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Ouriquense

31
Jul12

30

Eremita

- Sabe que dia é hoje?

- 30 de Julho?

- 31. Sabe o que se comemora?

- Algo religioso?

- Frio.

- Uma guerra.

- Morno.

- Um armistício.

- Um quê?

- É quando os inimigos decidem parar a guerra.

- Quente.

- Quente?

- A escaldar.

- 31 de Julho... Não estou a ver.

- O orgasmo.

- Perdão?

- Comemora-se o orgasmo.

- Publicamente?

- Sim. Não é lindo?

- Não.

- Ai, tanto pudor.

- No sexo sem amor, só o pudor o distingue do desporto.

- Comemore comigo, não seja assim.

- Só comemoro Abril.

 

 

31
Jul12

O filho de Igor

Eremita

Brinquei pela primeira vez com o filho de Igor. Tem três anos e sai à mãe. Pensei que o iria ignorar ou então abraçá-lo como se fosse meu e acabei comportando-me como uma pessoa normal. Não fingi, disso tenho a certeza. Mas há dois tipos de normalidade: a dos que que pensam e agem segundo a norma e a dos que experimentam sensações tão extremadas e simétricas que se anulam sem deixar traço e se traduzem num pensamento e comportamento normais. Em rigor, não sei que normalidade foi a minha e ter consciência das duas não é prova de nenhuma.

23
Jul12

Uma constatação

Eremita

Após meses sem tocar nos ficheiros BW, da leitura daqueles escritos não podia tirar uma conclusão mais categórica: que boa merda. Falta-lhes agilidade e graça, o humor é forçado, palavroso o estilo, parvo o narrador, que tudo quer explicar. Sobra apenas uma certeza: a ideia é boa. Talvez precise é de outra pessoa para a escrever. 

 

Como conseguem as pessoas concretizar? Não faço a menor ideia. Não faço mesmo. 

14
Jul12

Dois tabus

Eremita
[em actualização]

 

Os últimos diálogos eróticos levaram Nuno Salvação Barreto a convocar uma reunião com carácter de urgência. Confesso que temi um sopapo, mas ele revelou-se até bastante afável. A reunião não durou mais de 5 minutos, porque o censor vinha com o trabalho de casa feito. Relembrou-me os princípios que devem nortear o Ouriquense citando Diego Armando Maradona - "...no se cumplió el sueño pero se encontró un camino. El de respetar la historia (...), de volver a las raíces, de jugar por abajo" -, alertou-me para as tentações vãs, não foi sensível ao que me parece uma perigosa transformação de blog de culto em blog morto, nem à inviabilidade económica deste projecto se não começar a fazer cedências comerciais. Passou-me depois para as mãos duas listas de palavras proibidas. Excepcionalmente, autorizou-me a revelar as listas, que passam a integrar o nosso livro de estilo. Não proibiu a blasfémia.

 

Léxico proibido escatológico-sexual: para evitar o clássico momento de humor à Diácono Remédios, e nos salvaguardarmos da suspeita de uma artimanha para enganar os motores de busca, Nuno Salvação Barreto obrigou-me a usar hipertexto para listas já existentes e a incluir apenas as palavras presentes nessa lista mas que NÃO serão suprimidas. Tomando por base o Dicionário Aberto de Calão e Expressões Idiomáticas, de José João Almeida, foi possível chegar a uma solução de compromisso que exclui apenas as palavras descritas como pertencentes ao "calão" (incluindo o "calão carroceiro" e o "calão muito carroceiro"). Dentro destes grupos, pelo contributo que podem dar à prosa e fraco teor ofensivo, NÃO são suprimidas as seguintes palavras e expressões: Abafa palhinha, abichanado, abrir a anilha, anhar, aranha [como sinónimo de cona*1; pipi; pito; pitaço; pirona; rata*2; vagina; ninho; parreco; pombinha; racha; febra; entrefolhos; mexilhão; ostra; greta; pachacha; patareca; passarinha; perseguida; boceta;conaça; crica; fanesga; boca do corpo), asterisco (como tipo que inferniza os outros), azeite/azeiteiro (como sinónimo de chulo, proxeneta *3, parolo, chunga, chulo, pimba, mitra), Badalhoco*4, banana (como sinónimo de pénis; pila; pincel; piça;caralho; besugo; cacete; pau; pinto; ponteiro; porra; drejo; bregalho; vergalho; piroca; pirilau; pichota; basalto; pirola; pissalho; piçalho; bitola; blica; bordalo; bacamarte; marsapo; besugo; sabordalhão), beita (sinónimo de esporra;langonha; esperma; nanha), berlaitada (como sinónimo de foda; pinocada; queca; coito; (dar* uma/) rapidinha; (dar* uma/) trancada; (dar* uma/) caimbrada; cambalhota)...

