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Ouriquense

28
Dez09

...

Eremita

 

 

 

 

 

O A consciência de Zeno, de Italo Svevo, nunca figurará num plano nacional de leitura. As nações querem que as pessoas leiam, mas também as querem  saudáveis. Este livro relata a angústia de um homem que tenta deixar de fumar e desejamos tanto percebê-lo que ganhamos uma vontade irreprimível de acender o primeiro cigarro. Só a iliteracia e José Rodrigues dos Santos farão com que a percentagem de fumadores não dispare em Portugal, agora que temos uma tradução do livro do escritor italiano. Lobo Antunes, que assina o prefácio mais preguiçoso e vácuo da história da edição, ainda consegue incluir a provocação idiota de que quem não escreve à mão não sabe ler.  Figuras tristes como esta despertam uma tal vergonha alheia que só o álcool parece ser solução, o que dá coerência ao volume. Nesse sentido, Lobo Antunes não se esforçou para fazer um bom trabalho mas foi generoso e eficaz. 

27
Dez09

VII

Eremita


John Coplans

 


7.04.08 Nos magros, a gordura chega sempre de repente. Explicando melhor: a progressiva e lenta acumulação de gordura não impede que a sua percepção seja uma surpresa. Uns homens entendem-na como a somatização de um trejeito feminino e outros aceitam-na como um sinal da inexorável marcha do tempo. Mas em ambos há um fascínio juvenil pelas qualidades deste novo tecido, que lhes era tão estranho. A forma como a gordura reage ao toque, propagando à superfície o impacto que os tecidos ricos em colagénio logo absorvem, é novidade. A película de gordura no peito e sobre os ombros sente-me como um casaco que se sabe vestir mas não se comprou, sobretudo nas poses pouco usuais ou maneiristas. Há um certo fascínio nesta capacidade de o corpo mudar a forma, que restaura a esperança em mudar o feitio. Naturalmente, este ânimo só dura uns quilos.

 

Do princípio de papada falarei mais tarde e termino com a gordura localizada na barriga. É a mais feminina de todas, pelo menos ao tacto. Chega a parecer gordura de matrona ou de jovem menstruada que ganhou celulite. Tudo depende do ângulo de incidência da luz. No couro cabeludo, a luz não deve incidir de topo, para que um homem mantenha a ilusão de cabeleira farta. Na barriga, a luz nunca deve incidir obliquamente, para que as pregas não ganhem o volume da sombra e, sobretudo, para que aquela superfície imperfeitamente lisa não pareça ainda mais acidentada. Envelhecer bem não é apenas a arte de saber comer e fazer exercício. Envelhecer bem só se consegue com uma boa luminotecnia. E quando tudo falha, apaga-se a luz.


23
Dez09

O filho de Igor

Eremita

Seria de péssimo gosto que Tatiana desse à luz amanhã. Felizmente foi hoje. Mas esta felicidade é relativa. Como sabem, detesto este menino. Cheguei a sonhar que Chibanga, qual sneaky fucker, era o pai, e que hoje haveria escândalo e Igor estaria consumido pela raiva e a vergonha. A realidade é outra. Já ouvi dizer que o recém-nascido parece um anjo e nenhum branco descreveria um mulatinho em semelhantes termos. 

23
Dez09

Lições da planície

Eremita

Umas desiludem, outras desapontam.*

 

 

*Há um enorme potencial pop nesta lição da planície e conto convertê-la em verso de canção, não para o tema "Chibanga", que será hit de Verão, mas para uma qualquer balada cheia daquela empatia de desamor que caracteriza os tops. O desafio será explicar em formato de canção a diferença subtil entre desapontar e desiludir, que não será consensual. Em traços gerais, a desilusão é o fim de uma ilusão e pressupõe uma revisão retrospectiva profunda. O desapontamento tem outra natureza e projecta-se sobretudo no futuro. Enfim, o dicionário dá estas palavras como sinónimas, mas os sinónimos são como as espécies, isto é, também se transformam em palavras com território e características próprias. 

