboa em sentido diferente. João Luís Mota de Campos, Público

 

A decisão sobre a evacuação da nossa missão foi complexa. Ponderaram-se diversos factores, entre os quais terão pesado, quer a situação no terreno tal como entendida pelo chefe e outros membros da missão, quer a constatação por quem de direito de que não haveria condições de segurança para a sua permanência, quer, como abaixo se verá, o destino dos timorenses ao serviço da nossa missão. Mas ao fim de um longo dia em que, com a preciosa ajuda do Francisco Ribeiro Menezes, estivemos em diálogo, por um lado com Jaime Gama, que se bem recordo estava inicialmente num Conselho da UE em Tamper, e por outro, não só com Pereira Gomes, como com diversos elementos da missão, para melhor avaliar o sentimento geral, transmitimos ao chefe da missão a autorização do Governo português para que deixasse Timor. Não é pois verdade que o tenha feito contrariando as instruções de Lisboa. Fernando d'Oliveira Neves, Público.

 

Sobre a primeira questão o próprio jornalista se contradiz ao dizer que “o Ministério dos Negócios Estrangeiros… aceitava que todos se retirassem”. Aquilo que digo no livro que publiquei e a que o jornalista chama mentira é a exacta verdade. Na madrugada do dia 10 de Setembro “recebo finalmente, cerca das 5 horas [da manhã], instruções. O Governo tinha decidido que devíamos sair”. Sim, aquilo que L. Alvarez, numa escolha criteriosa de palavras, refere como aceitar “que todos se retirassem” foram “instruções”, “ordem expressa” para sair. Ordem essa que foi decidida ao mais alto nível do Estado Português. 

(...)

Para que os timorenses, nossos funcionários, pudessem sair nesse dia foi necessário incluí-los numa lista e negociar a sua saída com a Indonésia e, mais difícil ainda, com a Austrália que, naquele momento, não queria receber refugiados timorenses. L. Alvarez não diz quem elaborou a lista e acompanhou os timorenses às entrevistas individuais com o funcionário consular australiano que tentava justamente assegurar-se que o “esquema” não era “abusado” por outros timorenses e de que apenas os nossos funcionários saíam. Pois foi o António Gamito e eu. José Júlio Pereira Gomes, Público, respondendo a Luciano Alvarez. 

O senhor embaixador estava em Lisboa e eu estava em Díli e assisti às fúrias e aos gritos que José Júlio Pereira Gomes soltava sempre que de Portugal lhe diziam que tinha de ficar em Timor. E sabe o que me espanta? É que, havendo par aí duas dezenas de testemunhas que assistiram a tudo isto no local, alguém tenha o desplante de dizer que o meu relato é mentira.

Claro que houve uma ordem para sair, mas a questão não é essa. A questão é porque houve essa ordem, quando essa não era a vontade do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) e do primeiro-ministro, que queriam que a missão ficasse em Timor enquanto Ian Martin, chefe da missão da ONU, lá permanecesse. E essa ordem foi dada porque José Júlio Pereira Gomes gritava ao telefone, na frente de todos os que lá estávamos, com quem falava no MNE em Lisboa, que se ficassem iriam todos morrer.

(...)

Recordo, aliás, o que o embaixador António Franco, na altura chefe da Casa Civil do então Presidente Jorge Sampaio, relata no volume II da biografia de Sampaio da autoria de José Pedro Castanheira. Página 845: “António Franco e Carlos Gaspar também se ‘mudam’ para Belém. ‘Assisti ao que é o sentido de dever de um Presidente’, testemunha o chefe da Casa Civil. ‘É um caso exemplar de uma grande cooperação institucional ao mais alto nível do Estado: Presidente, primeiro-ministro e ministro dos Estrangeiros. As relações do Jorge com o Guterres e o Gama melhoraram muito nessa altura, trabalharam juntos, noites e noites, e Belém foi o ‘noyau’ da actuação diplomática portuguesa. Guterres teve uma conduta absolutamente diferente da que teve com Macau (onde raramente se meteu). Nunca o vi tão furioso, como quanto a alguns dos nossos observadores diplomáticos no terreno que, cercados pelas milícias juntamente com centenas de timorenses, não cessavam de reclamar por uma pronta evacuação.’

(...)

Quanto à questão dos funcionários timorenses que trabalhavam para a missão portuguesa, mantenho tudo o que disse: houve, de facto, na missão quem se preocupasse com eles, mas não foi nunca José Júlio Pereira Gomes. Só se começou a “preocupar” quando pressionado por Ana Gomes desde Jacarta e quando os jornalistas o começaram a questionar sobre o assunto. Luciano Alvarez, em resposta a Pereira Gomes.

  

 

 

04
Jun17

O problema de Alberto Gonçalves

Eremita

Alberto Gonçalves tem uma claque de admiradores. Ele é o cronista que malha na esquerda, um implacável adversário do "politicamente correcto", uma voz independente. E como se não bastasse o bónus de escrever com graça e elegância, o nosso Alberto ostenta agora os galões ainda reluzentes da vítima de perseguição política, pois um cronista dispensado de escrever num jornal ganha logo a aura de censurado, mesmo que não deixe de escrever noutro jornal ou revista e seja de imediato contratado pela concorrência. O problema de Alberto Gonçalves é a crescente vontade que sente de agradar, tão óbvia que chega a causar vergonha alheia. Mas com esta crónica, já muito bem analisada pelo Plúvio, em que Alberto Gonçalves associa um comentário de Costa à doença da mulher de Passos, o nosso homem atingiu um novo patamar. Aquilo não é uma crónica, é uma felação empenhada a todos os leitores típicos do Observador. Não me lembro de ter lido nada tão absurdo e nojento nos últimos tempos. 

01
Jun17

"Fazemos taças"

Eremita

"Fazemos taças" é um exercício em que tento provar a possibilidade de escrever ficção apresentável com um verbo no título. Recordo que a teoria de que não há boa ficção com verbos no título, da autoria de Eduardo Cintra Torres, tem uma sustentação essencialmente empírica, muito vulnerável a exemplos contrários, sobretudo quando se despreza a estatística. Além de exercício formal, "Fazemos taças" incide sobre o pecado original da meritocracia, a saber, a impossibilidade de compensar as assimetrias naturais de outra forma que não uma compensação simbólica (como a actual) ou distópica (uniformizando a genética, como se uniformiza a mecânica em certas corridas de automóveis), e ainda a necessidade formal de se entender o mérito como um recurso escasso. 

 

Continua

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