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Ouriquense

30
Dez16

Mário Soares

Eremita

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Já não há entre nós vidas como a que ele tem vivido e espero que recupere. Entretanto, deixou de haver desculpa para obituários incompletos, com erros factuais, erros gramaticais ou até uma simples gralha. 

29
Dez16

Um dia na Ponta do Sol

Eremita

[recauchutagem em curso]

Velhos de pijama e andar seguro na praça pública são exemplos de senilidade, mas se houvesse omnisciência e rigor deveríamos subtrair todos os casos que correspondem a ajustes de contas, pois só os lúcidos tentam recuperar a paz interior. Embora o esporádico assassínio por vingança faça com que os ajustes de conta se associem invariavelmente a pessoas, mas não é por falta de enquadramento penal que devemos desconsiderar os ajustes de contas com lugares. Quando me perguntam "ela marcou-te muito, não foi?", respondo com outra interrogação: "Paris ou Nova Iorque?" Ourique, Nova Iorque, Paris, Lisboa, o bairro dos Olivais, Setúbal e... de memória viva não consigo continuar esta regressão, o que deixa Bragança e a ilha de São Jorge, lugares onde me dizem que também vivi, como aprazíveis destinos de férias futuras. Curiosamente, alguns lugares de férias passadas podem pedir um ajuste de contas. No meu caso, esse lugar é a praia da Ponta do Sol, na Ilha da Madeira.

 

O meu irmão e eu assistíamos o meu pai no mergulho para apanhar lapas, que ele arrancava com uma espátula a uma profundidade pouco impressionante e nós depois recolhíamos para dentro de sacos de serapilheira de plástico; por vezes passava-nos também jacas, uns pequenos caranguejos que abundavam por ali. O objectivo era uma frigideira de lapas grelhadas, que a minha avó faria ao fim do dia, para se acompanhar com cerveja Coral ou laranjada Brisa, mas a apanha era também uma oportunidade para gozar o espectáculo daquele mar rico em castanhetas de roxos fluorescentes e iluminado até ao fundo pelo sol. Era o mundo do silêncio de Jacques-Yves Cousteau, mas com o silêncio interrompido por uma respiração inquieta e a paisagem a rodar periodicamente nos seus 360 graus, como se pretendesse evitar ser surpreendido pelas costas. De quem era a culpa? Minha, mas também do próprio Cousteau, que filmou o tubarão branco, um bicho de verdade e não o brinquedo mecânico do Spilberg; a culpa era ainda de quem me levou ao Museu de História Natural do Funchal, visita que taxidermizou para sempre alguns receios sobre monstros marinhos. Quando entrava naquele mar plácido a perder de vista, a minha cabeça era um oceanário arquitectado por um Jeronimus Bosch, cheio de criaturas que nunca haviam sido vistas na Madeira, mas que existiam em algum mar distante e podiam nadar até ali. O mar tinha a propriedade única de anular as distâncias - antes de ler sobre as asas de borboleta na China que provocam um furacão na América, já eu pensava nas batidas de barbatanas na Ponta do Sol que excitavam os tubarões dos recifes australianos.

 

O meu pai nunca soube. E com o meu irmão nunca falei disto, porque falamos pouco. Mas lembro-me de um dia estarmos a sair da água e ele me contar que quando fazíamos o percurso de regresso à praia a sós, só os dois, ele nadava muito depressa por causa dos tubarões. Creio que foi das vezes em que me senti mais próximo dele. Éramos miúdos, mas se o mano velho também tinha medo, era normal ter medo. A vergonha não chegou a desaparecer, apesar de nunca ter recusado uma ida ao mar. Mesmo depois de o meu pai ter capturado o único monstro marinho que vi na Ponta do Sol, o medo não desapareceu. A Ponta do Sol tinha um posto de observação de cachalotes em ruínas e o meu pai contou-me que quando era miúdo um desses gigantes veio dar à praia. Por vezes passavam barcos de pesca desportiva ao largo e eu sabia que eles apanhavam peixes assustadores, mas nunca vi nenhum ali. O único monstro marinho que vi foi um polvo que o meu pai caçou com as mãos.

 

Não sei se esta classificação faz algum sentido e se há algum fundamento neurológico, mas distingo as memórias animadas (como uma cena de filme) das memórias estáticas (como um quadro ou fotografia). A imagem que guardo do polvo é absolutamente estática. De calção de banho, diante dos amigos e da família, o meu pai mostra a sua presa com um sorriso de orgulho que hoje faria dele mais um inimigo dos amigos dos animais. Só o polvo varia em função do tempo e dos humores, indo de um bicho com tentáculos de choquinhos ao polvo gigante das 20 Mil Léguas Submarinas. Esta captura deu um belo polvo de escabeche e passou a ser usada para ilustrar que os actos de bravura costumam ter associada alguma imprudência (se o polvo estivesse agarrado a uma rocha e não a seixos soltos, estaria há décadas órfão de pai), mas para mim tem um  ensinamento mais íntimo. Lembra-me que ninguém pode fazer tudo por nós, nem sequer um pai que, sem o saber, limpa o mar dos monstros marinhos. Por isso, não imagino uma vida cumprida sem voltar a nadar naquele mar e vejo-me a cumprir a tal imagem do velho senil, não na versão de pijama, mas equipado com umas barbatanas e viseira modernas que liguem mal com o meu corpo flácido ou descarnado, para enfim nadar sozinho e respirar tranquilo sem nunca olhar para trás.

