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Ouriquense

15
Set17

Henrique Raposo segundo António Guerreiro

Eremita

O que aconteceria se um dos cronistas que mais admiro perdesse algum tempo a ler e escrever sobre um dos cronistas que mais me irritam? Aconteceria esta maravilha

 

Adenda: nos muitos comentários que a crónica de António Guerreiro já recolheu, creio que há um equívoco. Guerreiro não usa o termo "fascista" na sua dimensão exclusivamente política. Não há nenhum indício de que Henrique Raposo seja um adepto de regimes totalitários. É à estética fascista que Guerreiro se refere, nomeadamente a glorificação da violência. Há muito tempo que noto em Henrique Raposo um certo fascínio pela violência, mas creio que Guerreiro foi o primeiro a captar por escrito esta peculiaridade da prosa do cronista do Expresso. Já a associação à virilidade me parece algo questionável, pois creio que nessa passagem Raposo está apenas a provocar os movimentos feministas, LGBT, etc. A usar uma fórmula para descrever o registo de Raposo, sugiro: Marinetti e Ernst Jünger meet Breitbart News.

 

 

15
Set17

A Septuaginta segundo Lourenço

Eremita

Comecei a ler O Novo Testamento, na tradução de Frederico Lourenço a partir do grego. Há o risco de a leitura trazer à memória as longínquas aulas de catequese na Igreja dos Olivais, mas será sobretudo um roteiro para ir mergulhando em polémicas sobre tradução, História e estudos bíblicos. Para mim, Jesus Cristo não existiu, o que revela a medida do meu ateísmo. A (re)leitura que faço é puramente cultural. Ontem investi algum tempo nas discussões sobre se "espírito santo" leva artigo definido ou indefinido. Este problema do artigo é tão importante para uns como é para outros o problema do pronome certo. Chega a ser reconfortante ver o Espírito Santo e os transsexuais equiparados pela preocupação gramatical. 

13
Set17

Analyse this...

Eremita

Screen Shot 2017-09-13 at 09.34.36.png

 

Há anos que a doutrina se divide quanto à relação de causalidade entre a crise económica iniciada em 2008 e o aumento do suicídio em Portugal. O valor de 2014 é difícil de comparar com os anteriores porque nesse ano "a metodologia de apuramento de dados passou a ser diferente com o novo sistema de certificados de óbito electrónicos (antes a recolha era feita em papel)". Agora sabemos que em 2015 e sobretudo em 2016, anos em que se utilizou a mesma metodologia de 2014, houve uma redução considerável, o que reforça a hipótese de que a crise económica levou a um aumento dos suicídios. Seria bom que algum jornalista fosse pedir um comentário ao secretário de Estado e Ministro da Saúde do Governo de Passos, Fernando Leal da Costa. Seria também esclarecedor perguntar a Paulo Rangel, tão assertivo no nexo de causalidade entre a incompetência do Governo de Costa e os mortos de Pedrógão, o que pensa destes números. Mas podemos depois elevar o debate acima da luta partidária e da fulanização, para pensarmos por que motivo, como arma de arremesso na política, um suicida vale infinitamente menos do que uma vítima mortal de uma tragédia. 

 

12
Set17

Jaime (11)

Eremita

Jaime mantém a namorada à custa de doze quase-namoradas. O número denuncia a sua megalomania e um certo anseio de legitimação histórica; doze, como os Apóstolos ou os Cavaleiros da Távola Redonda. Mas Jaime inspira-se sobretudo em alguns rudimentos de geometria. Ele sabe que pode fazer daquelas 12 mulheres uma armadura, se as pensar em volta dele e da sua namorada como vértices de um icosaedro. A tarefa de Jaime é manter o icosaedro estável, evitar que alguma das 12 conheça outra e todas cortejar com o cuidado e empenho de um jardineiro ou outro profissional responsável por uma estrutura precária, como um jardim ou um recife de corais. Basta a Jaime permanecer no centro do campo libido-passional criado pelos 12 vértices do icosaedro, cujas forças trespassam a namorada de Jaime sem que ela se aperceba, como um campo magnético perpassa um corpo livre de metais. No centro do icosaedro ele sente-se seguro, ainda que algo cambaleante, pois o equilíbrio das atracções a que o seu corpo está sujeito não é absolutamente estável e precisa de reajustamentos sucessivos. Este equilíbrio instável permite-lhe encarar a fidelidade como uma possibilidade provisória e impedi-lo de cometer uma argolada que comprometa a boda, cada vez mais próxima. Mas Jaime planeia já no futuro e uma solução que não o deixe tão vulnerável a súbitas oscilações de humor de uma das quase-namoradas que perturbem o campo libido-passional. No seu caderno de apontamentos, vemos já o esboço do isosaedro truncado, com os seus sessenta vértices.

