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Ouriquense

30
Jun12

Conversar

Eremita

Nunca soube conversar e já não vou a tempo. Os problemas foram diagnosticados muito cedo: uma falta de jeito para aquilo a que se chama "fazer conversa" e uma incapacidade para discutir como se não fosse importante. O sentido de humor disfarçaria estas falhas, mas creio que precisaria de ser muito mais engraçado. Um outro estilo, mais dócil, mais indiferente, mais falso, mais cínico, mais educado, enfim, qualquer outro estilo seria preferível, para uma convivência de sucesso. Sem conseguir esse estilo em tempo útil, só me sobrou Ourique. O que não quer dizer que viva hoje sem arrependimentos. 

 

Lamento não ter dado o devido valor a quem sabe partilhar experiências banais com palavras improvisadas. Se nunca tive grande consideração por essas pessoas, hoje admiro-lhes a capacidade de preencher o silêncio com um discurso fluido. Como faziam aquilo, com tamanho empenho no que me parecia tão pouco interessante, tanta generosidade e total desprendimento? Não faço a menor ideia. É um verdadeiro mistério, mas daqueles que amadurecem muito devagar num espanto tardio, oposto à admiração imediata de que sempre gozam os mais silenciosos. Que não se confunda este espanto com paternalismo, porque reconheço nessas pessoas uma capacidade admirável para o relato, que não possuo e é essencialmente literária. 

 

Lamento ainda mais a minha incapacidade para discutir com as pessoas que me eram queridas, a irritação com que chegava aos temas essenciais, a incapacidade para alterar o rumo quando percebia que a minha preocupação só se exteriorizava em crítica e depois o medo crescente de iniciar essas conversas. Muitas vezes, verbalizava e imaginava-me em simultâneo a escrever numa carta o mesmo, mas filtrado de todas as traições que o corpo nos prega. É provável que em certas alturas também tivesse pensado em amordaçar a outra pessoa; aliás, creio que o que de sedutor há na fantasia comum de ter a conversa essencial in extremis, no leito de morte, vai além da ideia de se partir em paz, porque a morte iminente de quem fala, tal como a mordaça em quem ouve, evita os perigos da dialéctica. E como desejei ter o controlo absoluto das conversas, que não me levassem para os caminhos que tinha decidido evitar, nem para os caminhos que ignorava. Porque no dia seguinte doía muito ter falado tão mal ou não ter falado sequer, como uma ressaca de estupidez ou de cobardia. 

29
Jun12

24

Eremita

- Tem visto o Euro?

- Vagamente.

- Eu vi todos os jogos. Aquelas coxas...

- E o Pirlo?

- Quem?

- O Pirlo. É o melhor do Euro.

- O melhor foram as pernas do Nani em mega slow motion. Pilro?

- Pirlo.

- Piii-lro... Ai, não consigo.

- Diga Arbeloa.

- Aberloooa.

- Arbeloa.

- Aberloooa.

- Ar... Ar... Arbeloa.

- Morda-me.

28
Jun12

...

Eremita

Nunca cruzes a citação com a biografia. 

 

Laissons les belles femmes aux hommes sans imagination. Marcel Proust 

Il sesso è un incidente: ciò che ne riceviamo è momentaneo e casuale; noi miriamo a qualcosa di più riposto e misterioso di cui il sesso è solo un segno, un simbolo.  Cesare Pavese

 

...

 

 

 



27
Jun12

Intervenção cívica

Eremita

 

 

A partir de hoje, sempre que nos parecer importante intervir no mundo, de Ourique será enviada uma carta. A nossa primeira acção será endereçada à editora Quetzal, a propósito da tradução do título "Infinite Jest".

 

Alguém disse que as palavras eram a espada de Lincoln e tudo faremos para que essa espada seja a de Afonso Henriques.

 

Qualquer acusação de nacionalismo será devidamente decapitada.

 

Darei conta destas actividades e mostrarei prova documental na série a que chamei Novas Batalhas de Ourique.

 

26
Jun12

Cena #1

Eremita

Tenho sobretudo pensado no que não quero escrever e na necessidade de fazer várias versões do capítulo entretanto escrito, mas desde domingo ando obcecado com uma cena cujas influências não consigo identificar; interpreto este vazio referencial como um sinal de qualidade, por contraste com outra cena, em tempos também muito presente e entretanto sossegada, em que Hans sai da água do mar e é observado por Guillaume com uma vaga curiosidade erótica, o que foi provavelmente decalcado de um James Bond recente. A nova obsessão é esta: Paulo, o primogénito de Guillaume que tem uma inteligência matemática acima da média, é incitado a começar uma colecção, mas não se interessa por cadernetas, nem selos, nem latas de refrigerantes, nem nenhum outro conjunto de diversidade conspícua, e descobre que gosta é das séries monótonas. Daí começar uma colecção de amostras de areia de diferentes praias, que cresce muito depressa, em parte alimentada pelo cosmopolitismo do pai. Paulo tem três preocupações: que a areia esteja sempre em frascos idêntidos, que as etiquetas sejam sóbrias, chegando a utilizar para o efeito uma impressora, e que nunca dois frascos estejam abertos ao mesmo tempo numa mesma divisão, para evitar contaminações com grãos de areia de outra praia. Mas Paulo não sabe que Pedro, o benjamim, por vingança e pela calada, um dia misturou quase todas as areias, segredo que depois partilhou com a irmã Patrícia, que nada disse a Pedro.

