Sexta-feira, 10 de Março de 2017
Sexta-feira, 10 de Março, 2017

Como seria de esperar, a propósito do episódio do cancelamento da conferência de Jaime Nogueira Pinto, escrevemos o óbvio e o único cronista que me surpreendeu foi Francisco Teixeira da Mota, um advogado especialista em liberdade de expressão. Já não contava voltar ao tema, mesmo tendo chegado a imaginar uma hipotética conferência de um historiador na Universidade Católica intitulada "Jesus é uma invenção", só mesmo como teste de stress às convicções pluralistas da direita (incluindo a direita conservadora), porque mais tarde ou mais cedo o tema sempre volta. Mas Teixeira da Mota lembrou-se de um episódio cujo paralelo com a censura promovida pelos estudantes me deixou pensativo.

 

Como é evidente, ninguém concordou com o cancelamento do evento e foram numerosos os comentadores que se pronunciaram com veemência contra esta triste negação do espaço universitário. Mas, o que mais me chocou, foi ver surgir na praça pública, como paladino da liberdade de expressão o político Manuel Alegre que veio lembrar os seus tempos de estudante em Coimbra, no século passado, em que, segundo nos informou: havia colóquios proibidos, mas isso era no tempo da ditadura. Em democracia não é possível, porque a democracia é feita de debate e de pluralismo.

Parece este político querer fazer-nos esquecer que o ano passado, após porfiados esforços, conseguiu nos tribunais portugueses a condenação do tenente-coronel piloto-aviador João José Brandão Ferreira numa pena de multa de 1800 euros acrescida de uma indemnização de 25 mil euros por ter escrito num blogue que o militante socialista era um traidor à Pátria, tendo em conta o que considerava ter sido a actuação do cidadão Manuel Alegre como membro da Frente Patriótica da Libertação Nacional aos microfones da “Rádio Voz da Liberdade” em Argel.

Ora o que pensarão e diriam – muito provavelmente se sobre isso fossem questionados – o politólogo em causa e os direitistas jovens organizadores da conferência sobre o comportamento deste político durante a guerra do ultramar? Como classificariam o facto de Manuel Alegre na "Rádio Voz da Liberdade" com a sua tonitruante voz combater o patriótico regime de Salazar/Caetano e apoiar os movimentos terroristas, enquanto os soldados portugueses morriam às mãos dos guerrilheiros? Não entenderão eles, muito provavelmente, que foi um traidor à Pátria? E, pergunta-se (retoricamente) ao político Manuel Alegre, não podem ter esse entendimento? E expressá-lo publicamente ao abrigo da sua liberdade de expressão?

Moral da história: não se pode dizer Je suis Charlie à terças, quintas e sábados e Pas du tout às segundas, quartas e sextas, deixando os domingos para ir à caça. Francisco Teixeira da Mota

 

Não aplaudi de imediato  esta crónica, apesar da minha profunda aversão a Manuel Alegre, a quem não reconheço a autoridade moral que ele insiste em exigir. 

Continua. O montado não dá tréguas. 



Eremita às 09:15
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Sexta-feira, 10 de Março, 2017

Continuo com os Karamásov, rigorosamente 20 minutos por dia, à sombra do plátano. Podemos concluir que Dostoiévski deu-me a volta, muito à custa dos excelentes diálogos que marcam o último terço do livro, tão bons que compensaram até a desilusão que foi dar com um Ivan fraco de espírito, quando esperava uma personagem com o carisma do niilista Bazarov (deve faltar um acento) de Pais de Filhos. Imagino já a ressaca que experimentarei quando terminar este livro, embora o protocolo seja óbvio: iniciar a leitura de uma novela a poucas páginas do fim de um romance longo.



Eremita às 09:00
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