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Ouriquense

08
Set12

O gozo do engenho possível

Eremita

Tenho retirado algum prazer de actos simples que revelem algum engenho. Ontem capturei um ratinho que andava a irritar o Judeu, improvisando uma armadilha com uma caixa de sapatos. Não usei o proverbial naco de queijo, que só funciona nos desenhos animados, tudo resultou de uma leitura do espaço à armador de jogo e de ter previsto a trajectória mais provável do adversário após um curto período de estudo, para então colocar a caixa virada para baixo e ligeiramente levantada no local onde o animal se iria refugiar e fazer com que de fechasse sobre ele, com um brusco toque de pé no momento certo. Fui logo electrizado por uma vontade irreprimível de contar ao Judeu o meu feito.

 

Também há uns dias, em minha casa, solucionei o problema de hidráulica que me impedia de regar as plantas com uma mangueira. Permitam-me uma exposição técnica algo demorada. As plantas estão no pátio e a torneira mais próxima é a da cozinha. Para dispensar o pesado regador, pouco útil a quem tem muitas plantas e plantas em prateleiras altas, quando, do pátio, corto o caudal com o gatilho da pistola de água que acoplei à ponta da mangueira, é preciso que a pressão acumulada não solte a ponta ligada à da torneira da cozinha (um terço das vezes), nem a ponta  ligada à pistola (dois terços das vezes). Este problema transformava o tranquilizante acto de regar na tarefa caseira que mais ansiedade me causava - se insistia, regava as plantas, regava a bancada da cozinha, regava o chão, regava-me a mim próprio; se revertia ocasionalmente para o regador, ficava frustrado. Sem poder precisar o instante do eureka, resolvi então integrar uma bifurcação entre a torneira e a mangueira, isto é, da torneira a água continua a passar para a mangueira, mas também vai alguma água para a segunda saída, perdendo-se no lava-loiças. Quando agora, entre vasos, bloqueio o caudal, esta segunda saída torna-se dominante e dá vazão à água, nunca se acumulando a pressão que fazia saltar a mangueira da torneira ou da pistola. Falta ainda encontrar uma solução amiga do ambiente para a água que não é gasta na rega e vai para o lava-loiças, mas quando vi que meu sistema funcionava fiquei tão feliz que, durante uns dias, houve o risco de matar todas as plantas por excesso de água.

 

É seguramente um património da espécie e o meu único mérito foi ainda não ter dado cabo dele, mas, por uma vez, retiro destes dois episódios uma conclusão optimista: não se perdeu a arte de viver, quando de manifestações de inteligência que já nem no tempo do Homo erectus seriam geniais se extrai uma felicidade tão infantil e primordial. 

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