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Ouriquense

31
Ago12

33

Eremita

- Tesão de mijo?

- Há muito tesão neste país a passar por isso.

- Mas vocês não têm tesão de mijo?

- Temos. Mas também há o tesão de mijo falso.

- Porquê?

- A hipótese do tesão de mijo restaura uma certa privacidade.

- Então era mesmo tesão... por mim?

- Não, estava a telefonar para Espanha.

- Ah, uma chamada de valor acrescentado.

- Era o telemóvel dela. Desmarquei o encontro de amanhã.

- E ela fez-lhe o serviço pelo telefone...

- Não. Discutimos apenas datas. Mas basta-me ouvir a voz dela. É um tesão pavloviano.

- Ai homem, escreva um tratado.

- Não faça beicinho.

- Posso pedir-lhe um favor?

- Temo o pior.

- Importa-se de ir à casa de banho como se fosse tesão de mijo?

- Mas acabei de lhe explicar que...

- Não faz isso por mim?

- ...

- Please...

- Não diga a ninguém.

- Não digo, prometo.

- ...

- Está a ouvir-me? Alô?

- Raios, nem aqui dentro tenho sossego.

- Puxa o autoclismo?

- Mas que disparate pegado...

- Quero uma sensação pavloviana. Vá lá, puxe...

 

28
Ago12

Saturação

Eremita

A internet permitiu-nos cumprir um capricho antes inimaginável: aborrecermo-nos com as pessoas mais interessantes do planeta. Isto sucede porque podemos hoje consumir de modo obsessivo uma grande parte das entrevistas e debates em que essas pessoas participaram. E então percebemos que também elas acabam por deixar de nos surpreender. Estou a pensar no homem e não na obra, já que na obra do verdadeiro artista reconhecemos o esforço do autor para não se aborrecer com a sua pessoa. Entrevistas a Foster Wallace e a Žižek? O primeiro bocejo é só uma questão de tempo. 

26
Ago12

32

Eremita

- Não gosta do Jack White?

- Eu não aprecio whisky.

- É um cantor norte-americano.

- Só oiço britpop, querido.

- Vou enviar o moço de recados ao concerto da próxima sexta, podia ir com ele.

- Mas eu vou estar em Lisboa, parto amanhã. Obrigações conjugais, percebe?

- Então leve o seu marido ao concerto. 

- O meu marido só ouve jazz

- O Jack White é bom músico e quem gosta de jazz gosta de bons músicos. 

- Mostre lá.

- Vou pôr um vídeo de uma música calma, para não a assustar.

- Ainda acha que me assusto facilmente?

- Chiuu...

 

 

 

- Você acha essa música calma?

- It gets louder

- Adoro quando fala em inglês comigo. 

- Gosta da canção?

- Ele é giro. 

- Perdão?

- O White é giro. Animalesco. 

- Acha?

- Você também, não?

- Nunca tinha pensado nisso.

- Ou então pensou e reprimiu.

- Gosto dele sobretudo como músico. 

- Pois. Ai, os homens heterossexuais e os seus fantasmas...

- Está a dizer-me que tenho fantasias eróticas com o Jack White?

- Não tem?

- Não. Às vezes imagino-me a tocar com aquela vitalidade.

- "Vitalidade". Vocês julgam-se superiores, não é?

- Nós?

- Os intelectuais. 

- Eu não sou um intelectual. 

- É um intelectual reprimido.

- Deuses, devo ter um armário enorme. É o homossexual reprimido, o intelectual reprimido...

- E o amante reprimido, não se esqueça.

- Amante de quem?

- Meu amante...

- Você é louca.

- Relaxe, não tenho ciúmes do Jack. 

- Vai ao concerto na sexta?

- Tenho cabeleireiro nesse dia.

- Isso é uma resposta?

- Não se faça de rústico, olhe que tem o armário lotado.

 

 

25
Ago12

Tão frágeis

Eremita

Li Tchekov Tchexov pela manhã. Já tinha visto a representação, mas começo a perceber que as grandes peças devem sobretudo ser lidas. Não consegui escolher uma passagem, todo o texto vai tão ao encontro daquilo que me interessa que até as ocasionais passagens à argumento de telenovela me parecem sublimes. 

 

"TREPLEV: BEm, quanto ao que ele escreve propriamente, como hei-de dizer? Cativa o leitor, tem imenso jeito... mas depois de um Tolstoi ou de um Zola, quem é que tem paciência para ler o Trigorin? 