22
Dez09

3

Eremita

As libertinas de Ourique não são mulheres interessantes, se definirmos uma mulher interessante como aquela que conta histórias com interesse (para evitar a confusão com a mulher que parece interessante pelo olhar, pela forma de andar ou pelo modo como fuma). Por isso, a conversa de ontem com uma delas foi surpreendente.

 

- Mas em que país isso sucedeu? Num lugar inventado pelo Hergé?

- Garanto-lhe que aconteceu.

- É extraordinário. Um país proxeneta.

- Mas com consciência social.

- O proxenetismo ao serviço do povo.

- E da cultura.

- E resultou mesmo como me disse?

- Sim, ou seja, acima das previsões mais optimistas.

- Havia previsões?

- Claro. Eles esperavam atrair 100. Conseguiram 400. 

- Com um investimento de apenas 700 mulheres?

- 720.

- Mas isso dá uma eficiência acima de 50%.

- Sim, embora em alguns casos o recrutado tivesse sido uma segunda escolha.

- Como assim?

- Em vez do maestro, o primeiro violino.

- Seja como for, é um sucesso impressionante.

- E sem paralelo na história. 

- Bem, talvez se tenha repetido, mas em segredo.

- Duvido. Uma migração com estas características não escapa à investigação histórica. 

- E as consequências?

- Só ao fim de 20 anos será feita uma avaliação, mas temos uma potência cultural instantânea. 

-  E quando eles souberem? 

- Vão negar. Estão apaixonados. Dirão que se trata de uma teoria da conspiração. 

- 400 intelectuais, banqueiros, escritores, cientistas e artistas atraídos para um mesmo país, dispostos a ensinar numa universidade sem prestígio e  a viver numa cidade insignificante de um país menor. 

- Que revitalizarão da noite para o dia. Um novo pólo cultural, cosmopolita, um verdadeiro farol para o mundo. Coisa com estas proporções só sucedeu antes com o migração de intelectuais para os EUA, por causa dos nazis.

- E a que custo?

- Praticamente nulo. Sem nazis. 2 anos de bolsas de estudos para as 720 raparigas. 

- Devem ser sublimes.

- Sim, muito belas. E espertas. Eles também não eram novos. Enfim, tamanho sucesso só se encontrou no programa de formação de atletas dos países de leste. 

- Percebo o paralelo: ambos revelam uma total ausência de escrúpulos, o indivíduo esmagado pelo sistema. Mas espanta-me que todas tenham respeitado o plano. Alguém que seduza um homem daqueles ganha poder. Para quê regressar se podiam ficar em Londres, Nova Iorque, Paris?

- Diz-se que há pressões.

- Represálias possíveis sobre as famílias das raparigas?

- Não se sabe ao certo. Elas parecem felizes.

- O esquema é muito tentador. Já falou com o presidente da câmara?

- De Ourique?

- Claro. Não me apetecia nada que Castro Verde tomasse, também nisto, a dianteira. 

- Não diga disparates. Não há empreendedorismo. Seria preciso formar as raparigas. Cultura geral e artes de alcova. Não se monta um programa destes a nível local. 

- Mas eu não falo em atrair os 20 intelectuais de topo escolhidos pelo Nouvel Observateur. Penso em deputados reformados. O Manuel Alegre gosta de caçar. Temos os recursos cinegéticos no Baixo Alentejo e deve haver uma pequena capaz. Você seria capaz de a descobrir.

- E quem me garante que você não ficaria com ela?

- Eu já tenho uma paixão. 

- Deve ser por isso que não nos levantamos desta mesa para outro lugar.

- Deve ser por isso. 

21
Dez09

Consciência cívica

Eremita

Este ano resolvi não atribuir o título de Melhor Blog do Ano, tendo em conta a crise económica que atravessamos, a hecatombe ecológica que se anuncia e a dissolução dos valores que se vem consumando. Um eremita não é um niilista. 

20
Dez09

Silvio

Eremita

Mais do que todos os brasileiros juntos, admiro Silivo Rodriguez. E de todas as canções, só um pateta ou um excêntrico não elegeria La Maza

 

 

 

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