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Ouriquense

25
Jan15

7

Eremita

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Foi muitos anos antes da banalização da internet que Julião revelou um interesse anormal pela política. O tema não era discutido em casa, excepto quando ao serão apareciam uns colegas do pai, mas consumia-se muita televisão, sobretudo os noticiários, as telenovelas, o futebol e os programas de debate político. Tudo começou por ser um simples mimetismo de criança fascinada pela animação que os debates televisivos despertavam nos seus pais. Naquela noite, até a mãe, que geralmente resumia séculos de ciência política ao batido "são todos iguais", fez comentários surpreendentes para os ouvidos de Julião, em particular o enigmático "tem uma bela cabeça". O que era uma "bela cabeça"? Uma cabeça de formas harmoniosas? Uma cabeça de onde emanavam pensamentos bons e justos? Julião não esclareceu a dúvida, mas escutou com atenção redobrada todas as palavras do homem da bela cabeça. E a certa altura, como quem descobre um brinquedo no caminho para a escola, ouviu-lhe a palavra "Lombroso", a que se seguiu um segundo brinquedo: "Frenologia". Que maravilha. Quem era o Lombroso? O que era a Frenologia? O pai já havia delegado o esclarecimento das questões difíceis para a enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura da Verbo, com o argumento irrebatível de que o impulso da consulta das enciclopédias, manuais e dicionários era emancipador. No fim do debate, Julião apressou-se a ler sobre Lombroso e a Frenologia, experimentando o gozo imediato de perceber que, curiosamente, se tratava de uma teoria sobre as formas das cabeças malévolas. Procurou ainda informação sobre o homem da bela cabeça, não lhe ocorrendo que talvez a data da edição tivesse remetido o verbete para um dos volumes suplementares de actualização da enciclopédia. Mas estava traçada a estrada de aproximação infanto-juvenil ao Partido Comunista Português, que nunca poderia ter sido a influência parental, poderia ter sido a percepção da desigualdade de oportunidades e acabou por ser o fascínio intelectual pelo líder do partido. Não durou os anos necessários para que Julião tivesse marcado presença nas cerimónias fúnebres de Álvaro Cunhal. 

17
Jan15

6

Eremita

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Importa realçar o trilinguismo de Julião. Filho de mãe belga e com um pai adepto da cultura norte-americana, Julião cresceu alternando o francês com o português em casa e dominando o inglês na Carlucci American International School of Lisbon, instituição onde teria feito todo o liceu, não fosse ter saído em ruptura num momento em que chegou a ponderar uma adesão à Juventude Comunista Portuguesa e, com uma visão do mundo já moldada por centenas de horas de vídeos sobre o política norte-americana nos anos 70, o Verão Quente e as actividades do grupo Carlyle, passou a ser um imperativo de consciência cortar qualquer vínculo com o nome "Frank C. Carlucci". A frequência do décimo segundo ano numa escola pública, sem amigos nem os estímulos e rotinas a que estava habituado no colégio, só reforçaram o vício do Youtube. Julião passou a sistematizar as suas pesquisas e a impor algumas regras, como respeitar uma quota vaga que deveria andar por volta dos 30% de francofonia, privilegiar o documentário ao debate e o debate à notícia, ver pelo menos os 10% iniciais do conteúdo antes de desistir, ouvir os dois lados, evitar programas de humor, ignorar os jovens e não perder tempo com vídeos de opinião amadores, em particular aqueles em que o opinador se dirige ao mundo de um quarto desarrumado ou com mobiliário IKEA. Julião disciplinava-se para aprofundar áreas em que se sentia frágil e pressentia que poderiam vir a ser úteis, como a Filosofia, a História e a Retórica. Invariavelmente, a abordagem era cronológica e iniciava-se com os Gregos. Mas o essencial  do "processo" (sic) de Julião era a "fulanização exaustiva" (sic). Adoptando para o online o método anunciado com desconcertante orgulho por Michel Onfray, a saber, ler tudo, incluindo a obra, a biografia e a correspondência, Julião via todos os vídeos de um autor antes de passar ao autor seguinte. Daí ele poder dizer que estava na semana Onfray, Dawkins, Bataille (durou dois dias, em rigor), FinkielkrautTariq Ramadan, Friedman, Amis, Vidal, Chomsky, Buckley ou Hitchens (Christopher antes de Peter), entre dezenas de outros fazedores de opinião, divulgadores, filósofos,  artistas, políticos e diletantes. O discurso de Julião ficava assim muito vulnerável a picos de sapiência transiente, tanto na substância como na forma, mas ao jantar os pais eram um público predisposto ao aplauso. Os problemas só começaram a surgir quando, além do discurso exercitado em casa, também certos gestos de Julião passaram a reflectir a obsessão da semana. Um exemplo extremo foi o primeiro vídeo de galanteio enviado por ele. Enquanto os seus colegas partilhavam canções das bandas da moda, não forçosamente delicodoces, mas capazes de anunciar um pretendente sensível ou cúmplice, Julião sentiu-se tentado a desafiar a rapariga com um vídeo de Soral, o ex-Front Nacional, polemicista, conspiracionista, antissemita e misógino, só porque nessa semana andava fascinado com o bordão "Gauche du travail, droite des valeurs". Não resultou. 