 

(...)

 

TRIGORIN: E será sempre assim, até à hora da minha morte, bonito e talentoso, bonito e talentoso – só isso. E depois de eu morrer, essas pessoas ainda vão passar pela minha sepultura e dizer: “Aqui jaz Trigorin, um bom escritor, mas inferior a Turgueniev.”

 

(...)

 

SORIN: ... aqui metido no campo, nas brenhas para falar propriamente, sem dinheiro, sem posição social, sem futuro [TREPLEV]. E sem absolutamente nada que fazer. Andar sem fazer nada, por aí, fá-lo sentir-se envergonhado, intimidado. Eu gosto muito dele, e ele está muito ligado a mim, mas isso não impede que ele, aqui nesta casa, se sinta a mais, para dizer tudo, um parasita. Não há dúvida, o orgulho dele...

ARKADINA: Dá-me imensos desgostos... (Pensativamente) Parece- me que o melhor seria ele entrar para o funcionalismo público, ou coisa parecida.

 

(...)

 

ARKADINA: Tu não compreendes, Konstantin. Ele é uma pessoa superior...

TREPLEV: No entanto, quando lhe chegou aos ouvidos que eu tencionava desafiá-lo para um duelo, essa superioridade não o impediu de se portar como um cobarde. Vai-se embora. Uma fuga vergonhosa!

ARKADINA: Mas que tolice! Fui eu que lhe pedi para nos irmos embora... Uma pessoa superior! Estás a ver, nós aqui quase a zangar-nos e ele na saleta ou lá fora no pomar a rir-se de nós os dois... está a burilar a personalidade da Nina, e a tentar convencê-la de que é um génio.

Dá-te muito prazer dizeres coisas desagradáveis. Eu respeito esse homem, e peço-te que quando eu estiver presente, guardes para ti os teus verrinosos pensamentos a seu respeito.

TREPLEV: Eu não lhe tenho respeito nenhum. Claro, querias que eu me convencesse também de que ele é um génio. Perdoa- me, não sei mentir - os livros dele dão-me vómitos.

ARKADINA: É pura inveja. As pessoas pretensiosas, mas sem talento, acabam por não fazer mais nada senão maldizer os que são realmente dotados de talento! Que linda forma de se consolarem.

TREPLEV: (Com ironia) “Realmente dotados de talento”, ora vejamos! (Furioso) Quanto a isso, eu tenho muito mais talento do que vocês todos juntos. (Arranca a ligadura da cabeça) Vocês e as vossas convençõezinhas tacanhas são quem manda na arte, hoje em dia. Consideram que só o que é feito por vocês é genuíno, autêntico - suprimem e destroem tudo o mais. Recuso-me a reconhecer-vos, e à vossa supremacia! Não admito a tua, nem a dele!

ARKADINA: Decadente!

TREPLEV: Vai, vai para o teu querido teatro, representar essas peças lamentáveis, medíocres.

ARKADINA: Nunca representei peças dessas! Deixa-me. Tu, que nem sequer tens talento que chegue para escreveres um vaudeville miserável. Pequeno burguês de Kiev! Parasita!

TREPLEV: Forreta!

ARKADINA: Pé descalço! (TREPLEV senta-se, e chora em silêncio) Perfeita nulidade! (Caminha de um lado para o outro, muito agitada) Não chores. Não é preciso. (Chorando) Não devias... chorar... (Beija-o na testa, nas faces, na cabeça) Meu querido filho, perdoa-me. Perdoa à tua mãe, que é a culpada... Sinto-me tão infeliz...

TREPLEV: (Abraçando-a) Se soubesses! Perdi tudo, tudo. Ela deixou de gostar de mim, e agora não consigo escrever... As minhas esperanças foram-se todas...

ARKADINA Vá, não percas a coragem. Tudo se há-de remediar. Ele vai-se embora daqui a pouco, e ela volta a gostar de ti. (Limpa-lhe as lágrimas) Pronto, pronto. Acabou-se a zanga, reconciliamo-nos.

TREPLEV (Beijando-lhe a mão) Está bem, mamã!


(...)

 

TRIGORIN ... Ah, o amor de uma rapariga assim, tão encantadora, poética, e que me transporta para o reino dos sonhos - só um amor como este, e mais nenhum, pode trazer a alegria na terra! Eu nunca tinha experimentado este amor... Quando era novo, não tive tempo, andava a bater à porta de editoras (...)

