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Ouriquense

29
Mai16

Baby TV

Eremita

Ontem, pela primeira vez, aos nove meses e quatro dias de idade, a M. preteriu-me. Aproximei-me já de careta armada, mas com as suas mãozinhas resolutas ela afastou a minha cabeça para libertar o campo de visão e poder continuar a ver a bonecada na TV. É claro que as bebés já tinham revelado tropismos por comida, brinquedos e teclados, sorrisos empáticos, movimentos ritmados em resposta a músicas e outros sinais de contentamento, bem como berrarias de protesto ou desconforto, mas este gesto, por simultanemente manifestar uma opção fora do campo das necessidades fisiológicas e um desejo de emancipação, marca o nascimento de uma personalidade. 

29
Mai16

Sacudir o sangue do capote

Eremita

Uma idosa, de 69 anos, matou outra, de 88 anos, com uma bengala, no domingo à noite, no lar da Santa Casa da Misericórdia de Ourique, no Alentejo, disse hoje à agência Lusa fonte da GNR. DN

 

Sobre esta tragédia, a Misericórdia de Ourique apressou-se a divulgar que a alegada homicida "estava a ser acompanhada pelo serviço de psiquiatria do hospital de Beja, que lhe concedeu altas consecutivas". Entretanto, a Dra. Ana Matos Pires*,  directora do serviço de psiquiatria visado, enviou um esclarecimento ao Diário do Alentejo em que desmente as afirmações levianas da Misericórdia de Ourique e acrescenta algumas considerações que me pareceram pertinentes e exemplares, no teor e na forma, do que deve ser um esclarecimento público.

 

Trabalhar com pessoas com perturbações mentais é uma profissão dura, no sentido em que o risco de uma tragédia nunca pode ser posto de lado. À pergunta "como pôde isto acontecer?", que logo surge nos espíritos com queda para a indignação fácil, deveria imediatamente suceder esta outra: "como é que isto não acontece mais vezes?" 

 

* Declaração de interesses: tornei-me amigo da Dra. Ana Matos Pires quando vivia em Lisboa e admiro-a pela frontalidade e empenho na profissão.

27
Mai16

Gonçalo M. Tavares

Eremita

Nunca o li com o tempo e atenção que merece. Mas já o folheei várias vezes, sobretudo os livros que registam pequenas reflexões (sobre música e ciência, nomeadamente). Fascina-me que não haja leitores cépticos e que GMT seja a nossa discreta unanimidade nacional. Mais do que ter criado um estilo novo, fica a sensação de que o escritor inventou um nicho, único entre nós, em que funde ficção, poesia e filosofia. É algo que não se consegue sem mérito e só um idiota não repararia no gozo contagiante que GMT tem no acto de pensar, mas certas passagens mostram uma facilidade de escrita que não contribui para a qualidade da reflexão. Fica a dúvida: haverá críticos em Portugal capazes de analisar a obra de GMT, o mais filosófico e destacado escritor português do XXI? Não faltará ao crítico luso típico que escreve na imprensa competência em Filosofia para escrutinar GMT e ao filósofo profissional a vocação (e tradição) para criticar um escritor que se move na esfera comercial, fora da academia? Por outras palavras, quando será que António Guerreiro, o mais competente dos críticos literários com formação em Filosofia, porá de lado três semanas para merguhar na obra de GMT e nos oferecer a crítica definitiva? Parece-me que seria um emparelhamento mais frutuoso do que o de Guerreiro com Rentes de Carvalho

 

Adenda: com uma ajuda do Google, descobri que António Guerreiro apresentou já um livro de GMT. Naturalmente, tratou-se de o Atlas do Corpo e da Imaginação. Isto significa que Guerreiro apenas precisaria de duas e não três semanas para escrever uma crítica de 4 páginas (broadsheet, num número especial do Público) sobre a obra de GMT.  

