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Ouriquense

31
Jan17

Do declínio da civilização francesa

Eremita

Costumo seguir o programa radiofónico de Alain Finkielkraut ao domingo, enquanto lavo a loiça e os biberões, mas esta semana atrasei-me e só ontem ouvi o último Répliques, que foi sobre a estupidez. Não sendo uma das discussões mais memoráveis, há um detalhe inesquecível: a certa altura, um dos três intelectuais franceses começa a explicar aos outros dois a origem da expressão "l'esprit de l'escalier". Para meu espanto, não foi interrompido e os outros pareciam mesmo interessados na explicação, como se não a conhecessem. Terá sido por delicadeza? Em todo o caso, já é extraordinário o simples facto de um intelectual francês julgar que pode ensinar a dois outros intelectuais a origem desta expressão, que até eu conhecia. Seria como se Pacheco Pereira resolvesse explicar a Eduardo Lourenço a origem da expressão "velhos do Restelo" ou Freitas Lobo se preparasse para contar a Carlos Daniel e Rui Miguel Tovar o episódio do brinco de Vítor Baptista com a expectativa de quem julga ter uma anedota nova para partilhar. 

 

Não continua.

30
Jan17

O problema das utopias

Eremita

 

 

 

 

Bem sei que o título denuncia a minha idade. Nenhum jovem, a menos que seja um jovem tomado por alguma afectação, escreveria semelhante coisa. Só tenho pena de não me lembrar em que estado fiquei depois de ver The Mosquito Coast, há cerca de 30 anos, quando era adolescente. Do filme, lembrava-me o suficiente para ter estabelecido paralelos óbvios com o recente Captain Fantastic, que vimos ontem. Salta aos olhos que Captain Fanstastic é o The Mosquito Coast da nova geração. Em ambos, um homem invulgarmente inteligente, científico e carismático, crítico do consumismo e das religiões organizadas, tenta romper com a sociedade norte-americana e procura reencontrar-se com a natureza, arrastando com ele toda a família. Em ambos, este homem falha e causa grande infortúnio aos seus. Enfim, os paralelos são de tal forma ululantes que dei por mim a perguntar se uma das crianças de Captain Fantastic não teria sido escolhida por ter o nariz arrebitado como o de River Phoenix, actor que representa uma das crianças de The Mosquito Coast. Naturalmente, há diferenças. Se Harrison Ford, o actor em The Mosquito Coast, é um patriota desiludido com a vulnerabilidade da economia americana ao Japão (eram outros tempos), cuja quimera é dar a conhecer o gelo a uma tribo recôndita, Viggo Mortensen, o captain, é uma espécie de hippie anarco-sindicalista que venera Noam Chomsky e sonha em fazer dos filhos reis filósofos, submetendo-os por isso a um rigoroso treino intelectual e físico, que inclui exercícios como a escalada desportiva de dificuldade elevada, a aprendizagem de seis línguas, entre as quais o Esperanto, um ritual de passagem que consiste em matar à faca uma presa de grande porte e comer-lhe o coração palpitante, e ainda, para cúmulo, a leitura de Os Irmãos Karámasov. O primeiro é mais grandiloquente, trágico e complexo do que o seu algo sucessor, mas os filmes coincidem na mensagem, que é irremediavelmente conservadora: o problema das utopias não é a sua impossibilidade, nem sequer a sua realização aquém do idealizado (a eterna desculpa dos comunistas), mas o seu lado intrinsecamente distópico, nos dois filmes revelado pela teimosia, autoritarismo, irresponsabilidade e até loucura (no caso de Ford) dos pais. Não chega a ser uma revelação, pois basta lembrar que ninguém teria vontade de viver na ilha imaginada por Thomas More. Dito isto, hoje sinto-me mais obrigado a ensinar guitarra às gémeas do que há dois dias. 

 

 

 

27
Jan17

Geometria descritiva

Eremita

Parafraseando João Bénard da Costa, já não tenho idade e nunca cheguei a ter estatuto para desprezar publicamente os grandes clássicos da literatura. E há um elemento nos Karamásov que, não sendo original, também conto explorar no bwOs filhos karamásov são três. Porquê? Tese: porque, no mesmo plano, não é possível colocar mais de três elementos numa disposição tal em que cada um está exactamente à mesma distância dos restantes*. Iliocha, Ivan e Mítia são os três vértices de um triângulo equilátero e seria possível mapear a personalidade de qualquer leitor a partir da posição por este ocupada dentro do triângulo, isto é, o ponto em que se anulam os vectores de força correspondentes ao tropismo e à aversão que cada um dos irmãos desperta. Eu, por exemplo, em vias de começar o livro 11 (O Irmão Ivan Fiódorovitch), encontro-me longe do caprichoso e impulsivo Mítia, perto do místico e bondoso Aliocha, mas ainda atraído por aquilo que Ivan promete ser (quase não tem aparecido). 

