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Ouriquense

22
Jun17

"Having rivers of reward without earning reward"

Eremita

Infinite Jest é uma distopia futurista passada num futuro próximo, que provavelmente corresponde já ao nosso passado recente (o romance foi terminado no princípio dos anos 90). Um dos temas centrais do livro é o vício. A seguinte passagem, sobre experiências em que se estimula os centros do prazer, é já uma alusão ao filme Infinite Jest, que tem um papel importante no enredo do livro, por se tratar de uma obra tão hipnótica que o espectador não consegue deixar de a ver e perde o interesse em tudo o resto:  

 

'What happened was that Olders and the Canadian neuroscientists happened to find, during all the trial and error, that firing certain electrodes in certain parts of the lobes gave the brain intense feelings of pleasure.' Steeply looked back over his shoulder at Marathe. 'I mean we're talking about intense pleasure, Rémy. I'm remembering Olders called these little strips of stimulatable pleasure-tissue p-terminals.’

' "P" wishing to mean "the pleasure."

'And that their location seemed maddeningly inexact and unpredictable, even within brains of the same species — a p-terminal'd turn out to be right up next to some other neuron whose stimulation would cause pain, or hunger, or God knows what.’

(...)

'Because they were theorizing that these quote "rivers" or terminals were also the brain's receptors for things like beta-endorphins, L-dopa, Q-dopa, serotonin, all the various neurotransmitters of pleasure.’

'The Department of Euphoria, so to speak, within the human brain.’

There was no hint or suggestion yet of dawn or light.

'But not humans yet,' Steeply said. 'Older's earliest subject were rats, and the results were apparently sobering. The Nu— the Canadians found that if they rigged an auto-stimulation lever, the rat would press the lever to stimulate his />-terminal over and over, thousands of times an hour, over and over, ignoring food and female rats in heat, completely fixated on the lever's stimulation, day and night, stopping only when the rat finally died of dehydration or simple fatigue.’

 

Naturalmente, é o vício em alguma droga dura que mais depressa associamos à total dependência e obsessão com a próxima dose. Mas o grande vício do nosso tempo, pela novidade e abrangência demográfica, é o das redes sociais. Hoje, o leitor de Infinite Jest não deixará de reparar na completa ausência (vou a meio) de referências à internet e, em particular, às redes sociais. De certa forma, não ter previsto no princípio dos anos 90 a explosão da internet, quando já existia em França o precursor Minitel, é um falhanço enorme do autor enquanto futurista. Wallace faz de um filme o grande objecto de perdição, o que não surpreende quem conheça os seus escritos sobre a televisão, e é possível que um autor preocupado com a solidão estivesse pouco predisposto imaginar as redes sociais, que têm uma dimensão ambivalente, por serem capazes de  promover tanto o isolamento como a vivência em comunidade. Por outro lado, o modo como Wallace trata a nossa relação com o prazer não é nada datado e não perde pertinência por não ficcionar as redes sociais, antes pelo contrário, parecendo destilar a essência do nosso tempo ou a própria intemporalidade. Isto confirma a minha suspeita antiga de que tudo o que se tem escrito sobre as redes sociais, num anacrónico estado de espanto permanente, seja em tom catastrofista ou revelador de um entusiasmo incondicional, é uma boa treta. 

 

21
Jun17

A sensatez

Eremita

Manuel Carvalho é, provavelmente, o cronista mais sensato a escrever em Portugal.  Na crónica, a sensatez é inimiga do estilo e não satisfaz o leitor que procura divertir-se, surpreender-se e indignar-se. Os nossos cronistas mais elogiados, de Pulido Valente a João Pereira Coutinho, passando por Ricardo Araújo Pereira, são propositadamente insensatos. Ora, com o passar dos anos, começa a faltar paciência para a insensatez. Manuel Carvalho deve ter poucos leitores jovens e nunca ganhará um prémio pelas suas crónicas, mas continuará a ser lido com atenção em Ourique. 

19
Jun17

Sepultar os vivos, cuidar dos mortos

Eremita

Não conheci presidente mais talhado para veicular a dor de uma nação do que Marcelo Rebelo de Sousa; nem o Obama da voz timbrada se aproxima do virtuosismo do nosso presidente. A empatia natural de Marcelo, treinada pelo seu catolicismo e reforçada pelo mais alto sentido de Estado faz dele um super-herói da empatia e dos "afectos". Não estou a ser cínico. No imediato, Marcelo é precioso. Resta apenas saber se, num segundo tempo, o comportamento de Marcelo não será contraproducente. Conhecemos bem a capacidade de resposta do Presidente às calamidades: ele é sempre o primeiro a chegar. Mas não se sabe se Marcelo, sempre frenético, tem a paciência, persistência e teimosia necessárias para acompanhar as operações de rescaldo e aplicar a sua magistratura de influência no trabalho de bastidores de que dependerá, por exemplo, a prevenção dos incêndios do Verão de 2018. Quando vejo o Marcelo solidário, fico sempre com a dúvida de saber se estou a assistir à caridade cristã como meio para erradicar a pobreza e a miséria ou como fim que se realiza na expressão dos bons sentimentos. 

