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Ouriquense

13
Mar16

O dia mais feliz da minha vida

Eremita

No passado 24 de Agosto, levantei-me ainda mais cedo do que é costume. Queria chegar ao monte antes da alvorada, para poder fotografar a ribeira e algumas das azinheiras velhas com boa luz e melhores ângulos. Impelia-me, como quase sempre desde que L. engravidara, um ímpeto empreendedor. Nunca a necessidade de ganhar dinheiro fora tão urgente e forte. Passei a interessar-me por tudo o que me parecesse uma boa oportunidade de negócio, embora ainda guardasse alguma lucidez para concluir que andava a perder demasiado tempo com tais pensamentos. O novo projecto, a conjugar com as traduções e actividade de ghost writer, seria o turismo rural. É claro que precisava de dinheiro para recuperar o monte, precisava de know how, e talvez precisasse de dinamitar toda a oferta turística similar num raio de 100 km, mas resolvi começar pelas fotos para o futuro portal: "Cotovio, ao Reencontro do Silêncio" (nome provisório). 

 

Tirei boas fotos. Passarada em contraluz com fundo de céu rosado, umas macros de tronco de azinheira colonizado por líquenes amarelos e esverdeados, o magríssimo caudal da ribeira no Verão transformado com alguma mestria em veio de prata. Entretido nestes afazeres que tanto prazer me dão, só pelas nove da manhã reparei que tinha chamadas por atender e uma sms enviada pela M. por volta das oito: "Rebentaram as águas!" Atarantado, telefonei à L. Disse-me que estava bem e já a caminho de Beja, de táxi. Não me repreendeu, procurou acalmar-me; parecia animada e tranquila, creio que por se tratar da sua terceira vez. Meti-me no Citroën fazendo contas. Concluí que deviam estar às portas de Beja (são apenas 60 km), mas convenci-me de que os iria apanhar e resgatar a minha família daquele taxista. Pelo caminho, telefonei ao meu pai, ao meu irmão, à P. e ao Judeu. Todos acusaram a importância do acontecimento, embora o Judeu me tivesse sobretudo advertido para não puxar muito pela viatura. Naturalmente, fiz a maior parte do percurso acima do limite de velocidade. Ainda antes de Castro Verde, conformei-me com a ideia de ser um prestador de serviços profissional que raramente voltaríamos a ver a assumir o papel que devia ser meu; não iria suportar se tivesse sido o Judeu a levá-las.

 

Encontrei-as na sala de espera da maternidade e se tivesse chegado um punhado de minutos depois já não teria visto o sorriso de L., que desapareceu atrás de uma porta automática. Ficámos então os três e mal a minha mãe se levantou para ir tomar um café, a M., sem sequer me fitar com os seus olhos avassaladores, sentenciou: "este é o dia mais feliz da tua vida". Não havia qualquer vestígio de incerteza naquela afirmação. Nos meses precedentes, M. perguntara-me com frequência: "estás feliz?" Eu dizia-lhe que sim, mas creio que sem a convencer, porque não sou de grandes histrionismos, nem de exuberância afectivas, e ainda porque, ignorando como eu era antes de começar a namorar a sua mãe, M. não poderia saber que eu era agora menos infeliz e até - o que não é a mesma coisa - mais feliz. A partir do momento em que M. me comunicou qual era o meu humor, passei a funcionar como um actor que interpreta em palco o dia mais feliz da sua vida. Instantes depois, no bar, lembro-me perfeitamente de me perguntar que salgadinho escolher no dia mais feliz da minha vida. Obviamente, pedi um pastel de massa tenra.

 

Foi pouco depois da uma tarde que nos chamaram. Subi apenas com a M. e lembro-me de lhe ter tocado nos ombros; foi apenas por um instante, mas significativo, tendo em conta a falta de empatia entre uma adolescente e um padrasto recente, se me é permitida esta generalização reconfortante. Ao entrarmos na sala, o cubículo de L. era o primeiro da esquerda. As bebés estavam à direita da cama nuns suportes de acrílico feios e funcionais, a lembrar mobília doméstica de filme de ficção científica com baixo orçamento. Não sei para quem olhei primeiro, se para elas ou para ela; era um olhar que queria abarcar as três. Chorei de emoção, mas com aquela dúvida de não saber se chorava o suficiente e já a certeza de que passara a vigiar todos os meus actos dominado por uma hiperconsciência extracorpórea, como se, no preciso momento em que L. deu à luz as nossas gémeas, por um qualquer orifício o meu superego tivesse saído de mim na forma de um bicho agil que passou a seguir-me agarrado aos tectos da maternidade sem que pudesse ser visto.