 

[Termino a transcrição mais tarde. Salvação Barreto era forcado mas tem letra de médico.]

 

Léxico proibido para uma recusa activa da hiper-actualidade: a elaboração desta lista colocou alguns problemas a Nuno Salvação Barreto, que pediu ajuda ao Judeu. O Judeu sugeriu-lhe que estabelecesse apenas critérios de exclusão que cumpram o objectivo de proteger o Ouriquense de uma hiper-actualidade que, por definição, está em constante transformação. Esses critérios, que também mantêm esta entrada impoluta, são os seguintes:


1- Nunca referir nomes de pessoas envolvidas em casos que mereçam o comentário de Marcelo Rebelo de Sousa.

2- Nunca referir conteúdos com comportamento viral na internet registado há menos de 1 ano.

3- Nunca escrever sobre temas abordados na mesma semana pelos seguintes cronistas, humoristas ou comentadores: João Miguel Tavares, Joana Amaral Dias, Nilton, Nuno Markl, Pedro Marques Lopes, Manuela Ferreira Leite e Vítor Manuel Ramalho. 

4- Nunca escrever sobre tópicos contemplados pelas 10 hashtags mais populares da actualidade.

5- Nunca comentar uma manchete de jornal com menos de 1 ano.

6- Nunca fazer links para blogs de pessoas sem ambições exclusivamente literárias.

7- Nunca comentar ou mostrar fotos de mulheres nascidas depois de 1984.

8- Nunca escrever sobre futebol.


São admitidas excepções para:

A.  os casos em que esteja em causa o bom nome do Alentejo ou da nossa vila, e ainda sempre que surgir uma oportunidade de denegrir Castro Verde. 

B.  as polémicas em que a força motriz é o ego dos intelectuais envolvidos. 

C.. qualquer notícia relacionada com Vasco Graça Moura ou Vítor Silva Tavares.

D. Prosa sobre o Sporting Clube de Portugal, no contexto do projecto BW, é admissível.

E. Links para o blog A Causa Foi Modificada, apesar de o autor ter a ambição de ser amado por estranhos.

 

Estas regras entram hoje em vigor e Nuno Salvação Barreto admite fazer algumas alterações, caso verifique que não antecipou todas as formas de perverter as grandes linhas orientadoras do Ourique: encontrar um caminho, respeitar a História, voltar às raízes , jogar com a bola colada ao relvado.

 

*1 As palavras em letra pequenina, que surgem apenas na qualidade de sinónimos de palavras resgatadas da lista negra, serão efectivamente censuradas. Não tive tempo de discutir com Savação Barreto a decisão que tomei de apresentar os sinónimos. 

*2 Uma palavra censurada no contexto escatológico-sexual pode salvar-se pela polissemia. "Rata", como fêmea de rato ou como a finta no futebol em que se faz passar a bola por entre as pernas do adversário, é perfeitamente aceitável. 

*3 Podem ser excluídas palavras que soam mal ao ouvido. 

*4 Não há paridade na censura: "badalhoca" é palavra proibida, mas não "badalhoco".

 

 

13
Jul12

29

Eremita

- Relvas é sexy.

- Perdão?

- O Ministro Miguel Relvas é sexy.

- Está tudo bem?

- Não acha?

- Na lógica do bad boy?

- Não. Por aquela resistência à vergonha. Sexy.

- Você avariou.

- Não é de hoje. Valentim Loureiro. Sexy. Duarte Lima. Sexy.

- Ao menos escolha mulheres. Fátima Felgueiras?

- Sexy.

- Assim faz-me menos impressão.

 


 

13
Jul12

28

Eremita

 

- Gosta de ostras?

- Não comece.

- Só perguntei se gostava de ostras, relaxe.

- Consigo imaginar o que vai dizer com 7 lances de antecedência.

- O Kaspov de Ourique.

- Karpov. 

- Era uma piada. 

- Não acredito.

- Tem caspa, sabia?

- Você não seria capaz de fazer aquele encadeamento.

- Vive na minha cabeça?

- Qual é o nome próprio do Karpov?

- Vlaaaaaaadimir.

- Anatoli.

- Isso não prova nada, Kaspov.

- Não seja infantil.

- Então adivinhe no que estarei a pensar 5 minutos depois de me deixar em casa.

- Num cunnilingus feito por um grande mestre. 

- Ahah... 

- Acertei?

- Só falhou a profissão.

- A sério?

- Mas você não sabe tudo?

- Arrisquei. Podia ter outras fantasias.

- Não. Minetes.

- Gosto de ostras.

- Era retórica. Gosto do gelado magnum, escusa de perguntar.

- Não ia perguntar nada.

- Mas fica a saber.

- A reciprocidade no sexo oral é só boa educação. 