Publicado pela primeira vez no blog Sinusite Crónica, este post inaugura a série "Dias". 

26
Dez16

Christopher Hitchens morreu há 5 anos

Eremita

"Christopher Hitchens died five years ago this month. For many years, he was a contributor to the TLS, and between 1982 and 1987, while living in the United States and working at the Nation, he also wrote a column, “American Notes”. Below we republish a selection of his pieces, in which he recounts his surprise phone call with Thomas Pynchon, considers the death of Andy Warhol, and gives his thoughts on the literary efforts of Stephen King."

 

Entre outras delícias, Hitchens escreve sobre o escândalo quanto à autoria e credibilidade como autobiografia de The Painted Bird. O livro foi assinado por Jerzy Kosinski, um escritor hoje desconhecido deste lado do oceano, que nasceu na Polónia, sobreviveu à Segunda Grande Guerra e emigrou ainda novo para os EUA, tornando-se uma celebridade nova-iorquina nos anos 80. Suicidou-se em 1991, acto que descreveu assim: "I am going to put myself to sleep now for a bit longer than usual. Call it Eternity." Como se constata, o bilhete suicida é o mais ingrato dos géneros literários, pois os verdadeiros cultores do género só têm uma oportunidade e nunca há um editor por perto. Repare-se que teria bastado riscar a segunda frase para que o bilhete de Kosinski fosse da banalidade à perfeição.

 

23
Dez16

Sultans of Swing

Eremita

1978

 

You get a shiver in the dark
It's raining in the park but meantime
South of the river you stop and you hold everything
A band is blowing Dixie double four time
You feel alright when you hear that music ring

 

1979

 

Well now you step inside but you don't see too many faces
Coming in out of the rain to hear the jazz go down
Competition in other places
Ah but the horns, they blowing that sound
Way on down south, way on down south, London town

 

1983

 

You check out Guitar George, he knows all the chords
Mind, he's strictly rhythm, he doesn't want to make it cry or sing
Yes, and an old guitar is all he can afford
When he gets up under the lights to play his thing

 

1985

 

And Harry doesn't mind if he doesn't make the scene
He's got a daytime job, he's doing alright
He can play the honky tonk like anything
Saving it up for Friday night
With the Sultans, with the Sultans of Swing

 

1988

 

And a crowd of young boys, they're fooling around in the corner
Drunk and dressed in their best brown baggies and their platform soles
They don't give a damn about any trumpet playing band
It ain't what they call rock and roll
Then the Sultans, yeah, the Sultans they play Creole
Creole

 

1991

 

And then the man, he steps right up to the microphone
And says at last, just as the time bell rings
"Goodnight, now it's time to go home"
Then he makes it fast with one more thing
"We are the Sultans, we are the Sultans of Swing"

 

1992

1996

2001

2005

2008

 

2009

2010

2013

2015

 

23
Dez16

Podcasts a explorar

Eremita

Com alguma sorte, evitarei as listas do ano de Pedro Mexia e outros especialistas em listas. Quero mais é que o ano se lixe, porque o meu problema não é o défice, é mesmo a dívida (os clássicos que ainda não li ou vi). Mas não resisto a partilhar esta lista de podcasts feita pela The Atlantic. É uma lista perfeita, ou seja, tem alguns dos meus podcasts preferidos e muitos mais para descobrir, e é sobre o veículo de cultura mais adequado aos nossos dias, por ser o único compatível com o multitasking.

 

23
Dez16

O problema de Ricardo Araújo Pereira

Eremita

[publicado a 19.12.2016, 22.12.2016 e 23.12.2016 ]

Duvido que esse sketch pudesse ser feito hoje. Eu passo o tempo a dizer: “nisto aparece o coxo”, “o Zé” , respondem-me, acrescento, “e vem o marreco”, “o Fernando”, dizem-me e acabo a falar do “mariconço”. Penso que isso hoje seria impossível. No outro dia escrevi uma crónica a justificar-me, na “Visão”, pelo facto de dizer que sou um mariquinhas quando vou dar sangue, e que mariquinhas não tem nada que ver com um homossexual. Há pouco tempo uma pessoa que eu admiro muito contou-me a seguinte história: foi a um bar e pediu um gin tónico. O empregado disse-lhe que só tinha os copos normais e que não tinha aqueles balões “cheios de paneileirices”. Ao que o meu amigo respondeu: “fico ofendido que diga paneileirices que eu sou paneleiro e isso ofende-me”, e o homem desfez-se em desculpas. Quando há gente que diz ‘estes gins cheios de paneleirices’, quem é que associa isso a homossexual? Ricardo Araújo Pereira ao "i"

Como não frequento as redes sociais, chego tarde ao debate provocado por esta declaração de Ricardo Araújo Pereira (RAP) e é provável que não acrescente nada de novo, mas faz-me bem desabafar. Um dos que reagiram foi Eduardo Pitta:

 

...Ricardo Araújo Pereira lamenta não poder achincalhar os mariconços. Eu não sei o que é um mariconço. Será uma bicha de call center? Um entertainer? Lamento pelo Ricardo, homem culto e inteligente, de quem gosto, mas assim não vamos lá. A sorte dele é ser o Ricardo, caso contrário teríamos meio mundo a dizer dele o que Mafoma não disse do toucinho.