 

 

16
Jan15

5

Eremita

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O interesse de Julião pela política levava-o a passar todos os serões e as madrugadas de sexta e sábado fechado no quarto e agarrado ao computador. Chegava a apagar a luz, deitar-se com o portátil e cobrir-se totalmente, o que no Verão fazia com que a cama se parecesse a um casulo de um algum animal luminescente. A percepção dos pais era menos cândida: nunca esquecendo a veia empreendedora que Julião revelara ainda miúdo, pensavam que o casulo incubava um futuro pornógrafo. Uma vez, entrando no quarto de repente em busca do flagrante delito, por instantes a  mãe tomou uma das sílabas vibrantes e alongadas pela oratória inflamada de pastor protestante à beira da conclusão como uma expressão de êxtase pré-orgásmico; só ao puxar o lençol viu que Julião se deleitava apenas com o discurso  "I have a Dream"Foram precisos mais alguns incidentes semelhantes para que os pais se convencessem do conteúdo e contexto histórico das expressões que captavam nas suas rotinas de espionagem parental, como o supramencionado  "Free at last, Free at last, Thank God All Mighty, We are Free at last!", proferido por Marther Luther King a 28 de Agosto de 1963.

15
Jan15

4

Eremita

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Os pais de Julião simpatizavam com a ala direita do Partido Socialista e só deixaram de descer a Avenida da Liberdade no 25 de Abril depois de completarem 40 anos. Não tinham grande cultura política e uma década de Sic Notícias ao serão estreitara-lhes o espectro de opções, reproduzindo no lar um processo que Julião viria a diagnosticar para o país: "não há arco da governação, apenas uma fresta de ingovernabilidade". Quem influenciou o percurso político de Juião foi o seu tio, oftalmologista de renome com consultório montado no Príncipe Real que todos os anos fazia uma perninha de um mês nos Médicos sem Fronteiras. Foi ele a orientar as primeiras leituras políticas do Julião adolescente: A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe, O Banqueiro Anarquista, de Fernando Pessoa, Utopia, de Thomas More e Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos, de Antero de Quental. Mas já naquela época Julião lia na diagonal e fazia a sua própria educação política madrugada adentro no Youtube

 

14
Jan15

3

Eremita

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Anos antes de entrar para a faculdade, Julião começou a pensar acima das suas possibilidades, como alguém lhe viria a dizer com poucos meses antes de a expressão se tornar frequente no espaço público. Apesar de maliciosa, havia algum rigor na descrição. Julião viciara-se no constante retalhar da humanidade em dois grandes grupos e num maniqueísmo radical que não seria grave se ele desse menos importância à sua própria palavra. Mas como aliara o fascínio pelas expressões grandiloquentes que nele pareciam nascer sem grande esforço a uma obsessão pela coerência, o pensamento de Julião passou a estar mais dependente da sua palavra do que a palavra do pensamento. 

 

Armado com os resultados de uns testes psicotécnicos do seu filho, durante o Outono e Primavera de 2007 o seu pai tentou convencê-lo a seguir Direito, mas Julião já se sentia prisioneiro de uma máxima sua - "aprende um ofício que não corresponda à tua vocação" - e garantiu que conseguiria média para entrar em Bioquímica na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Julião nem sequer elaborou uma teoria para justificar a máxima a posteriori, limitando-se a enunciar uma longa lista de escritores que exerceram profissões técnicas, como "Fernando Namora", anuiu o pai, e "Primo... Levi, pai" rematou o filho, gozando a pausa. 

