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Ouriquense

22
Mar13

Um sionista em Ourique

Eremita
Foi minutos antes do começo do Israel-Portugal que o Judeu fez o seu coming out, anunciando-nos que é um sionista feroz. Estamos em casa dele, há regras de boa educação a cumprir e um jogo para ver, mas esta revelação terá sérias repercussões. 
21
Mar13

António Franco Alexandre

Eremita

Matemático, filósofo, poeta 

 

quero dizer-te: não morras.
Nem me digas quem és, quem foste, como sabes
a língua que se fala sobre a terra.
Ao lume lanço
toda a vontade de viver, ser vivo,
a cautela do ar, ardendo em torno.
Passarei, terás passado em mim, só quero
dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.


Quatro Caprichos
Assírio & Alvim, 1999

15
Mar13

Inés Sastre e a farmácia de El Granado

Eremita

 

 

 

11. Creio que também gosto de farmácias pela feliz extensão do vocabulário que oferecem. Quase todas as palavras que descrevem esse mundo são belas, a começar por "alquimia" e "boticário". Já não há por lá retortas, nem almofarizes, outras duas belas palavras. Gosto de "drageia" - poucos a utilizam. E a palavra "bula" tranquiliza-me tanto que nunca a digo uma vez sem a repetir logo outras duas vezes, com alguma musicalidade. Mas não vem daí o meu fascínio por farmácias. As farmácias são lugares mágicos porque nelas o tempo desacelera. Nunca a farmácia será palco para série de TV de sucesso. O seriado televisivo prefere a esquadra de polícia, o escritório de detective, os tribunais e as urgências de um hospital, porque é aí que encontra as situações de vida ou morte e os conflitos morais mais agudos, em ritmo sempre apressado. Na farmácia estamos um passo atrás ou um passo adiante desses enredos, caminha-se para lá ou de lá se saiu e tudo acontece então a um ritmo de câmara lenta, acordos tácitos, um don't ask, don't tell público que muito me agrada. Certa noite, numa farmácia de serviço, dois heroinómanos que suavam queriam comprar seringas e fizeram-no sem o menor desespero, esperando na fila, não por mérito deles, que suavam mesmo muito, antes imbuídos da dignidade do espaço envolvente, que absorveram por difusão passiva, apesar do fluxo de suor contrário. Naturalmente, o mercado tem vindo a corromper esse espaço cada vez mais e as farmácias estão hoje pejadas de uma publicidade agressiva. Daí ter desejado, quando ia a caminho, ver o rosto familiar de Inés Sastre nos anúncios dos produtos anti-rugas. Teria a Sastre começado os trabalhos de restauro ainda antes de completar 40 anos?


Descobri Inés Sastre na revista ¡Hola! quando era adolescente e nunca mais me voltarei a cruzar ou serei capaz de imaginar uma mulher mais bonita. Fiquei tão acantonado nesse veredicto que, logo desde então, quanto mais megalómano era o título do concurso de beleza, mais irreprimível era o meu gozo. As tais Miss MundoMiss Intergaláctica, Miss UniversoMiss Homo sapiens sapiens of All Times, enfim, todas essas mulheres eram joguetes ao serviço de interesses comerciais e davam mais pena do que tesão. Não que Inés desse tesão. Inés era tão bela e distinta que impedia qualquer aproveitamento onanista. Contemplava as fotos dela demoradamente e cada piscar de olhos meu fazia-me ver uma mulher com a mesma cara mas uma genealogia diferente. Ela era a figura perfeita para vender produtos para outras mulheres. Roupa, perfumes e cosmética, mas nunca um carro desportivo. A Inés viria a escolher a Sorbonne, não foi para Hollywood. E nessa escolha se percebeu que envelheceria com dignidade. Daí a sua previsível evolução para os cremes anti-rugas e a curiosidade com que franqueei a porta da farmácia. 