 

Vamos por partes. Sobre a primeira frase: RAP "não lamenta não poder achincalhar os mariconços", o que ele frisa é não poder fazer hoje um sketch sobre a censura à linguagem em que use o termo "mariconço", porque as redes sociais lidam mal com as subtilezas, só são capazes de leituras literais e geram dinâmicas que podem ter consequências aborrecidas (reputações destruídas, perdas de emprego, agressões, etc.) para quem arriscou o politicamente incorrecto. Sobre a segunda: apesar de Pitta excluir "mariconço" no apontamento que faz no post sobre o uso de diferentes sinónimos de "homossexual" de acordo com a classe social (não há quem se deleite tanto com a taxonomia das classes), toda a gente sabe o que a palavra significa no contexto do sketch em questão (corresponde ao "bicha" mencionado por Pitta, isto é, aos homossexuais efeminados e exuberantes) e, se dúvidas houvesse, bastaria abrir um dicionário, pois ainda ninguém se lembrou de aplicar aos nossos a purga com que tentaram higienizar o dicionário brasileiro Houaiss. Sobre a última: "ser o Ricardo", para o caso, não é uma sorte, mas um azar, pois se fosse qualquer outro humorista não teria havido polémica (ou seriam outros os intervenientes - eu, por exemplo, teria ficado calado, porque a minha mulher não aprecia Rui Sinel de Cordes). Também Paulo Côrte Real, num texto mais feliz do que o de Pitta, reagiu, com a tripla autoridade de ser um destacado activista pelos direitos dos homossexuais (e não foi o único), amigo de RAP e o cliente ofendido no episódio citado do gin tónico sem frivolidades.

 

Temo que precisemos de recuar alguns anos. RAP nasceu homem e branco, fez-se alto, elegante, másculo, saudável e inteligente, com um sentido de humor superlativo; revelou-se heterossexual, andou (creio) num colégio católico e licenciou-se pela Católica; casou e reproduziu-se (salvo erro, por esta ordem), e, para não destoar mesmo nada, tornou-se adepto do Benfica nos anos 70, o clube dos "14 milhões de adeptos", e ateu em algum momento, hoje a etiqueta mais confortável de se exibir no mundo ocidental em matéria de religiosidade. Resumindo, a julgar pelo que é público e ressalvando uma eventual crise de acne juvenil penalizadora, RAP não passou por quaisquer dificuldades na vida, como um rio ele foi serpenteando o seu caminho por onde a resistência era menor. Excluindo a carrreira ímpar e fulgurante, o seu percurso é convencional. Quando Sammy Davies Jr., que se fez homem nos EUA antes dos movimentos de conquista de direitos civis, se descrevia como "a short, ugly, one-eyed black Jew", tinha muita graça e toda a autoridade. Quando RAP, um privilegiado pela natureza e berço, insiste no humor autodepreciativo, também ainda tem alguma graça, mas pelo absurdo da inverosimilhança e o paradoxo de já não sobrar ninguém em Portugal e nos PALOP em quem aplicar tão descarada manobra de sedução, pois todos nos rendemos (falta-lhe o Brasil, mas é só uma questão de tempo). A sua carreira, sendo marcada por um humor apresentável, sofisticado e com grande penetração em todos os estratos sociais, foi logo aceite pelas elites, que o reconheceram como um dos seus, pela crítica sedenta de um sucessor para um Herman José então em trajectória descendente, e também pelo grande público. O enorme talento, a bagagem literária e o humor público limpo de RAP, sem brejeirices, sem palavrões, sem fulanizações de gosto duvidoso (como as que Bruno Nogueira fez nos primeiros números de stand up), antes insistindo em caricaturas de tipos sociais e revelando uma sensibilidade rara para as particularidades da língua (sotaques, ritmos, tiques e modas), contribuíram para que todos se quisessem associar ao humorista: os grandes canais de televisão, a maior estação de rádio, os festivais literários, as universidades, a ILGA, enfim, todas as capelinhas, incluindo a inevitável Capela do Rato, e toda a gente, dos previsíveis humoristas mais jovens até aos surpreendentes António Lobo Antunes, tendo em conta a sua misantropia, e Marcelo Rebelo de Sousa, talvez numa lógica de "se não podes vencê-lo...", depois de ter sido ridicularizado por RAP no histórico sketch de 2007 sobre a despenalização do aborto, passando ainda pelo caso - para mim trágico - da minha mulher (o link vale como declaração de interesses). Se nem nos tempos da SIC Radical RAP era um fenómeno de contracultura, nos anos seguintes a sua institucionalização foi completa e, se não foi programada, parece ter sido interiorizada, pois de repente os pullovers e T-shirts foram substituídos pelo invariável fato sem gravata. A RAP não falta sequer a obra "transgressora" nunca oficialmente assumida, o livro O Meu Pipi, cuja autoria é um segredo público, como cai bem a um humorista institucional. Nem Herman, repito, nem o grandíssimo Hermann Joseph Krippahl, cujo talento humorístico é superior ao de RAP e conserva o título de principal figura na história recente do humor em Portugal, gozou de tamanho prestígio no apogeu da sua fama, por não ter um humor tão limpo, nem uma vida privada tão convencional, nem ser um literato, apesar de poliglota, antes um homem fascinado pelo dinheiro e o luxo, nem pertencer à esquerda caviar, nem se ter imposto, como RAP, nos nossos dois grandes universos mediáticos, o da política e o do futebol (não temos tertúlias televisivas sobre o music hall, a paixão de Herman).

