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Ouriquense

30
Jul11

Os Satrianis* da literatura

Eremita

O meu problema com Mário de Carvalho sempre foi o seu excesso de competência. O escritor tem tanta oficina, tantos dicionários e é tão cerebral que quase tudo me parece ostensivamente fictício, calculado, quase de plástico. E eu admiro Nabokov, note-se. É que Nabokov não usava a técnica pela técnica. Mário de Carvalho está para a prosa como Vasco Graça Moura para a poesia. E tal como este fez aquele soneto que é uma masturbação ao seu domínio da métrica, era inevitável que aquele não resistisse a escrever passagens como esta.

 

* De Joe Satriani, o virtuoso da guitarra eléctrica.

30
Jul11

Uma rede no montado

Eremita

A espreguiçadeira que tenho sob o plátano deu de si sem me magoar muito. O mais natural teria sido substituí-la, mas aproveitei para tentar algo diferente. Como tinha em casa uma daquelas redes que se trazem do Brasil, coisa de outros tempos oferecida não sei bem por quem, resolvi dar-lhe uso. Se o plano inicial era prendê-la ao tronco do plátano e a uma qualquer árvore de fruto próxima, no percurso até à horta fui tomado por uma outra ideia: e que tal prender a rede entre dois sobreiros, tão distantes quanto possível? Fiquei tão entusiasmado que pedalei de volta até à vila e depois meti-me no carro em busca de um cabo longo e resistente, que só consegui encontrar em Castro Verde. Ao fim da tarde estava de volta, peguei na rede que deixara cair por terra e imaginei-a entre duas árvores antes de me decidir por quais. Os sobreiros que escolhi estão a uns bons 90 metros e sei do que falo pois o cabo tem 100 e só sobraram uns poucos comprimentos de braço. Depois de corrigir a primeira instalação, que não levou em conta a capacidade elástica de todo aquele cabo, a rede ficou com a tensão certa e a pairar ao nível da cabeça, o que me fez ir buscar o banquinho que normalmente está encostado a uma parede arruinada, no cimo do monte. Quando já descia com o banquinho nas mãos, vi que a rede estava enfonada como uma vela pela nortada que se levantou e apeteceu-me partilhar o espectáculo com o Judeu. A rede ficou assim o tempo suficiente para me imaginar numa outra jangada de pedra, tentando rumar também a Sul movida a energia eólica mas incapaz de se mexer por causa do imobilismo dos latifúndios vizinhos e sem poder sequer reclamar a autoria do infinitésimo aumento na largura do Tejo, que mesmo o instrumento mais preciso teria dado por ruído de medição. A seguir o vento caiu, a rede recuperou a horizontalidade e fiquei a pensar se a avifauna local iria integrar aquele objecto estranho na sua rotina e algum dia veríamos abelharucos pousados nos cabos tensos. Para inaugurar a rede com o simbolismo devido, fiz ainda um desvio até à biblioteca, abri o tupperware onde guardo o Moby Dick, que coloquei sobre o banquinho e fui tentando lembrar-me do nome do capítulo, para que já instalado na rede não me custasse a dar com: Leaning over in his hammock, Queequeg long regarded the coffin with an attentive eye.

 

27
Jul11

Haverá overdose de pepsina?

Eremita

Proust é imensamente aborrecido quando se põe a escrever sobre a tia dependente da pepsina. Por outro lado, as tias colocam desafios insuperáveis ao artista. Veja-se Vargas Llosa, que precisou de se casar com uma antes de escrever o livro.

26
Jul11

Cheiro e riso

Eremita

 [reformulado - umas 5 vezes]

James Orin Incandeza, Jr., pai de Hal, Mario e Orin, suicida-se colocando a cabeça dentro de um aparelho de microondas. É Hal quem primeiro o encontra morto e a experiência leva-o a umas sessões de terapia.

 

