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Ouriquense

21
Fev18

Contra a chalatanice

Eremita

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Foi publicada no dia 9 de Fevereiro no Diário da República uma portaria (45/2018) que regula os requisitos das licenciaturas em medicina tradicional chinesa. É mais uma peça de uma avalanche legislativa que começou em 2003 e que ganhou particular dinamismo a partir de 2013, no governo de Passos Coelho. O que esta legislação faz é colmatar a falta de provas científicas de eficácia e segurança de várias terapias alternativas, da homeopatia à medicina tradicional chinesa, substituindo-a por portarias e decretos-leis. Permite aos terapeutas alternativos pendurarem nas paredes dos seus consultórios cédulas profissionais passadas pela Administração Central de Saúde, o que induz o público no erro de pensar que estas têm fundamentação científica. Mas estão longe de a ter. Tem inteira razão a Ordem dos Médicos, que publicou um vigoroso protestoDavid Marçal e Carlos Fiolhais

 

Quando for inegável que alguém morreu por ter andado a perder tempo precioso em terapias absurdas, será oportuno lembrarmos a longa lista de deputados que, por pressão de lobbies, um deslocado impulso de inclusão social, medo de acusações de xenofobia ou iliteracia científica, andam há vários anos a promover as chamadas terapias alternativas. Não tenho dúvidas de que esse dia chegará, mas duvido que mesmo assim algo mude, tendo em conta o amplo apoio de que estas terapias gozam no hemiciclo, a apatia com que a sociedade reage a notícias que dão conta da sua expansão entre nós (na imprensa, só Marçal e Fiolhais fazem barulho), a incompetência da Ordem dos Médicos, que protesta mal, mais parecendo interessada na defesa de uma corporação do que na defesa da cultura científica e da saúde dos cidadãos, e ainda a popularidade de outras charlatanices que a televisão mostra, como a astrologia, a cartomancia e a numerologia. Não é complicado: um país que diz promover a ciência e a educação não pode legitimar a homeopatia e a acupunctura. E para prevenir acusações de cientismo ou de conluios entre este eremita indigente e a grande indústria farmacêutica, friso, sobretudo nestes tempos tão avessos à nuance, que não me custa elogiar contributos das medicinas tradicionais, desde que validados com o mesmo rigor científico que usamos na medicina convencional.

21
Fev18

Desmond Morris reloaded

Eremita

Adoramos frisar a excepcionalidade da nossa inteligência quando nos comparamos com os outros animais, mas poucos se lembram que a biologia da nossa espécie também se distingue de todos os restantes mamíferos quanto ao sexo, muito antes de o sexo dos homens ter adquirido toda a complexidade cultural que hoje discutimos. Quem quiser saber mais deve ouvir esta informativa entrevista a um casal de biólogos

19
Fev18

Do narcisismo

Eremita

Espanto-me com a a gastação de prosa com que alguns mimoseiam outros. O Alf do Elogio da Derrota, que escreve bem que se farta e tem montes de graça e que é insolente de dar gosto, gasta a sua inspiração e talento em textos longos a criticar os críticos e os maus escritores, com isso cansando a minha beleza. O agora incensado Luís Miguel Rosa escreve textos chatíssimos, daqueles que parecem os discursos de oito horas do congresso americano, em que diz mal de meio mundo e onde, pelo meio, tece considerações em que mostra que é letrado -- e meia bloga cai-lhe aos pés; mas eu não que, se acho que a minha vida é curta demais para gastar um dia inteiro fechada no Louvre, imagina se ia gastar essas tantas horas a ler longas e chatas prosas (e agora até em inglês) do jovem que faz babar os eruditas e os eremitas e faz ranger os dentes ao Alf que não gosta de concorrência. Nem pensar. Um Jeito Manso

 

A autora de Um Jeito Manso, que consegue a proeza de se destacar pelo narcisismo num meio saturado de narcisistas, diz-nos que se espanta com os elogios a Luís Miguel Rosa (LMR), mas confunde espanto com ciúme. Se bem percebi, considera a prosa de LMR chata, exibicionista e maledicente, o que me pareceu um notável auto-retrato involuntário.