17
Jun17

Adão e Silva e Daniel Oliveira lavam mais branco

Eremita

A nomeação de Lacerda machado para a administração da TAP não tem, por si só, nada de condenável. Não há qualquer conflito de interesses em alguém que negociou a reversão de uma privatização e uma empresa em nome do Estado ser nomeado para representar esse mesmo Estado nessa mesma empresa. Daniel Oliveira

 

O que seria, de facto, uma pouca vergonha é que alguém que tivesse estado envolvido na negociação de uma privatização do lado do Estado, após a conclusão do processo, migrasse para a empresa privada, por indicação dos acionistas privados. Pedro Adão e Silva.

 

No Expresso, Pedro Adão e Silva e Daniel Oliveira, como meninos de coro afinados, tentam convencer o leitor de que, ao contrário dos casos de Ministros que durante os seus mandatos acautelaram a sua saída do Governo para empresas privadas que terão beneficiado, a ida de Lacerda Machado para a administração da TAP configura uma migração de sentido inverso. Logo, como a primeira migração é perversa, a segunda só poderá ser virtuosa. Nestes momentos de ofuscação motivada por simpatias políticas, é oportuno recordar o que Manuel Carvalho escreveu a 17.4.17 sobre Lacerda Machado:

 

Um negociador desta estirpe é uma espécie de rei Midas que qualquer primeiro-ministro que se preze gosta de ter ao seu alcance. Sendo amigo, melhor ainda. O problema é que, ao que se sabe (e sabe-se o suficiente), Diogo Lacerda Machado continua mostrar na sua esfera de acção profissional zonas de atrito com o interesse público, em particular com o da TAP. A começar, ele continua a ser administrador dos interesses de Stanley Ho em Portugal o que, por princípio, não seria impedimento para que interviesse como agente especial do Governo nas negociações da TAP, se o seu capítulo de defensor de legítimos interesses privados na transportadora aérea estivesse em absoluto enterrado no passado da VEM. Ora, não é o caso. Como o PÚBLICO revelou, “Stanley Ho tem ligações ao grupo chinês que quer comprar a TAP”. Um pouco mais de prudência, ou de pudor, teria, por isso, desaconselhado a intervenção de Diogo Lacerda Machado no processo.

Vejamos porquê. Uma das novidades que saíram das negociações que fizeram reverter a maioria do capital da transportadora para a esfera do Estado é a entrada indirecta dos chineses da Hainan Airlines na TAP. Quer dizer, a Hainan ficou dona de uma fatia das acções da brasileira Azul e como a Azul tem uma fatia de acções na TAP, logo os chineses são, indirectamente, donos de uma parte da TAP. E o que é que isto tem a ver com Diogo Lacerda Machado? É que, em Hong Kong, o seu “patrão”, Stanley Ho, tem uma sociedade com a Hainan Airlines. Sem muito esforço, é possível colocar em cima da mesa uma relação de interesses, ainda que remotos, ainda que indiciários, ainda que pouco fluidos, entre o negócio da TAP e o empresário macaense. Ou seja, o Diogo Lacerda Machado que representava o Governo era o mesmo Diogo Lacerda Machado administrador de uma sociedade de um empresário macaense que partilha interesses económicos com uma empresa chinesa envolvida nessa mesma negociação com o Estado.

Dizer que esta relação é por si só justificativa de um ataque ao Governo por presumível alimentação de negócios suspeitos de falta de transparência pode ser um exagero. Mas já não é exagero nenhum afirmar que, face à importância e sensibilidade do negócio da TAP, Diogo Lacerda Machado não reunia condições para desempenhar o papel que desempenhou. Custa a perceber que o melhor homem do mundo para defender o interesse do Estado seja um gestor com este passado e este presente de associações à TAP e a Stanley Ho. Como escreveu no PÚBLICO Pedro Sousa Carvalho, “não haverá entre os 17 ministros, os 41 secretários de Estado, os não sei quantos assessores e adjuntos ou entre os 650 mil funcionários públicos alguém com competência para representar o Estado nessas negociações?”.

Há outras perguntas. António Costa sabia destas ligações à TAP e percebeu que ao autorizar a entrada dos chineses estava a desfiar uma remota ponta de ligação ao patrão do seu amigo? Porque não se fez um escrutínio prévio a esta nomeação? Alguém acredita que se uma escolha destas fosse feita pelo anterior Governo (ou o de Sócrates, ou outro qualquer antes dele) teríamos o Bloco e o PCP mudos e quedos como estão em relação ao passado e ao presente do agente especial do primeiro-ministro?

E é então aqui que encaixa a informalidade com que António Costa deixou correr o pano. Não estando Diogo Lacerda Machado completamente à margem de eventuais conflitos de interesses no negócio da TAP, ao menos que se submetesse desde o início a um qualquer tipo de vínculo contratual com a função pública. Ter negociado o processo da TAP na condição de franco-atirador do Governo que, ao mesmo tempo, mantinha um pé nos assuntos de Stanley Ho e um passado de bons negócios com a TAP, é, enfim, uma história digna de uma república das bananas. Depois da pressão generalizada (até do Bloco e do PCP), o Governo lá tratou de enquadrar as suas funções num contrato . Era bom que nos desse agora muitos e bons argumentos para ficarmos sem a mínima réstia de dúvidas de que Diogo Lacerda Machado agiu do princípio ao fim com o exclusivo empenho em defender o interesse nacional, e não em busca de um novo e putativo negócio da China.