 

Descontando o livro mais recente do humorista, que parece ser um ensaio (conto oferecê-lo à minha mulher, para depois o ler às escondidas), o trabalho de RAP, sobretudo nos sketches televisivos, nas crónicas e no Governo Sombra, (o que faz na Rádio Comercial é mais alienante) centra-se em tópicos condicionados pela actualidade cuja análise não é complexa nem gera polémica: as socratices, outros casos de (alegada!) corrupção, o abuso, a sede de poder e tudo o mais que é risível na nossa república ainda algo abananada ou as últimas barbaridades de Pedro Arroja e José António Saraiva são - convenhamos - favas contadas. Como é óbvio, o interesse não está no conteúdo, até porque o grosso do pensamento político de RAP é incontroverso e pouco original, mas no humor. Até muito recentemente, o próprio RAP procurou proteger esse registo, por um lado quase nunca abdicando em público da pose controladíssima, o que lhe permite esconder as suas emoções e contornar o concorridíssimo colunismo da indignação, e, por outro, desvalorizando a relevância das suas opiniões, o que lhe aumenta os graus de liberdade (uma postura decalcada das entrevistas de Jon Stewart, que sempre rejeitou o seu peso político, indo a extremos insustentáveis). Curiosamente, até o público benfiquismo doentio de RAP lhe serve às mil maravilhas, pois pelo contraste cria a ilusão de que o humorista só se preocupa mesmo com o futebol e tudo o resto é apenas substrato para piadas. Tudo mesmo? Não. Há dois outros assuntos muito caros a RAP: a sua vida privada (e acabo de esgotar o tema) e a liberdade de expressão. Não é surpreendente. Um humorista, até um humorista institucional, está para a liberdade de expressão como os canários para a qualidade do ar das minas: ele é o primeiro a sentir na pele e por vezes no pescoço o "ambiente cultural", para recuperar uma expressão de RAP; basta lembrar o célebre Seven words you can't say on television, de George Carlin, ou o que sucedeu há uns anos ao cómico francês Dieudonné. Ora, a liberdade de expressão é o único tema em que RAP tem uma opinião que talvez não seja maioritária entre as elites culturais. Regressemos então à actualidade. 

 

Não tenho o hábito de ler as crónicas de RAP e incomoda-me que se considere o humorista um dos nossos melhores cronistas. Desgosto do ritmo do humor escrito de RAP, como se cada parágrafo fosse para ser interpretado e não lido, e precisasse de uma punch line. E aborrece-me também a técnica pura; prefiro a técnica com o nervo (mas sei que ninguém me acompanha). Se li a a crónica na Visão em que o humorista responde a Pitta, foi por ter sido alertado pela minha mulher, que mencionou algumas inconsistências na argumentação de RAP, o que me deixou a salivar. Curiosamente, mesmo com as inconsistências, trata-se de um texto interessante. E porquê? Porque, sendo uma defesa da reputação e incidindo sobre um tema que fascina RAP, tem nervo. Uma má defesa, acrescente-se já, mas uma boa leitura. RAP reforça a ideia de que vivemos dominados por um puritanismo de esquerda. Esta é uma tese que vem fazendo o seu caminho há alguns anos, lá fora e entre nós. Do ponto de vista formal, é uma tese sedutora, até gira, por atribuir à esquerda impulsos censórios mais associados (por ignorância, receio) à direita conservadora crente e identificar uma contradição aparentemente insanável (o puritanismo de esquerda seria tão antidiscriminatório que, ao circunscrever as minorias a tratar com pezinhos de lã, isto é, de forma diferenciada, acaba por discriminar). [publicado a 22.12.2016] A contradição desmancha-se facilmente, bastando lembrar, como se faz aqui, que a esquerda, em teoria, privilegia a igualdade e a direita a liberdade. Mas mergulhemos. Escreve RAP:

Há uma compulsão actual para a literalidade que leva a que certas pessoas acreditem que as palavras têm um único significado. (...) Quando digo às minhas filhas que não sejam maricas, não estou a pedir-lhes que não sejam homossexuais masculinos. Elas sabem, aliás, que se quiserem ser homossexuais masculinos, o pai não se opõe.  

