Bloqueei; bloqueei é provavelmente a palavra com o aspecto mais estrangeiro da língua portuguesa - não sei se será permitido usar a palavra "bloqueei" na literatura de campanha do PNR; quase que voltei a respirar oxigénio ao descobrir a palavra "bloqueei" no meio destas outras caucasianas sucessões de letras; parece o nome de um arpoador polinésio no Moby Dick, Queequeeg, Daggoo, Bloqueei R. Casanova
Primeiro o Tordo certinho, com uma alusão a um dos seus heróis literários, e depois o desconcertante Casanova. Deus fez um plano de leitura para umas das suas ovelhas tresmalhadas.
- Promete* que nos vamos tratar por "você" até não querermos mais ir para a cama?
- Nós queremos ir para a cama?
- Você quer, eu tenho dúvidas.
- Como comunicam na cama as pessoas que se tratam por "você"?
- Da mesma forma, suponho.
- Acha isso bem?
- Bem?
- Não lhe parece um absurdo?
- Não seja tonto. Nos pares onde há tensão sexual, o tratamento reverencial reforça o desejo. É um fetiche verbal.
- Como gostar de vestir fardas?
- Isso. Você gosta de fardas?
- Deram-me como inapto quando fui à inspecção. Prefiro não arriscar.
- Mas promete?
- Prometo, claro. Ainda que você tenha dúvidas.
- Quanto ao valor da sua promessa?
- Não. Quanto ao seu desejo de se deitar comigo.
Quando o leitor regressou à sala, mudámos logo de assunto.
* meus Deus, estava aqui outro erro.
A educação de Miguel Sousa Tavares
Desculpem a ousadia de contrariar o John Donne de "no man is an island", mas posso assegurar que qualquer eremita tradicional é uma Ilha da Páscoa - assim metonimicamente, bem entendido. O eremita tradicional não fez das relações sociais o que os habitantes da Ilha da Páscoa fizeram da floresta. O eremita tradicional fez da solidão o que os habitantes da Ilha da Páscoa fizeram da floresta. Naturalmente, o eremita tradicional entra em colapso - há quem enlouqueça, quem se atire de um penedo e quem acumule. Convém pois frisar esta ideia, até por razões de saúde pública: o verdadeiro recurso que o eremita pretende preservar é a solidão, não são as relações sociais. Ora, a prática continuada e rigorosa da solidão esgota-a como recurso. Um recurso, por definição, é algo a que se recorre para saciar uma necessidade. Se a solidão se torna uma rotina, deixa de existir como recurso. Trata-se de um princípio universal e que não precisa de gravitas: é também a ausência de um corte de cabelo que possibilita recorrer aos efeitos regeneradores de um corte de cabelo. Daqui se extrai um paradoxo inevitável: o eremita da nova geração - por oposição ao seu congénere tradicional que vivia no ermo e apedrejava os visitantes - tem a obrigação de defender a vida em sociedade e de a praticar episodicamente, de um modo que lhe pareça tolerável, sob pena de esgotar o seu recurso vital. É só por isso que o Ouriquense existe.
Poeminha em Youtube
Ravel assassinou a sua peça
Mas raiva só para as constipações
O François vai a tempo mas tem pressa
Gavrilov, agradeço as emoções
Tal como os pais não devem sobreviver aos filhos, também o desejo da paternidade não deve sobreviver ao desejo de amar.
Proustiana
Há frases incompreensíveis em Hotel Memória, livro de João Tordo:
"A cidade, lá fora, acendia e apagava como um bolo numa festa de aniversário."
(página 79)
Nota-se que Tordo pertence à geração das velas de anos de chama persistente, mas convém lembrar que o bolo, em si, não acende nem apaga. Aliás, mesmo a imagem da vela é muito tosca. Um néon perto da janela pode acender e apagar, mas a cidade como um todo não acende nem apaga. Ou melhor, acende às 7 da tarde e apaga às 7 da manhã. Também acende e apaga ao ritmo do movimento das pálpebras, como é do conhecimento geral.
Há frases péssimas no livro de João Tordo:
"não era um sono leve; era um sono de mil toneladas, acompanhado de um ressonar intenso."