26
Mai16

Dos limites da empatia

Eremita

"und wenn Don Fernando Philippen mit Juan verglich, und wie er beide erworben hatte, so war es ihm fast, als müsste er sich freuen"

 Apenas um par de horas depois de ter escrito o último post, terminei o conto Das Erdbeben in Chili, de Heinrich von Kleist (como não sei alemão, li a tradução para inglês). A última frase, citada em epígrafe (no original, que poucos perceberão, para que possam ler o conto e apreciar o final desconcertante), sugere que subestimei o modo como as artes tratam o amor paterno. É bem possível, pois a minha empatia tem limites e só depois de ser pai comecei a reparar na forma como o mundo nos trata. É quase sempre assim. 

25
Mai16

Uma estreia sem ensaio

Eremita

Mesmo um pai tardio não passou por experiências que o informem sobre o amor que terá pelos filhos, pois - se tiver tido sorte -  conhecerá apenas o amor romântico, o amor dos seus pais e a amizade profunda. Entre outras diferenças, o amor pelos filhos distingue-se do primeiro por ser menos volátil,  do segundo pelo sentido de responsabilidade e da amizade pela desigualdade que não existe entre pares. As artes tendem a secundarizar o amor filial face ao amor romântico e, como se não bastasse, os exemplos mais famosos são horrendos, como o de Abraão, esse fanático obediente, e o de Cronos, o antropófago filicida em série. Naturalmente, também no número de referências e na boa imprensa o amor paterno  perde quando comparado ao amor materno. Não existindo substrato cultural, sobram as referências pessoais, em particular o amor paterno que se sentiu e se procura emular ou cuja falta se notou e se promete evitar, mas tais recordações não incluem a fase em que o filho era um recém-nascido, pelo que o período crucial constitui uma estreia sem ensaio geral.

 

O amor incondicional é instantâneo? Se não for instantâneo, só pode depender de um mecanismo que é posto em marcha pelo simples facto de o bebé existir ou vir a existir e, tal como certas infecções resultam sempre em doença ao fim de um período de incubação, não pode depender, por exemplo, de um primeiro sorriso, pois então não seria incondicional. Mas se é instantâneo, em que momento devemos senti-lo? Quando a futura mãe nos comunica que está grávida? No momento da primeira ecografia? Quando nasce o bebé? Sei hoje a resposta, mas passei praticamente toda a vida sem imaginar a pergunta. 

25
Mai16

Karl Ove Knausgård

Eremita

 

Captura de ecrã 2016-05-25, às 09.25.02.png

 

Salvo erro, ouvir falar em Karl Ove Knausgård num podcast da BBC. O escritor, que escrevia uma série monumental de livros autobiográficos e tinha um sucesso sem precedentes na Noruega, havia já sido traduzido para inglês e começava a ser elogiado pelos colegas de profissão por não fazer concessões na forma como expunha a sua intimidade e a da sua família; seria um caso raro de um escritor de escritores com sucesso comercial. Decorei o seu nome, mas não cheguei a comprar um dos seus livros. Alguns anos mais tarde, era a barriga já indisfarçável. L. começou a ler Knausgård com grande disciplina, depois de terminar a tradução que os Guerra fizeram dos Karamásov. Todas as noites, na cama, ela lia o nórdico. E nas tardes  de Julho e Agosto, estando eu a trabalhar, no escritório ou fora de casa, fosse no monte ou na oficina do Judeu, ela, obrigada a descansar por recomendação médica e a resguardar-se do calor, alternava entre o quarto e a sala sem largar o raio do viking. Eu já jantara sem qualquer desconforto com L. e um antigo amante dela. Reconheço que a reduzida estatura do indivíduo facilitou a minha urbanidade, ao ponto de L. ter até denunciado alguma frustração pela minha falta de ciúmes, naquela e ainda noutras alturas, como quando numa rara ocasião ela comentou a beleza de um estrangeiro com pinta de intelectual alemão consciencioso que connosco se cruzou em Ourique. Sendo eu muito competitivo, a falta de ciúmes que sempre me acompanhou é algo surpreendente, sobretudo nos quatro casos teoricamente trágicos em que fui trocado por outro. Mas naquele Verão senti ciúmes de Knausgaard. Muitos ciúmes. Seria por L. estar grávida? Por ela ser uma boa leitora, ele um escritor famoso e eu um simples blogger? A leitura precedente dos Karamásov permite descartar hipóteses. Dostoiévski é um escritor incomparavelmente mais consagrado do que Knausgård e não me despertou ciúmes. Duvido que  o ar enfermo do russo seja relevante. A grande diferença é o perigo de L. um dia largar tudo em busca de Knausgård ou, de algum outro modo mais verosímil e menos radical, começar a interagir com ele. Generalizando o modo como John Updike foi descrito, na sua essência um escritor é um "penis with a thesaurus". A conclusão pareceu-me então óbvia e inevitável: daí em diante, oferecer a L. apenas livros escritos por mulheres ou então de escritores mortos, de preferência em avançado estado de decomposição. 