ARKADINA: (Furiosa) Perdeu o juízo?

 

(...)

 

SORIN: Tenho um bom tema para uma história, que gostava de dar ao Kostya: “O homem que quis”, “L 'Homme qui a voulu”. Noutros tempos, quando eu era moço, queria ser escritor e nunca fui. Queria ser um excelente orador e sou um péssimo orador. (Imitando-se) “E está tudo dito, e por aí fora, e pode ser que sim, pode ser que não”; e sempre que precisava de sintetizar, num pequeno resumo, dava voltas e voltas, e o mais que conseguia era cobrir-me de suores frios. Estava também firmemente apostado em me casar - e não casei. Apostado em viver na cidade a vida toda - e cá estou eu, no campo, a acabar os meus dias, e está tudo dito.

 

(...)

 

DORN:  ... Só aqueles que crêem que há vida eterna é que têm consciência do medo da morte, e o que os apavora são os seus próprios pecados. Ora o senhor, em primeiro lugar, mal pode ser considerado um crente e, em segundo lugar, que pecados cometeu? Serviu no departamento da Justiça durante vinte cinco anos - só isso.

SORIN(Ri) Vinte e oito anos.

 

(...)

 

NINA: (Fixando a cara dele) Deixe-me vê-lo bem. (Olhando em volta) É confortável, tem calor. Aqui era uma saleta, antigamente. E eu, mudei muito?

TREPLEV: Mudou... Está mais magra, tens os olhos maiores. Nina, é tão estranho estar a vê-la, agora, assim. Porque é que não me deixava vê-la? Porque é que não vieste cá, até agora? Eu sei que está aqui há quase uma semana. Fui várias vezes onde está, estes dias todos. Tenho-me posto debaixo da sua janela, como um mendigo.

 

(...)

 

NINA: (Com uma expressão aflita) Porque está ele a dizer estas coisas, estas coisas?

TREPLEV: Estou sozinho. Não tenho ninguém, próximo de mim, que me dê calor, sinto frio, como se estivesse metido numa caverna, e tudo o que escrevo está cheio de secura, dureza, escuridão. Fique aqui, Nina, peço-lhe, ou deixe- me ir conssigo! (NINA põe apressadamente a capa e o chapéu) Nina? Porquê? Por amor de Deus, Nina... (Olha-a, a vestir-se. Pausa)"


A Gaivota, A. Tchekov Tchexov, tradução cheia de gralhas de Fiama Hasse Pais Brandão

21
Ago12

400 apontamentos e um funeral

Eremita

Notas


1. Não há público mais fácil que num funeral; por isso, todos sorrimos quando alguém lembrou que o falecido não perdia nenhum.

 

2. Avalio o desempenho nos funerais como um trabalho de equipa, sem protagonistas, e creio poder afimar que estivemos todos muito bem. A família do rapaz do cineclube ficou muito surpreendida por ele ter tantos amigos e até algo invejosa; de outro modo não se percebe o desabafo do seu irmão mais velho: "espera até casares e vais ver quantos aparecem". Está errado, claro. O rapaz do cineclube seduz pela sua vitalidade, empreendedorismo, graça e bondade.

 

3. Como tema, o problema que a morte coloca é o oposto do problema do sexo. Talvez seja preciso mergulhar no Bataille para perceber os paralelos, mas basta tentar partilhar um exercício de observação feito durante um funeral com a partilha do mesmo exercício feito durante o acto sexual para sentirmos como são antagónicos. No primeiro caso, ficamos logo investidos de autoridade e nobreza; no segundo, somos uns pornógrafos até prova em contrário. 

 

4. Divergimos sobre qual dos 5 irmãos se parece mais com o rapaz do cineclube. O Judeu escolheu o benjamim (o rapaz é o segundo mais novo) e eu escolhi a única irmã, que é a mais velha dos seis. É tão óbvia a parecença nos traços finos, olhos rasgados e linhas horizontais a dominar as verticais  que, como noutras circunstâncias, voltei a duvidar das capacidades do Judeu para interpretar a realidade - e logo ele, que pretende descobri-la. Creio que é incapaz de ver parecenças entre um homem e uma mulher, a explicação só pode ser essa.

