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Ouriquense

30
Nov09

António Barreto

Eremita

 

 

Quem, nos últimos anos, teve algum contacto com mulheres na casa dos quarenta, foi seguramente exposto ao discurso sobre a beleza - entretanto perdida, creio - de Miguel Sousa Tavares. A quantidade de vezes que eu escutei esta conversa teria sido suficiente para deixar Lisboa em Janeiro de 2008 e não apenas em Junho do mesmo ano. Tratava-se em regra de um monólogo, como se imagina. Mas o diálogo também acontecia, bastando para tal que houvesse duas quarentonas na sala e eu respeitasse as regras de segurança, não intervindo.

 

Não se trata de questionar a beleza de MST. Aliás, o problema é precisamente o oposto. A beleza do homem era de tal forma inquestionável que eu preferia não perder muito tempo com o assunto. Não se trata também de ter inveja. É claro que há inveja, mas não estamos perante uma manifestação de inveja - estas sutilezas são importantes. Trata-se de querer discutir estética. Por exemplo, para mim o António Barreto é o homem mais bonito - e fotogénico - de Portugal, há já largos anos. Como tese, parece-me ser muito mais interessante do que a beleza do Sousa Tavares. 

 

 

30
Nov09

Tatiana Ourique

Eremita

No Câmara Clara de ontem apareceu um senhor que se chama Perfecto Cuadrado. Estes confrontos com a realidade são um alívio para o ficcionista. A realidade supera a ficção? É uma frase idiota. A realidade é a própria ficção. No fundo, basta que as pessoas não se levem demasiado a sério e que o tempo actue para ir depurando a melhor das ficções. A realidade é o nascimento e a morte; tudo o que metemos entre estes dois acontecimentos não passa de uma mera ficção. Perfecto Cuadrado. Meu Deus, que nome tão inspirador. Melhor do que Perfecto Cuadrado só mesmo "Tatiana Ourique". Ora, não por acaso, já existe uma. 

 

 

27
Nov09

A Tordo e a direito

Eremita

Há frases incompreensíveis em Hotel Memória, livro de João Tordo: 

 

"A cidade, lá fora, acendia e apagava como um bolo numa festa de aniversário."

(página 79)

 

Nota-se que Tordo pertence à geração das velas de anos de chama persistente, mas convém lembrar que o bolo, em si, não acende nem apaga. Aliás, mesmo a imagem da vela é muito tosca. Um néon perto da janela pode acender e apagar, mas a cidade como um todo não acende nem apaga. Ou melhor, acende às 7 da tarde e apaga às 7 da manhã. Também acende e apaga ao ritmo do movimento das pálpebras, como é do conhecimento geral. 

 

Há frases péssimas:

 

"não era um sono leve; era um sono de mil toneladas, acompanhado de um ressonar intenso."

(página 70)

 

Esta citação tem quase uma dimensão fractal, pois capta o principal defeito da escrita de Tordo: too much information. Existe o nanny state e existe Tordo, o nanny writer. Não conheço outro autor que facilite tanto a vida ao seu leitor. Tordo avisa-nos até de que chegou a altura de ler todos os parágrafos: "é aqui que tem início a parte mais obscura desta história" (página 77). Não sei se estamos perante um futuro grande escritor, mas tenho a certeza de me ter cruzado com um gajo porreiro.

 

Há frases batidas:

 

"Quando me vim dentro dela, com a voracidade de um furacão..."

 

O Ouriquense não admira escritores com medo de escrever sobre o acto sexual, só que Tordo escusava de ser um gajo porreiro até para o José Rodrigues dos Santos, que faz parecer um escritor interessante. O furacão é voraz? É, engole vacas e telhados de casas prefabricadas, mas, tanto quanto posso recordar, há uma incompatibilidade entre as manifestações físicas de um furação e as de uma ejaculação. Enfim, consigo reconstituir o  encadeamento lógico que passou pela cabeça de Tordo: "ora bem, como seria batido usar a imagem do vulcão, a que outros cataclismos posso recorrer? Avalanches? Terramotos? Furacões? Ah, o furacão tem uma decomposição fonética interessante e que posso usar para reforçar subliminarmente a ideia de violência: "fura" remete para a dor e "cão" para o bestialismo. Avalanche? Avalanche remete para os desenhos animados da Heidi [o jovem Tordo viu a reposição da série]." Mas refira-se que a mulher invadida pelo furacão não levantou voo em rodopio, nem é  por quem o narrador se apaixona - é só uma tipa qualquer. Neste pormenor, Tordo distancia-se de Rodrigues dos Santos e revela-se um homem sensível, ou seja, confirma que é um gajo porreiro. Tordo é mesmo dos gajos mais porreiros que tenho lido. 