'The grief-therapist encouraged me to go with my paroxysmic feelings, to name and honor my rage. He got more and more pleased and excited as I angrily told him I flat-out refused to feel iota-one of guilt of any kind. I said what, I was supposed to have lost even more quickly to Freer, so I could have come around HmH in time to stop Himself? It wasn't my fault, I said. It was not my fault I found him, I shouted; I was down to black street-socks, I had legitimate emergency-grade laundry to do. By this time I was pounding myself on the breastbone with rage as I said that it just by-God was not my fault that —’
That what?’
'That's just what the grief-therapist said. The professional literature had a whole bold-font section on Abrupt Pauses in High- Affect Speech. The grief-therapist was now leaning way forward at the waist. His lips were wet. I was in The Zone, therapeutically speaking. I felt on top of things for the first time in a long time. I broke eye-contact with him. That I'd been hungry, I muttered.’
'Come again?’
'That's just what he said, the grief-therapist. I muttered that it was nothing, just that it damn sure wasn't my fault that I had the reaction I did when I came through the front door of HmH, before I came into the kitchen to get to the basement stairs and found Himself with his head in what was left of the microwave. When I first came in and was still in the foyer trying to get my shoes off without putting the dirty laundry-bag down on the white carpet and hopping around and couldn't be expected to have any idea what had happened. I said nobody can choose or have any control over their first unconscious thoughts or reactions when they come into a house. I said it wasn't my fault that my first unconscious thought turned out to be —’
'Jesus, kid, what?’
' "That something smelled delicious!" I screamed. The force of my shriek almost sent the grief-therapist over backwards in his leather chair. A couple credentials fell off the wall. I bent over in my own nonleather chair as if for a crash-landing. I put a hand to each temple and rocked back in forth in the chair, weeping. It came out between sobs and screams. That it'd been four hours plus since lunchtime and I'd worked hard and played hard and I was starved. That the saliva had started the minute I came through the door. That golly something smells delicious was my first reaction!’
'But you forgave yourself.’   David Foster Wallace, Infinite Jest

 

O cheiro apetitoso que Hal sente, ainda sem estar a par da tragédia que acaba de ter lugar, é o da cabeça chamuscada de seu pai. O estereotipado episódio do incesto involuntário, presente dos Gregos a Eça de Queirós e capaz de induzir a insidiosa culpa que vem de uma revelação que nos torna cúmplices inimputáveis mas consumados, é aqui pervertido, embora apenas no que tem de acessório, para dar origem a uma cena hilariante. A cena é extraordinária porque o riso não é um simples indicador de prazer ou de empatia. Hal sofre e o  leitor ri - aliás, ri justamente por estar iluminado por aquilo que Hal desconhecia. Mas é como se estes extremos se tocassem e ambos - personagem e leitor -  fossem vítimas da mesma experiência. A única diferença qualitativa, além da brutal diferença de intensidade, é que o leitor não pode ser salvo por aquilo que poderia eventualmente salvar Hal (a percepção da sua ignorância). Hal não chega sequer a ser traído pelos seus sentidos, é traído pela realidade. O leitor sofre uma traição mais íntima, porque é o seu corpo que falha, visto que há um instante em que, no contacto com o mundo livre de constrangimentos sociais que só o solitário acto de ler permite, não conseguimos reprimir a vontade de rir. E no fim não dá para reler esta cena macabra sem rir e poder, assim, reclamar alguma civilidade, tal como seria inútil a Hal ter voltado a passar por aquela porta em busca de paz. Mas é esta a forma de nos aproximamos de Hal e experimentamos com ligeireza - obrigado, David - a sensação de que os traumas, com ou sem terapia, não seriam traumas se não fossem irreversíveis.  A salvação é aguentar, não há mais nada. Agora preciso de ir jogar bilhar com o Judeu.

20
Jul11

Gaiola de Faraday

Eremita

Nunca entrei na cave do Judeu. Ele diz-me que é para não ter naquele espaço associações ao quotidiano. Disse-me ainda que as paredes, o tecto e o chão estão revestidos por uma malha metálica, que transforma a cave numa gaiola de Faraday, e que não tem internet lá dentro, nem televisão, nem telefone. A divisão é espaçosa, deve ter mais de 80 m2, e nela existem quatro secretárias, cada uma com a sua própria desarrumação. - uma ideia que roubou ao explorador inglês Richard Francis Burton. Pela noite dentro, ele vai saltando de uma para a outra e avançando os quatro projectos; mais do que distintos, são absolutamente estanques. Nas paredes existem esquemas, fluxogramas e poemas, todos da sua autoria.  Ao fechar-se por dentro na cave por vezes sente que entrou dentro da sua cabeça - isto também me disse, com surpreendente lucidez.

20
Jul11

Antecipando uma efeméride

Eremita

O Ouriquense comemora 3 anos no próximo dia 30 de Julho. Tenho a perfeita noção de que só não faço mais aqui para ainda poder fazer outras coisas, mesmo estando convencido de que isto, na sua assumida desadequação ao veículo (o blog), é a melhor coisa que fiz e farei na minha vida.