 

 

Screen Shot 2017-01-27 at 10.13.03.png

 

* Num espaço tridimensional, um tetraedro em que todas as faces são um triângulo equilátero com as mesmas dimensões define um volume em que cada um dos quatro elementos (colocados nos vértices) está equidistante dos outros três, mas passa a ser mais difícil intuir o ponto de equilíbrio dos quatro campos de força, porque lidamos mal com o aumento de dimensões. Creio que a regra é k=d+1, em que k é o número de pontos equidistantes e d o número de dimensões. Obviamente, para mais de três dimensões tudo se torna inimaginável. Por outras palavras, três personagens asseguram a complexidade necessária e suficiente. 

26
Jan17

O declínio da francofonia

Eremita

No que toca a línguas, não tenho competência nem queda para o proselitismo prescritivo (recomendo 1 e  2 ), mas os vários jornalistas da TSF que pronunciam "Roland Garros" sem ler o "s" final precisam de ser humilhados publicamente e depois fechados numa solitária a pão e água, de onde só poderão sair se, após ouvirem o audiolivro de À la Recherche du Temps Perdu, fornecerem ao carcereiro a lista completa de todas as personagens do romance. Só o trauma e o castigo os impedirá de repetir o erro e lhes dará confiança para reportagens sobre Albert Camus, Laurent Fabius e Louis de Funès  (esta tem uma rasteira). Enfim, as correcções em público são sempre manifestações de poder, pretexto para vos recomendar o ensaio Democracy, English, and the Wars over Usage de David Foster Wallace e este programa de rádio com Foster Wallace e Bryan A. Gardner (estas maravilhas são só mesmo para wallacianos). 

25
Jan17

Ainda os pais suecos

Eremita

Já aqui mencionei os pais suecos, a propósito do amor paterno em tempos de feminismo. Volto ao assunto, pois o artigo que li ontem é um exemplo da boa imprensa de que hoje gozam estas criaturas. 

 

A 2011 longitudinal study of 624 Filipino men showed evening testosterone dropping by a median of 34 per cent in the first month after becoming fathers (the most extreme case saw a drop of 75 per cent). Levels of oxytocin, the so-called ‘cuddle hormone’, almost double in fathers between the time the mothers become pregnant and the first months of fatherhood. Prolactin, the hormone that triggers lactation in women, was almost a fifth higher in fathers of infants than in non-fathers. Fatherhood also physically alters the brain. In a 2014 study, researchers scanned men’s brains in the first month after their children were born, and then again after the fourth month. It turned out that gray matter grew in areas linked to reward, attachment and complex decision-making. Richard W Orange

Continua, sendo a questão a seguinte: os pais suecos fodem?

 

24
Jan17

Deus ex machina

Eremita

Apareceu agora um sobredotado de 13 anos, que fala como um tribuno e pensa como Maquiavel. Não desisto. Nada me fará desistir. Se, num delírio pós-moderno, Fiódor Dostoiévski surgir na página seguinte mascarado de corista de cancan e com a barba em trança, não abandonarei a leitura, já que estou tão perto do fim. Sim, eu conheço a falácia do Concorde. Mas desde quando ter noção de uma falácia assegura que não cometeremos esse erro? Creio até que somos atraídos vertiginosamente pelas falácias de que temos consciência.

24
Jan17

Homens frágeis

Eremita

Eu queria ter sido um daqueles poetas portugueses, de boas famílias ou não, mas sempre com uma dimensão marginal, que morrem antes dos cinquenta e são recordados enquanto lhes sobrevivem os seus contemporâneos. Al Berto (49 anos), Ruy Belo (44 anos), Rui Costa (39 anos), José Duro (24 anos), Daniel Faria (28 anos) António Maria Lisboa (25 anos), Luís Miguel Nava (38 anos), António Nobre (33 anos), Fernando Pessoa (47 anos), Mário de Sá-Carneiro (26 anos), Cesário Verde (34 anos)...

 

Continua. Além dos acrescentos, a idade que os poetas tinham quando morreram precisa de ser revista. 

 

22
Jan17

Novos servos da gleba

Eremita

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Há o empreendedorismo deprimente, como a vigésima hamburgueria artesanal. Mas há também grandes ideias, como a de Diogo Amorim, um jovem de 21 anos. Indo à essência das coisas, o rapaz criou a Gleba, uma padaria que usa cereais já pouco cultivados.  Espero que os pães sejam bons, mas isso, na verdade, é secundário. 

 

Adenda: os canais de comunicação entre Lisboa e Ourique funcionaram de forma extremamente rápida e já experimentámos dois dos pães. O de trigo é magnífico e o de centeio recomenda-se a quem goste do travo amargo (eu gosto). Não são baratos, mas sinto-me recompensado, inclusive moralmente recompensado, pois creio que Dias Loureiro chegou a investir na concorrência (A Padaria Portuguesa) e estar contra sócios ou ex-sócios de Dias Loureiro é estar do lado do bem. De resto, não gosto de nomes de empresas que comecem com artigos definidos, é tique gramatical de bimbo ou novo-rico. 

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