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Ouriquense

29
Nov16

Menos opinião, sff

Eremita

Ontem, creio que no telejornal da RTP3, a televisão pública regozijava-se com os resultados de uma sondagem que apontavam Portugal como um dos países com canais públicos de informação mais independentes. Na verdade, a sondagem era sobre a opinião que os cidadãos tinham sobre a independência nos canais públicos de informação, o que não é a mesma coisa. Basta pensar que tal opinião é influenciada pelo grau de independência efectiva e pela percepção que o cidadão tem dessa independência, que pode ser influenciada, entre muitíssimos outros aspectos, pelo estado de amadurecimento de uma democracia. Por outras palavras, a sondagem não explicava nada. Esta confusão entre a realidade e percepção da realidade é cada vez mais frequente, em grande medida porque avaliar a independência de um canal público de informação é uma tarefa complexa, demorada e que custa dinheiro, enquanto saber a opinião das pessoas sobre o que quer que seja é muito simples e o que custa alimenta uma engrenagem em que as rodas dentadas da academia, das instituição que financiam a academia, das empresas de sondagens e dos jornais encaixam na perfeição. Acresce que, sendo a opinião dos cidadãos a essência da democracia, a opinião agregada dos cidadãos sobre qualquer tema ganha de imediato uma respeitabilidade que facilita este gato por lebre. 

26
Nov16

A minha mulher e Ricardo Araújo Pereira

Eremita

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Se a mulher se fascina por um pintor, um escritor ou até um cantor de charme, o homem tolera; estatisticamente, o homem é mais filistino do que a mulher e tende a subestimar o poder de sedução da arte. Se a mulher se interessa por um desportista ou actor de cinema, o homem conforma-se; ele sabe que a beleza dos corpos exerce um fascínio irresistível e passageiro. Mas se a mulher se interessa por um humorista, o homem desespera. Se só alguns arriscam um poema de amor e ainda menos confiam no seu olhar, todos esperam que uma piada, uma boutade ou outro aparte, um gesto ou esgar no momento exacto, um trocadilho ou até uma anedota, seja um testemunho sintético da sua grande inteligência e sensibilidade. Uma tese popular, com o poder explicativo ilusório da psicologia evolutiva, diz que o humor é coisa de homens, um talento apreciado pelas fêmeas que se teria apurado ao longo das gerações, isto é, como característica sexual secundária em nada distinta na génese da cauda exuberante do pavão macho. Conheci suficientes mulheres hilariantes para não acreditar neste humor como dimorfismo sexual, retirando da tese apenas a associação do humor à sedução e ao sexo, em todas as combinações de género e número que o leitor conceber. Feita a ressalva, a resposta de Jessica Rabbit, quando interrogada sobre o seu fascínio pelo coelho, encontra-se amiúde nas revistas femininas para mulheres de classe média alta que gostam de fintar as convenções do amor romântico sem ceder à superficialidade da atracção apenas física ou material: "he makes me laugh". Ora, o riso é uma reacção física mais difícil de simular do que outras e, quando suscitado pelo humorista profissional, impõe-se como prova definitiva nos espaços domésticos que tínhamos por inexpugnáveis. É esta associação do humor à sedução e à resposta física irreprimível que faz com que, mesmo sendo o humor uma das artes menos prestigiadas, o humorista seja o mais perigoso dos objectos de desejo entre as profissões, com a possível excepção do cardiologista pediátrico. 

 

Ricardo Pereira Araújo (RAP) é a maior ameaça à paz conjugal dos portugueses na casa dos quarenta por combinar um talento de humorista inquestionável a outras características apelativas, a começar pela fama e o sucesso. Apesar de em muitas fotografias ele surgir com expressões caricaturais à custa de um abuso do sobrolho, trata-se de um homem atraente, com traços másculos e uma altura que nos esmaga, culto e com as opiniões apresentáveis da esquerda bem pensante. Naturalmente, a minha mulher adora RAP, as filhas da minha mulher adoram RAP, as nossas bebés adorarão RAP um dia e a minha mãe adoraria que eu me vestisse como RAP. Este quadro coloca alguns problemas, sobretudo porque eu não consigo deixar de gostar de RAP. Quando percebi que a minha mulher era fã do humorista, tentei forçar o meu desdém pela figura, não indo além de concluir que as suas crónicas - tão apreciadas - veiculam opiniões triviais e sofrem de excesso de técnica, e que, enquanto voz da esquerda, falta estofo ao humorista. Mas quando o ouço falar, é impossível não lhe reconhecer uma graça e inteligência que cedo fizeram dele o herdeiro natural de Herman José. A solução foi evitar escutar ou ver RAP na presença da minha mulher, pois quando a ouvi rir por causa dele com a alegria que me encanta senti algo que apenas conhecia da literatura, do cinema e de alguns desabafos de amigos, mas que me era tão estranho e abstracto como o medo para os Normandos até ouvirem o canto do bardo Assurancetourix: o ciúme. 