 

Andamos todos a escrever pouco, mas estamos a passar pela nossa fase mais criativa de sempre. O Fausto teve uma epifania e decidiu que o Cotovio vai ser o reino do poejo, que ele conta cultivar em estufa, para termos pelo menos uma colheita extra fora da época e podermos atacar de supresa as lojas gourmet de Lisboa, numa acção concertada com a campanha "Além, o poejo".  No BW, a minha tentativa de escrever um grande romance lusitano (previsão a Julho de 2011: 800 páginas), Hans tem privado muito com o autor e tudo isto acontece sem escrever uma única linha e sem que Hans exista como pessoa, é mesmo apenas uma personagem. Ricardo Chibanga anda desaparecido. O Judeu tem ido ver o mar, o que me deixa sem carro e sexualmente frustrado. Tatiana passeia-se com as crianças e creio que já não a amo. Ainda penso em Igor e nos episódios terríveis do périplo por Espanha.

 

Continuo a ler Proust e hoje fiz uma observação quando estudava os primeiros compassos de uma fuga para alaúde de Bach: na fase de estudo da fuga, há um momento em que os dedos já fazem as vozes, mas a cabeça ainda não as canta, no sentido em que a consciência do acto de cantar antecipa o que se ouve. As vozes já soam, só que não tenho ainda mão nelas, porque a dificuldade técnica ainda está muito presente e não antecipo o momento em que entram, antes sou surpreendido por elas quando vão a meio -  a surpresa é tão genuína que, por instantes, parece que alguém está a tocar por mim e esta experiência fora do corpo de tipo esquizóide só acontece com as fugas. "Fuga" vem do latim "fugare" (perseguir) e "fugere" (fugir) e antes entendia que os dois verbos descreviam a interacção entre as intrincadas melodias que caracterizam este estilo, mas creio que é só quando se tenta tocar uma fuga que a sua verdadeira natureza nos toca. Não, as melodias não se perseguem e escapam entre si, como musas caprichosas num jogo da apanhada; elas apenas fogem de quem as tenta tocar. Assim, a fuga é como as aves que não podemos aprisionar: no momento em que se dominamos, deixam de ser o que eram. O único consolo por ter pouca técnica é esse: comigo as fugas serão sempre fugas.

 

 

12
Jul11

No se puede hacer mas lento

Eremita

Agora que penso na noite de ontem, não percebo ter então estranhado que os mágicos também louvem os seus heróis. Maik Magic, o artista que há 3 anos me deu a conhecer Tatiana, regressou a Ourique acompanhado por Rosy e voltou a juntar a vila toda, mas disse logo que iria apenas fazer a primeira parte do espectáculo, pois a segunda estaria a cargo do seu mestre, o argentino René Lavand. Lavand conquistou o mundo com um baralho de cartas, literalmente single-handedly, pois perdeu o braço direito aos 6 anos. Agora que penso nisso, noto que Lavand é um canhoto por infortúnio e não por um acaso.

 

 

Continua: como conseguiu Maik convencer o planetário Lavand a deslocar-se a Ourique? Será que o pai do segundo filho de Tatiana também desapareceu, como Igor? Onde pernoitou Lavand? Quem escreve os textos de Lavand? Quantas vezes terá Lavand contado a história do moribundo  no campo de batalha, que espera pelo amigo e só depois se deixa morrer?

06
Jul11

Verbos

Eremita

Há uns dias, no caminho para o prostíbulo de San Silvestre de Guzmán, agora que retomei a vida sexual, mas ainda em território nacional, pois quando passo a fronteira só me dá para o pensamento abstracto, vinha num esforço de memória persistente, daqueles que só se consegue ter quando o corpo se dedica a uma tarefa que exija atenção, mas pouca, e conclui, não sem grande surpresa, que ao longo da vida vão mudando os verbos que usamos para exprimir afecto, sobretudo entre pessoas instruídas. "Amar" dá lugar a "gostar", que dá lugar a "querer". Concretizemos. "Amo-te": o apogeu foi ter a expressão bordada no forro de uma colcha de cama e depois nunca mais a ouvi e devo tê-la dito uma ou duas vezes, para me arrepender nos segundos seguintes. "Gosto de ti": rapidamente se tornou dominante, é o "I love you" luso - no fundo, uma cobardice. "Quero-te": surgiu muito depois e foi uma agradável surpresa, pelo lado pragmático, pois é a verbalização directa daquilo que os corpos dizem quando estão juntos e, consequentemente, não cria expectativas. Depois mudei-me para Ourique e em San Silvestre de Guzmán o verbo é "pagar".

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