Esta piada, destacada a marcador amarelo, toma por parvos os leitores. Porque, com quase toda a certeza, o que RAP transmite às filhas quando usa o termo "maricas" é que não sejam cobardes ou medrosas, ou seja, não fica provado com o exemplo que o problema seja a "compulsão actual para a literalidade", porque todos os significados de "maricas" (estão no dicionário) têm uma conotação pejorativa, a menos que RAP ande a esconder alguma dos filólogos lusos. Também o que RAP escreveu sobre a palavra "coxo" é conscientemente primário - João Pereira Coutinho fez a mesma graçola, sinal de que "les beaux esprits se rencontrent", sim, e até no jardim infantil. Coxear não tem a carga identitária do sexo, da cor da pele e da orientação sexual, o que deveria ser evidente, qualquer que seja o posicionamento neste debate. Enfim, são raros os textos coerentes escritos a duas mãos e, neste caso, RAP parece ter ficado com a teoria e pedido ao Diácono Remédios que tratasse dos exemplos... o que não significa que a teoria se sustente. RAP agarra-se à distinção entre as palavras e os actos. A distinção tem pedigree mas degenerou, pois os inimigos do politicamente correcto transformaram o "words are not deeds" de Shakespeare, originalmente uma simples observação sobre a inconsequência do discurso por comparação às acções concretas, num mantra libertador. É evidente que incitar à violência e praticar essa violência têm punições diferentes; as palavras não são os actos que designam. Mas não é verdade, como sugere RAP, que haja uma diferença assim tão substancial entre as palavras e os actos. Não é verdade, por exemplo, que apenas nos possamos apropriar das palavras, como ele argumenta: "Uma ofensa pode passar a ser uma honra [referia-se à apropriação da palavra "queer" pelos homossexuais]. Um soco nunca deixa de magoar." Muito bem. Então e quando uma neta pretende que lhe tatuem no braço o mesmo número que os nazis tatuaram no Campo de Concentração de Auschwitz à avó entretanto falecida? Não será este um exemplo de um acto a metamorfosear-se de ofensa em honra? Num homem que para levar à cena um monólogo teve de decorar o How to Do Things with Words, do filósofo John Austin, surpreende que ande por todo o lado a espalhar de forma tão leviana e sofista que as palavras não são actos, pois Austin estudou as palavras enquanto actos e não meras proposições, havendo toda uma filosofia sobre estes actos de linguagem (por exemplo, no momento em que é proferido, um juramento é um acto que compromete a pessoa diante dos outros). Como se não bastasse, RAP lembrou-se de ilustrar a apropriação do termo "queer" pelos homossexuais, não lhe ocorrendo a possibilidade de estar a  frisar que as únicas pessoas com uma autoridade moral natural para subverter as palavras que estigmatizam são as suas vítimas. 

 

Há muitos anos, aprendi que o termo "mongolismo", até então usado por mim com a inocência dos ignorantes, não resultava apenas da parecença entre as pessoas com trissomia 21 e os Mongóis. Reconheço, com algum embaraço, que esta já seria uma razão suficiente para não usar o termo, mas a associação de "mongolismo" e "mongolóide" a uma deficiência é muito mais negra, por se tratar de uma herança do racismo científico que vigorou no século XIX. À época, havia uma divisão dos seres humanos em 5 raças, a Asteca, a Caucasiana, a Malaia, a Etíope e a Mongol, segundo uma hierarquia que, sem surpresa, colocava os Caucasianos no topo. John Langdon Down, tendo reparado em algumas parecenças físicas entre os indivíduos com a síndrome que receberia o seu apelido e os Mongóis ("... A face é plana e larga, destituída de proeminência. As bochechas são arredondadas e alargadas lateralmente. Os olhos estão posicionados obliquamente..."), interpretou a parecença como um caso de "retrogressão", uma espécie de atavismo sistémico que revelava características próximas de uma raça mais primitiva. Só em 1959 teve início o movimento de censura do termo "mongolóide", que envolveu médicos e a própria Mongólia. Trata-se de um caso extremo, por dizer respeito a pessoas com uma deficiência, mas um bom exemplo de que "a linguagem é mais complicada do que parece" (RAP), e que talvez ajude a refrear os críticos do politicamente correcto, hoje tão irritados com o protagonismo dos homossexuais e das feministas. 

 

O actual "ambiente cultural" não é mau. Sendo péssimo em muitas universidades norte-americanas, espaços em que o politicamente correcto se tem vindo a manifestar de forma algo histérica (outra palavra carregadinha de etimologia e História), continua a ser nessas universidades que têm lugar os melhores debates sobre os temas fracturantes, incluindo o que discuto neste post (basta ir ao Youtube). Mas este tema, de certo modo, é um produto importado dos EUA, sem grande correspondência em Portugal (lembra os debates sobre o Criacionismo, um movimento sem expressão entre nós). Salvo erro, os dois casos mais graves de censura cultural neste país praticados por instituições relevantes, nomeadamente as do Estado, incidiram sobre o sketch de Herman a fazer de Rainha Santa Isabel (1988), que não chegou a ir para o ar, e o livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Saramago, vetado por Sousa Lara de concorrer a um prémio (1992). Foi há mais de 20 anos e os pruridos eram dos católicos, não das feministas ou dos homossexuais. O que houve de mais grave desde então? As redes sociais? 