- Esse cinismo vai acabar consigo. Não gosta?

- Todos os homens gostam.

- Comigo ainda iria gostar mais.

- Nunca saberemos.

- Porque não discrimina, já sei.

- Porque não acontecerá.

- Mas discrimina?

- Só entre bom e mau.

- Acha isso justo?

- Justo?

- Juntar o razoável e o sublime.

- Contrario este tempo de meritocracia histérica. 

- É uma declaração política, portanto.

- Se quiser. 

- E gosta que falem?

- Gosto das mentiras do costume, sim.

- As hipérboles?

- As hipérboles. 

- Nunca lhe disseram nada em que acreditasse?

- Uma vez.

- A pila nua e crua?

- Não: "a confusão que deve ir nessa cabeça".

- Hum?

- Ela olhou para mim e disse: "ai, a confusão que deve ir nessa cabeça".

- Você tão esquisito. Quer que lhe diga isso também?

- Não percebe nada.

- Brincava. Mas explique.

- Foi sincero. Inteligente. Inesperado. 

- Certeiro?

- Só na medida em que havia alguma confusão.

- Pensava noutra?

- Não. Se pensasse noutra teria sido horrível.

- Mas então onde está a confusão?

- Você sabe por que motivo os homens gostam de ver?

- Os homens respondem mais a estímulos visuais, toda a gente sabe.

- Os homens gostam de ver para afastar a confusão. 

- Mas que confusão?

- É uma espécie de nebulosa.

- Uma nebulosa?

- Muitas mulheres, mas como poeira.

- Você é completamente chanfrado, sabia?

- Ou então imagine uma mulher feita de todas as outras.

- Ainda mais tétrico. Posso voltar à nebulosa?

- Nem o primeiro sexo é puro.

- Pronto. Dramático. 

- Ou melhor, o sexo na Lagoa Azul foi puro.

- O filme?

- Cresceram na ilha, só se conheciam um ao outro.

- E as fotos?

- As fotos?

- Havia fotos pornográficas na ilha...

- Não me recordo. Bem, então nem na Lagoa Azul

- Há sempre confusão?

- Sempre.

- Não quero ir para casa. Vamos jantar fora?

 

 

 

12
Jul12

27

Eremita

- Estava a olhar para o meu rabo, não estava?

- Sim. 

- Pensei que fosse mais de mamas.

- A ontogenia recapitula a filogenia, conhece a expressão?

- Já ouvi isso numa entrevista.

- Bem, em rigor é uma expressão errada, embora útil.

- Você sabe tantas coisas. 

- O desejo sexual evolui em regressão filogenética.

- Ai, fica tão sério quando se põe com essas coisas. Devia acreditar em Deus.

- Sou um ateu não praticante.

- Sim, mas se acreditasse em Deus seria mais ligeiro com todos os outros assuntos. 

- Agora já é tarde. Não posso acreditar em Deus por ter percebido que dá jeito, certo?

- Também é por isso que não se apaixona por mim. Sabe que sou rica.

- Não diga tolices. Quer que lhe explique a regressão filogenética?

- Quero que goste sempre do meu rabo.

- A mama como característica valorizada no acto sexual é uma aquisição mais recente do que o rabo.

- Mas isso é trivial, está mais longe dos genitais. 

- Não é assim tão simples. Há quem diga que tudo começou com a invenção da posição do missionário.

- Uma grande invenção.

- Mas que retirou o rabo do campo visual durante a cópula.

- Você é tão rústico. Nunca esteve num quarto com espelho no tecto?

- É o seu rabo que conta, não o meu.

- Esse sexismo humaniza-o, sabia? 

- Aliás, o espelho no tecto favorece esta tese. 

- A sua tese, claro.

- Ver o rabo ou recriar um simulacro de rabo, percebe?

- A sua tese é pateta.
- Não é minha. Nem acredito nela. 

- Mas decidiu contar.

- Contamos tantas coisas em que não acreditamos, já viu?

- Podíamos também praticá-las, não?

- Não. Posição do missionário, certo?

- Eu gosto de todas.

- Com a posição do missionário o que fica à frente da vista são as mamas. 

- Agrada-me. Não diz "seios".

- Só quando discuto estatuária do período clássico. 

- Vá, estas mamas à sua frente. E depois?

- A mama terá então evoluído no sentido de parecer um rabo.

- Que grande disparate.

- O rego, está a ver?

- Gosta?

- Do quê?

- Do meu rego.

- Era um exemplo genérico.

- Mas as pessoas acreditam mesmo nisso?

- Algumas pessoas.

- Tontos.

- A verdade é que aprendi a gostar mais de rabos, como os macacos. 

- A tal regressão. Ai, fica-lhe tão bem. Vá, regrida mais um pouco. Regrida.

- Ou então foi por causa dos implantes mamários.