(página 70)
Esta citação tem quase uma dimensão fractal, pois capta o principal defeito da escrita de Tordo: too much information. Existe o nanny state e existe Tordo, o nanny writer. Não conheço outro autor que facilite tanto a vida ao seu leitor. Tordo avisa-nos até de que chegou a altura de ler todos os parágrafos: "é aqui que tem início a parte mais obscura desta história" (página 77). Não sei se estamos perante um futuro grande escritor, mas tenho a certeza de me ter cruzado com um gajo porreiro.
Há frases batidas no livro de João Tordo:
"Quando me vim dentro dela, com a voracidade de um furacão..."
O Ouriquense não admira escritores com medo de escrever sobre o acto sexual, só que Tordo escusava de ser um gajo porreiro até para o José Rodrigues dos Santos, que faz parecer um escritor premiável. O furacão é voraz? É, engole vacas e telhados de casas pré-fabricadas, mas, tanto quanto posso recordar, há uma incompatibilidade entre as manifestações físicas de um furação e as de uma ejaculação. Enfim, consigo reconstituir o encadeamento lógico que passou pela cabeça de Tordo: "ora bem, como seria batido usar a imagem do vulcão, a que .outros cataclismos posso recorrer? Avalanches? Terramotos? Furacões? Ah, o furacão tem uma decomposição fonética interessante e que posso usar para reforçar subliminarmente a ideia de violência: "fura" remete para a dor e "cão" para o bestialismo. Avalanche? Avalanche remete para os desenhos animados da Heidi [o jovem Tordo viu a reposição da série]." Mas refira-se que a mulher invadida pelo furacão não levantou voo em rodopio, nem é por quem o narrador se apaixona - é só uma tipa qualquer. Neste pormenor, Tordo distancia-se de Rodrigues dos Santos e revela-se um homem sensível, ou seja, confirma que é um gajo porreiro. Tordo é mesmo dos gajos mais porreiros que tenho lido.
Vou conseguir acabar este livro, o que é um acontecimento notável. Não saiam daí.
Ninguém passou a ter mais consideração por um primo afastado ao saber que partilhava um antepassado com o macaco, mas - for the sake of argument - aceitemos que Darwin nos deu uma família alargada. Darwin, apesar do darwinismo social e do bordão "a sobrevivência dos mais fortes" (nenhum deles uma contribuição original dele), terá sido o pai do parentesco intemporal e universal, o grande avô que pariu os seres vivos e a humanidade pela cabeça.
Weismann fez o contrário. Weismann devolveu-nos a individualidade. Estranhamente, este homem, que deveria estar na base de todos os delírios liberais, que é incontornável na defesa do egoísmo e que contribuiu mais do que mil poetas e filósofos para a condição humana, foi esquecido. Enfim, talvez haja uma explicação simples: ninguém suporta a clarificação de Weismann, pois ele sentenciou o indivíduo a uma efémera solidão que não tem recurso possível. Só nos resta mesmo escrever sonetos e ir acertando e desacertando as rimas, de acordo com as modas.
Por tendência natural, pelos minutos de passividade acumulados em campo ou pela crueldade do adepto, infinitamente mais generoso com os feitos do atacante e implacável com as falhas do guardião, não há casta de futebolista tão estóica e introspecitiva como os guarda-redes. Mas tendo em conta os acontecimentos recentes na vida de Enke, insistir nestas trivialidades seria cruel e o modo mais canhestro de tentar uma explicação. Sendo de evitar a explicação, só nos resta a descrição. Ora, a raridade deste episódio é dupla: a decisão de Enke ter decidido pôr um termo à sua vida e a sua execução. Enke não caiu de uns andares dentro de sua casa (Levi), não caminhou para águas profundas com lastro na roupa (Woolf), não se envenenou com estricnica (Sá-Carneiro), barbitúricos (Kosinski) ou outras drogas (Arenas), não ligou o gás do fogão (Plath), não pegou em armas de fogo (Antero, Camilo e Hemingway), não se enforcou (Wallace), nem praticou hairakiri (Mishima). O suicídio destes escritores foi genericamente doméstico, só que Enke resolveu matar-se na via pública, estacionando o carro sobre uma ferrovia. Se talvez haja intenção superior no segundo tiro de Antero, uma implacável resolução na caminhada de Woolf, uma agonia mais prolongada em Sá-Carneiro e uma ritualização mais impressionante em Wallace e Mishima, nenhum destes escritores optou por uma morte tão violenta como o embate com um comboio. E sobretudo, nenhum deles fez de um maquinista peça da sua engrenagem suicida. Na morte solitária dos escritores referidos está ausente a convocação forçada de um carrasco. É esta desumanidade que faz do suicídio de Enke um acto mais desesperado do que todos os outros. Foi como se um amador explicasse aos profissionais como se faz.