 

A farmácia de El Granado pertence ao grupo em que o moderno dialoga com a tradição. Falta-me agora outro tipo de vocabulário, o de um decorador ou arquitecto de interiores - é a classe profissional com o discurso mais interessante, sobretudo ao nível do verbo,  por misturar a tensão cómica de uma forma demasiado elaborada para a previsibilidade do conteúdo, a lembrar a conferência de imprensa de um treinador de futebol. Sem tal instinto e formação, limito-me a indicar o tal diálogo de gerações entre um austero móvel - mogno? - de altas portas envidraçadas e cornija bem trabalhada, que ocupa duas paredes, e as prateleiras amplas e brancas, creio que de contraplacado forrado por umas folhas de um material indescritível, mas branco. Atrás do balcão, a farmacêutica, com um ar credível de dona do estabelecimento, e ao seu lado um rapaz muito menos credível, que terá porventura beneficiado de algum nepotismo. Como clientes, uma velhota muito mirrada à frente de todos, que, viria a perceber mais tarde, era escoltada por uma quarentona de grande caixa torácica e ar de lésbica camionista, talvez sua familiar, e uma outra mulher, também idosa mas não tão mirrada, acompanhada por um homem com ar de medíocre e que ela repreendia com autoridade de mãe, tentando explicar-lhe que se tosse em público trazendo a palma da mão à boca. Não cheguei a perceber o que cada um destes casais comprou, pois passei a maior parte do tempo à procura de Inés Sastre. Não a vi nos grandes painéis publicitários, um que mostrava umas nádegas anónimas salvas da celulite e outro com o rosto de um homem de cabelo grisalho e rosto impecável, uma criatura que sabemos ter ainda menos anos do que os que aparenta a figura que pretende representar, a de um homem rejuvenescido com um qualquer produto desse mercado em expansão que é o da estética masculina. Não a vi depois em nenhuma das embalagens que inspeccionei de longe, na certeza de que o seu rosto simétrico, ainda que minúsculo, se destacaria, nem naquelas em que depois peguei, já sem pudor e talvez acusando a ansiedade de quem quer muito alguma coisa, embora pudesse ser a impaciência de quem está apenas farto de esperar. Muito se demoram as velhas nas farmácias. 

 

Saí da farmácia com aspirinas efervescentes de 500 g e com o meu emplastro. Ainda vinha a sorrir por ter corado quando o pedi. Creio que o farmacéutico não notou, como teria notado se fosse um rapaz a pedir preservativos. Mas eu senti o rubor na face e gozei depois essa inside joke, ganhando a cada passada vontade de a partilhar com Lucinha e tentando até que o rubor não desaparecesse antes de chegar à pensão, embora evitasse correr, para que fosse o rubor original; ela foi violada e passou a merecer verdades absolutamente verdadeiras. Quando pedi a chave do quarto, fui informado de que Lucinha tinha feito o checkout, deixando-me um envelope. Encontrei lá dentro o dinheiro que lhe dei para que fosse a uma ginecologista. Abandonado pela nobre Lucinha e ignorado pela distinta Inés Sastre, experimentei então uma súbita vontade de acelerar até San Silvestre de Guzmán e, com dinheiro daquele inesperado bónus, alugar a puta da Consuela até não poder mais.

 




 

 

13
Mar13

Lombalgia

Eremita

 

10.


- Para regressar a Belo Horizonte?

 

Fui eu a dizer-lhe que aproveitasse o acidente para abandonar aquela vida. Não houve ponta de misticismo na minha argumentação. Lucinha é uma mulher inteligente e com estudos - "diferenciada", diz-se. Distingue-se das outras prostitutas da raia que tenho conhecido desde que me mudei para Ourique por ser mais magra, cuidada na gramática e com um leque de expressões faciais complexas a acompanhar o cigarro que fuma depois do sexo, o que faz parecendo uma actriz de cinema, olhando-me de igual para igual ou até ligeiramente de cima, mesmo quando fica nua sobre a cama e eu já estou de braços aprumados assentes no parapeito da janela a aliviar a ligeira impressão na regão lombar que tenho vindo a sentir depois do sexo. Lucinha não tem o misticismo das mulheres muito burras, nem o das mulheres muito inteligentes em crise. Ela sabe que a probabilidade de voltar a ser violada daquela forma é baixa e que continua igual à probabilidade que havia de ser violada antes de se encontrar com aquele homem, a menos que o homem tivesse gostado tanto que tentasse voltar, hipótese que descartou. Lucinha sabe que a sua vida pode continuar como antes e nem sequer precisa de enclausurar aquela lembrança. Mesmo depois de violada e apesar do choro e dos espasmos que lhe crispam os dedos, ela usa a emoção como um combustível para pensar e não como um solvente.

