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Ouriquense

28
Mai09

Da precedência

Eremita

Ainda não aprendi a retirar consolo da precedência. Ontem imaginei-me a conhecer os pais de Tatiana e fiz todo um inventário de incompatibilidades culturais, que de algum modo eram atenuadas pela barreira da língua. Que imagem terá uma família tradicional ucraniana de um português? Não faço ideia. Ouvi dizer que na Bulgária se oscila a cabeça na horizontal para transmitir concordância e na vertical para a negação, e testemunhei que os indianos oscilam a cabeça em todas as direcções do espaço para transmitir algo que talvez não se encaixe no nosso entendimento dicotómico da realidade. Como será o oscilar de cabeça ucraniano? O bidé chegou à Ucrânia? Chegou e também está hoje em declínio? Não preguei olho a imaginar a minha audição impossível diante dos pais da minha adorada, mas sei que é fraqueza de espírito. Esta mania de convocar todos os problemas não é mais do que uma desculpa para não lidar com o problema mais urgente. Há sempre uma precedência. Igor deve morrer primeiro e depois logo penso nos modos de seduzir a mãe de Tatiana e de discutir política com o seu pai.

 

26
Mai09

Um desajuste

Eremita

A inteligência que alimenta Fragments d'un Discours Amoureux não induz no leitor apenas sensações simples, como a inveja ou a admiração, mas também o desconforto de quem lê um horóscopo ou um consultório sentimental escrito por um sobredotado; e talvez até alguma irritação nabokoviana, isto é, uma insegurança sublimada em cúmulo da arrogância, que no conhecido exemplo foi uma forma de reagir à intromissão de Freud na cabeça do escritor, mas é passível de ser espoletada por qualquer outro que ouse extrair regras gerais das suas pulsões mais íntimas, sobretudo se o fizer sem procurar a empatia pela  partilha de um pungente relato pessoal e sem recorrer à camuflagem da  ficção.

 

A perfeição formal deste livro sobraria para o tornar insuportável por volta da página 23, não fosse o caso de aí se descobrir o primeiro sinal de discordância. 

 

Je rends l'absence de l'autre responsable de ma mondanité: j'invoque sa protection, son retour: que l'autre apparaisse, qu'il me retire telle une mère qui vient chercher son enfant, de la brillance mondaine, de l'infatuation sociale, qu'il me rende "líntimité religieuse, la gravité" du monde amoureux. 

(X... me disait que l'amour l'ávait protegé de la mondanité: coteries, ambitions, promotions, manigances, alliances, sécessions, rôles, pouvoirs, l'amour avait fait de lui un déchet social, ce dont il se réjoussait.

 

Assim é um grande livro. Um sinal de imperfeição formal basta para nos desmerecer e um desajuste com o que sentimos chega para que o amemos sem temor. 

 

24
Mai09

Dona Natividade

Eremita

Quando a minha professora da primária nos propôs que pintássemos o desenho de um guarda-chuva, todos os meus colegas usaram cores e eu pintei um guarda-chuva de homem, inteiramente preto. A professora olhou o desenho e sentenciou que eu não tinha imaginação. Escrever é um prazer, uma terapia, um negócio, uma forma de  conquistar alguém ou a História. Eu escrevo por tudo isso, mas também para provar que a minha professora da primária não tinha razão. Suspeito porém que já não vou a tempo.

 

21
Mai09

Quo Vadis?

Eremita

Acordei de um pesadelo estranho ou inventei esta cena em vigília? O cenário era a arena de um coliseu romano onde se encontrava Igor, de tanga e tronco nu. Agora que volto a pensar na imagem, Igor parecia-se muito a Salvação Barreto, o forcado que actuou em Quo Vadis. Seria natural pensar que Tatiana estivesse atada ao poste, mas quem estava atado era o inventor. Aliás, o inventor armou-se em Peter Sellers no sonho, pois fazia também o papel do Imperador, do centurião e ainda de um elemento mais exaltado da plebe. Como interpretar isto? Foi talvez uma manifestação pouco subtil da minha frustração com a incapacidade de desenvolver as personagens ouriquenses. O inventor ainda não ganhou espessura psicológica e já se passaram meses desde a sua entrada em cena. A máquina de movimento perpétuo, que deveria ser o metrónomo para o ritmo desta ficção, nem sequer foi descrita. As madrugadas das duas libertinas de Lisboa são um trunfo que continua por ser usado e faria disparar o número de leitores. Tatiana permanece como o único atractor. Talvez por isso, demorei a dar por ela no meu sonho, vindo só a descobri-la imediatamente antes de acordar. Toda a segunda metade do sonho foi dominada pela actuação de Ricardo Chibanga, que entrou  à super-herói na arena, usando o capote para abrandar a aproximação ao solo, acercando-se depois em passada oblíqua do touro, que media forças com Igor, para espetar um par de bandarilhas no dorso do ucraniano. A besta tombou e o touro enfiou-lhe um corno entre a tanga e o rego do rabo,  arrastando-o de seguida pela areia grossa em círculos de rabejador, até o deixar completamente esfolado, ensanguentado, numa desintegração que quase ameaçava os órgãos internos e remetia para a cena em que Messala está reduzido a bife tártaro falante num outro épico hollywoodesco, o Ben-Hur. Não houve sequer tempo para chorar Igor, pois Chibanga de imediato reciclou as bandarilhas e com ambas vazou os olhos do cristão atado ao poste, projectando-as de seguida, com a técnica de um ninja, de encontro aos outros dois inventores que estavam na tribuna imperial, morrendo um com a bandarilha no coração (o imperador) e o outro com a bandarilha na testa, talvez por ter uma armadura (o centurião). O inventor plebeu escapou a tempo e com alguma sorte não terá sido espezinhado pela multidão em fuga que se afunilava nas portas. Ricardo Chibanga, com um salto verdadeiramente alado, ganhou depois o parapeito da tribuna imperial e, sem nunca desviar o seu olhar dos meus olhos, começou a afagar os seios de uma estátua em tamanho natural. A estátua era Tatiana. Eu viria então a acordar, em grande sobressalto, ao som de uma gargalhada diabólica de Chibanga misturada com um bizarro barulho de seixos rolando sobre seixos ao sabor das ondas que só podia vir dos dentes partidos do matador à solta na sua boca. É que Chibanga não se saciou a apalpar os seios marmóreos e precisou de os morder violentamente. Ignorando a grande crítica literária, creio que algo em mim exige mais realismo mágico no Ouriquense e um papel de revelo para o fantasma de Ricardo Chibanga. Que se lixem os críticos, pois não quero outra noite assim. Enfim, feitas as contas, é verdade que acabámos de assistir à primeira  morte de Igor. Talvez valha a pena fazer uma série com as mortes imaginadas desta criatura. A crise aumentou a minha simptatia pelos desempregados, mas ainda estou dominado pelo delírio do crime passional