 

Adenda: salvo erro sincero, creio que até ontem só tinha referido uma vez o blog  Um Jeito Manso, apesar de ainda o visitar com frequência e até de, em tempos, o ter incluído na minha lista de blogs. Se lhe respondi ontem, foi apenas para não deixar passar o delegante "que faz babar", expressão que, aliás, provavelmente não teria visto se não a tivesse descoberto por acaso quando lia um post do Alf , porque a exuberância pictórica de Um Jeito Manso me impede de ler os textos na totalidade e com atenção. Este facto seria irrelevante, não se desse o caso de a autora de Um Jeito Manso ter entretanto respondido a este meu post, insistindo no péssimo hábito de não fazer links. Enfim, sugiro que a autora reveja as suas noções de causa e efeito, porque quem iniciou esta birra não fui eu. Pelo teor da resposta, creio que a prioridade é a restauração da homeostasia no seu egossistema, mas da próxima vez, se pretender discutir algum assunto entusiasmante, como o pseudo-intelectualismo, as teorias do gosto e como se relacionam com o elitismo ou o que quiser, o melhor é usar um link

18
Fev18

"Gente que Trabalha"*

Eremita

Aprecio vários tipos de bloggers, mas só admiro verdadeiramente aqueles que trabalham. Trabalhar é uma condição necessária, ainda que insuficiente. Ora, quase todos os bloggers optam por não trabalhar e escrevem o que lhes sai à primeira, sem amadurecimento nem consulta, num exercício diletante e narcisista. É um direito, mas feitas as contas, quem lê está a perder tempo, pois é sabido que os repentistas de génio migraram para o Twitter. A regra é muito simples e já foi enunciada de inúmeras maneiras: o tempo que quem lê o texto investe na leitura não deve ultrapassar uma ínfima parte do tempo que o autor gastou a escrevê-lo. Ninguém estimou esta relação numérica com rigor - um décimo do tempo de escrita? Um centésimo? - mas sabemos que é da ordem das magnitudes. Daí que a minha grande descoberta de 2016 tivesse sido o blog Homem à Janela, de Alberto Velho Nogueira, onde podemos ler a crítica literária mais radical e original a autores portugueses consagrados, num registo alheio ao elogio fácil e à maledicência caprichosa. Pois bem, após um ano de 2017 sem descobertas macantes,  ainda vamos em Fevereiro, mas anuncio já que o blog de 2018 é Homem-de-livro, de Luís Miguel Rosa (LMR). Em tempos apreciei muito um blog que se chamava Homem a Dias, de um saudoso Alberto Gonçalves (que hoje despacha alucinadas crónicas de consolação no Observador) e não posso excluir uma queda bizarra para blogs com a palavra "homem" no título, mas também por isso é oportuno lembrar que aprecio muito outro trabalhador incansável, o Henrique Manuel Bento Fialho, que escreve no Antologia do Esquecimento, e a malta do blog Ladrões de Bicicleta, que até mostra gráficos originais. Se conhecerem outros blogs (em português, inglês, francês ou castelhano) de gente trabalhadora, avisem, por favor.

 

O mais recente post de LMR é um verdadeiro achado. Quando, num país com apenas 10 milhões de habitantes e dominado pela monocultura do futebol, um cidadão, fora do circuito da academia, é capaz de elaborar uma crítica a um escritor estrangeiro relativamente obscuro como Paul West, há motivos para acreditarmos em nós enquanto povo. No meu caso, a satisfação vem acrescida por ter experimentado durante a leitura do post uma sensação crescente de déjà vu que resolveu em epifania transbordante: nunca antes lera Paul West, mas lembrei-me que, afinal, já conhecia a tragédia dos seus últimos anos (um AVC que o deixou afásico), contada pela sua mulher, Diane Ackerman, numa entrevista a Michael Silverblatt**. O post de LMR deixou-me a mesma impressão com que ficara aquando da audição da entrevista: Ackerman e West dificilmente virão a ser uns dos meus escritores. O ensaio Purple Prose, de West, a que cheguei guiado por LMR, não me fez mudar de ideias: quando West defende um estilo "elaborate without being ornate, ambulatory without being pedestrian", leio as ressalvas como um acto falhado e só me ocorre que se UpDike, a aceitar o veridicto de David Foster Wallace, era “just a penis with a thesaurus”, West parece ser just a thesaurus, o que não deixa de ser problemático e é muito mais aborrecido. Mas o caso não está arrumado. O entusiasmo de LMR fará com que dê a West o benefício da dúvida e inicie a leitura de um dos seus romances. 