- Nota-se muito?

- Você tem?

- Não sabia?

- Não. 

- O meu cirurgião é um génio. Quer sentir?

- Seria perigoso. Ainda não regredi completamente. 

- Faz-me rir. 

- Com os implantes, a mama deixou de ser uma dádiva da natureza.

- Isso é importante?

- A beleza deve resultar da sorte. 

- Você sabe o trabalho que me deu ter este rabo?

- É um rabo meritocrático?

- É magnífico.

- Sim. Deixe-me corrigir, então. A beleza deve apresentar-se como fruto da sorte, mesmo que isso seja uma ilusão.

- E se a Tatiana pudesse comprar umas mamas?

- Perdão?

- A Tatiana, aquela reles caixa de supermercado.

- Não fale assim.

- Toda a gente sabe, sabia? Você é patético. E de esquerda. Só acumula defeitos.

- Não seja desagradável. 

- É uma tábua, essa sua Tatiana. Até lhe pagava as mamas dela para o ver mais feliz.

- Chega. 

- O que você não quer é sujar as suas mãos no luxo das minhas mamas.

- ...

- Não diz nada?

- Espere, estou a apontar. 

- A apontar o quê?

- "no luxo das minhas mamas".

- Gostou?

- Muito.

- Ponha o caderninho no bolso. Vamos à aula prática?

- Não.

- Sabe qual é o seu problema?

- É só um?

- Você pensa tanto nas coisas que não pode ser boa pessoa e isso entristece-o. 

- Se calhar tem razão.

- Tenho, não tenho?

11
Jul12

26

Eremita

- Não pare. Não pare.

- Não?

- Não pare. Mais depressa. Mais depres...

- Estamos dentro da vila, não posso acelerar.

- Acha que ela me viu?

- Não creio, o Judeu pôs vidros espelhados.

- Abençoado Judeu.

- Ainda não percebi o seu secretismo.

- Ela não me pode ver consigo.

- Mas só lhe estou a dar uma boleia.

- Disse-lhe que namorávamos.

- E ela acreditou?

- Sim.

- Já nada me choca nas lisboetas.

- A nossa credulidade?

- E a falta de escrúpulos.

- Favoreci-o no relato.

- Ah...

- Disse que era romântico e bom na cama.

- Devia apenas ter dito que sou bom na cama.

- Porquê?

- Porque era mais fácil fingir que somos namorados.

- Acha?

- Não comece...

- Acha mesmo?

- Tire a mão, tenha juízo.

- Quer que pare?

- Sim.

- Paro?

- Sim. Tem de repetir tudo o que diz?

- Bruto. Você é um bruto.

08
Jul12

25

Eremita

- Sabe o que dizem das mulheres bonitas, não sabe?

- Não são sempre burras, isso é um disparate. 

- Mas eu falei em loiras?

- Diga lá.

- Não, diga você.

- Não faço ideia. Que são caprichosas?

- Acha?

- Eu não acho nada, estou a pensar no que se diz.

- Eu sou caprichosa?

- Há excepções.

- Mulheres bonitas que não são caprichosas?

- E mulheres caprichosas que não são bonitas.

- Sempre encantador. E que mais?

- Fúteis?

- Não é a mesma coisa?

- Estava a ganhar tempo.

- Deixe-me ajudá-lo: o que dizem delas na cama...

- Dizemos alguma coisa? Apenas pensamos.

- Ai, não seja assim. O que dizem sobre elas na cama. 

- Como elas são na cama?

- Sim.

- Há uma tese sobre isso?

- Há.

- Bem, não sei. Posso falar-lhe da minha experiência...

- Com putas...

- Não, das outras.

- Esse plural...

- Só para credibilizar a opinião.

- Diga lá, estou em pulgas. 

- O sexo não as favorece. Só conheço uma excepção.

- Meu Deus. E não se casou com ela?

- Não foi possível.

- Mas porquê?

- Impedimentos legais, desajustes temporais, circunstâncias várias, histórias passa...

- Estou cheia de pena. Mas perguntava por que razão as mulheres bonitas tendem a ficar mais feias.

- É muito difícil encontrar beleza compatível com os actos animalescos do sexo. 

- Acha? 

- Sim. Por vezes ganham até rostos demoníacos. 

- Você é mesmo esquisito. 

- Ou então tive azar.

- O que dizem sobre as mulheres bonitas não é nada disso.

- Conte lá.

- Dizem que não são boas na cama porque não têm de se esforçar.

- Só isso?

- Não acha interessante?

- Não.

- Mas concorda?

- Não.

- Não?

- Nem sempre.

- A sua excepção, estou a ver.

- Sim. 

- Meu Deus, erga-lhe uma estátua de bronze no monte. 

- Paga por si?

 

 

 

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