21
Mai09

A morte de um autor

Eremita

Morreu Bénard da Costa. Não apreciava a figura pública deste senhor, mas tenho convivido mal com o facto de nunca ter acabado a leitura de uma qualquer das suas crónicas. O que surgiu agora  foi uma incómoda janela de oportunidade.

20
Mai09

Tempo de estudo

Eremita

O Ouriquense pretende tomar uma posição sobre alguns dos aspectos históricos mais controversos relativos à Batalha de Ourique e está a documentar-se. Nem só de amores vácuos se faz este blogue. 

15
Mai09

Uma despedida anunciada?

Eremita

Hoje, logo pela manhã, houve grande excitação no Pingo Doce. Pelas conversas das colegas de Tatiana, ela vai deixar o supermercado. Parece que será empregada doméstica na casa de campo de uma actriz "famosa" de novelas e cuidará dos bebés do jovem casal. "É uma casa de sonho", disse uma delas, que provavelmente acompanha a imprensa dos mexericos. Deve ser um daqueles montes alentejanos que ficaram na moda entre os lisboetas, há já uns anos. Espero que não seja muito longe de Ourique e que Tatiana não fique interna. Mas depois de ter visto na net a cara da actriz "famosa" fiquei desesperado. É uma mulher linda, uma jovem mãe e uma sex symbol cobiçada por metade do país. É inevitável que o seu marido se tente aliviar com Tatiana. Urge actuar.

15
Mai09

Tatiana e a mancha no lençol

Eremita

Era inevitável seguir Tatiana até casa. Mora a 5 minutos do Pingo Doce, numa zona de casas geminadas que podemos considerar como fazendo parte dos subúrbios da vila. Segui-a sempre a grande distância e sem cruzar a estrada para o passeio em que caminhava. Por algum motivo, não cruzar a estrada pareceu-me equivalente a não cruzar a linha que separa o admirador do stalker. Mas depois de identificar a sua casa e de estudar os seus horários, não resisti a espreitar para dentro do quarto dela, num dia em que sabia que ela e o seu homem estariam fora até à hora de almoço. Creio que não há hábitos de leitura naquela casa, pois apenas uma das mesas-de-cabeceira tem candeeiro. Mas o que mais me surpreendeu foi a cama desfeita e uma mancha de sangue ao centro, como se Tatiana tivesse perdido a virgindade ontem ou uma Tatiana menstruada não demovesse Igor. Qualquer destes cenários me deprimiu. Aliás, a simples imagem da cama desfeita foi uma desilusão, porque Tatiana tem cara de dona de casa prendada.

14
Mai09

Uma experiência

Eremita

Quando deixa de fazer a barba e os pêlos vão crescendo, nunca o homem se estranha. Pelo contrário, quando um homem corta a barba, demora uns instantes a reconhecer-se ao espelho, ainda que se vá observando durante todo o processo. Talvez a diferença se explique pela escala de tempo: a barba demora dias a crescer e minutos a desaparecer. Esta explicação é interessante, porque testável: bastaria ter paciência para primeiro crescer uma barba e depois a ir aparando cada vez mais curta, cortando por dia o dobro do comprimento que cresce, para que a barba regrida com a velocidade com que antes crescera. Se alguém fizer esta experiência, suspeito que no dia derradeiro, quando estiver no fim da etapa de regressão e o gesto não se distinguir da rotina de fazer a barba com lâmina todos os dias, este homem vai, ainda assim, sentir-se mais próximo de quem  corta a barba de uma assentada. Deste modo se provaria que quem corta a barba não estranha apenas o rosto antes camuflado, mas acusa ainda a melancolia de uma desistência. A reflexão soará algo bizarra a alguns, nomeadamente a mulheres e outros imberbes. 

 

 

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