16
Jun17

Agência Europeia do Medicamento em Ourique

Eremita

Screen Shot 2017-06-16 at 09.20.28.png

 

Conterrâneos e outros,

 

Qual é a medida do bom senso? O selo do bom senso aparece quando, de modo tão irreprimível como uma gargalhada ou uma bufa, damos de imediato razão a quem habitualmente criticamos. Tem razão Paulo Rangel quando põe em causa a decisão da uma candidatura de Lisboa à Agência Europeia do Medicamento (AEM). Lisboa colecciona já duas agências europeias. Não há nenhuma cidade com três agências. É preciso acrescentar mais alguma coisa? Que a euforia dos lisboetas não comprometa os destinos da pátria. Mas acrescento: que o complexo de inferioridade dos portuenses não nos comprometa também. E acrescento ainda mais: esta não é uma discussão para ser liderada por colunistas presunçosos deslumbrados com a União Europeia, como o senhor Rui Tavares, autoproclamado autor da ideia de trazer a AEM para Portugal. Sejamos sérios. Portugal tem de libertar-se da polarização Lisboa-Porto e não pode ser o colunismo centralista a liderar a descentralização. Cai sobre nós, minha gente, sobre nós, o fardo de assumir a descentralização de forma simbólica, radical e até revolucionária no contexto europeu. Todas as agências europeias estão localizadas em cidades. É tempo de inverter este viés absurdo. Uma agência europeia pouco pode fazer por uma cidade com um milhão de habitantes, mas a sua instalação num burgo de pequenas dimensões seria revitalizadora para o tecido urbano e social. É tempo de pôr os interesses das localidades à frente dos interesses dos burocratas que trabalham nas agências, gente há tanto tempo a circular nos corredores do poder que se esqueceu do verdadeiro espírito de serviço público. Tentemos essa experiência! Contra Lisboa, contra Bruxelas até, mas pelos alentejanos e toda a enorme coligação silenciosa e silenciada de europeus que vivem em pequenos burgos. Meus caros, a AEM tem de vir para uma vila e essa vila será Ourique! Ao seu papel central e fundador no imaginário lusitano, Ourique junta características únicas para acolher uma instituição dedicada ao medicamento. O Baixo-Alentejo é hoje habitado por uma população idosa com particular queda para o suicídio. Haverá melhor escolha para a localização de uma agência dedicada aos remédios? Como se não bastasse, ficando Ourique a 58 km de Beja, a AEM iria finalmente transformar o aeroporto de Beja numa valência que não envergonharia a pátria. Mas a característica principal, meus amigos, é mesmo a pequenez da nossa vila. Assumamos a natureza revolucionária e confrontacional da nossa candidatura. Somos menos de 2000. A AEM iria deslocar para Ourique um número considerável de famílias que teriam um enorme impacto demográfico, arquitectónico, social e económico. De repente, Ourique passaria a vila cosmopolita, o que exigiria uma escola internacional, outras gastronomias, uma oferta cultural dinâmica, novos negócios, boas casas, quem sabe se um ringue de curling... Seríamos um caso de estudo, um exemplo incontornável para todos os movimentos descentralizadores à escala europeia e até mundial. A nossa Ourique não pode continuar exclusivamente agarrada à economia do montado. Não queremos ser apenas a capital do porco preto. Devemos também chamar a nós o desígnio de porta-estandarte de todos os deserdados da centralização europeia! Chamo-me Fausto Gomes e aprovo esta mensagem. 

 

 

14
Jun17

Um herói acidental

Eremita

António Lobo Xavier é um advogado especialista em direito fiscal. A actividade de um advogado especialista em direito fiscal consiste em encontrar formas legais de poupar impostos ao seu cliente, geralmente um cidadão ou entidade com rendimento ou património suficientes para rentabilizar os honorários do advogado. Por estes motivos, um advogado especialista em direito fiscal só não perde em popularidade para o advogado dos grandes mafiosos. Mas se for para defender Cristiano Ronaldo, o ídolo da pátria, o caso muda de figura. O português mais conhecido de todos os tempos, o desportista mais bem pago do mundo, o filho exemplar, o profissional irrepreensível, o líder nato, o filantropo, o craque que nunca recusa um abraço a um fã, o nome de aeroporto... enfim, uma pessoa assim não pode ter problemas com o fisco, nomeadamente o fisco espanhol. Nem pode sequer ser ameaçado com uma pena de prisão, nomeadamente se for para ser cumprida num cárcere espanhol. Por isso, saiu a sorte grande a Lobo Xavier. Aliás, tendo em conta a mediania das suas prestações semanais na Quadratura do Círculo, creio mesmo que não terá outra oportunidade na vida para brilhar tanto. 

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