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Ouriquense

21
Jan14

Um desastre iminente

Eremita

Por um motivo que me escapa, comecei a receber manuscritos de áreas que não domino. Primeiro foi aquele ensaio sobre Schopenhauer, em que o autor, sem nunca largar o corrimão da revisão bibliográfica, conclui que não nos devemos preocupar com os argumentos lógicos contra a existência de livre arbítrio, porque o sentimos enquanto tal. Fiquei mais descansado. Corrigi depois um outro ensaio, pejado daquelas redundâncias que denunciam um conhecimento pouco amadurecido, em que a ameaça nuclear iraniana é vista como um receio infundado do Ocidente. Corrigi o último parágrafo com um afinco particular, tendo em conta as possíveis consequências geopolíticas. Recebi ainda o currículo de uma enfermeira norte-americana, tão competente nos cuidados continuados que, ao ler o documento, não se fica com vontade de a contratar mas de envelhecer para que ela cuide de nós. E, a terminar esta miscelânea que não antecipara, editei uma carta de motivação de um jovem alemão ambicioso, suficientemente falsa para não me deixar com a sensação de vergonha alheia tão comum nestas cartas, quando ingénuas. Estes documentos, com um cunho pessoal mais marcado do que os manuscritos de ciências naturais, reforçaram um hábito que venho desenvolvendo desde que comecei este trabalho, que passa por imaginar fisicamente os clientes e com eles estabelecer uma relação unilateral que pode ir ao ponto de desprezar uns e a admirar outros. Receio que, mais tarde ou mais cedo, esta emotividade comprometa o meu futuro como editor freelancer. Só me resta esperar que o responsável por este desastre iminente seja efectivamente uma besta.

04
Jan14

I love my job

Eremita

O Google regurgita 56 milhões de entradas para "I love my job". É um número impressionante, tendo em conta que "what the fuck" devolve menos de 17 milhões, mas tenho dúvidas. As pessoas mentem. Ontem recebi três textos para corrigir sobre temas muito distintos: a fauna da Tanzânia, o conceito de livre arbítrio em Schopenhauer e os hábitos de consumo de whisky dos cidadãos do Reino Unido. O impulso para ligar estes três assuntos numa narrativa surgiu com a mesma naturalidade com que uma criança responde ao desafio de ligar com um risco os algarismos que definirão uma silhueta, mas tal como um adulto percebe as silhuetas dessas actividades de crianças antes que os números estejam unidos pelo traço, também um cansaço parece preceder o exercício supostamente original de relacionar temas díspares. Do I love my job? Não sei. Mas agora posso dizer "I love my job" e dar o exemplo destes textos recebidos no mesmo dia sobre a Tanzânia, Schopenhauer e o consumo de whisky

02
Jan14

Cultura empresarial

Eremita

Das três, Eloquence for All é a que tem a cultura empresarial mais agressiva. Quando fiz login in pela primeira vez, descobri uma hierarquia de editores, um fórum de discussão entre freelancers e um manual para estudar. As referências ao manual são constantes, lembra uma das religiões do livro. Parece também haver camaradagem e ninguém escreve "Eloquence for All", todos usam o diminutivo "Eloq" - duvido que alguma vez seja capaz de escrever "Eloq", antecipo já a mesma inibição que me impediu de vestir a T-shirt "I love NY" apesar de ter lá vivido 6 anos e ter dado de beber aos operários que removeram o entulho do 11 de Setembro. Enfim, estas primeiras interacções deixaram-me com a impressão de que apenas toquei no verniz da simpatia profissional dos norte-americanos, que a qualquer instante a conversa pode azedar, não no grau das conversas mansinhas dos mafiosos que acabam abruptamente com um tiro nos miolos, mas com a mesma qualidade de volte-face. No primeiro capítulo de The Circle, a distopia de Dave Eggers, há diálogos entre a recém-contratada rapariga e os seus mentores numa empresa de redes sociais que me lembram as interacções que tenho tido na Eloquence for All. Talvez não seja má ideia terminar o livro. 

 

 

01
Jan14

$245

Eremita

Via Paypal, a Bollywords enviou-me $245 a 18 de Dezembro. Apesar de não ter entrado em contacto com ele desde que me refugiei em Ourique, a primeira coisa que fiz foi redireccionar para o meu pai o email com a confirmação da transferência. A resposta não demorou 5 minutos a chegar e imaginei-o a viver há anos sentado à secretária, agarrado ao computador, num permanente estado de vigília sustentado por cafés e snacks que a empregada lhe trazia, à espera de um sinal meu; creio que esta imagem pouco realista não teria existido se quando deixei Lisboa já houvesse muitos telefones inteligentes, mas tomá-la por meramente circunstancial seria uma negação forçada da ansiedade que denuncia - a minha ansiedade, bem entendido. Logo a seguir aos parabéns de circunstância, estava a verdadeira resposta: "como sabes, o dinheiro não é tudo na vida". Com frases cirúrgicas, o meu pai sempre foi capaz de nos salvar a ambos dos momentos embaraçosos que eu vou criando. Atingimos a maioridade quando estes papéis se invertem, o que pode nunca chegar a acontecer. 

 

PS. Creio que investi uma das passas do ritual da passagem do ano no aumento da minha produtividade literária, mas o desejo foi tão megalómano que evito partilhá-lo e apresento-o já na versão corrigida: retomar o Ouriquense, escrevendo um post por dia. 

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