Interessa mais ser verdadeiro do que ter uma opinião sobre a verdade.
Ninguém melhor do que o medíocre para defender a meritocracia.
O Ouriquense teve um fluxo extraordinário de novos leitores nos últimos dias, o que me leva a puxar para cima o post introdutório, que também é um work in progress.
Se é verdade que a expressão "tábua de personagens" me remete sempre para o universo da gastronomia dos derivados lácteos, creio que vai faltando ao Ouriquense uma descrição sucinta sobre as diferentes figuras que por aqui se movimentam. A leitura do Quixote não me tem deixado muito tempo livre e a escrita desta entrada pode demorar alguns dias, sobretudo porque me obrigará a um notável trabalho de interligação de entradas no Ouriquense, como se uma operadora de PBX subitamente cruzasse todos os tempos, todas as ruas, e no final ainda pudesse acenar às colegas com as mãos livres. Será pois uma tarefa demorada e difícil, mas quem ficará a ganhar no fim é o cliente.
PERSONAGENS
Tatiana
Tatiana, uma ucraniana caixa no Pingo Doce, é uma mulher de anatomia e personalidade imprecisas. A indefinição dos seus contornos físicos e psicológicos é essencial para que seja camaleónica e assim cumpra as funções de passe-partout passional que recolha as características dos objectos passionais do seu criador, reais ou fantasiosos, e de todos os tempos. Mesmo em relação ao seu nariz, que foi já descrito com grande precisão, o leitor atento ficará com dúvidas, pois há uma contradição: Nariz à Rosemarie DeWitt ou "nariz fino, pouco comprido, mas muito nobre? E, afinal, se não há rosto passível de ser amado no local de trabalho de Tatiana, quem era aquela mulher que lhe terá dado um rosto provisório? Não se sabe.
Igor
Igor, marido de Tatiana, é uma besta e também um idiota. Por uma vez, a falta de densidade psicológica é da exclusiva responsabilidade da personagem. Igor não chega sequer a representar o contraponto de Tatiana, um passe-partout de todos os ódios, porque em regra acumulamos menos ódios do que paixões e o ódio tolera-se muito mais facilmente, dele podendo até vir algum ânimo. Igor existe apenas para criar alguma tensão e fazer de Tatiana uma mulher inacessível. O plano em construção para assassinar o ucraniano pontuará o Ouriquense, se possível no registo de comédia negra. Fisicamente avantajado mas destituído de qualquer brilho ou bondade, o amor de Tatiana por este homem é um dos grandes mistérios desta trama e só a complexidade das mulheres nos livra de termos aqui uma inverosimilhança.
O inventor
O inventor da vila é uma mistura do cigano Melquíades (Márquez) com o velho Atílio (telenovela O Casarão) que pretendia fazer ouro a partir do esterco que remexia numa banheira. Este homem julga que a solução para a máquina de movimento perpétuo é um lubrificante feito à base de um azeite por ele muito alterado, obtido a partir de umas oliveiras que só crescem nas redondezas. Noite sim noite não, galga o muro da casa dos meus tios para lubrificar os 3 baloiços de forma distinta, imprimindo-lhes depois exactamente o mesmo movimento. Apressa-se a deixar a casa e é da rua principal que mede o tempo que cada baloiço demora a parar. Noite não noite sim, trabalha até de madrugada com base nas observações feitas na véspera.
Possui uma boa biblioteca e uma qualquer relação com as libertinas de Lisboa, que ficará por desvendar. Exerce uma estranha atracção sobre o autor, que o próprio não consegue explicar.
