Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Ouriquense

24
Fev13

A caminho do prostíbulo

Eremita

 

3. Começou como todas as manhãs dos dias em que vou até aos prostíbulos. Combinei de véspera com o Judeu, que me deu as chaves do Citroën para que eu pudesse visitar um amigo. Não creio que o Judeu acredite nesta mentira, mas este é um assunto que não faz parte das nossas discussões. E não adianta tentar reconhecer neste pudor uma consciência judaico-cristã, nem sequer uma repartida em duas cabeças, é mesmo desinteresse da parte dele, que em alguma altura resolveu o problema da libido. Saí em direcção a Castro Verde. Depois iria passar por Mértola, entrar em Espanha e, diante de uma encruzilhada,  escolher um dos dois prostíbulos que frequento, demorando-me sempre com requintes de ritual: a colombiana ou a brasileira? Encontro nesta multiplicação geo-cultural da distância algum conforto. What happens in Vegas stays in Vegas e um pecado para lá da fronteira com uma imigrante é ainda menos pecaminoso - o que antes valia para o roubo de uma bisnaga de leite condensado, vale hoje para apaziguar a minha traição.

 

Como na semana anterior, voltei a cruzar-me com um pequeno bando de abetardas. Foi já depois de passar Castro Verde, numa seara aberta. Se não sou de ver mensagens na simples repetição de um evento raro, desta vez o meu sorriso foi mais tranquilo e quase uma recordação do sorriso da semana anterior. Quem nunca presenciou o voo da abetarda não pode fazer ideia e não há uma metáfora certa que capte tal instante, embora me lembre recorrentemente de "bombardeiros bêbados" e, por vezes, de “bêbados bombardeiros”, que é ligeiramente mais musical. Enfim, não me vou fazer passar por Félix Rodríguez de la Fuente num dia em que fui às putas. A verdade é que nada mais houve a assinalar até chegar perto de Mértola.

 

Não é o caminho mais rápido para chegar a Espanha, mas se Castro Verde me desperta pela irritação, gostaria de morrer sem alguma vez ter pisado Almodôvar, apenas por capricho, como se houvesse duas formas de integrar um lugar na nossa existência: a convencional, que passa por visitá-lo, e a menos ortodoxa, que passaria por conhecê-lo pela sua silhueta, isto é, visitando tudo em seu redor sem nunca lá entrar. Só por isso passo por Mértola, lugar que já conheço e onde comi a minha primeira sopa de cação, sempre com o curiosidade de saber como teria o peixe chegado do mar até ali. Mértola é uma vila sobrevalorizada, sem a nobreza da banalidade de Ourique, que nunca teve pretensões, apesar da ambição compreensível dos seus autarcas, e que – segundo consta – só figurou no livro As Mais Belas Vilas e Aldeias de Portugal por especial favor.

 

De Mértola a Castro Marim levo uma hora de viagem, para sul. Castro Marim é a vila de onde vem metade do património genético do guitarrista Paco de Lucia (de Lúcia) e sinto sempre uma emoção especial quando por lá passo, que no caminho é quase uma vergonha e no regresso é já uma redenção.

 

Entro depois em Espanha e ganho latitude até à San Silvestre de Guzmán. É sempre aí que decido que caminho tomar e quase sempre deixo a sorte decidir, embora me recuse a atirar uma moeda ao ar.

 

23
Fev13

Recordando o essencial

Eremita

 

 

2. Igor [junte o apelido que melhor funcionar como auxiliar de leitura] nasceu na Ucrânia e chegou a Ourique em Julho de 2008, na companhia de Tatiana, uma empregada no Pingo Doce da vila; tudo o que se disser sobre a sua infância e adolescência é pura invenção. Foi também por essa altura que me instalei aqui e me apaixonei por Tatiana, apesar de ela apenas me ter dado troco em moedas. Matar Igor foi um desejo repentino mas persistente, que assegurou parte da tensão criativa do Ouriquense. A corpulência de Igor, homem para 95 Kg e pelo menos 1,93 (eu tenho 76 Kg e 1,81 m), desaconselhava qualquer plano que implicasse coragem física, mas sentia-me estirado pelo instinto de sobrevivência e a obrigação de honrar a deontologia não escrita do crime premeditado. Como Igor era também pouco inteligente e feio, além de alcoólico, temia descobrir algum eugenismo, ou xenofobia, ou simples desprezo, associado ao móbil do seu assassínio. E seria o amor por Tatiana, a causa última da pulsão assassina, suficiente para resistir ao remorso, tendo em conta a volatilidade das paixões? Este multifacetado dilema moral, de resto formalmente irresolúvel, remonta a Agosto de 2008, pouco tempo depois de o ter visto no espectáculo itinerante de magia de Maik e Rosy, e não me impediu de ter ideias, embora a imaginação tivesse ficado praticamente tolhida com o nascimento de Anatolyi, filho de Tatiana e Igor.