 

 

22
Mai16

XXI

Eremita

 

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Galata Morente

A privação cultural a que Ourique me submete é atenuada pelas sessões no cineclube, as emissões especiais do meu enviado à capital e a biblioteca do Judeu. Como a minha própria biblioteca tem sido pouco discutida, há um esforço consciente para censurar referências à biblioteca dele, mesmo sendo a comparação desleal, visto que a minha é uma biblioteca em construção, de tendência minimalista, e a dele já senescente, mas tão ambiciosa que provavelmente não há outra biblioteca pessoal a sul do Tejo tão grande, excluindo a de Pacheco Pereira. 

 

Peguei ontem num calhamaço sobre a arte dos romanos. É um daqueles livros que antes se compravam através do Círculo de Leitores, bons para encher as prateleiras da sala, mas nunca propriamente lidos, apenas folheados, e tão iguais a tantos outros que olhamos para eles como obras anónimas, o que agradará por certo aos seus autores, pois há nesses livros todas as indicações de que são meras oportunidades de negócio para académicos remediados. 

 

Fui folheando da frente para trás, que não só é a forma de folhear mais confortável para um canhoto, como a que melhor frisa o desprezo pelo texto. E fazia-o com tal rapidez que, se as estátuas  fossem um pouco mais estereotipadas e tivessem sido fotografadas sempre do mesmo ângulo, a passagem das folhas teria resultado na animação cómica de um tronco másculo estático com  braços em rotinas de break-dance. Mas quando dei com Gala Morente, a dança acabou. 

 

Creio já ter referido o critério de demarcação que distingue a heterossexualidade da homossexualidade. É um critério implicitamente tosco, como todos os critérios que forçam a dicotomia, mas que funciona bem como tought experiment e julgo ter colhido ao longo de vários anos abundante evidência empírica de que funciona, embora seja apenas a minha evidência. Enuncia-se assim: perante um corpo do mesmo sexo atraente, no homossexual predominará  a vontade de conquistar e no heterossexual a de encarnar. 

 

 

21
Mai16

O amor paterno em tempos de feminismo

Eremita

Captura de ecrã 2016-05-14, às 11.17.12.png                                                                                              Foto de Johan Bävman

 

Sabe-se que o homem, tradicionalmente essencial no momento da concepção, é uma personagem secundaríssima no momento em que a mulher dá à luz e, em circunstâncias normais, muito tempo passará até que o pai se equipare em relevância à mãe, sendo incluse muitos os casos em que isso nunca chega a acontecer. Trivial. Sucede que as conquistas do feminismo criaram alguma confusão na cabeça de quem se estreia como pai. Enfim, talvez esta seja uma generalização abusiva e a confusão apenas minha, tratando-se de algo inconfessável e por isso ausente do espaço público, menos por vergonha de quem contaria do que por dificuldade em encontrar alguém com paciência para ouvir. Feita a ressalva, avancemos. 