 

- Vai lá, vai. É dor de cabeça.

- Estás com dor de cabeça, Lucinha?

- Sim, dor de cabeça.

- Dor de cabeça mesmo?

- Pára. (risos)

- Vou a correr.

- Isso.  Aproveita e compra um emplastro para você. Pode doer mais tarde. Tive umas ideias.

- Umas ideias?

- Anda, vai. Olha que fico contando os minutos. (sorriso)

 

Lucinha cobra à hora uma taxa fixa e extras que variam em função da natureza do acto. Mas fui a correr porque gosto dela.

10
Mar13

Matrioskas em El Granado

Eremita

 


9. Lucinha foi falando, só que cada vez menos com palavras e mais com o corpo. Chorou apenas no fim do relato, que parecia vir de duas vozes inconfundíveis. Havia alguém que nela se expressava com grande apego aos pormenores e que, quando estava quase a colocar o traço final no retrato-robô do violador, era substituído por outro relator, mais vago e com tendência para a reflexão, que ia fazendo uns apartes sobre a maldade dos homens - aqui entendida como "a maldade dos gajos", para que não haja equívocos sobre o género em questão. A minha maldade foi ter ficado com dúvidas. Não duvidei do relato dela. Os gajos sempre têm dúvidas. Se são dúvidas sobre o seu desempenho sexual ou sobre a sua paternidade, pouca diferença faz, é ainda a dúvida de um corpo desenhado para ser um simples acessório, completamente indefeso na intimidade, apesar da superior força física, e que fica com o papel secundário, por muito que as convenções sociais estejam desenhadas para que roube a cena. Nunca rouba, é sempre da mulher a frase que se recordará durante muitos anos. Ainda hoje, quando bebe, o judeu me fala de uma americana com quem se cruzou novo, durante a sua diáspora, que um dia abriu a porta de casa e terá dito: Oh, what a surprise... Well, listen: I thought about you, but I haven’t missed you”.

 

Lucinha falava de uma violação e eu pensava na história do judeu. Acariciava-a, mantinha um respeitoso silêncio e por fora era um gajo impecável, ou seja, um "cavalheiro", mas por dentro divagava. A impunidade de gajo interior não era total, vigiava-o uma consciência que, tal como a minha consciência criara o gajo original, o recriava, gerando um novo gajo interior dentro do anterior, numa série a tender para o infinito de consciências encapsuladas umas nas outras e respectivos gajos, como matrioskas que nem num grau subatómico de organização da matéria abandonam o mesmo rosto pintado e que, de tão repetido, não deixa de levantar suspeitas. E logo mais uma dúvida: era mesmo o cepticismo de pendor lógico-dedutivo que me movia ou a dúvida de saber até que ponto não teria criado na série infindável de dúvidas uma manobra de diversão que adiava o confronto com uma dúvida vergonhosa: conseguiria eu foder com a violência daquele homem?

09
Mar13

A confissão de Lucinha

Eremita

 

Quem matou Igor? é um folhetim rico em ganchos

e o primeiro policial com "spoiler warning".