 

13
Jan15

2

Eremita

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Por insistência dos pais, Julião começou a comer a sopa com a mão direita por volta dos 5 anos de idade. Eles eram pessoas sensatas e esclarecidas. Se na viragem para o século XXI o canhoto já não era discriminado na escola há algumas décadas, menos razões havia para uma reeducação forçada em casa. Comer a sopa era o único acto social que criava um problema ao canhoto, a saber, o choque de cotovelos à mesa. Por isso os pais lhe disseram para contrariar o hábito de pegar na colher com a mão esquerda, o que acabou por suceder. Foi já na adolescência que Julião recuperou o seu instinto natural. Tratou-se então de um gesto de tal modo deliberado que podemos facilmente identificar a causa próxima: uma sessão na Cinemateca de 2001, Odisseia no Espaço, o filme de Kubrick. Todos recordarão a cena em que um hominídeo põe o engenho ao serviço da violência, mas quase ninguém nota que o fémur mortal é levantado do chão com a mão direita. Julião notou. No dia seguinte, mas só ao jantar, pegou na colher com a mão esquerda e mergulhou-a no caldo verde com a lentidão de quem está consciente de viver um episódio importante da sua biografia e se esforça por registar todos os pormenores, como a presença de uma rodela de chouriço na sopa. Os pais só repararam ao fim de algumas refeições, provavelmente por serem apenas três à mesa. E depois não se preocuparam com a reposta seca do rapaz, a esvaziar qualquer hipótese de voltar a usar a mão direita para comer a sopa; pelo contrário, interpretaram a surpreendente firmeza de Julião como o despontar já algo tardio de uma "personalidade forte".

09
Jan15

1

Eremita

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“Temos de aspirar a tornarmo-nos canhotos e não a reconhecer que o somos.”

 

Esta frase foi escrita por Julião a esferográfica numa tira de papel quadriculado que ele colou com fita-cola na parede lisa, para que estivesse à sua frente quando sentado à secretária. A sua mãe deu com a frase numa lide doméstica e sorriu. Contou então ao pai, que não achou nenhuma graça, mas nada fez. Durante o resto do percurso universitário de Julião, nenhum dos progenitores se deu conta de que a frase é uma paráfrase de uma conhecida citação de Foucault. Antes assim. Para aquele pai, muito pior do que ter um filho comunista seria ter um filho homossexual. Mas Julião não era homossexual e  o seu comunismo foi efémero impulso infanto-juvenil.

 

07
Jan15

Uma solução

Eremita

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Por ser canhoto, ando há anos a pensar em escrever um livro sobre esta condição, mas que não seja uma repetição dos livros de divulgação em inglês que já existem, nem apenas mais um título luso para aumentar uma bibliografia algo pífia  - "O Direito de Ser Canhoto", "Canhoto", "O pequeno livro dos canhotos", "A Criança Canhota"... -  que vive hoje subjugada pelo pícaro "A Punheta do Canhoto", do surrealista-abjeccionista Luís Filipe Coelho. A solução surgiu ontem e parece-me agora tão evidente que experimento uma ressaca de ovo de Colombo. Obviamente, será uma comédia política com muitas notas de rodapé. O Ouriquense alimentará uma sebenta para esta empreitada, a série Canhotismo.

 

 

04
Jan15

Rhythm and Blues

Eremita

- I thought about you a lot, but I haven't missed you.

- Is that all you have to say?

- ...

- Is it?

- I'm sorry.

- You're sorry. Come on, try it again.

- Please, can't we just say goodbye?

- No, say it. "I thought about you..." Say it.

- Don't do this.

- Can't you see what's missing?

- I'm truly sorry. I said it now. Bye.

- Oh, adverbs won't do it.

- Please, just go.

- You owe it to me. We can make this work, say it after me: "I thought about you a lot".

- Leave me alooone.

- You don't get it, do you? You never get it. It lacks...

- Go awaaaaaay.

-  Well, you lack it.

- Please...

- Say it: "I thought about you..."

- "but I haven't missed you", bastard.

- No, you're missing the point. It feels unbalanced.

- "Unbalanced" describes you well. 

- How about "I thought about you a lot...", long pause... pausing is important...  and then you resume, a bit faster...  "but I haven't missed you at all"? Style is important, bitch.

 

* Sendo inventado, este diálogo é duplamente verídico. A versão de "I thought about you a lot, but I haven't miss you" foi-me contada por um amigo, que a ouviu do homem abandonado por uma mulher após uns tempos de separação transatlântica. A versão melhorada "I thought about you a lot, but I haven't miss you at all" é da lavra desse meu amigo, que tem o hábito de ir apurando ao longo do tempo as histórias que costuma contar.

 

 

 

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