 

A partir de uma altura que não consigo precisar, comecei a associar a paternidade à imagem de um torpedo a ser disparado de um submarino. Sem me orgulhar da associação bélica e fálica, a imagem ainda me intriga. Não duvido de que resulta das muitas tardes a consumir cinema de Hollywood sobre a Segunda Grande Guerra Mundial, mas qual o seu significado? Uma interpretação: a paternidade é vista como um trunfo derradeiro que se usa numa situação extrema e no qual se deposita grande esperança, a mesma com que os marinheiros enclausurados num submarino maltratado por cargas de profundidade seguem a trajectória do seu último torpedo. Talvez por não ser possível representar o futuro, na minha imagem não aparece um casco de contratorpedeiro a abater, nem nenhum outro alvo. E o fim fica em aberto, porque o torpedo não chega a rebentar.

 

Não pensei em submarinos no dia mais feliz da minha vida. Antecipara uma experiência quase mística, arrebatadora, de uma felicidade pura e experimentava algo muito diferente: uma alegria sem a energia dos triunfos nem a tranquilidade das revelações apaziguadoras; uma felicidade impura, não só por poder distinguir os seus diferentes elementos (a cumplicidade com L., o alívio por tudo ter corrido sem incidentes, a concretização de um desejo antigo e persistente), mas por se misturar também com outras sensações, como a inquietude e um pudor que me impedia de agarrar nas bebés, cobri-las de beijos, atirá-as ao ar e inventar-lhes logo ali uma enxurrada de nomes ternurentos. Para todos os efeitos, tratava-se de um primeiro encontro, a cerimónia fazia algum sentido. G. estava embrulhada num pano com um axadrezado miúdo laranja sobre fundo branco e o de B. tinha o mesmo padrão, mas era verde - devo um agradecimento a quem se lembrou de não as vestir de igual mal chegaram ao mundo. Embrulhadinhas, pareciam duas matrioscas irredutíveis, de olhos fechados e rosto engelhado. Há uma foto desse dia em que a L. vigia as bebés da cama, com um olhar doce e cansado. Se algum dia for obrigado a escolher apenas uma e queimar todas as outras, será essa a foto que salvarei.

 

As regras da maternidade abreviaram o encontro com as bebés e L. Despedi-me beijando as três e fiz-me de imediato à estrada. Ainda falei com alguém ao telefone, mas o bicho ágil espreitava com olhar reprovador do lado de fora do pára-brisas e não repeti a infracção. Concentrei-me na paisagem e lembrei-me da passagem ...butcher grass, invaginate volunteer beans, all heads gently nodding in a morning breeze line a mother's soft hand on your cheek, apesar de nada bater certo com o que via, pois era outra a vegetação, o sol já tombava e nos campos ceifados só sobrava restolho, que não se deixa acariciar pelo vento. Pouco importava o desacerto entre o Midwest e o Alentejo, se era na mão da minha mãe sobre a minha bochecha que pensava, naquele que foi o primeiro curto-circuito geracional de muitos provocados pela nova condição de filho e pai.

 

Cheguei a casa do Judeu no momento em que a iluminação pública foi ligada. Ele estava à porta e gritou, teatral: "Ourique também deu à luz!" Abraçámo-nos, comemos enlatados e depois fui com ele fazer mais uma experiência com lubrificantes no baloiço da casa do meu tio. Largámos o baloiço por volta das 11 da noite e enquanto acompanhávamos o seu movimento pendular, o Judeu foi-me falando do filho dele, como nunca antes o ouvira. A dada altura, pôs-me o braço sobre os ombros, apertou-me com se procurasse com os dedos a minha clavícula esquerda e disse: "Hoje é o dia mais feliz da tua vida".

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