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Ouriquense

26
Nov12

"Você decide"

Eremita

Tive hoje uma ideia boa para um conto. Seria a história de um homem que perverte o bom instinto de acompanhar o seu pai nas sessões de quimioterapia num vício por mulheres com doenças fatais. Tudo começaria por acidente, como se fosse uma bela história de amor... sei lá, ele a virar uma esquina num dos corredores do hospital, ela também, esbarram um no outro, ambos caem, o saco do soro que ela trazia ao alto (como estandarte) rasga-se e molha-o nas calças, ela tem um primeiro impulso para o secar, depois retrai-se, olham-se, riem, ela remata com uma paráfrase da Mae West, ele responde-lhe à Bogart, pronto, são cinéfilos, apaixonam-se, têm tempo para um fim-de-semana em Veneza e são felizes até à morte dela. A partir dessa experiência, por comparação às relações anteriores, que não foi mais capaz de iniciar por se sentir refém das promessas frustradas de futuro, ele conclui facilmente que só pode viver relações com quem já esteja condenado. Ir a Veneza todos os anos passa a ser um ritual. O mesmo quarto, a mesma rotina. Elas não sabem e ele começa a ressacar o vício. 2, 3, 5, 8, 13 mulheres em 13 anos, tantos quantos durou o seu pai. Torna-se então voluntário, faz números de palhaço para as crianças doentes, continua a alimentar facilmente o vício, sabe como descobri-las, a que horas meter conversa. Como se remata esta história? Ora, um dia adoece e começa ele a fazer as sessões de quimio. Ainda pensa em continuar o esquema, o tumor não é muito agressivo, estima que pode ir a Veneza pelo menos mais 4 vezes. Mas não é mais capaz de seduzir as pacientes da ala. Sente-se cada vez mais só. Até que recebe a visita de uma ex-namorada, parece que os anos não passaram por ela, nem por eles, pelo menos quando falam. Enfim, neste momento o leitor pode decidir se nos vamos vingar deste homem ou simplesmente deixá-lo morrer.

 

 

 

26
Nov12

Niet(1)-z(2)-s(3)-c(4)-h(5)-e

Eremita

Estou cada vez mais nietzschiano. Creio até que acertei pela primeira vez na vida, e sem depender da sorte, na ordem das cinco consonantes. Leio Nietzsche e sou invadido por uma sensação de enorme religiosidade, em que eu sou Deus e o meu corpo a igreja. É por isso uma pena que não haja montanhas perto de ourique; a planície alentejana é essencialmente estóica.

24
Nov12

...

Eremita

É no estado de conformismo transitório com a infelicidade que alguns escrevem as suas as melhores piadas.  

22
Nov12

Coming of(f) age

Eremita

Em The Firm (1993), não era tarefa fácil tornar verosímil a infidelidade de uma noite do jovem advogado representado por Tom Cruise: 1) apesar de advogado, naquela altura do filme Cruise ainda não vira os seus ideais serem postos à prova e tinha a consciência imaculada; 2) Cruise casara-se recentemente com a personagem interpretada por uma actriz atraente, ainda que de nome presciente, Jeanne Tripplehorn; 3) por algum capricho de Grisham (o autor do livro) ou de Pollack (o realizador), Cruise está sóbrio no momento do adultério. A única solução possível, excluindo a coacção, que iria dificultar a trama, passava por contratar uma mulher tão sensual que qualquer casal de espectadores iria experimentar um breve e tácito silêncio logo quando começasse a passar o genérico final. A actriz escolhida foi Karina Lombard e, em 1993, uma tentativa de sedução sua fracassada levantaria sérias dúvidas sobre a acuidade visual ou a orientação sexual do seu alvo, muito antes de concluirmos algo sobre o seu carácter. Como provavelmente sucede com outras pessoas, mesmo aquelas que ainda não estão a procurar "Karina Lombard circa 1993" no Youtube, depois de ver o filme fui à procura daquela cena marcante. Mas como talvez também suceda com outras pessoas, se houve uma altura em que o Youtube me fascinava por funcionar como uma memória colectiva infalível, hoje gosto mais das pesquisas frustradas, prazer que os mais novos nunca terão.

 

 

17
Nov12

:(

Eremita

Durante largos meses, troquei correspondência online com uma rapariga que vivia em Londres. Nunca nos encontrámos, nunca falámos ao telefone, nunca fantasiámos. De início, terá havido algum soft flirt, aquele jogo de sedução vago e algo displicente que a tecnologia tornou tão frequente, até percebermos que não fazia muito sentido e nos  reciclarmos mutuamente em confidente um do outro. Um dia soube que ela tinha feito uma biópsia e que aguardava o resultado. Passou algum tempo e resolvi perguntar. Respondeu-me com um emoticon que exprime tristeza. Disse-me depois que teria no máximo três anos de vida. Trocámos mais algumas mensagens, mas em menos de uma semana ela interromperia o nosso contacto sem se despedir. Ainda não passaram três anos e o meu desejo é que passem vinte antes de retomarmos os emoticons

15
Nov12

Leis do desejo

Eremita

Apesar daquela abertura, apesar do primeiro capítulo, apesar da inteligência da estrutura narrativa, "ladies and gentemen of the jury", apesar do retrato que Nabokov faz da sociedade de consumo e dos americanos, sublime quando Humbert Humbert e Lolita se fazem ao caminho, o romance falha enquanto obra subversiva e a ousadia de tocar no tema da pedofilia parece hoje datada. Porque Nabokov deixa o leitor a salvo do desconforto de se identificar com Humbert Humbert, uma personagem pomposa e calculista, e de se deixar seduzir por Lolita, uma catraia insuportável. Em Lolita, excepto quando Humbert Humbert discute a arbitrariedade com que se define a idade abaixo da qual se considera uma relação pedófila, nunca a pedofilia surge como uma simples extensão da atracção natural e socialmente tolerada de homens mais velhos por mulheres (maiores) mais novas, aparecendo antes como uma doença (ou tara) suficientemente bizarra para não nos perturbar. 

 

Continua.

13
Nov12

Self-serving

Eremita

O Judeu disse-me que se publica demasiado em Portugal. Falávamos de ficção, mas pensei logo se a sua opinião seria causa ou consequência do facto de ele próprio não tentar publicar uma linha sobre a máquina do movimento perpétuo desde o episódio em que submeteu à revista Nature o manuscrito On the hidden motion of quiet objects, que após dois anos de rejeições acabaria por surgir em 1983 com o título Do movimento das coisas paradas: Para uma Refundação do Conceito de Inércia, na revista da associação de estudantes da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, à época impressa em offset. Houve um tempo em que não pensava no motivo que as pessoas têm para as opiniões que sustentam. Hoje, tudo me soa a convicção pessoal, mas não no sentido corrente de ser profunda e não admitir compromissos, antes no sentido de ser interesseira. Em inglês não soa apenas melhor, é também mais rigoroso.

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