 

Há estrangeirismos:

 

"... um tempo razoável entre o assassinato... " (pág. 169)

 

Há ainda um impressionante número de "explosões faciais".  (perdi essas notas)

 

O cherrypicking é uma técnica injusta e convém acrescentar algo mais. Hotel Memória cumpre como romance de jovem escritor, mas não é um bom romance - passo o paternalismo. A técnica narrativa de Tordo está demasiado presente e, em vez de libertar, aprisiona. A terrível história de expiação que abre o livro nunca chega a ser matéria para uma reflexão profunda e o Tordo deste livro não é o escritor de dramas psicológicos com o fôlego que o tema exige, mas um cultor de tramas, reenvios, guinadas, que realiza com competência. Tordo é um escritor ambicioso, mas também - suspeito - o produto típico das escolas de escrita criativa. Não há neste livro um cuidado especial com a linguagem, nem um estilo idiossincrático; ele domina o português, mas não acrescenta. Também não se sente uma obsessão que pareça genuína. Na verdade, são raros os momentos durante a leitura de Hotel Memória  em que não está exposta a receita que Tordo segue. Em parte, isso resulta de um excesso de confiança do escritor nos méritos do protocolo. Uma das personagens do romance (Daniel da Silva) é um fadista e as passagens sobre fado são as que melhor revelam o calcanhar de Aquiles de Tordo. Ele terá feito a sua "pesquisa", mas saiu-lhe demasiado sumária e surge no livro mais regurgitada do que digerida, daí resultando uma prosa de Lonely Planet, que talvez passe numa tradução mas que é intragável para qualquer português, mesmo aqueles que não apreciam este género musical. Também os dois homossexuais, sobretudo o russo (Samuel) que tem uma paixão impossível por Daniel, parecem caricaturas quando descritos pela sua homossexualidade, ficando a ideia de que Tordo quis sobretudo dar umas pinceladas  com um certo colorido.

 

As melhores passagens de Hotel Memória têm álcool ou opiáceos. Tordo sabe escrever sobre a dependência química. É curioso notar que, ao invés do irritante hábito de citar o nome de todas as ruas de Nova Iorque sem descrever ambientes, omissão que reduz aquele espaço urbano ao seu estereótipo universal, as suas descrições de bebedeiras captam bem as impressões que guarda daquela cidade quem por lá se chegou a embriagar. 

 

27
Nov09

O solo sagrado que resta

Eremita

Tendo em conta as mais recentes tendências do bestseller, tenho presente que trocar Ricardo Chibanga por um vampiro faria disparar as visitas. Mas não vale tudo. Cerco Ourique com um cordão de alho, espeto uma cruz à entrada da vila, rego as laranjeiras com água benta. 

27
Nov09

Fibonacci

Eremita

 

Levar uma tampa é o contrário de estar morto, pois só quem tem vontade se põe a jeito para uma. Desde que aqui cheguei, praticamente deixei de experimentar a tampa. Com a Tatiana tenho o bom senso de nada tentar e só enviei um artigo de viagem inventada, que foi ignorado, o que - em rigor - não constitui uma tampa. Dos tempos em que vivia plenamente, ainda me lembro do denominador comum a todas as tampas. A tampa pode vir da nossa mãe, de uma mulher, de um vendedor de souk marroquino, de um editor, de um amigo que desmarca um jantar, mas a sensação é sempre a mesma na qualidade. O que varia na tampa é o grau e a variação pode ser terrível.

