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Ouriquense

12
Jul12

27

Eremita

- Estava a olhar para o meu rabo, não estava?

- Sim. 

- Pensei que fosse mais de mamas.

- A ontogenia recapitula a filogenia, conhece a expressão?

- Já ouvi isso numa entrevista.

- Bem, em rigor é uma expressão errada, embora útil.

- Você sabe tantas coisas. 

- O desejo sexual evolui em regressão filogenética.

- Ai, fica tão sério quando se põe com essas coisas. Devia acreditar em Deus.

- Sou um ateu não praticante.

- Sim, mas se acreditasse em Deus seria mais ligeiro com todos os outros assuntos. 

- Agora já é tarde. Não posso acreditar em Deus por ter percebido que dá jeito, certo?

- Também é por isso que não se apaixona por mim. Sabe que sou rica.

- Não diga tolices. Quer que lhe explique a regressão filogenética?

- Quero que goste sempre do meu rabo.

- A mama como característica valorizada no acto sexual é uma aquisição mais recente do que o rabo.

- Mas isso é trivial, está mais longe dos genitais. 

- Não é assim tão simples. Há quem diga que tudo começou com a invenção da posição do missionário.

- Uma grande invenção.

- Mas que retirou o rabo do campo visual durante a cópula.

- Você é tão rústico. Nunca esteve num quarto com espelho no tecto?

- É o seu rabo que conta, não o meu.

- Esse sexismo humaniza-o, sabia? 

- Aliás, o espelho no tecto favorece esta tese. 

- A sua tese, claro.

- Ver o rabo ou recriar um simulacro de rabo, percebe?

- A sua tese é pateta.
- Não é minha. Nem acredito nela. 

- Mas decidiu contar.

- Contamos tantas coisas em que não acreditamos, já viu?

- Podíamos também praticá-las, não?

- Não. Posição do missionário, certo?

- Eu gosto de todas.

- Com a posição do missionário o que fica à frente da vista são as mamas. 

- Agrada-me. Não diz "seios".

- Só quando discuto estatuária do período clássico. 

- Vá, estas mamas à sua frente. E depois?

- A mama terá então evoluído no sentido de parecer um rabo.

- Que grande disparate.

- O rego, está a ver?

- Gosta?

- Do quê?

- Do meu rego.

- Era um exemplo genérico.

- Mas as pessoas acreditam mesmo nisso?

- Algumas pessoas.

- Tontos.

- A verdade é que aprendi a gostar mais de rabos, como os macacos. 

- A tal regressão. Ai, fica-lhe tão bem. Vá, regrida mais um pouco. Regrida.

- Ou então foi por causa dos implantes mamários.

- Nota-se muito?

- Você tem?

- Não sabia?

- Não. 

- O meu cirurgião é um génio. Quer sentir?

- Seria perigoso. Ainda não regredi completamente. 

- Faz-me rir. 

- Com os implantes, a mama deixou de ser uma dádiva da natureza.

- Isso é importante?

- A beleza deve resultar da sorte. 

- Você sabe o trabalho que me deu ter este rabo?

- É um rabo meritocrático?

- É magnífico.

- Sim. Deixe-me corrigir, então. A beleza deve apresentar-se como fruto da sorte, mesmo que isso seja uma ilusão.

- E se a Tatiana pudesse comprar umas mamas?

- Perdão?

- A Tatiana, aquela reles caixa de supermercado.

- Não fale assim.

- Toda a gente sabe, sabia? Você é patético. E de esquerda. Só acumula defeitos.

- Não seja desagradável. 

- É uma tábua, essa sua Tatiana. Até lhe pagava as mamas dela para o ver mais feliz.

- Chega. 

- O que você não quer é sujar as suas mãos no luxo das minhas mamas.

- ...

- Não diz nada?

- Espere, estou a apontar. 

- A apontar o quê?

- "no luxo das minhas mamas".

- Gostou?

- Muito.

- Ponha o caderninho no bolso. Vamos à aula prática?

- Não.

- Sabe qual é o seu problema?

- É só um?

- Você pensa tanto nas coisas que não pode ser boa pessoa e isso entristece-o. 

- Se calhar tem razão.

- Tenho, não tenho?

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