 

Continua

 

18
Ago12

Bestiário de Verão

Eremita

Andei uma semana fascinado com uma formiga que se passeava sobre a papelada que tenho espalhada na secretária. A formiga reaparecia com a regularidade do mero que convive com o mergulhador, só que mais resoluta, e deixava-me a imaginar o quanto eu precisaria de diminuir de tamanho até começar a vê-la como um monstro. Quando percebi que eram pelo menos duas formigas, perdi todo o interesse.

 

Gastei várias horas de uma tarde a tentar apanhar vivo um pequeno rato fêmea. O confronto decorreu numa sala de onde o rato não podia sair e só essa certeza evitou que desesperasse durante os vários momentos em que o animal andou escondido. Por vezes ouvia uma voz dentro da cabeça, que dizia, num tom familiar e provocador: "are you trying to corner me?". É possível que tivesse então passado a ponto de honra não apanhar o rato num dos quatro cantos, mas numa das suas corridas desprotegidas ao longo das arestas. E assim foi, até com algum engenho, pois consegui orientá-lo na direcção de uma caixa ligeiramente levantada, armadilha que ela tomou por abrigo.

 

Dei de comer ao rafeiro de um vizinho durante uma semana. Trata-se de um cão muito estúpido que costumo alimentar com alguma periodicidade, sem nunca ter conseguido corresponder ao seu entusiasmo quando me vê. Ele corria para mim cheio de vontade de conviver e eu assumia uma postura dissuasora, com uma das pernas armada para desferir um pontapé. O pontapé não saía e cheguei a fazer festas ao rafeiro, mas creio que ele foi a primeira entre as criaturas que respeito que me vez duvidar das minhas competências emocionais.

 

Na praia da Galé, voltei a apanhar conquilhas na maré vazia. Reparei que umas poucas destacavam-se das restantes por tentarem enterrar-se de novo na areia colocando-se a prumo, nisso lembrando o cachalote que mostra a cauda antes de desaparecer no mar. Quando a travessa veio para a mesa, consolei-me com a ideia de que essas poucas conquilhas eram as que o lume não chegou a abrir.

 

Tentei ouvir no barulho das cigarras o bater de um coração ofegante, mas intrometeu-se a imagem de um sistema de rega automático. Ao contrário da memória incisiva de um cheiro da infância, o som das cigarras é como uma caixa de ritmos sobre a qual podemos compor o que quisermos. Ou então nada de memorável na minha vida aconteceu ao som das cigarras.

 

Pela manhã, várias moscas da fruta pareciam ter nascido por geração espontânea do fundo de um jarro com um resto de limonada açucarada que sobrara do serão. Embora demasiado pequenos para singrarem no star system natural, são insectos encantadores, que nestas latitudes só perdem em graça para as joaninhas. Imaginei-lhes uma biografia colectiva, porque é difícil distinguir umas moscas das outras. 

 

Tem sido um Verão praticamente sem répteis, excluindo os cágados do Judeu, que são demasiado lentos para merecerem algum respeito. Cheguei a ir na esteira de uma ceifeira-debulhadora, na esperança de dar com os bichos rastejantes que se escondem nas searas; havia rapinas a pairar, estava uma tarde propícia para a observação da lagartada. Mas nada. Os caçadores queixam-se da falta de rolas. Eu só pergunto: para onde foram as lagartixas?

 

Nunca fui um observador de aves, não tenho a disciplina de coleccionador que o passatempo exige. São poucas as sessões de observação, poucas as espécies que me causaram forte impressão e sempre de acordo com o esperado, pois para se gostar de um pássaro banal são precisas muitas horas e eu não me distingo dos amadores, gosto mais dos pássaros coloridos do que dos pássaros raros. Não sei é se todos farão o que faço. É que, para responder a urgências físicas, a minha cabeça tende a imaginar mulheres, nisso não se distinguindo da cabeça de outros homens, mas quando preciso de me acalmar gosto de pensar em abelharucos. Num mundo ideal, esta seria uma mania só minha e que haveria mais alguém a fazer o mesmo, só que com o guarda-rios. 

 

 

 

 

17
Ago12

Um trabalho

Eremita

 

 

São várias as razões que levam uma pessoa a falar pouco. No meu caso, é crescente a necessidade de me furtar à censura a posteriori com que, logo pela manhã, revejo o que disse na véspera. Esta rotina agrava-se quando ando a ler e a escrever pouco, como tem sucedido neste mês de Agosto. O Judeu já se queixou.