 

 

 

26
Nov16

A lei geral

Eremita

Assim, também perante os mastins do Engenheiro (e sem dúvida perante os dois setters que estão no café com a jovem amazona), o que intriga é o instinto de classe dos cães das casas abastadas, a maneira como escorraçam o pobre e como emparceiram com o rico, ainda que não o conheçam. Avaliam o suor da miséria pelo faro, é o que se depreende. E pelo olhar, a timidez. (Como se comportarão os dois setters ali, diante do perdigueiro do Batedor?) Até entre os cachorros a lei geral é simples, acompanhando-se ou repelindo-se conforme a autoridade com que vêm dotados, porque todos são portadores dos cheiros da fome ou da abundância dos patrões. José Cardoso Pires, O Delfim

20
Nov16

Equidade intergeracional

Eremita

A juventude alimenta-se do que as garras apanham, e os antigos defendem-se das gerações insaciáveis atirando carne podre. Herberto Helder in Photomaton & Vox

19
Nov16

Da palpitante urgência de condicionar

Eremita

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Dizem-me que Valério Romão é um dos nossos melhores escritores. A julgar pela citação, estamos bem tramados. O comentário que li no Elogio da Derrota é certeiro: do estilo ao conteúdo, passando pela lógica, nada se salva na passagem cuja única virtude parece ser a síntese difícil de abjeccionismo e conservadorismo. Valério Romão lamenta o desaparecimento de um tempo que só ele se lembra de ter existido. Um tempo em que a foto da pin up servia de musa diante da qual, sozinho no seu quarto, o adolescente borbulhento calejava a mão compondo poemas. Nesse tempo, ninguém tinha a cabeça poluída pelos ícones sexuais promovidos pela cinema e a publicidade, ninguém era escravo de um desejo massificado que o mercado controlava e, em particular, as mulheres, últimas guardiãs do amor romântico, só abriam as pernas diante da criatura singular que seria hoje um amante improvável. Enfim, Valério Romão remata dizendo que não evita a risota. Já somos dois.   

 

 

18
Nov16

Óculos de ler

Eremita

Não sinto a vista cansada quando leio, mas porque adormeço primeiro. A verdade é que já vou afastando rótulos e outros papéis quando preciso de os ler, reproduzindo a postura que denuncia a falta de vista. Ontem a L. deixou-me sobre a secretária um par de óculos de leitura baratos, como forma de me aliciar a marcar uma consulta no oftalmologista. Os óculos cumprem na perfeição essa função: são eficazes q.b. para me convencerem das vantagens de usar óculos, mas tão banais que não haverá o risco de a eles me acomodar. Na passagem que inaugura o período da vida em que passei a ler com óculos, Lise deixa-se beijar por Aliocha, um dos irmãos Karamásov. Quanto à prosa que encerrou o período das leituras sem óculos, creio que foi uma passagem inicial de Disgrace,  de Coetzee, em que se descreve a relação do professor com a prostituta. Os úlitimos pensamentos do dia foram para os grandes polidores de lentes, reais ou apócrifos, como de Antonie Philips van Leeuwenhoek e Baruch Espinoza. Podemos forçar afinidades animados pela megalomania, mas apenas no escuro do quarto. 

16
Nov16

Ventania

Eremita

Bob Dylan, afinal, não vai a Estocolmo. A oscilação de humores do bardo faz-me encarar a velhice com optimismo. 

 

 Adenda crítica de Nuno Salvação Barreto (o censor): devias voltar para o Twitter, aqui exige-se mais. 

 

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