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Ouriquense

29
Mar12

Não o merecemos

Eremita

Quem mais poderia ter feito pela saúde mental do nosso povo foi o banqueiro António Horta Osório. Aquele seu esgotamento nervoso prova que até um profissional essencialmente perfeito fraqueja. Infelizmente, não estávamos preparados para a lição. A discrição dos media no tratamento deste caso passou por deontologia e a perplexidade das gentes passou por respeito. Mas que esperança havia para um povo que só vibra com os seus heróis unidimensionais? Que esperança, para quem lidou com os falhanços crónicos do atleta Fernando Mamede partindo-lhe a montra da loja?  Não me interpretem mal, nem tudo é luta de classes: se alguém partisse os vidros do Bentley de Horta Osório ainda ficaria mais desconsolado.

 

 

27
Mar12

This is Summer

Eremita

 

 

Sei quando deixei de ser novo. Conduzia na marginal e reparei num grupo de estudantes, rapazes e raparigas, que iam muito divertidos dentro de um carro descapotável. Horas antes, tinha sido o professor deles. Parece-me hoje óbvio que para o fim da minha juventude contribuiu o contraste entre o eco de sala de aula subitamente presente dentro do meu carro e os cabelos delas ao vento, como num anúncio de champô, mas mais determinante foi a assimetria entre a minha capacidade de conhecer por dentro o momento que eles viviam e a total ignorância deles quanto ao que me passava pela cabeça, bem como o contraste entre o meu profundo interesse por eles e o seu relativo desprezo por mim, apesar de até terem sorrido quando repararam em quem seguia à frente. Preferia - acreditem - não abusar da importância de os ter visto através do retrovisor, nem fazer mais um paralelo baseado em noções elementares de física, só que esse é um dos meus vícios de raciocínio irreprimíveis e não consigo deixar de pensar que a consciência fulminante de um ângulo de visão a captar uma cena à retaguarda só deixou espontâneo o primeiro segundo em que, por reflexo de automobilista, dei por eles, pois o que a seguir se passou ficou logo contaminado pela ilusão de estar a filmar a minha autobiografia. Mas não deixa de ser um momento precioso e feliz, apesar de se tratar de um óbito. Pior seria associar o fim da juventude à morte dos pais e à responsabilidade de cuidar de um irmão mais novo, ao nascimento de um filho, a fazer 40 anos, à visão do primeiro cabelo branco, a uma competição perdida para alguém mais novo que sempre vencera ou a qualquer outra circunstância estereotipada. É vaidade, claro, mas prezo esta capacidade de criar as minhas próprias efemérides. Matei a minha juventude pelos meus próprios meios, como agora tendo também a libertar o Verão das condicionantes da astronomia, das convenções de calendário, do regresso das camisas de linho. Não, o Verão não começa pelos sentidos - isso não basta e seria ainda um estereótipo. Ou melhor, haverá um sentido fundador e suspeito até que a enumeração de ervas aromáticas  que podem escutar no vídeo seja uma boa pista para o isolar, mas oficialmente, este ano, como no ano passado, o Verão começou quando na minha cabeça se fez ouvir a cadência de Rick Moody a ler o início do The Pale King. É o Midwest, só que parece ter sido sempre aqui.

16
Mar12

Aproximações

Eremita

Com a mudança para Ourique e a cedência a uma rotina de ócio, desapareceram quase por completo os instantes de grande sintonia comigo mesmo. Costumavam surgir logo após a conclusão de alguma obrigação profissional, sob a forma de desejo intenso de correr para alguém ou então de escrever, caso não houvesse ninguém para quem correr. Parecia que a obrigação fazia com que se intensificasse uma qualquer tensão potencial elástica, que uma vez solta me impelia na direcção dos meus desejos mais íntimos e sinceros. Para um céptico por natureza, estes momentos funcionavam também como experiências acidentais de onde se podia extrair prova e eram superiores à thought experiment em que se responde à pergunta "quem ou o que levarias para uma iha deserta?", precisamente porque se fintava o raciocínio e o impulso dominante vinha com a certeza da emoção. Nada de novo. Quase todas as respostas importantes não são precedidas de uma pergunta. Mas vou tirar daqui uma lição.