12
Set17

Quem ler?

Eremita

Refiro-me a cronistas de imprensa ou bloggers estrangeiros (em inglês, espanhol ou francês), não por snobismo, mas por conhecer o que se publica na nossa imprensa. Daqui a uns dias partilharei a minha lista. 

12
Set17

Jornalismo de referência

Eremita

Em que ano estamos? No espaço "Multimédia" da página online do Público, os jornalistas ainda nos explicam a vitória eleitoral de Marcelo Rebelo de Sousa. 

12
Set17

Friedrich

Eremita

Muitas vezes me pergunto como teria sido a minha vida se tivesse lido Nietzsche na adolescência.

10
Set17

Daniel (10)

Eremita

Ele era um trendsetter, um opinion-maker e mais do que isso: um life coach, um guru, até um sacerdote laico. Reverenciado pelos progressistas e odiado pelos conservadores, a sua reputação atingira o patamar em que qualquer acção sua assumia enormes proporções. Presença ubíqua nos media com impacto transversal a todas as classes sociais, era já conhecido apenas pelo nome próprio: Daniel. Também o seu programa de rádio, antes intitulado, "Vibrações Boas", também a coluna no jornal, a que chamara "Sexo à Sexta", também a sua longa série televisiva, "O Ponto G", também "A Posição do Missionário", o ciclo de palestras dadas por todo o país a cada Primavera, enfim, toda a sua produção acabara de ser rebaptizada com o mesmo nome: Daniel. Naturalmente, a sua biografia não escapou a este baptismo, apesar da pequena variante: "Eu, Daniel". Foi um bestseller que bateu todos os recordes de venda, promovido com grande mestria pela empresa que também geria a imagem de Daniel nas redes sociais e criou para o efeito uma campanha assente no neologismo "danielizar", sendo "E tu, danielizas?" o slogan que lançou o mote. O criativo da agência convencera Daniel com a seguinte argumentação: o nome próprio de um homem grande pode bastar para o identificar, o nome de um homem extraordinário pode pode dar origem a um adjectivo, como "maquiavélico", "aristotélico", "platónico", "marxista" ou "kafkiano", mas são raríssimos os casos de homens cujo nome passa a verbo, apenas lhe ocorrendo "pasteurizar" (de Louis Pasteur), apesar de "gongorizar" (de Luís de Góngora) e galvanizar" (de Luigi Galvani). Daniel acedeu, como antes concordara com a aposta no seu nome próprio. 

 

Como muitos dos homossexuais de São Francisco sexualmente activos nos anos oitenta que sobreviveram à devastadora epidemia do VIH, Daniel pensava que esgotara a sorte quando decidiu emigrar. Estava enganado. Tudo lhe correu de feição no novo país. Foi bem recebido e depressa encontrou trabalho e uma comunidade. A sua língua nunca o prejudicou, antes pelo contrário, mas esforçou-se por aprender a língua local e poucos anos foram precisos para se impor pela palavra. A voz de Daniel, máscula mas calorosa, habitada por uma ressonância que parece reproduzir o eco da nossa voz interior, era irresistível, inclusive para os seus críticos que o escutavam na esperança de ouvir uma inflexão efeminada, que nunca surgia; nos momentos de maior entusiasmo, a voz de Daniel ameninava-se, mas era a voz de um rapazinho, capaz de cativar pela nostalgia o mais empedernido e veterano heterossexual. Também o discurso lhe saía fluído e com grande noção do grau de dificuldade do que estava a comunicar, como se se desdobrasse numa presença extra-corpórea que, logo que algum conceito precisasse de ser esclarecido, lhe segredava ao ouvido: "Daniel, dá um exemplo!" E os exemplos eram sempre luminosos e inspirados, com um entrelaçado de alta e baixa cultura originalíssimo, dito com um ligeiro sotaque e um pudor no uso das expressões idiomáticas - parecia pedir licença por delas se apropriar - que o tornavam irresistivelmente afável. 

