Domingo, 15 de Março de 2009
Domingo, 15 de Março, 2009

 

O rapaz do cineclube acaba de chegar da capital. Vem triunfante.  Às 13 horas pirateou o Grand Torino, no Monumental Saldanha, e ainda hoje quer organizar uma sessão, que coincidirá com a sessão das 19:45 do mesmo Monumental. A diferença de dias entre a estreia de um filme em Lisboa e em Ourique nunca foi tão pequena. Ainda há em Portugal quem tenha brio na sua actividade. O entusiasmo do rapaz é tal que acabo de me fazer sócio do seu clube e dobrei-lhe a jóia, depois de ele me prometer que vai melhorar a captação do som e eliminar digitalmente a sua respiração, por vezes demasiado presente, a lembrar o Glenn Gould. Artistas...

 

Temos Clint Eastwood. Depois do thriller falhado que é Mystic River, depois do díptico de efeito fácil sobre Ywo Jima, depois do pastelão competente que é Changeling, eis um filme sobre redenção que recupera a magia de Perfect World, com o qual estabelece o paralelo mais óbvio. De certa forma foi um alívio, pois o trailer fazia supor que estaríamos perante um Dirty Harry na reforma, o que teria sido aborrecido. Ainda assim, [spoiler! Retomar em "Bruno"] a última cena é uma espécie de variação do "go ahead, make my day", em que a Magnum é substituída por um isqueiro.  Bruno Vieira Amaral, o melhor português a escrever de graça sobre cinema, apesar dos tiques de antropólogo, explica o resto e eu concordo com quase tudo.

 

O mais fascinante na noite de cineclube de ontem não foi o filme, foi mesmo o rapaz que anima estas sessões. Quando ele saltou para diante do projector, a instantes de começar o filme, passava a mensagem contra a pirataria, que de repente ficou partida entre as letras focadas na parede e as letras desfocadas na T-shirt e cara do miúdo. Foi nestas condições acidentalmente cinéfilas que ele arrancou a justificação da sua pirataria. E que emoção... Percebia-se ali uma retórica também cinéfila, retalhos de discursos épicos famosos (Citizen Kane, Braveheart, First Blood,  Mr. Smith Goes to Washington, To Kill a Mockingbird, Twelve Angry Men, Scent of a Woman, entre outros). Convenceu-me. Seria capaz de o perdoar se ele tivesse matado para que o cineclube sobrevivesse. E para o Verão prometeu um drive in clandestino, se alguém se chegar à frente com uma parede caiada em lugar remoto, pois ele assegura a projecção. Pensei logo no Cotovio. Ainda há por lá uma parede a prumo. O Cotovio pode vir a ser a minha Wonderland: um monte em ruínas, povoado por galinhas, com livros em tupperwares, um plátano frondoso que confundi com um castanheiro,  um poço que nunca seca, uma ribeira com peixe-rei, tiros de caça que quixotescamente interpreto como salvas de artilharia de um confronto distante  entre o exército de Napoleão e outro qualquer, uma parede caiada de fresco para projectar filmes pirateados em Lisboa e um sobreiro que se destaca dos restantes, por marcar o local onde pernoitei ao relento com Tatiana ou onde atingi mortalmente Igor, whatever comes first.


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Eremita às 18:55
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Domingo, 15 de Março, 2009

 

 

Como varia o prazer médio da leitura em função da inteligência? Sempre desejei desenhar este gráfico, mas a função que o descreve é de muito difícil dedução. Um idiota não pode ter prazer na leitura, porque não compreende o que lê. Um homem de inteligência mediana pode ter prazer na leitura, porque dispõe já de muitos livros que pode perceber e tem o instrumento que lhe faculta as associações necessárias para gerar o prazer da leitura. Um homem superlativamente inteligente tem à partida um instrumento ainda mais capaz de gerar essas associações, mas o conjunto de livros de que dispõe reduz-se drasticamente e ao aumento potencial do seu prazer com um determinado livro devemos associar o aumento da frustração com a generalidade dos livros. Por isso, a função não pode ser  simplesmente linear, nem exponencial, nem pode ser descrita por uma sigmóide. Descrever o prazer máximo, independentemente do número de tentativas frustradas, seria um modelo mais simples, mas ainda muito difícil -  em função da inteligência do leitor, como variará o impacto sobre o seu prazer na leitura que tem a percepção de uma inteligência superior?

 

Dos autores que leio com prazer, Camões e Pessoa são excessivamente inteligentes para mim, o que induz alguma frustração, mas talvez esta sensação seja potenciada pela poesia. Na prosa, consigo apreciar autores claramente mais inteligentes do que eu com grande satisfação. É o caso de Brodsky, Musil, Philip Roth e Yourcenar. Dos quatro, aquele que até hoje mais me impressionou foi Brodsky. Não me refiro ao Brodsky académico. pois o academicismo, tal como a poesia, pode ser críptico e introduzir algum ruído na percepção da inteligência do autor - no primeiro caso, o leitor pode não dispor da cultura suficiente e no segundo pode não dispor da técnica de leitura. Refiro-me aos ensaios de cariz autobiográfico de Brodsky. Nunca li nada assim e com alguma sorte os textos ainda resistem a uma releitura. 