 

As ideias de Freud já viveram dias melhores e a noção de "inveja do pénis" soa hoje a folclore intelectual datado, mas a progressiva igualdade de género, por vezes feita à custa de uma desvalorização absurda de diferenças biológicas óbvias, está a forjar o complexo simétrico: a "inveja do útero" - note-se que a passagem só é contraditória se o conceito for interpretado de forma literal, o que seria um erro. Uma manifestação deste complexo veio da Escandinávia, essa espécie de paraíso possível na Terra que nos diz como deveríamos todos viver em sociedade. Para promover a igualdade de género, um fotógrafo decidiu documentar a rotina de pais que gozam de uma licensa parental extensa. Descontando o cuidado exagerado na composição de muitas cenas, que assim perdem espontaneidade, qualquer pai recente se reconheceria naquele papel e as fotografias são enternecedoras; não aparecem pais com barrigas artificiais ou em qualquer outro exercício de empatia ridículo. O único problema é que este apelo à igualdade de género acaba por frisar a desigualdade. Os homens estão hoje numa posição em que lhes é pedida a prova de que serão pais mais presentes e cooperantes do que os da geração anterior. À mulher, pelo contrário, aplaudimos as manifestações públicas de estados de alma sobre o seu papel de mãe. O exemplo famoso mais recente, que anda a fascinar todas as intelectuais e me foi dado a conhecer pela minha mulher, é o da escritora Elena Ferrante (1 e 2), embora nem sequer se trate de uma pioneira. Doris Lessing, sem a armadura do anonimato e muitos anos antes da italiana, ganhou fama de ter preterido a maternidade em favor da carreira, “committing the unforgivable”. “There is nothing more boring for an intelligent woman,” terá dito, “than to spend endless amounts of time with small children.” Proferidas por uma mulher, herdeira de uma tradição que a sobrecarregou, estas são palavras corajosas e rebeldes. Se um homem disser o mesmo, ou até se fizer uma alusão mais subtil às contradições da paternidade, será acusado de negligência, frieza, irresponsabilidade e canalhice. Que margem de subversão resta então aos homens? Nenhuma. Mas podemos esperar que em casa todos adormeçam e, em segredo, abrir um livro de Ferrante. 

 

 

 

 

21
Mai16

A solidão como disciplina

Eremita

Após anos de presença intermitente nas chamadas redes sociais, creio que as deixei de vez ou pelo menos durante um longo período a elas não regressarei. Poderia dar uma explicação nobre, como a necessidade de ganhar tempo para ler e escrever, agora que os afazeres domésticos com as bebés não dão tréguas, o número de livros por ler atingiu máximos históricos e a noção da finitude da existência se vem avivando. Mas tal explicação, não sendo errada, ficaria incompleta. Em rigor, uma das motivações para estar nas redes sociais era o conforto da sedução de sofá, isto é, a possibilidade de a qualquer instante poder interagir com uma mulher que me atraísse, como prelúdio para eventuais encontros carnais. Sendo esse modo de vida incompatível com o meu entendimento da conjugalidade, as redes sociais perderam muito do seu encanto. Acrescento ter concluído que não era popular, pois tinha um número modesto de amigos, likes, retweets, comentários e nunca assinei um post viral, o que gerou alguma frustração, e que foram raríssimos os momentos gratificantes em que descobri algo imperdível ou tive uma troca de palavras memorável. Nunca voltei a sentir nas redes sociais, fosse no caldeirão de emoções do Facebook ou na torrente de ironia esforçada do Twitter, o mesmo entusiasmo que os blogs me deram entre 2003 e 2007. Nesse tempo, sobretudo logo nos primórdios (2003-2004), só por lá andava quem gostava de escrever e recordo hoje textos, polémicas e outras interacções com um sorriso discreto; nas redes sociais, anda quem gosta de aparecer e a massificação banalizou o meio. Oscilando entre as explosões de indignação que caracterizam as caixas de comentários dos jornais online e tendo trocado o elitismo pelos prazeres fáceis, o ambiente das redes sociais é como um táxi em que o taxista  barafusta com o mundo mas ouve sempre a alienante Rádio Comercial

 

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