 

RAP queixa-se das redes sociais, na rádio, na televisão, nos jornais e nas entrevistas que o seu agente lhe marca, parecendo não perceber o que levará uma pessoa que não aparece na rádio, na televisão e nos jornais, nem tem um agente, a abrir uma conta no Facebook. De facto, é um mistério insondável. As redes são caricaturadas como um espaço dominado pela trivialidade, a vaidade, a exposição da vida privada, o ódio, a inveja e a maledicência. Não foi essa a minha experiência directa enquanto as frequentei. Cada um tem alguma autonomia para definir a sua rede, sendo possível evitar os radicais dos direitos dos animais que ficam com vontade de assassinar famílias inteiras quando morre um cão. É possível pertencer a uma rede de amigos e pessoas com quem temos afinidades, e usá-la para permanecer em contacto, estar atento ao mundo e encontrar uma namorada, afinal a função original do Facebook. A qualidade média da discussão e da escrita no Facebook, bem como a atenção, é muito inferior à que se consegue com uma rede de blogs, pelo que não me convence como espaço de troca de ideias, e é óbvio que se trata de uma máquina de recompensa imediata, desenhada para viciar. Mas é o que temos e como voz popular sem mediação não se arranja melhor. Para uma figura pública as rede sociais podem ser assustadoras, admito. Antes as figuras públicas escreviam e falavam dos media para uma massa anónima que, excluindo uns quantos telefonemas para a RTP e cartas para os jornais, era passiva, tão passiva, dócil e sorridente como a moldura humana do programa Governo Sombra. Para a figura pública, hoje cada cidadão tem acesso a um púlpito e a massa, antes passiva, encarnou uma propriedade emergente e fez-se um monstro susceptível, caprichoso, cego à ironia e a outras subtilezas de linguagem, pronto a acreditar em qualquer coisa que o indigne, sempre sequioso, e por isso capaz de devorar figuras públicas ou simples cidadãos ao pequeno-almoço. A pressão aumentou, é mais comprometedor falhar e não medir o peso das palavras. Naturalmente, as figuras públicas descobriram-se nostálgicas e mais cautelosas. Um dos sinais dessa cautela foi a transformação de programas de debate com um elevado grau de imprevisibilidade (hoje um perigo) em produtos televisivos ridículos, com cada elemento do painel a debitar as notas que preparou em casa, sem interacção substancial com os outros elementos, que muitas vezes repetem o que foi dito (o Eixo do Mal é o melhor exemplo). Mas não há assim tantos empregos perdidos por causa das redes sociais (ou o exemplo citado não seria sempre o mesmo, curiosamente o de uma simples cidadã que teve muito azar com uma piada no Twitter) e apesar de casos de uma injustiça deprimente, como o que sucedeu ao cientista Tim Hunt, espezinhado pela estupidez das multidões e a mentira, já não há pachorra para os lamentos diários das figuras públicas sobre as redes sociais e o "esgoto" que são as caixas de comentários dos jornais. Se os ilustres colunistas tivessem a humildade de responder nessas caixas aos seus leitores que fizeram os comentários mais pertinentes (são poucos, mas existem), talvez o ar, aos poucos, desanuviasse. Acaba aqui a minha defesa do Facebook, que já abandonei e deve ser defendido por quem não se importa de ocupar um espaço que censura a nudez da menina vietnamita de uma fotografia famosa

[23..12.2016]

Um dos problemas de alimentar num plano meramente teórico discussões sobre a liberdade de expressão e o politicamente correcto é a dificuldade de conceber uma teoria precisa, objectiva e abrangente que vá além do trivial, por nos faltar um referencial comum. No caso presente, não é fácil determinar se, na interacção com o barman, Paulo Côrte Real não se terá mostrado demasiado susceptível, se, na posterior divulgação do diálogo no Facebook, não terá mostrado algum bravado, e se, na resposta a RAP, não terá abusado da vitimização. Quanto a isto, só posso ter dúvidas, nenhuma certeza. Um heterossexual não sabe o que é crescer rodeado de homofobia, um branco não sabe o que é ter a cor de pele errada numa sociedade de brancos, um homem não sabe como uma mulher é condicionada, alguém sem dificuldades económicas e saudável não sabe o que é sustentar uma família com o salário mínimo, nem sabe o que é viver com uma doença crónica ou nascer com uma deficiência. Este desconhecimento é minorado pela empatia, mas a empatia tem limites e fica aquém da imaginação. Porém, sabemos o que é uma reacção proporcionada e somos todos Charlie. Se RAP defende que ninguém tem o direito a não ser ofendido, bem, recorrendo à sua distinção entre palavras e actos, só lhe resta também defender que todos têm o direito de expressar a sua indignação por palavras. E enquanto tudo se resumir a trocas de palavras entre cidadãos, isto é, com censura social mas sem censura oficial (sem leis contra o negacionismo, por exemplo), o "ambiente cultural" não será mau. 

