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Ouriquense

28
Mar10

Na barragem

Eremita

 

Vi o Jaime na barragem do Monte da Rocha. Estava montado sobre uma prancha e o seu peso submergia a rabeta e erguia o bico. Preferi não me aproximar. Não devemos tentar perceber o que leva Jaime a surfar numa barragem. Diz-se que ele chega a passar horas na mesma posição e que os achigãs lhe beijam os pés. Não duvido que Jaime se apercebe do ridículo que é esperar por ondas numa barragem, mas desconfio que ele não tem ideia do estilo que se pode forjar a partir de um projecto impossível e de todas as suas implicações - digamos - filosóficas , ao contrário do judeu, que tira um prazer lúcido da perseguição à máquina do movimento perpétuo. São criaturas antagónicas. O judeu é inteligente e distraído. Jaime é praticamente idiota, mas tem uma memória fotográfica extraordinária. Se ainda não relatei as suas 24 horas em Lisboa foi para lhe fazer justiça  - não quero falhar nenhum detalhe e pergunto-lhe quase todos os dias sobre aquele dia bizarro.

 

Fiquei a contemplá-lo até ao crepúsculo. Por algum motivo, a imagem de um surfista no meio da barragem à espera de uma onda tranquiliza-me. Lembrei-me depois de Deepo, a ave de cimento de John Difool. Jaime tem comportamentos absurdos e é uma criatura absurda. Ambos despertam enorme simpatia.

28
Mar10

Uma teoria

Eremita

Quase todas as grandes ideias que fizeram a cultura foram geradas por pessoas com menos de 50 anos. Não vou fazer as contas, é uma conclusão a que chego pela conjugação de uma série de informações díspares. Só assim se explica que ninguém ainda tenha proposto a seguinte explicação para a invenção do fogo ou, para ser mais rigoroso, para o domínio do fogo pelo homem: o fogo foi dominado para se vencer a solidão. 

28
Mar10

Animismo

Eremita

 

A estatística de suicídios em território nacional diz-nos que não é fácil viver no Alentejo. Mas também não é fácil ler no Alentejo; ler a céu aberto, bem entendido, no montado ou na margem direita do Guadiana. As amplitudes térmicas são más para o papel e o sobreiro é uma árvore que não evoluiu para proteger ninguém da chuva, muito menos um clássico da literatura russa com encadernação de cabedal - antes ler no Minho, apesar de aí chover mais, porque o castanheiro é uma árvore frondosa. Sim, os leitores mais atentos lembrar-se-ão que elegi o solitário plátano para local de leitura, mas tento andado a experimentar outros lugares. Isto explica o problema com que me debato actualmente. Se entre as páginas 150 e 200 levantei - interiormente - a hipótese de não resistir à leitura de Moby Dick, a partir da página 200 senti uma dinâmica de vitória e comecei a temer que será Moby Dick, o livro, que não me resistirá. São já várias as páginas que se soltaram, apresentando nas margens as marcas dessa insubordinação. Curiosamente, são todas páginas lidas e é impossível não ver este incidente, explicável pelo clima, o meu desmazelo e a má qualidade da cola usada pela Wordsworth Classics, como um símbolo da caducidade da memória de um leitor. Talvez por isso, hoje, ao acordar, creio que ainda havia vestígios na minha cabeça de um sonho em que o livro tinha perdido todas as páginas, excepto a última, cuja leitura eu terminava. Depois de o ter pousado, este objecto desprovido de inércia foi arrastado por uma brisa de ar e, apesar de ser matéria sonhada, a capa e contracapa não começaram a bater como asas, talvez porque entretanto a última página também se tivesse destacado e livro sem páginas é como pássaro sem quilha. Foi rastejando pelo chão, aos trambolhões, aqui e ali retardado pela vegetação, que o livro se aproximou da ribeira, sem qualquer elegância, mas com a convicção de quem vai sempre na mesma direcção por mais intransponíveis que sejam os obstáculos. Naturalmente, pensei que Ahab se alojara nos veios da lombada quebrada, antes da debandada geral, e que da ribeira contava chegar ao Sado e fazer-se de novo ao mar. Experimentei algum ânimo neste animismo, mas assim como quem chega ao jogo de palavras pelos conceitos e não ao contrário, o que redime o trocadilho.

 

26
Mar10

Que voz para Tatiana?

Eremita

 

Conto desenvolver este importante tema nos próximos tempos. A motivação veio de umas horas a ouvir a Mega FM. Os programas vespertinos com música pop para os jovens são apresentados por locutoras com vozes tão joviais e felizes que a minha vontade era que falassem mais e houvesse menos música. A que acabo de ouvir está sempre na iminência de uma risada. Não sei se o operador de som lhe faz boquinhas ou esmaga o nariz contra o vidro, mas o efeito final merece inundar todo o éter circundante. O problema é a música. Biioncé ou lá o que é. 

