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Ouriquense

13
Jul09

Boas notícias e até breve

Eremita

 

Apesar desta existência frugal, a minha conta bancária está a entrar no vermelho. Como sabem, tentei arranjar trabalho, mas os artigos forjados sobre viagens que não cheguei a fazer despertaram pouco interesse. Sucede que, para meu espanto e possível salvação, o moço trouxe-me hoje a correspondência e no meio do lixo habitual descobri uma proposta de trabalho de uma editora. Não posso revelar pormenores, mas decidi suspender a escrita do Ouriquense até ao fim do ano. Vou mesmo tentar retirar o blogue do ar, para prevenir tentações. Estarei de volta em 2010, nunca antes disso. Fui do comer para escrever ao escrever para comer.  

11
Jul09

Chibanga, meu herói maldito

Eremita

 

Volta a polémica. Pedi ao moço que fizesse uma pesquisa e me trouxesse textos de apoio à tourada. Os textos contra a tourada não me interessam, porque sei que têm razão. O que me interessa é conciliar o meu gosto pelos toiros com a minha razão. Infelizmente, nem um filósofo catedrático me resolve o problema. 

10
Jul09

Polegar oponível

Eremita

Passei o serão de ontem na companhia de uns ciganos que acampam perto da minha tenda. Chegaram há dois dias e não me disseram quanto tempo vão ficar. Uma das ciganas pediu-me para ler a mão. Acedi. Agora que penso no episódio, foi a primeira vez que uma mulher me tocou intencionalmente desde que cheguei aqui, há quase um ano (excluo as vezes em que Tatiana me tocou nos dedos ao receber dinheiro e entregar o troco). Talvez por isso, tratou-se sobretudo de uma experiência erótica ou de empatia, mais do que uma experiência mística. Pegou-me na mão com enorme cuidado, como se fosse de porcelana. Observou-a com atenção, como se não houvesse outra. E nisto senti-me querido, como se não fosse preciso dizê-lo. Retive um comentário. Parece que a forma do meu polegar  - magro apenas na base - indica que sou "criativo". Enquanto me afastava dela e regressava à minha tenda, fui contemplando o meu polegar direito, como se fosse a cana com que  Nanni Moretti, montado na vespa, avaliou o tempo de vida que lhe resta. 

10
Jul09

Arranja-me um emprego na função pública

Eremita

"Observe-se que quase toda a literatura brasileira, no passado como no presente, é literatura de funcionários públicos (...), condição ideal para um bom número de espíritos: certa mediania que elimina cuidados imediatos, porém não abre perspectiva de ócio absoluto" Carlos Drummond de Andrade (in Ensaios Facetos, de Abel Barros Bptista)

08
Jul09

Lucinha Gostosa

Eremita

[Celebração da Primavera - republicações]

 

 

 

O moço traz-me jornais. Costumo lê-los de trás para a frente, mas sempre com a mesma frustração. Há poucos obituários na imprensa. Como se explica isto? A hipótese de que as pessoas interessantes têm vidas longas (Saramago, Oliveira) é aparentemente falaciosa, mas ganha pertinência quando conjugada com o culto da juventude e a efemeridade da memória. Se Michael Jackson tivesse morrido aos 80 anos não teria havido nem um décimo do alarido. O interesse do povo por uma determinada pessoa tende a decair com o anos. Como o decaimento é exponencial e nunca linear,  não resulta do simples desaparecimento físico dos fãs, mas antes da atenuação da condição de fã. É também possível que a juvenilização das redacções tenha tido impacto. Vejo aqui matéria para uma tese de charneira. Ciências sociais e ciências da comunicação, 5 anos passados entre arquivos, belos gráficos e melhores conclusões, enriquecidas pela gravidade que reconhecemos em tudo o que à morte diz respeito. Em tudo? Em quase tudo. Ao folhear um dos jornais, fui surpreendido no momento em que tinha a folha a prumo e em contraluz. Um anúncio de missa de sétimo dia foi então corrompido pela imagem do verso da folha. Ainda se destacava a cruz e o texto, breve e digno, mas a foto do respeitável sexagenário fundia-se com o redondo traseiro de Lucinha Gostosa, 96#######, numa sobreposição de contornos literalmente kamasutrianos. Fiz figas para que a mulher e os filhos do senhor apenas tivessem folheado o jornal na penumbra de uma casa enlutada, mas quem sabe se um deles, perante o insólito, não soltaria a mesma gargalhada que fez com que o moço de recados, montado na prancha e já a meio da barragem, tivesse rodado o pescoço. 