 

Seria ridículo dramatizar uma tampa em concreto. A tampa é apenas uma pequeníssima morte, muito menos terrível que as mortes em vida por falhas morais. Sucede que, por ser sensível a uma lógica de perdas e ganhos, a tampa depende do contexto e, nomeadamente, do historial de tampas. Uma sucessão de tampas é capaz de sentenciar um homem ao círculo vicioso da tampa, em que a última parece transportar todas as outras, ou então avivar a memória das - digamos - duas mais recentes, como se as combinasse. Neste último caso, escolhido para facilitar a exposição, mas generalizável, a intensidade da tampa cresce de uma forma avassaladora que é descrita pela sequência de Fibonacci. Antes da tampa, o indivíduo está no grau 0, com a primeira tampa passa ao grau 1, com a segunda mantém-se no grau 1, mas à terceira passa ao grau 2, depois ao 3, ao 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89, 144... Para anular a série no momento em que a interrompo e restaurar o indivíduo, seria preciso uma vitória - ou a última de uma série - com uma intensidade que somasse os dois últimos graus (89+144). Infelizmente, apesar de esta série de ser recorrente na natureza, em certos indivíduos apenas as derrotas vão sendo registadas  da maneira que Fibonacci descreveu. Os corolários são inevitáveis: 1) qualquer tampa, ainda que insignificante na sua essência, pode ser a derradeira; 2) nenhuma série de vitórias, ainda que extensíssima, afastará destes indivíduos o espectro do ciclo vicioso da tampa. 

25
Nov09

Francamente

Eremita

Alguém informe a Teorema que "discriminação" é diferente de "descriminação" e que o corrector do Word não basta:

 

"...cujo verdadeiro defeito moral é a falta de uma descriminação entre o belo e o horrível" (pág. 51, Um Eremita em Paris, Italo Calvino)

 

"...(o ano de 1849 é sempre usado como o descriminar entre a pré-história e a história da Califórnia)." (pág. 83)

 

Se as passagens anteriores revelam desleixo, esta que deixei para o fim é uma autêntica obra-prima:

 

"... o rev., que se bate contra as descriminações raciais na África Sul e está aqui como observador (a África do Sul expulsou-o)..." (pág. 50)

 

Ou seja, o reverendo, que se bate contra as discriminações raciais, nesta tradução passa a ser contra as descriminações raciais, não se percebendo por que motivo o teriam expulso (em 1960) da África do Sul.

 

25
Nov09

Money, money, money

Eremita

As poucas aplicações que tenho estão com saldo negativo. Penso enveredar pela agricultura de subsistência para prolongar a autonomia financeira, mas se entretanto não arranjo trabalho daqui a um ano serei um sem abrigo com domicílio fixo. O projecto de escrever artigos para revistas de viagens não chegou a arrancar e parece que não aprendi a lição. É que começa a germinar uma outra ideia: tornar-me ghost writer. Os franceses chamam-lhe nègre e - salvo erro - nós não temos um nome para esta profissão. Das duas, uma: ou esta tradição não existe em Portugal ou é praticada com enorme competência, tendo a  necessária discrição dispensado a invenção de um nome para o métier.  No primeiro caso, existe um nicho de mercado virgem, que devemos explorar; no segundo, pertencer a esta sociedade secreta seria mais honroso do que entrar para a Maçonaria ou o Opus Dei.

 

Acordei hoje a pensar num tarifário que fosse sensato. Imaginei depois que trabalhos faria (a carta de amor, o postal ilustrado de viagem, a confissão entre familiares ou amigos, a carta de demissão, discursos de padrinho e para bodas) e os que recusaria (o bilhete suicida, o TPC da escola ou universidade, o manuscrito de um romance, relatórios e outra produção laboral). Quanto mais pensava sobre o assunto, mais a minha opinião mudava. Se antes via este trabalho como moralmente condenável, escrever anonimamente com empenho começou a parecer-me uma das mais nobres  formas de escrita e um desafio derradeiro. Afinal, trata-se de produzir um texto que fica protegido da vaidade do seu autor.  

 

 

 

24
Nov09

Um dilema

Eremita

Faz mais de um ano que não durmo com uma pessoa. Espero que seja como andar de bicicleta. Refiro-me exclusivamente ao acto de dormir e não ao acto de ir para a cama acompanhado. Tenho receio de ter acumulado manias poucos sociais no meu sono por vigiar. É possível que ressone agora mais alto, que dê mais voltas na cama e pontapés, que a flatulência  fique aprisionada pelo edredão e o tamanho das unhas dos pés seja incompatível com a presença de uma barriga da perna alheia. Como testar estas possibilidades? Ou peço ao moço de recados que me vigie de noite, dando razão às suspeitas de Luiz Pacheco sobre a homossexualidade latente do Ouriquense, ou filmo o meu sono com a câmara programada e montada sobre um tripé. A segunda solução é mais segura, mas não sei de ninguém a quem pedir a câmara e se comprar uma fico sem dinheiro para comer. 

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