24
Mar10

Um homem da noite

Eremita

Adriano dorme na sala onde passamos o serão (há um sofá-cama). Ou melhor, ele não dorme, deambula por lá até ao amanhecer. Disse-me que é uma aproximação à imortalidade, a que não é real mas também a única que se pode gozar; uma forma de atrasar o tempo, apressou-se a esclarecer. Para tal aconselhou-me treino específico e alguma crença. Antes de mais, é preciso acreditar que só o tempo psicológico importa, o que não custa nada, garantiu-me. Mais difícil é manter a cabeça arrumada e dividida em duas partes, fazendo com que uma controle a outra, que obedece sem saber estar a cumprir ordens. Este exercício já não é para todos, adiantou-me. Creio que o percebi. A parte que dita ordens deve permanecer discreta, tão discreta que logo se esquece. A outra parte pode então gozar em função do que dita a razão, julgando estar a passar por estados de alma. Diz Adriano:

 

É um esquema complicado e difícil de explicar, que só mesmo de noite se pode ensaiar. A noite convoca o silêncio e a solidão necessários para uma empreitada destas. O foco da luz do candeeiro de mesa, perdido na penumbra e debruçado sobre a sua própria luz, é uma imagem da concentração que se deve atingir. Quando funciona é muito bom, como uma bebedeira sem ressaca. Mas só de noite, só de noite, ou ainda se corre o risco de nos estranharem. Sabes, eu não cheguei aqui por opção, foi necessário. Nunca me lembro dos sonhos e dormir é como uma miraculosa catástrofe aeronáutica, em que o avião se despedaça, todos acordam ilesos e a caixa negra nunca chega a ser encontrada. A catástrofe concretiza-se todos os dias, claro, mas resisto-lhe sempre.

 

22
Mar10

Um homem sob suspeita

Eremita

Ainda não vos falei de Adriano. Não estava nos meus planos, pois pensei que ele fosse um conhecido do Judeu e que estaria apenas de passagem. Afinal é filho dele, o que só vim a saber durante o nosso terceiro jantar a três. Adriano tem um discurso críptico e quando abre a boca parece que lê o que momentos antes inscreveu na memória. Como já lhe topei o tique de fechar os olhos antes de começar a falar, tenho conseguido gravar algumas das suas declarações no telemóvel. Como esta:

 

Aprende-se a olhar no escuro. A luz é para ser gozada da penumbra para fora. Comecemos pelo reverso de uma pálpebra de súbito fechada. Há ali mil imagens que nos fogem: cornucópias efémeras de um psicadelismo discreto e círculos excêntricos que lembram fogos-de-artifício. De onde surgem estas visões? Provarei um dia que são as sombras em negativo das imagens da memória. Que são sinais de rebelião. Dentro da cabeça comandamos as imagens como marionetas, menos o espectro delas, que brinca no reverso das pálpebras e parece querer rasgá-las.

 

Só no fim abriu os olhos, que ficaram parados. Perguntei-lhe depois se queria um chá de menta, mas não tive resposta. Foi o Judeu a comentar: "ele foi sempre assim, um inútil. Fica aqui a aturá-lo, pois tenho uma retorta a destilar".

21
Mar10

Nova personagem: Adriano

Eremita

 

Depois de Pessoa, todos os heterónimos são ridículos.  Por isso, o poeta, mais do que qualquer outra pessoa, trouxe legitimidade e pertinência às personagens. Arranje-se pois uma outra personagem para responder à necessidade de uma voz nova. Ainda pensei em usar Jaime,  bato-me aqui pela economia, mas seria uma incoerência. Se é certo que Jaime tem margem de progressão, faz mais sentido que evolua para um idiot savant, com uma memória fotográfica irrepreensível mas limitado em tudo o resto. Ele serve sobretudo para me ligar à capital, pelo telefone, e não para me ligar às profundezas da condição humana (desculpem). Por isso inventei Adriano, que será também filho do judeu. Adriano é intragável como indivíduo - e talvez mesmo como repasto para canibal, pois tem uma tez amarelada. Dá-se mal com o judeu, mas como estão a tentar uma reaproximação começámos a jantar os três com alguma regularidade.  Reparei que ele se expressa sempre em prosa poética. 

21
Mar10

Tonecas

Eremita

Estou em período de reflexão, mas vejo-me obrigado a interromper a minha pausa para indicar um erro gramatical no Abrupto.O erro em si não é grave -  o principal problema de Pacheco Pereira, como sabemos, é pensar melhor do que escreve, não são as calinadas . O que me faz confusão é ninguém utilizar as idiossincrasias gramaticais de Pacheco Pereira como arma de arremesso. O senhor é intelectual, bibliófilo, historiador, amigo de Vasco Graça Moura e tem inimigos, mas ninguém compilou ainda erros que seriam para ele mais lesivos e irrefutaveis do que posições passíveis de defesa com um sofismo qualquer, como o apoio à guerra no Iraque. Este é um dos grandes mistérios de Portugal. Creio que, também aqui, vivemos reféns da cumplicidade paralizante do bloco central. Há um pacto de não-agressão, ninguém critica a competência gramatical de ninguém, só mesmo a forma de pontuar de Santana Lopes, a nossa válvula de escape. Creio ainda, modestamente, que há alguma inibição em corrigir quem possui uma biblioteca com dezenas de metros lineares. Pois bem, eu não acuso essa pressão, talvez por medir a minha biblioteca em tupperwares.  Vamos ao erro:

 

Mas convinha que se reflectisse porque razão este aumento de atitudes persecutórias e exclusoras caracteriza os nossos dias

 

Pacheco Pereira que me perdoe, mas escreve-se "por que razão". Uma regra útil: sempre que se pode substituir o "que" de "por que" por "qual", deve escrever-se "por que" e não "porque". 

 

 

 

 

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