07
Jul09

Matei uma perdiz

Eremita

 

O grande problema do caçador-recolector não é encontrar comida, mas preservá-la. Isto não é uma metáfora para as relações amorosas, faço notar. Não é mesmo. Um homem precisa de comer. Ontem matei uma perdiz e vi-me obrigado a assá-la por inteiro, porque não tinha forma de conservar a carne. Não sei secar carne ao sol, nem como a salgar. Ainda pensei em convidar o moço de recados para jantar comigo, mas estaria a violar ainda mais a minha condição. Estava boa, a perdiz. E aquele lustro da gordura que aflora quando a carne está sob as chamas fez do crepúsculo uma vinheta cheia de sombra e luz. Em que álbum subitamente me reconheci? Talvez num dos do Blueberry. Ah, o Blueberry...

06
Jul09

"É um menino"

Eremita

Pedi ao moço de recados que indagasse e ele indagou para lá do que lhe havia pedido. Tatiana está de 4 meses.

 

Dizem  que as maternidades se enchem nas noites de lua cheia. Hoje é noite de lua cheia e só me resta pedir um céu nublado. Que estranha reclusão isto de não poder olhar  o céu, por nos recordar algo que queremos esquecer.

05
Jul09

A vida é fodida

Eremita

Uma das grandes vantagens do eremita sobre o cidadão comum é a impossibilidade de cair numa situação em que se vê vítima acidental de uma pessoa que, tendo  sobre ele um ascendente passional, sem disso se aperceber e perante uma situação que seria à partida de simples resolução, também tenta ganhar sobre ele um ascendente moral. Essa pessoa tende, em regra, a ser bem-formada  e o ascendente moral pode até resultar de uma recusa de condescendência, o que denota nobreza. Porém, ainda que as causas de cada um dos ascendentes possam ser independentes, os seus efeitos serão necessariamente combinados. Estando a vítima obrigada a anular o ascendente moral sem dar mostras da dependência passional, acaba  por perder a discussão ou as estribeiras. Se tinha ou não razão é apenas importante para saber se o episódio foi confrangedor ou caricato, o que interessará apenas aos implicados.

 

PS: o moço de recados reconheceu-se nesta entrada e, no dia seguinte,  entabulámos a nossa primeira conversa profunda. Ele despediu-se depois de mim com alguma emoção e eu fiquei a pensar numa forma de ele transcrever os meus textos sem os poder ler, para que eu consiga escrever sobre ele sem o constrangimento que agora sinto. Tive algumas ideias engenhosas.

04
Jul09

Pulsão alcalóide (II)

Eremita

Pesquei muitas vezes nesta barragem. O meu pai, que é ilhéu, aprendeu a pescar com o meu avô, que era de Ourique, uma vila de onde não se avista o mar. Nunca cheguei a pescar com o meu avô, mas ele pôde comer um robalo que saquei do estuário do rio Arade e sempre vi neste fechar de círculo entre três gerações a obrigação de o abrir para incluir a próxima, embora os hiatos geracionais peçam já outra imagem - talvez uma corrente de argolas chinesas, em que a última penetra a anterior por artes mágicas, pois só por magia imagino hoje a minha linhagem a salvar-se da extinção. É por este fardo que me custou o episódio da pesca frustrada na Praia da Galé, tanto assim que da primeira vez não fui capaz de concluir o relato. Era um fim de tarde ventoso.  A cana e o carreto pertenciam a uma criança, e talvez servisem na pesca de cabozes num buraco qualquer entre rochas, mas não para a pesca de douradas e robalos. Não havendo massa suficiente naquelas chumbadas que vencesse a rebentação e o vento, o que se seguiu só seria concebível numa cena de humor físico;  relatá-la por palavras é como tentar explicar a música com desenhos, mas foi assim:

 

 

(cont.)

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