 

8. "Confessar" passou a ser dos verbos mais maltratados da nossa língua. É cada vez mais difícil conseguir uma confissão para efeitos legais e há cada vez menos gente nos confessionários, mas abundam as confissões públicas de verdades que nada têm de inconfessáveis. A confissão de Lucinha não entra nesta categoria, pois embora ela nada tivesse feito que seja recriminável, não seria justo descrever o seu desconforto como um simples capricho, nem a sua vergonha como infundada. E quem quiser reduzir o que lhe aconteceu a um acidente de trabalho não tem apenas preconceitos quanto à prostituição, é má pessoa.

 

[Spoiler warning - na edição impressa, o parágrafo seguinte aparecerá invertido]

Violaram Lucinha. Um hipotético advogado de defesa teria argumentado que o comportamento dela foi ambíguo. Os seus gemidos de dor amordaçados na palma de uma mão? Teatro para excitar ainda mais o cliente. As vezes que ela disse "não"? Ainda dúbio, passível de ser interpretado também como um incentivo. As feridas no sexo e no ânus? Nada que pudesse ser imputado ao seu cliente, visto que não foram usados objectos e tudo teria sido resultado de um entusiasmo compreensível durante um confronto de anatomias por infortúnio inconciliáveis. Coisas de advogado, mas até que ponto este indivíduo não habita cada um de nós foi uma pergunta que coloquei enquanto Lucinha ia falando e a outra voz na minha consciência que rebatia esses pensamentos soava irritantemente aguda e feminista.

[fim do aviso]

 

Lucinha possui uma voz bonita, não excessivamente grave. Parte da sua doçura vem das vogais bem pronunciadas e do "tchi" com que remata os advérbios de modo, mas também do rubato e accelerando do seu falar, do modo de crescer e decrescer, suspender uma sílaba tónica e precipitar as restantes como se ouvisse uma harmonia dentro da sua cabeça. Se um músico passasse para o papel o falar de Lucinha, a partitura seria um impromptu. Só naquele dia as palavras foram saindo a custo. Quando se ouve, ajuda já ter algum dia confessado alguma coisa, pois é a única forma de antecipar o que está para vir e evitar cortar a palavra ao interlocutor com um comentário extemporâneo. Se há um fio por onde puxar, é mais prudente deixar que a própria meada se vá desemaranhando.

 

O ritmo do movimento da mão de Lucinha na minha coxa continuou estável. Nos momentos de maior tensão, ela pressionava um pouco mais; a cada achega na sua revelação, encurvava um pouco os dedos e eu voltava a sentir o arado das suas unhas. Lucinha tem umas unhas sobredimensionadas para uma mulher que não deve ultrapassar os 160 cm. Embora carmins, são praticamente uma arma branca que ela sabe usar com destreza durante o coito, chegando a roçá-las nas jugulares do meu pescoço, às vezes numa carícia que acompanha o afluxo de sangue ao cérebro, outras vezes quase como um arranhão em que sinto o poder de seccionar as veias. São artificiais. Lucinha explicou-me um dia que foi a solução encontrada para deixar de roer as unhas e eu fingi que acreditei. Também fingi não reparar na lágrima que ela chorou naquele dia sobre o meu peito. Era já a segunda, mas a primeira tinha ficado suspensa nos pêlos do meu peito e só dei por ela quando discretamente inclinei o olhar para Lucinha, que parecia fixar o candeeiro - em todo o caso, não olhava para mim.

 

O homem enrolou a mão na ponta de um lençol e só depois soltou o tabefe. Fui tudo muito rápido, mas antes de sentir dor já Lucinha tinha percebido que estava na presença de alguém experimentado. Ainda no rés-do-chão, quando se procedia à escolha das raparigas, Lucinha reparara na envergadura do cliente, sem chegar a assustar-se, confiante de que sabia sempre agigantar-se na cama. Nem sequer se assustou quando abriu a porta do quarto e o homem grunhiu; havia inclusive dias em que preferia os estrangeiros que falam línguas estranhas, pois não tinha paciência para fazer conversa de cama com todos e sabia-lhe bem gozar em voz alta com alguns  - isto ela só me viria a contar já depois do fim do relato, no pico de raiva que se lhe seguiu. O tabefe deixou Lucinha impecável por fora e toda amassada por dentro, quase atordoada. Depois de lhe amarrar os pulsos com o seu cinto e de lhe explicar, sobretudo em mímica, que se ela gritasse apanharia mais porrada a punho nu e cerrado, o homem fez dela o que quis.