 

Daniel estreou-se na imprensa como perito em sexualidade, sem outra qualificação além de ser norte-americano e homossexual. Digamos que se foi fazendo especialista, primeiro muito focado na mecânica e hidráulica do orgasmo, e a partir de certa altura cada vez mais centrado na natureza das relações sexuais e amorosas, bem como na política. Já era uma celebridade quando começou a propagandear a ideia de monogamia intermitente. A intermitência era uma suspensão breve e idealmente regular para se poder gozar o sexo em todas as suas possibilidades aritméticas e geométricas, com ou sem a participação do parceiro. Os conservadores criticaram-no pelo apelo à promiscuidade e entre os admiradores houve alguns desconfiados, pois muitos consideraram a expressão "monogamia intermitente" inútil, por já existir o conceito de "relação aberta". Aos primeiros Daniel respondeu com desprezo, reforçando o ataque ao catolicismo, e aos segundos explicou que na "monogamia intermitente" se valorizava a monogamia, estando o sexo fora da relação reduzido à categoria de passatempo. A expressão vingou, sobretudo entre os menos novos, passando a ouvir-se com frequência nos jantares burgueses, entre elogios ao estilo de vida de Daniel, como uma aspiração que muitos confessavam ser incapazes de pôr em prática.

 

O companheiro de longa data de Daniel, um indígena apolíneo quase vinte anos mais novo do que o americano, não era uma figura pública. Pouco se sabia sobre este homem inúmeras vezes fotografado pelos paparazzi, com ou sem Daniel, em deambulações pela cidade e a desaparecer atrás de portas de onde só saía na manhã seguinte, sendo estas pernoitas interpretadas pelos tablóides como sessões de deboche e pelos fãs de Daniel como "intermitências", um termo que também pegou. Nas entrevistas à imprensa de referência, Daniel não dava grandes detalhes sobre as suas "intermitências" e mostrava-se um acérrimo defensor da privacidade, não perdendo uma oportunidade para criticar os "profissionais do mexerico". Mesmo no seu círculo mais íntimo, Daniel poucas vezes falava das intermitências, sendo sobretudo óbvio o carinho e desejo com que olhava e ouvia o seu companheiro, cuja voracidade sexual era já lendária entre a comunidade homossexual.

 

Alguns entre os mais próximos desconfiaram, mas havia as fotografias, ocasionalmente alguém segredava ter já estado com Daniel e o seu companheiro era de poucas falas. O rumor nunca cresceu. As intermitências do casal passaram a imagem de marca da cidade entre as elites, tornando-se icónicas as fotos em que Daniel é visto a sair de madrugada, sempre de óculos escuros, sozinho ou poucos segundos após a saída do companheiro. "Daniel esteve aqui" foi uma frase que durante uns tempos apareceu escrita a tinta branca em alguns prédios. Nos seus programas, Daniel promovia o seu estilo de vida, insistindo na sua superioridade moral face à monogamia corrompida pela infidelidade e no seu valor social quando comparada com as vidas daqueles que apenas buscam o efémero. A seguir à sua biografia, "Monogamia intermitente", misto de ensaio e guia prático, veio a ser o livro de Daniel mais vendido. 

 

Chegou a pagar o sexo que não teve e a comprar o silêncio de alguns. Houve madrugadas em que saiu para a rua em lágrimas, atrás do companheiro. Houve noites em que não saiu sequer, ficando sozinho em casa, bebendo e ouvindo tangos, consumido pelo ciúme, cansado do teatro que montara e odiando-se por ter implorado que ele não saísse naquela noite. Não foi durante um desses serões que começou a escrever o panfleto  "Contra a Hipocrisia Patriarcal", que viria a ser bestseller

 

Nota: Daniel é uma personagem inspirada em Dan Savage (enquanto figura pública). 

 

 

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