Eremita às 18:24
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Domingo, 15 de Março, 2009

Antes de me mudar para Ourique, os dois "géneros" que mais gostava de cultivar em blogues eram a máxima e a série de textos curtos sobre um mesmo tema. São dois géneros intrinsecamente errados. Quando mostrei as máximas ao meu único amigo intelectual, ele disse-me que eram "péssimas" e que a máxima - na altura empregámos o termo "aforismo"  - é um registo muito difícil, só ao alcance dos grandes escritores. A crítica foi dura, ainda que vaga. O meu problema com a máxima é outro, talvez por não ser um intelectual. Para mim, a máxima é o cúmulo da exposição do autor. É mais cruel do que a autobiografia e talvez tão cruel como uma biografia não autorizada inadvertidamente autobiográfica. Isto porque a máxima é o único caso em que o original coincide com a autocitação, o que é demasiado revelador. Revela a inteligência do autor, como qualquer texto, mas na revelação da consideração que o autor tem pela sua própria inteligência ultrapassa todos os outros géneros. Se continuo é por vício, mas tenho noção do ridículo.

 

O problema que a série coloca é distinto. Na série o diferencial entre o gozo do autor ao escrever e o gozo do leitor ao ler o que foi escrito é superior ao de praticamente todos os géneros, a menos que  autor e o escritor se conheçam e esse conhecimento tenha impacto sobre a fruição da escrita e/ou da leitura - penso numa carta de amor escrita por um amante perdidamente apaixonado por alguém que se quer ver livre dele e tem escrúpulos.  Sentia esta suspeita, mas ontem confirmei-a em casa do inventor. Depois do jantar o meu anfitrião ausentou-se de repente, como costuma fazer, e fiquei a bisbilhotar a sua biblioteca. Descobri então um volume delgado: La Cuisine Cannibale, de Roland Topor. Trata-se de uma série de textos que começam por ser chocantes, depois desconcertantes, depois divertidos, a seguir previsíveis e por fim profundamente aborrecidos. Topor teve uma boa ideia: imaginar receitas de culinária em que os ingredientes são seres humanos.  O tom é propositadamente amoral. Eis um pastiche:

 

Pretinho com laranja: o pretinho deve ter menos de 12 anos e procure surpreendê-lo com um golpe rápido de cutelo, caso contrário ele ficará muito agitado e acumulará ácido láctico na carne. Retire as miudezas pelo ventre. Golpeie depois a carne, preenchendo os cortes profundos com louro e malaguetas;  massaje o corpo com 4 mãos cheias de sal grosso, antes de o deixar a marinar de véspera em vinha de alhos. No dia seguinte, unte o pretinho com  manteiga e leve ao forno, pré-aquecido a 220 graus. Quando o corpo começar a dourar, regue-o abundantemente com sumo de laranja e cubra-o com papel de alumínio. Continue a assar durante duas horas. Retire o prato do forno, decore a gosto com rodelas de laranja antes de servir. Acompanhe com batatas a murro e tinto alentejano. 

 

Topor repete esta receita uma série de vezes. Com bebés, com barbudos, etc. A ideia depressa deixa de resultar, inclusive os suíços de fricassé. Se a série não tem uma estrutura que faça o todo superior à soma das partes, depressa se entra na subtracção. Também aqui, se continuo é por vício; sei que é uma aposta perdida, a menos que encontre uma estrutura. 


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Eremita às 17:51
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Domingo, 15 de Março, 2009

 

 

 

Jamie Oliver atrai-me mais, sexualmente and otherwise, do que Bárbara Guimarães. Este homem é absolutamente encantador. Fez com que tivesse pedido ao meu irmão um laminador de massa fresca e admito agora instalar um galinheiro no monte, entre as ruínas. 

 

Agora está a dar o Câmara Clara. Bendita sejas entre as mulheres, Paula Moura Pinheiro, que nos salvas de Rui Santos. És a mais bonita e a mais interessante das mulheres da TV lusa, mesmo se um dia a Cláudia Vieira interpretar uma egiptóloga amante de Einstein, que toque piano como a Martha Argerich e tenha a cultura e o pensamento ágil da Nussbaum, nomeadamente antes da fase de defensora dos direitos dos grandes símios. 

 

Aljazeera (em inglês): uma agradável surpresa. Pensava que o canal tinha um amadorismo ao nível do Canal Benfica, mas afinal é um excelente complemento ao pack BBC-CNN-José Rodrigues dos Santos. 

 

MTV: um canal absolutamente insuportável; uma hora a contemplar idiotas pretensiosos foi salva pela miragem - só pode ser uma miragem - das coxas de Beyoncé. Não contraponham com a proto-anoréxica Angelina Jolie, por favor. 



Eremita às 15:04
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