07
Mar13

Antes da confissão de Lucinha

Eremita

 

 


7. Vini, vidi, vici e fui-me depois dando conta do espaço, das imperfeições do verniz da madeira da porta, do tecto falso da antecâmara onde nos encontrávamos e do seu chão de linóleo, a terminar numa tira de metal na transição para o soalho flutuante que cobria a parte ampla do quarto, de pé-direito mais alto. Não via o quarto inteiro. No meu enfiamento estava o tocador, com um daqueles candeeiros de mesa, já sem abat-jour, que mimetizam velas com o detalhe das gotas de cera fundida, e cuja silhueta se destavava quase a contraluz do fundo de cortinados azuis recolhidos e de cortinas de étamine a filtrar a luz da metade da janela com a portada de venezianas aberta; para a direita, a colcha estampada com um rodapé de folhos sobre uma cama que só via pela metade; mais perto, quase tão perto como Lucinha, só que ao nível dos ombros, ainda na parede da antecâmara que não fica escondida quando se abre a porta, reparei pela primeira vez na imagem do Cristo de braços abertos e coração à mostra, como que fotografado de topo quando num bloco operatório é momentaneamente  abandonado pelo cirurgião ao conforto de uma anestesia geral que tornava menos inquisitórios os seus olhos azuis.

 

Veio a seguir o tempo, primeiro pontuado pelo barulho da rua, e depois pelas vozes das mulheres que andavam a limpar os quartos e dominavam o corredor. Mas só regressei ao quotidiano com as sensações tácteis: o frio do puxador da porta trespassando a camisa, a tocar-me entre o lombo e as nádegas, as unhas de Lucinha pousadas na barriga das minhas pernas, os meus dedos brincando com a argola no lóbulo superior da sua orelha direita, o seu traço distintivo mais óbvio entre as mulheres do bordel. Foi então que ela disse: “desculpa”.

 

Já deitados sem desmanchar a colcha, com ela descansando no meu peito como se estivesse cansada e fazendo festas ao longo do meu braço que seguiam um ritmo constante, alheio às hesitações do seu discurso, Lucinha contou-me, após um demorado preâmbulo e várias digressões, parecendo querer evitar o fim do relato, o motivo que a levara a violar a nossa regra.


 

 


07
Mar13

O primeiro incidente

Eremita

 


6. O primeiro incidente do dia em que me daria conta de que Igor estava morto foi uma felação. Subimos para o quarto como sempre e só agora, mas trazendo para a análise retrospectiva impressões que vão sobretudo no embalo da história emergente, me convenço de que houve na saudação um tempo desasjustado ou uma expressão errada. Uma vez trancados, Lucinha não se dirigiu para o tocador, logo me encostou contra a porta, pressionando as suas magras coxas contra as minhas pernas, para depois desapertar as minhas calças, sentir-me sem sorrir e pela primeira vez descer sobre mim.

 

Lucinha sempre me beijou sem inibições. A ideia de que as prostitutas de algum modo se reservam para quem amam não pode ser absolutamente verdadeira e, pela minha experiência em Espanha, diria tratar-se de marketing que serviu para inflacionar o beijo na boca. Para Lucinha não há interditos, há um tarifário. Quem impôs restrições fui eu. O sexo oral sempre estivera fora de questão e não apenas por causa da higiene. Ao contrário do que os jovens pensam, a felação é a mais íntima das práticas sexuais, por ser a menos anónima. Em nenhuma outra circunstância, sexual ou não, contemplar um rosto contribui mais para o prazer. A imagem potencia a sensação de que, por uns instantes, se ocupa o centro do Universo. Por um feliz acaso, o pénis encontra-se também a uma distância dos olhos que torna a sua observação confortável e de grande acuidade, sendo possível reparar em todos os pormenores sem qualquer necessidade de abrir apenas o melhor olho, semicerrar os dois ou tentar qualquer outro movimento muscular inútil mas que traduza um impulso para mexer no plano de focagem ou tentar um zoom. É como se em cada corpo existisse o estaminé de um grande pornógrafo.