 

* Verso de uma canção de Paulo de Carvalho.

** Só durante as leituras para escrever este post me dei conta de que o meu primeiro contacto com Paul West precede a entrevista: o escitor figura como personagem num dos capítulos do livro Elisabeth Costello, de J. M. Coetzee, que li sem inscever West na memória. 

16
Fev18

Da relevância dos "efeitos especiais" no cinema

Eremita

A exibição da série 007 que com diferentes actores protagonistas se mantém desde os anos cinquenta e que por estes dias podemos ver no Canal AMC comprova-o: o mais relevante progresso tecnológico dos últimos 40 anos tem que ver com os “efeitos especiais” no cinema. De resto, tirando o tratamento da informação, a sua portabilidade e a robótica (coisas de duvidosa utilidade), as mais decisivas realizações tecnológicas são já antigas – a última ida do Homem á Lua aconteceu nos anos 70, e desde então a duração de uma viagem de avião entre Lisboa e Nova Iorque não tem progressos significativos, assim como os standards da Alta-Fidelidade ou da locomoção automóvel. Há mais de quarenta anos que o progresso encalhou e vivemos iludidos pelo circo digital. João Távora

 

Que alguém explique ao João Távora: o Large Hadron Collider (a máquina mais sofisticada construída pelo homem), a sequenciação do genoma humana, a investigação em células estaminais, a terapia anti-retroviral (que transformou uma doença fatal como a SIDA em doença crónica), a aterragem em Marte do Mars rover Curiosity, a irradicação da varíola, a Nano-Scale Microscopy, a célula solar de película fina... Enfim, o João Távora pode viver iludido pelo circo digital, mas terá de reconhecer que foi uma opção pessoal. Aliás, sem sair do circo digital, bastar-lhe-ia escrever "Concorde" no Google para perceber que até a duração de uma viagem transatlântica teve, durante uns tempos e para algumas carteiras, "progressos significativos". Mas ainda mais fascinante do que os erros factuais é o tom crítico de João Távora. Admitamos que o João tem razão na descrição que faz - é irrelevante. Seria surpreendente descobrir que as descobertas e invenções mais significativas foram feitas antes de o homem chegar à Lua? Quantos milhares de anos de invenção tecnológica precedem a ida à Lua? Quantas oportunidades de apanhar a low-hanging fruit entretanto desaparecida? 

 

 

 

15
Fev18

"Exactissimamente"

Eremita

Seria errado propor que este desequilíbrio de opinião ou de ênfase acontece porque a direita se identifica mais facilmente com os impulsivos perpetradores da violência doméstica (ou com os alvos dos linchamentos revanchistas) do que com as vítimas de assédio, tantas vezes frágeis e impotentes, propícias a sucumbir na evolução das espécies. Não é isso. Acontece é que a violência machista, mesmo que sabidamente nefasta, é um continuum histórico, enquanto a «revolta feminista» é, precisamente, uma tentativa de quebrar o continuum histórico. E os conservadores sempre se incomodaram mais com as rupturas do que com as injustiças. Rui Ângelo Araújo

15
Fev18

Os intelectuais e a ciência

Eremita

The historian of science David Wootton has remarked on the mores of his own field: "In the years since Snow’s lecture the two-cultures problem has deepened; history of science, far from serving as a bridge between the arts and sciences, nowadays offers the scientists a picture of themselves that most of them cannot recognize." That is because many historians of science consider it naïve to treat science as the pursuit of true explanations of the world. The result is like a report of a basketball game by a dance critic who is not allowed to say that the players are trying to throw the ball through the hoop. Steven Pinker

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