05
Mar12

Autobiografia do corpo

Eremita

 

 

John Coplans 

Se fosse de forjar epifanias, diria que o entendimento - digamos - profundo de um ginásio ocorreu no dia em que trabalhava os deltóides numa máquina e, mesmo à minha frente, uma rapariga corria de costas voltadas para mim. Tinha uma roupa - um top de licra? - que lhe descobria uns ombros muito harmoniosos, umas omoplatas bem revestidas, a região lombar com uma suave curvatura que fazia a transição concâvo-convexo no lugar perfeito... enfim, um corpo cinzelado com o bom senso de quem sabe que não deve perder toda a gordura nem crescer demasiado músculo. Eu tentava disfarçar o olhar fixado nas suas nádegas com uma máscara de esforço que me levava a semicerrar os olhos, mas aquele rabo não saía do campo de visão, apenas ficava ligeiramente desfocado, também por causa do suor nas pestanas. Só que em algum momento o rabo sublime e enxuto passou a ser visto como um símbolo de fertilidade e sem ponta de lascívia. À minha frente, a Vénus de Willendorf corria sobre a treadmill. Não estava a alucinar, limitei-me a fazer uma associação, mas como há um fascínio generalizado por aqueles seios pesados e coxas poderosas, e quase nenhuma imagem do traseiro da Willendorf, tê-lo imaginado a partir de um rabo pós-moderno fez-me dar descanso aos deltóides e pensar por momentos se não haveria ali um princípio de "deserotização" algo redentor, que talvez me reabilitasse ainda a escrita. Descair no extremo oposto e tornar aquele espaço num ringue em que se boxeia desesperadamente contra a efemeridade, pela tonificação do corpo (a defesa alta) e pela reprodução (o uppercut que dá a vitória por knockout) também me pareceu algo forçado. E como tudo me parecia bastante plácido, a sugerir que a tensão sexual era na verdade neutralizada pela concentração de narcisos, não via ali a malha social dos ginásios onde se pratica desporto de competição, algo capaz de me levar a um pastiche do conto de Ruben Fonseca que acabara de ler, só sobrava mesmo fazer do corpo pretexto e manifesto: se o que está ao alcance de um homem normal é escrever sobre si próprio e se o homem só tem poder sobre o seu corpo, embora nada o force a circunscrever-se à escrita sobre o corpo, não causará surpresa que em alguma altura inscreva o seu corpo na escrita.

 

Lembrei-me então de uma exposição do fotógrafo John Coplans, que vira na adolescência, na Fundação Calouste Gulbenkian. Eram auto-retratos enormes de um corpo nu e envelhecido. Como nunca se via o rosto, havia ali o mesmo efeito de apropriação que se explora nas sequências pornográficas de felação, em que o homem é excluído da imagem de tal forma que o ângulo do seu corpo se funde com o do espectador, que lhe toma de empréstimo a imagem do pénis. Também Coplans fazia com que um rapaz se apropriasse dele, mas para estender a sua vida e não o corpo - afinal, gostamos de comprar antiguidades. O corpo de Coplans ainda hoje me surge como o mais almejável dos desejos, embora lutasse contra ele todos os dias naquele ginásio. Era como se aceitasse que iria passar a vida atrás dos corpos de Mapplethorpe, num esforço inglório, mas a partir de então com a tranquilidade de quem na juventude passou revista ao lar onde sabe que teminará os seus dias e não desgostou da decoração. Por isso concluía sempre os exercícios com um sorriso, logo a seguir a desfazer a máscara de esforço. Isto criou vários e deliciosos equívocos. Por exemplo, a tal rapariga, quando se virou e me viu, sorriu de volta. Devo muito a John Coplans. in Um tributo a John Coplans, série.

 

 

Nova temporada de caça e recolecção junto à costa. Galé e arredores. Desta vez levo o carro do Judeu, aburguesei-me. Ah, lembrem-me de o lembrar que o vidro de uma das janelas já não desce. Volto no fim do mês. 

02
Mar12

Humor e amor

Eremita

 Ponham o vídeo a correr, tem música.

 

 