 

Adenda: os projectos de cenas passarão a ter números. Esta é a cena #1.

19
Jun12

23

Eremita

- Sabe quanto tempo demora uma pessoa a bordar "amo-te" numa colcha?

- Lamento, tenho modista.

- Eu também não sei, mas deve ser coisa para alguns minutos, não?

- Agora há máquinas para tudo, não faço ideia.

- Foi antes do ano 2000...

- Depende do ponto.

- Acha?

- Olhe, sei lá. Você hoje está aborrecido. 

- Mas mesmo que demore apenas um minuto, é tempo suficiente para se desistir da ideia.

- Sim, ela amava-o. A colcha bordada a contrastar com as palavras na areia. Mudamos de assunto?

- Na areia?

- O impulso que a maré seguinte apaga é diferente do gesto demorado que fica para sempre, não é?

- É, não é?

- E as traças?

- Está impecável. E nunca mais me disseram "amo-te".

- As pessoas são complicadas. Eu só não digo porque nos tratamos por você.

- Não brinque.

- Eu amo-o. 

- Por favor...

- Amo-o perdidamente, percebe? Quer que o borde na cuequinha?

- ...

-  Simplifique. Leia menos. Beije-me. Mexa-se.

15
Jun12

Contributos para Menezes & Menezes

Eremita

[actualização permanente com carácter de urgência]

 

 

Aconteceu em Ourique, mas sem subsídio da autarquia, a pedrada no charco cujos círculos concêntricos se propagam já no liso plano do meio cultural português. Ignorados pelos media, nem por isso nos calaram: ontem [13.06.2012] chegámos ontem a Vila Real de Santo António, a Aljezur e Barrancos, hoje contamos varrer Lisboa, amanhã estaremos em Gaia, minutos depois no Porto e antes do fim do mês alcançaremos Timor, vindo dos dois lados, para não excluir os compatriotas desterrados na Mongólia ou em Honolulu. Unidos e virulentos, com a resiliência dos que amam e a esperança de quem já venceu um braço de ferro com a administração pública, conseguiremos alterar o infame título da tradução de Infinite Jest.

 

Contamos já com algumas alternativas, que pingam em Ourique ao ritmo das chamadas telefónicas de um telethon em horário nobre. Junta-te a nós no esforço de encontrar alternativas ao péssimo título que não mais será aqui escrito, para que possamos pressionar os tradutores de Infinite Jest antes que as rotativas tenham para sempre manchado a estreia de David Foster Wallace na lusofonia. 

 

Cada novo contributo será adicionado a esta lista, que contamos enviar aos tradutores de Infinite Jest e à Quetzal no dia 4 de Julho. 

 

Bobagem sem Fim Rogério Casanova, que entretanto esclareceu tratar-se de uma sugestão irónica.

A Graça Infinita Eremita

O Dichote Infinito Anão Gigante

O Chiste Sem Fim Anão Gigante

O Eterno Deleite Judeu

Brincadeira Infinita Sérgio Lavos

Brincadeira Sem Fim Sérgio Lavos

 

Vício Infindo Rapaz do Cineclube

Infinitamente Cômico Dulce Silva

Um Riso Sem Fim Dulce Silva

A Sorrir Eternamente Dulce Silva

Eternamente a Sorrir Dulce Silva

Um Eterno Riso Dulce Silva

Uma Eterna Laracha Dulce Silva

A Pilhéria Infinita Dulce Silva

Loooooool Dulce Silva

Infinita Pilhéria Tinoco
Infinita Galhofa Tinoco
Infinita Chacota Tinoco
Infinito escárnio Pirata-Vermelho
Um escárnio sem fim Pirata-Vermelho
A infinita borga Beach

 

Alguns comentadores sugeriram que o melhor seria ter como ponto de partida uma boa tradução de Hamlet, pois "Infinite Jest" é retirado da descrição que Hamlet faz de Yorick, o homem que em tempos habitou a famosa caveira: "...I knew him, Horatio: a fellow of infinite jest, of most excellent fancy..." Tenho sérias dúvidas sobre o valor intrínseco deste exercício, mas como qualquer alternativa é superior à tradução que não mais mencionarei e este nosso projecto está ferido de morte, visto nos faltar autoridade, a sugestão acaba por não ser má. Acresce que esta informação faz de "Bobagem Infinita", a sugestão de Rogério Casanova que o próprio aparentemente já renegou, uma das melhores, se a colagem à fonte original for relevante, pois Yorick era o bobo do rei.  Enfim, alguém sabe como esta passagem foi vertida nas traduções de referência? Abri uns tupperwares, só que da vez em que estive mais perto a tradução de Álvaro Cunhal era do Rei Lear. E online, o que encontrei foi isto:

 

#1 Conheci-o, Horácio; um sujeito de chistes inesgotáveis e de uma fantasia soberba.

 

#2 Eu conheci-o, Horácio... Era um homem grandemente gracioso, dotado da mais fecunda imaginação. 

 

#3 Eu o conhecia[,] Horácio: um camarada de infinita espirituosidade, de mui excelente imaginação.

 

#4 Conheci-o, Horácio, era uma mina inexg[s]otável de ditos engraçados; tinha uma imaginação viva e fecunda!

 






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