 

Entretanto, pedi-lhe trabalho. O meu saldo bancário está negativo e nenhum dos projectos profissionais avançou. Tenho sobretudo pena de o negócio de ghost writer não se ter concretizado. Creio que seria capaz de escrever a autobiografia de Pedro Santana Lopes, respeitando-lhe o estilo e até a pontuação. E não seria difícil fazer o mesmo com outras personalidades da vida pública nacional, inclusive alguma senhora. Daí este trabalho, de contornos ainda mal definidos. De modo autodepreciativo, defini-me como o homem-a-dias do Judeu, mas ele prefere o termo "assistente" e optou por me dar a lista de tarefas que não quer que eu execute, como varrer e limpar a casa, cozinhar ou lavar-lhe a roupa. Suponho que sobra a função de motorista, o registo nocturno do tempo de imobilização do baloiço (1 e 2) e algum ocasional trabalho pesado.

 

Achei ternurento. O Judeu quer preservar a minha masculinidade - as vagas de feminismo passaram-lhe completamente ao lado e só a mutilação genital feminina e dramas de outras geografias o indignam; nem sequer o facto de a mulher que tira cortiça receber menos do que o homem o preocupa muito, embora ele reconheça que a solução consensual seria o pagamento ao quilo de cortiça e não à hora. Não discuti o ordenado, creio que andará à volta de dois salários mínimos, o que me chega para a renda, a comida, os livros e Espanha (mulheres, preservativos, gasolina e bocadillos). Pode ser que agora o Ouriquense ganhe alguma consciência de classe e que O Capital passe a ser uma das leituras comentadas. Também preciso de voltar ao Proust, mais por obrigação do que desejo - as saudades que tenho são das personagens do grande russo. Mas, essencialmente, estar vivo é agradável.  

 

16
Ago12

31

Eremita

- Fingi um orgasmo para o meu marido a pensar em si.

- Foi bom?

- Não seja cruel.

- Bem... perguntava se foi bem.

- Perguntou se foi bom.

- Desculpe. Foi bem?

- Ele não notou.

- Pode ter fingido.

- Acredite que não.

- Não fingiu o orgasmo dele, mas quem lhe garante que não fingiu ter acreditado no seu?

- Já lhe aconteceu?

- Eu acredito em toda a gente.

- De certeza que já fingiram consigo.

- É possível.

- Isso não o irrita?

- Se não reparar, não. 

- Mas a dúvida não o incomoda?

- Não. 

- Gosta que tenham pena de si?

- Não chega a ser uma mentira piedosa, é simples pragmatismo.

- Não pode saber. 

- Tem razão, chego lá por aproximação.

- Por aproximação?

- Deduzo o sentiria a partir do que senti com quem nunca fingiu orgasmos.

- Mas como pode saber que essa pessoa não fingiu orgasmos?

- Não os teve.

- Nunca?

- Nunca. 

- Muitas vezes?

- Não os teve muitas vezes, sim.

- Como sabe que não fingiu que não os teve?

- Vamos excluir essa hipótese.

- Ao contrário do homem, a mulher tanto pode fingir que teve como fingir que não teve.

- Pensava eu que a impossibilidade de um homem fingir o orgasmo sugere a impossibilidade de a mulher esconder o seu.

- Você e essas simetrias...

- Também reparou?

- Pensa sobre tudo da mesma maneira, é aborrecido.

- Sou "sobretudo" consistente, é isso?

- Sobre. Espaço. Tudo. Percebeu?

- Está quase a sorrir.

- Estava a fingir. 

- Não estava. Solte-se.

- Não vou sorrir.

- Vai.

- Não... não vou.

- Quer uma ajuda para não sorrir?

- Quero.

- Pense no seu marido. 

- Você é uma besta.

- Viu? Ficou séria de repente.

- Posso estar ainda a fingir. 

- Você também usa sempre os mesmos truques.

- Os mesmos truques?

- Para se fazer interessante. Abusa da recorrência. 

- Está incomodado por eu ter pensado em si enquanto fingia o orgasmo, não está?

- Não, estou surpreendido.

- Não me julgava assim tão má?

- Não a julgava tão criativa. 

- É o primeiro elogio que me faz, não é?

- Já tinha elogiado a tracção do seu jeep

- Land Rover, querido.

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