 

 

20
Fev13

Quem matou Igor?

Eremita

 

 

 

Folhetim rico em ganchos, sexo explícito e xenofobia

 

[parental advisory]

 

[Spoiler warning - o primeiro policial com "spoiler warning"]

 

1. Um cidadão ilegal vem com uma mais-valia: a verosimilhança do relato da sua morte, na ausência de um corpo. É uma vantagem que não beneficia apenas os escritores; o Estado também ganha, porque entende o enigma da morte de um ilegal como uma solução para um problema que nunca chegou a formular. Isto, se não tem expressão nos indicadores de melhoria de desempenho, sempre se traduz num difuso e subtil aumento do bem-estar que alastra vertical e horizontalmente a toda a hierarquia e ramificações do funcionalismo público. "Morreu um ilegal? Não digas mais nada, deixemo-lo*. Morreu como viveu". Assim foi com Igor.

 

A morte de Igor não chegou sequer a ser sentida pela população da vila de Ourique. Se perguntarem por lá quem foi Igor, não obterão reposta. Os ouriquenses não são mais xenófobos do que a restante população portuguesa, só que em cada cidadão mora um burocrata. Uma morte trágica reabilita qualquer patife, que passa a ser recordado com alguma saudade, mas só acentua a condição de ilegalidade do ilegal, que pode ser definitivamente esquecido. Ou, para lembrar um desabafo de Chibanga, que chegou a partilhar pacotes de alcagoitas com Igor em algumas tardes de tédio, "faz-se hoje mais barulho por um touro do que por um ilegal". Serve então este relato para recuperar alguma desta honra de que desistimos colectivamente. Não pretendo prestar uma homenagem póstuma a Igor, que continuo a ver como uma besta e um idiota. Alás, eu queria matar Igor e continuaria a alimentar esse desejo se ele ainda estivesse vivo, embora agora pense sobretudo em matar quem matou Igor; temo até transformar-me no primeiro serial killer em pensamento, caso venha a descobrir o assassino de Igor e outro assassino por identificar se antecipe a mim, forçando-me a transferir o meu desejo de matança - e assim sucessivamente.

 


 

18
Fev13

A génese da ficção

Eremita

A trasladação do quotidiano é uma forma muito deficiente de proteger do público a intimidade. E de pouco adianta associar à trasladação a transmutação do quotidiano, porque sobram sempre as entrelinhas. A única forma de escrever em público regularmente e em liberdade não passa pelo pseudónimo, uma solução sempre condenada pela tentação do abismo e pelo orgulho, mas por baralhar o tempo. Sucede que baralhar o tempo não é equivalente a trocar o espaço. O impacto do tempo baralhado na percepção pública da vida íntima parece-me óbvio e dispensa exemplos, bastando a cada um a extrapolação a partir dos equívocos de que é vítima - pouco inocente - quando se dedica à escrita diarística em público; se estes abundam quando a ordem dos dias no diário coincide com a do calendário, imagine-se o festival de vaudeville que não surgirá na vida do autor quando este move no tempo a experiência. Mais interessante é pensar nas consequências potencialmente catastróficas para o autor que resultam do confronto das suas memórias passadas com as experiências presentes, o que talvez dê na seguinte tese: a ficção surge do compromisso entre a tentação da exposição pública das emoções e a necessidade que o autor tem de se proteger - dos outros, seguramente, mas sobretudo de si próprio. 

11
Fev13

39

Eremita

- A nossa relação amadureceu, não acha?

- Porquê?

- Por causa do meu amante.

- Mas só me contou esta semana.

- E daí? Sinto que você está mais próximo. Já não o assusto.

- Nunca me assustou.

- Já não lhe peso.

- Nunca me...

- Não seja tonto. Julgava-me fácil.

- Você não era fácil.

- É verdade que me ofereci muito.

- O sexo já não vale nada. 

- Acha?

- Partilha-se o corpo antes de se partilhar um segredo.

- O Zé disse-me que tem uma filha.

- Quem?

- O meu amante.

- Chama-se Zé?

- Chama. Porquê?

- Não é nome de amante.

- Que disparate. Que nome imaginou?

- Fabrice. 

- Fabrice de Castro Verde?

- Não, só Fabrice. 

- Faz-me rir. O Zé não me faz rir tanto.

- Podemos tratá-lo por Fabrice?

- Não seja infantil.

- Insisto.

- Ai... dizia-lhe que o Zé... o Fabriiiice confessou ter uma filha.

- É uma confissão?

- Foi logo depois de irmos para a cama.

- Sentia culpa?

- O Zé?

- O Fabrice.