 

Haverá então limites para o humor? Sim, há limites que quando ultrapassados fazem com que o humor se evapore e sobre apenas a ofensa gratuita. Mas são limites fluídos e circunstanciais, que dependem de muitíssimos outros factores e variam de pessoa para pessoa, pois diferimos na autoridade moral natural para fazer humor com os temas delicados. Ninguém pode definir estes limites com precisão, é exactamente como em tempos um juiz do Supremo Tribunal dos EUA escreveu sobre a pornografia: "I shall not today attempt further to define the kinds of material I understand to be embraced within that shorthand description ["hard-core pornography"], and perhaps I could never succeed in intelligibly doing so. But I know it when I see it, and the motion picture involved in this case is not that". Isto é muito incómodo para um humorista, porque não havendo um limite definível e oficial, ele tem dificuldade em se colocar na posição do mártir da liberdade de expressão que luta contra o opressor. E o incómodo atinge o cúmulo no caso de um homem streamlined para o sucesso na sociedade em que nasceu, e por isso com uma capacidade de empatia que será sempre posta em dúvida, e que se tornou no humorista mais institucional do país, o que lhe diminuiu ainda mais a autoridade moral para brincar com os temas delicados. Paradoxalmente, a única safa que o humorista tem é mesmo o humor. É por isso que RAP não deveria andar por aí ubiquamente a espalhar doutrina sobre a liberdade de expressão em entrevistas e crónicas mal amanhadas. Porque, em teoria, ele pode brincar com os "mariconços", desde que a piada seja boa. O seu problema, por se ter institucionalizado, é que a piada deve ser mesmo muito boa. Generalizemos: quanto menor for a autoridade moral natural do autor, maior terá de ser a qualidade do humor que ele nos oferece para não ser vítima da indignação colectiva. RAP já teve mais autoridade moral natural para gozar com os temas delicados e deve senti-lo. Só lhe falta perceber que mudou muito mais ele do que a sociedade. E talvez um amigo chegado lhe possa explicar que não engana ninguém com o humor autodepreciativo. Por isso, insisto: a solução para RAP não é continuar a desmaiar por aí como um canário e a fazer teoria, antes insistir no humor. Precisa é de ser algo tão bom como este sketch de Louis C.K. sobre a palavra "faggot" e outras, um sketch que consegue passar de forma eficaz as ideias que RAP defende de modo atabalhoado e contraproducente quando teoriza. RAP pode até imaginar as atribulações de um trissómico 21 na Mongólia, mas neste caso terá de ser ainda melhor do que Louis C.K. Boa sorte. 

 

 

17
Dez16

Saudades do que não li a tempo

Eremita

Bem avançada vai a leitura de Os Irmãos Karamásov, traduzida pelos Guerra. Como Dostoiévski não é um estilista da frase, o romance pede imersão completa durante longos períodos, quase uma impossibilidade quando há bebés e uma família para sustentar. É um livro para lermos nas férias grandes e na adolescência, livres de obrigações e cheios de dúvidas. Sinto que teria delirado com a conversa entre Alioska (um monge aprendiz) e o seu irmão Ivan (um ateu), caso entretanto não me tivesse fartado dos debates sobre a existência de Deus, em que são trocados argumentos para que no fim fique tudo na mesma. Nada de relevante para este debate aconteceu depois de o russo escrever a sua obra-prima, mais de duas décadas após a publicação de A Origem das Espécies, de Darwin. Desde então, seja por uma vontade natural de insurreição, anticlericalismo de esquerda ou adesão ao positivismo, cada geração assegura uma dose fresca de jovens ateus, carregados de passionate intensity. Comigo o percurso passou pelo inevitável Why I am Not a Christian, de Bertrand Russell. Muitos anos depois, voltei a interessar-me pelas polémicas, mas menos pelo fundamento dos argumentos (que, repito, não são novos) do que pela retórica e o fenómeno sociológico que são os "novos ateístas" (Dawkins, Harris, Hitchens e Dennett), o que revela o meu conformismo e a impressão de que, como jamais nos livraremos delas, mais vale uma religião velha na mão do que duas novas à solta. Que dizer, então? Talvez isto: o livro três abre com a morte de um monge cujo corpo começa a feder durante as cerimónias fúnebres, levantando suspeitas sobre antecipada santidade do defunto. Não sei se esta minha revelação é um spoiler, se o eventual futuro leitor de Os Irmãos Karamásov me rogará pragas depois de ler estas linhas ou esboçará um sorriso ao ler as linhas de Dostoiévski e me derá razão quando afirmo que se trata de um episódio sublime. Mas se apenas o assombro pela técnica sobrevivesse à perda das convicções, seria terrível. Felizmente, sobra também a lembrança do período em que a existência de Deus era uma questão inquietante. E isso basta. 