 

Evitar ser exposto ao rosto de Lucinha sobre mim era fundamental para não causar grande alvoroço numa memória em que essas imagens coabitam ignorando-se mutuamente, com um autismo tácito que só é igualado por jornais concorrentes e outro tipo de imprensa congénere que lute pelo mesmo público.  A entrada de Lucinha, um rosto belíssimo e uma mulher seguramente capaz por formação profissional, iria abrir uma brecha, justamente por a experiência resultar de uma transacção comercial, onde esta omertà alimentada por dois difusos sentimentos – a minha honra e o respeito por terceiros – deixa de fazer sentido, passando a contar mais a banal apreciação de desempenho. Receava então que, tentando salvar ainda a honra e o respeito, viesse a fazer comparações aos pares, fulana com Lucinha, sicrana com Lucinha, beltrana com Lucinha, talvez já não muito respeituosas embora ainda toleráveis,  mas que a partir daí, caindo no abismo cognitivo da transitividade lógica, fosse levado a comparar sicrana com beltrana e fulana, bem como beltrana com fulana, por ter em Lucinha um padrão.

 

Como a disciplina a que me imponho em Ourique havia sido cumprida naquela semana, chegara incapaz de negar uma tentação e não opus qualquer resistência, apenas lhe fiz festas na cabeça e desviei as suas madeixas. Só no fim comecei a lembrar-me do que agora relato. O que se sente por alguém emerge depois do sexo, que nos vai progressivamente prendendo à nossa condição animal enquanto dura, para de repente nos libertar num vazio que o – digamos – amor ajuda a planar. Este fenómeno transforma o sexo com prostitutas num desporto de risco. Por isso, temi que a felação de Lucinha me batesse muito mal e só a tristeza dela me salvou da ressaca violenta, que só recuperaria já dentro do carro, pois diante da infelicidade dos outros qualquer um se supera.

05
Mar13

Lucinha

Eremita

 

 

5. O pouco que julgo saber sobre Lucinha foi sendo aprendido entre dois orgasmos. Este balizamento descreve bem a minha rotina com a brasileira. Subimos para o quarto com um cumprimento de circunstância, ela fecha a porta, começa a despir-se e olha para mim através do espelho do tocador, oferecendo-me depois o rabo e logo o cu. O primeiro acto costuma ser muito rápido, pois deixei de me masturbar em Ourique, e não há dúvida de que sou o único a ter prazer genuíno. Só por isso, comecei a respeitar Lucinha logo à primeira penetração. Consuela, a colombiana de Villanueva de los Castillejos, não é a antítese de Lucinha porque a vida ultrapassa a literatura, mas sei que jamais poderei acreditar no espalhafato da sua litania de coito, quando invoca o Senhor e diversos santos num crescendo demasiado sincronizado com o meu para que seja verdadeiro. Se Consuela não tivesse boas mamas, boa peida e boas coxas, jamais perderia tempo em San Silvestre de Guzmán  - e acresce que é feia. Já Lucinha - aliás, Luciana – tem o encanto da discreta mestiçagem entre estirpes europeias: um amendoado nos olhos que não vem da Amazónia, antes é herança das estepes russas, num rosto que mistura ainda sangue alemão e italiano sem parecer suíço. Praticamente destituída de peito, Lucinha aplica ao segundo acto sexual uma inteligência sexual surpreendente num prostíbulo de terceira categoria e até rara de encontrar entre as classes média e média-alta, tanto quanto me posso recordar. É no intervalo que separa esses dois actos, enquanto eu recupero a competência, que falamos longamente sobre ela: a sua infância, a sua chegada a El Granado e a sua condição laboral.

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