- Sim.

- E a mãe da criança?

- A mãe morreu. 

- Talvez seja melhor recuperarmos o "Zé".

- Quer ajudar-me a recuperá-lo? Que querido.

- Referia-me ao tratamento.

- Acha que ele precisa?

- À forma de o tratarmos...

- Não sei se é boa ideia você envolver-se tanto.

- Não percebeu nada.

- Você é tão querido. Meu... meu François.

- François?

- É nome de amigo, não é? Petite François.

- Petit.

 

 

11
Fev13

Take note

Eremita

The general fact is simple. Poetry is sane because it floats easily in an infinite sea; reason seeks to cross the infinite sea, and so make it finite. The result is mental exhaustion... Orthodoxy, Chesterton.

08
Fev13

38

Eremita

- Está mais magro, sentiu a minha falta?

- Outras arrelias. Andou desaparecida...

- Culpa de um amante de Castro Verde.

- Só pode estar a brincar.

- Ciúmes do meu amante?

- Não.

- Estava habituado ao meu marido, era?

- Não.

- A julgar pela sua cara...

- Precisava de ser de Castro Verde?

- Mas que embirração tem você com Castro Verde?

- É uma apropriação da geografia.

- Vejo que não perdeu as manias. 

- ...

- Não vai perguntar mais nada?

- Está bem de saúde?

- Sobre o meu amante...

- Bem, é um homem de Castro Verde. Isso basta.

- Sabe como o conheci?

- Ele parou o carro e ajudou-a a mudar um pneu.

- É adivinho?

- Vi que tem um pneu mais novo no Range Rover

- Perspicaz. Mas mesmo assim...

- E se tivesse sido na internet não contaria.

- Seria pouco romântico, não acha?

- Estou retirado. 

- Mas não tem uma opinião?

- Não. 

- Não?

- Tenho. Mas não é a que quer ouvir.

- Diga lá. 

- Não. Não me interessa discutir esse assunto.

- Amuou?

- Não.

- Quer conhecer o meu amante?

- Livre-se de o trazer a Ourique.

- É uma ameaça?

- Serei mal-educado.

- Isso é de frouxo.

- Tenho ouvido os líderes do PS na TV.

- Ai, gostava tanto que dois homens lutassem por mim.

- Não seria por si, seria contra Castro Verde.

- Como no tempo dos reis e das rainhas.

- Perdão?

- Por uma mulher se conquistava e perdia um reino.

- Castro Verde é freguesia.

- O meu amante deseja-me.

- Isso é bom.

- Você não sente a minha falta?

- Não.

- Nada?

- Nada.

- Não acredito.

- Lamento. 

- Julga-se superior, não é?

- Não.

- Não importa. Podemos ser só amigos.

- ...

- Sim?

- Preciso de ir jantar com o seu amante de Castro Verde?

- Não.

- Então está bem. 

 

01
Fev13

Um homem livre

Eremita

Se outros homens não o fizerem, o que mais aprisiona um homem é a obsessão singular. Não basta conhecer a história de Ahab e Moby-Dick, só a experiência pessoal será convincente. O melhor sinal desse aprisionamento é a sensação de alívio quando a obsessão, por momentos, se atenua. O que então se experimenta é o que mais se aproxima de um renascimento e dispensa qualquer ritual, qualquer convívio, pois invade-nos de repente e repetidas vezes, sem qualquer ligação ao mundo exterior, como se círculos concêntricos emanassem do centro geométrico da cabeça para o córtex, que responde a cada onda com pensamentos ainda familiares e outra vez luminosos, talvez apenas por tudo antes ser tão escuro. Esta pedrada no charco tende a ser uma pequena vitória que nos aproxima um pouco mais do objectivo que nos aprisiona. E é só na ressaca que ganhamos consciência da prisão em que nos metemos. Como se ganha então a liberdade quando se persegue um objectivo? Criando uma obsessão paralela. A liberdade possível é ter pelo menos duas obsessões igualmente fortes, de preferência em pólos opostos. É verdade que esta imagem transforma a liberdade num suplício de estiramento, mas como se fosse uma tortura boa. 

 

 

 

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Links

Blogs

Cultura

Ajude Fausto:

  • Uma votação em curso

Ouriquense, S.A, Redacções por encomenda

Séries

Personagens ouriquenses

CineClube- programação

  •  

Filmes a piratear

  •  

Filmes pirateados

Alfaias Agrícolas

Apicultura

Enchidos e Presuntos

Pingo Doce

Imprensa Alentejana

Portal ucraniano

Guitarra

Judiaria

Tauromaquia

Técnicas de homicídio

John Coplans

Artes e Letras

Editoras Nacionais

  •  

Literatura Russa

Leituras concluídas

Leituras em Curso

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D