15
Dez16

Rui Miguel Tovar

Eremita

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obsessão nacional pelo futebol, sem obsessão concorrente à altura que funcione como contrapeso, o baixo custo do jornalismo de opinião e o aparecimento de novos canais de televisão portugueses levaram a que, na última década, a figura do comentador desportivo tivesse passado por uma notável radiação adaptativa, o fenómeno biológico que consiste na formação acelerada de espécies a partir de uma espécie ancestral por ocupação de novos nichos. Não leio a imprensa desportiva, nem acumulo o número de horas como telespectador necessário para elaborar uma taxonomia fina destes novos tentilhões, mas as grandes categorias são fáceis de esboçar: o jornalista desportivo ancestral (Ribeiro Cristóvão e Fernando Correia) e seus herdeiros directos (aqueles três senhores da TVI24, Rui Santos e os impolutos do Jogo Jogado, programa da TSF), o jogador retirado (Futre, Baía, Rodolfo, Álvaro e outros), o árbitro retirado (Pedro Henriques) e o treinador em pousio (Manuel José, Toni e outros), os figurões das "estruturas" dos clubes (Guilherme Aguiar e Rui Gomes da Silva), o comentador de política que também comenta o futebol (Pedro Marques Lopes e Paulo Baldaia), o político que comenta futebol (Helder Amaral, Nuno Encarnação e Eurico Brilhante Dias, mas creio que nenhum deputado da esquerda, tendencialmente mais ascética), o adepto semiprofissional (Pina e aquele senhor que se rodeia de recortes e apontamentos), profissionais de mérito noutras áreas de actividade (Francisco José Viegas, Júlio Machado Vaz, Eduardo Barroso, Carlos Daniel, João Botelho e Rogério Alves), profissionais de mérito duvidoso noutras áreas de actividade (Manuel Serrão e um rapaz  bem falante que noutros tempos cantava em inglês), a mulher bibelô que nada sabe de futebol (Joana Amaral Dias), a mulher conhecedora (Leonor Pinhão e Raquel Vaz-Pinto), e, naturalmente, Pedro Adão e Silva, que forma sozinho a categoria de grande hermeneuta de todos os passatempos. 

 

É fácil desprezar este universo do comentário e, não havendo laços de parentesco, impossível apreciar um indivíduo como Rui Gomes da Silva, mas a diversidade tem pelo menos a vantagem de realçar os mais virtuosos. Ora, um dos meus preferidos entre todos os comentadores é Rui Miguel Tovar (RMT). Tal como refere um actor (4' 14'), frisando as consequências de ser filho de um pai famoso, também em RMT a cara não é um rosto, mas sim uma velha e boa lembrança, a de seu pai, o jornalista desportivo Rui Tovar. Seria porém injusto colar a RMT o estigma do nepotismo, pois se alguma porta o seu pai lhe terá aberto foi a do gosto pelo futebol, que o levou a um conhecimento profundo - quase maníaco - desse desporto. Há uma simplicidade muito empática em RMT, como se pode comprovar nesta sua ida ao programa radiofónico Prova Oral. O episódio tem ainda a curiosidade de mostrar um RMT com uma memória prodigiosa para os factos do futebol, mas falível noutros domínios, pois logo aos 2' 30'' não se recordou do filme que vira na semana anterior e aos 56' 00'' trocou Clark Kent por Clark Gable (embora se apressasse a corrigir o lapso), o que reforça a impressão de estarmos perante alguém com um grau de especialização extrema. Reveladora também é a resposta à pergunta de Fernando Alvim, que não prepara as entrevistas mas sabe transmitir as nossas interrogações mais primárias: e a quem não passou já pela cabeça que a profissão de crítico é trágica, por deixar a suspeita de que só alguém que tentou e falhou ou não chegou sequer a tentar segue esse caminho? Pois bem, RMT nunca se imaginou treinador de futebol e disse-o de um modo tão desarmante que a pergunta perdeu todo o sentido. O jornalista parece conservar uma pureza que muitos dos seus colegas nunca tiveram ou entretanto perderam, por clubite, carreirismo ou mania das grandezas. E é o seu prazer em fazer o que faz que me leva até a tolerar a série Os números do Tovar, uma autêntica máquina de factóides, demasiado aquém da estatística e assustadoramente próxima da numerologia (e.g. "SCP sempre campeão quando ganhou 1-0 no Bessa"). O melhor do futebol são os jogadores? Alguns jogadores e RMT. 

 

 

13
Dez16

Dançar

Eremita

Por exemplo, estamos mais frágeis enquanto dançamos
e por isso só dançamos ao lado de amigos (não somos parvos).
Mas isto é só um exemplo.
                                   Uma viagem à Índia, Gonçalo M. Tavares (tirado daqui)

 
Posso ter adulterado a passagem, retirando-lhe o contexto, mas isolada parece-me absurda. A mesma fragilidade explica que se dance mais facilmente ao lado de desconhecidos que não voltaremos a ver. Aliás, isto é ainda válido para o sexo e as confissões. Parafraseando Pacheco Pereira: mau exemplo, personagem/narrador de GMT. 

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