Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010
Quarta-feira, 20 de Janeiro, 2010

 

O problema de grande parte das ideias engraçadas é que existe sempre alguém mais capaz de as realizar. Este fardo de lucidez induz uma enorme frustração. A ideia engraçada, que deveríamos festejar como uma manifestação de criatividade, num instante se transforma num pretexto para a melancolia. A ideia que tive foi partilhar  Pais e Filhos (que passarei a designar por Fathers and Sons, por andar a ler a tradução de Rchard Freeborn, da Oxford World's Classics) no estilo "minuto a minuto", a forma de relatar desafios de futebol que a internet popularizou. Neste caso seria uma leitura página a página, mas que não tivesse a pretensão do close reading e fosse até pretexto para a dispersão. Ocorreu-me depois que o modelo "minuto a minuto" posto em prática por literatos  é que faria todo o sentido. Se imagino um "minuto a minuto" sobre os grandes clássicos, feito por Vasco Graça Moura, Abel Barros Baptista ou Mega Ferreira, só para irritar alguns, materializa-se logo na minha cabeça um blogue de grande qualidade, para verter em livro por altura do Natal, com aquela combinação comercialmente apelativa de erudição e "irreverência".  Enfim, o meu "minuto a minuto" seria coisa de amador e não o farei. 

 

Fathers and Sons só começa a cativar à segunda página:

 

In the meantime, Nikolai Petrovich succeeded, even in he lifetime of his parents and to their no small distress, in falling in love with the daughter of an official called Prepolovensky, the previous owner of his apartment, an attractive and, as they say, well-developed girl who used to read serious articles in the "Science" sections of journals.  Cap I, pág 2

 

Este "succeeded" carrega a citação às costas. Mas vejamos a tradução de Constance Garnett, que parece ser a grande referência. 

 

Meanwhile Nikolai Petrovitch had already, in his parents' lifetime and to their no slight chagrin, had time to fall in love with the daughter of his landlord, a petty official, Prepolovensky. She was a pretty and, as it is called, 'advanced' girl; she used to read the serious articles in the 'Science' column of the journals. 

 

A versão de Freeborn é incomparavelmente superior. Tem o precioso "succeeded" e flui com um ponto final e um ponto-e-vírgula a menos. É como se Freeborn fizesse este buraco com uma pancada e meia abaixo do par. Creio pois que escolhi a tradução não agradável (não existe online), o que não quer dizer que seja a melhor. 

 

De resto, até à página 14, no big news. Percebe-se já a tensão entre o niilista Bazarov e Nikolai Petrovich, e prevejo que o filho de Petrovich, Arkady, vá tentar uma mediação impossível - o que me diz alguma coisa. Confirmo também que vou ter imensos problemas com os  nomes: Nikolai Petrovich Kirsanov, Agafokleya Kuzminishna Kirsanov, Ilya Kolyazin, Arkady, Evgeny Vasilev Bazarov, Pavel Petrovich Kirsanov... Este sempre foi o meu maior problema com a literatura russa. Pondero a elaboração de uma tabela em que latinizo os nomes de todas as personagens. 

 

 



Eremita às 11:03
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1 comentário:
De gaf a 20 de Janeiro de 2010 às 18:49
Turguenev abusa efectivamente do ponto-e-vírgula. O tradutor, escravo fiel, também deve abusar dele. O caso mais flagrante da falsidade das "boas" traduções é o de Tolstói, um anti-estilista descuidado que assentava a sua arte no repentismo, no aproveitamento integral do fluir do seu pensamento. Daí as suas repetições, a sua confusão natural entre o "cima", "baixo", o "antes", o "depois"; a imprecisão e a repetição desnecessárias acompanham sempre o nosso pensamento. Nabokov foi perspicaz quando explicou como funciona o pensamento na escrita de Tolstói (reproduzo de memória): por círculos sucessivos de repetições, sendo o círculo seguinte mais amplo que o anterior, acrescentando sempre mais alguma coisa ao que foi dito inicialmente. Por isso Tolstói não é elegante, não tem uma linguagem elegante e fluida (e por vezes Turguenev também não), a não ser que os "bons" tradutores lha inventem com talento. Por isso Nabokov é considerado um mau tradutor (ele próprio se considerava). Para mim, é o tradutor ideal.
Quanto aos nomes russos: devem respeitar-se, como formas de tratamento que situam o texto social e emocionalmente. Basta saber que um tipo que se chama Nikolai Petróvitch Kirsanov (nome, patronímico - filho de Piotr - e apelido) será Nikolai Petróvitch quando é tratado com deferência e respeito, será Nikolai Kirsanov quando assina um livro ou um papel burocrático, será Nikolai, ou Kolka, ou Nikolachka, ou Kólia para os amigos e esposa, etc, etc. Uma associação "errada" dos nomes da pessoa pode resultar em depreciação ou mesmo em ofensa sem ser precisoerá preciso acrescentar mais nada ao texto. O que pode (ou deve) um tradutor fazer?


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