A entrevista de Carlos Vaz Marques a Abel Barros Baptista (ABB) - o vídeo está a correr? - e Ricardo Araújo Pereira (RAP), na Ler de Fevereiro de 2012, abre com um momento de génio do catedrático ABB, que responde à pergunta "O que vos faz rir?" assim: "Velhinhas a cair". Sem conseguir manter este nível, o resto da longa conversa não deixa de ser um grande festival de inteligência e cultura literária. Mas pesa a ausência de uma explicação neurológica para o humor. É o costume. As humanidades preocupam-se mais com a mecânica dos fenómenos do que com a máquina que os produziu. Por exemplo, abri agora o tupperware com a História do Feio, dirigida por Umberto Eco, fui ao índice de autores e vi que Georges Bataille dá 5 a 0 a Darwin; li depois a introdução, reparei que Darwin até aparece en passant e só posso reforçar a impressão de que é grande o afastamento entre as humanidades e as ciências naturais, ao ponto de a ideia de simetria não ter neste volume o tratamento merecido que lhe é dado pela Psicologia Evolutiva e de a pessoa responsável pelo índice de autores não ter sequer a sensibilidade para reconhecer Darwin como um. Trata-se, como é óbvio, de uma separação artificial, no sentido em que reflecte mais uma lógica corporativa e a nossa incapacidade em dominar diferentes disciplinas do que uma opção reflectida sobre a melhor forma de entender a realidade. E não há sinais de que algum dia acabará, apesar da arrogância de uns, porque o grau de especialização crescente contrabalança a tendência também crescente para a multidisciplinaridade e a multidisciplinaridade ainda não fez o suficiente para eliminar a suspeita de que se trata de um conjunto de disciplinas distintas unidas pela ignorância recíproca. Ficamos então nisto: as velhinhas caem e a gente ri, sem ficarmos satisfeitos com as citações de Camilo e Eça que ABB e RAP discutem. Talvez tenha havido algum propósito de cauteloso obscurantismo, mas pareceu-me excessivo, porque explicar o humor não é o mesmo do que explicar uma piada. E o humor pode ser apenas isto:

 

To aid survival, our brains constantly and covertly use heuristics to generate expectations about what we will experience next, but we would be too inventive for our own good if we did not regularly search for and remove discrepancies between our expectations and our experiences. The immediate incentive to look for such discrepancies and thereby to reduce error comes from the pleasure of discovering a mistake in a currently harmless active belief that was introduced covertly. That pleasure is mirth, and humor is what produces it. Thus, humor is “a cognitive cleanup mechanism” that stains with mistaken belief before washing out the error (as in “I wondered why the Frisbee was getting bigger, and then it hit me.”). Laughter is then a public signal of our ability to clean up our minds. Because such cognitive prowess is useful, it attracts mates—both friends and sexual partners—and spreads throughout the world. Citação retirada da recensão que Walter Sinnott-Armstrong publicou na Science sobre o Inside Jokes: Using Humor to Reverse-Engineer the Mind.

 

Para que não haja equívocos, sou alérgico à banalização da Psicologia Evolutiva, que tende a produzir trivialidades aborrecidas (admito até que a correlação entre um rosto simétrico e uns genes bons desperte apenas um encolher de ombros), mas neste caso creio que dá um contributo estimulante e luminoso. O humor é visto como um prémio imediato pelo esforço com que avaliarmos a qualidade do nosso pensamento, melhorando-o pela descoberta das incongruências entre as nossas previsões e observações, tarefa que, como sabemos, à  partida não tentaria ninguém. Por outras palavras, a fugaz alegria que ganhamos com o humor está para a reflexão como o orgasmo para a reprodução e isto, sendo óbvio a posteriori, não me parece trivial, nem é apenas pícaro, porque faz-nos chegar a conclusões contra-intuitivas, como a de que o humor autodepreciativo, longe de ser o mais sofisticado, é o primordial. O resto é uma receita batida: não só o RAP Cro-Magnon tinha um controlo de qualidade do seu pensamento superior e por isso conseguiu antecipar os perigos e escapar ao pedregulho que soterrou o Badaró Cro-Magnon, chegando vivo à idade reprodutora, como as putativas parceiras do RAP Cro-Magnon aprenderam a reconhecer no seu humor um sinal de inteligência, ou seja, a capacidade que há milhares de anos fez do parceiro um bom caçador e hoje dá bons contratos de publicidade. É claro que não vale a pena ser demasiado sexista, até porque seria difícil ultrapassar o Christopher Hitchens do Why women aren't funny, talvez  a mais acidentalmente feliz reformulação do marianismo de que há memória, tal a importância que é dada à gravidez. No que me toca, o "he makes me laugh" com que Jessica Rabbit responde à perplexidade que o seu amor ao coelho gera admite a retribuição "she makes me laugh, too", que só não é absolutamente simétrica porque viria com o bónus do "Oh myshe finds me funny".  That's all, folks.

01
Mar12

Ideias

Eremita

- Judeu, como reconheces uma ideia que te cativa?

- As boas ideias são as que despertam em mim o "como pude ser tão burro para não me ter lembrado disso antes".

- Dás-me exemplos?

- Sei lá... A teoria da Evolução, do Darwin.

- E uma ideia que te irrita?

- O Desejo Mimético, de René Girard, a Ansiedade da Influência, de Harold Bloom...

- Como as reconheces?

- Estava a pensar nisso. Creio que são as que despertam em mim o "como pôde ser tão esperto para nos esquecermos de quem a disse antes".

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