Ricardo Chibanga
De onde vem Ricardo Chibanga? O Ouriquense é o desenvolvimento possível de um texto fundador, Ourique 1979, que trago para aqui, ligeiramente modificado:
Tudo rodopia em torno de um cartaz de touradas, não sei se pelo vermelho tauromáquico, o negro do touro ou o olhar intenso de Ricardo Chibanga. A impossibilidade física de edificar uma vila a partir de um cartaz desaparece dentro da cabeça. No fundo, trata-se de uma reconstrução que tem muito de restauro. Imagine-se no cinema. O cartaz aparece a voar, depois a rebolar amarrotado pelos montados, até parar num descampado com a certeza dos pioneiros, porque pressentiu a frescura de um riacho ou uma futura concentração de caminhos. O cartaz abre então como uma flor e fica a pairar à altura dos olhos, a pedir parede. E logo surge a parede, depois a casa que a justifica, a rua, dez ruas, o reservatório de água, mais ruas, antenas de televisão, a câmara municipal ao cimo da avenida que ainda não nasceu. Os reflexos de luz na pela de Chibanga são animados pela canícula das três da tarde de Agosto, vencem o branco incandescente da cal e permanecem como o centro geométrico da vila, que alastra em todas as direcções. O desabafo do médico da vila-"Ah! Chibanga, o grande Otelo do redondel"- ecoa ainda, primeiro ampliado pela ignorância de quem levou muitos anos a entender tais palavras, e depois renovado, não em eco, antes como se o médico se tivesse cruzado comigo outra vez, ainda com o jornal debaixo do braço e a umas dezenas de metros do café: "Ah! Chibanga, o grande Otelo do redondel". Não fora pelo médico e Ourique podia ser uma vila de surdos, rica apenas nos sons dos animais: o latido do cão, o guincho final do porco a estilhaçar o frio de Dezembro, o chilreio das ninhadas das andorinhas nos beirais. O tempo passava e Chibanga, curtido pelo Verão e ensopado pelas chuvas, parecia agarrar-se ao cartaz com a tenacidade dos náufragos numa jangada à deriva. Mas a vila morreu aos poucos: primeiro os avós, depois a romãzeira, a pocilga sem porcos, a casa a acumular varizes, a distância que não parou de crescer. A morte de Chibanga está ainda envolta em algum mistério: teria sido uma criança a descolar o último farrapo de cartaz? Teria sido o desleixado dono da casa, quando ao fim de vinte anos voltou a caiar as paredes? Ou terão colado um cartaz por cima a publicitar algo alheio à planície (o circo Cardinalle)? Nunca mais voltei a passar naquela rua. Às vezes penso que Chibanga não teve um final inglório. Imagino o matador a morrer de pé, no momento em que a parede ruiu e não me apetece ir ver se tenho razão.
Chibanga é a única personagem do Ouriquense animada de algum realismo mágico. Ele aparece na vila como um fantasma condenado para sempre a procurar os pedaços rasgados do seu cartaz. Curiosamente, se todas as outras personagens são inventadas ou estão efectivamente mortas, no mundo real Ricardo Chibanga existe e gere um negócio de arenas desmontáveis. A errância da profissão do Chibanga de carne e osso torna possível o confronto na arena entre um Chibanga sessentão, à paisana, e o seu fantasma trinta anos mais novo, de traje de luzes, naquela que será a única cena do Ouriquense em que, periclitantemente sentadas na bancada da praça montada sobre andaimes, todas as personagens vão interagir, nem que seja por uma simples troca de olhares. A trama desembocará nesta cena e então o Ouriquense repousará em paz.
As libertinas de Lisboa
As libertinas de Lisboa existem para manter a pureza da relação com Tatiana. O autor faz com elas tudo aquilo que tem vontade de fazer com Tatiana mas julga adequado censurar. A iminência de um ménage à trois é a cedência do Ouriquense que lhe retira o estatuto de objecto artístico puro, isto é, alheio a propósitos mercantilistas. Mas na verdade, embora sempre descritas como um par, o autor interage apenas com uma ou a outra e nunca as duas ao mesmo tempo (excepção feita ao primeiro encontro). Tal como o narrador, também o autor as trata como uma única pessoa. Daqui decorrerão algumas situações rocambolescas.
Jaime, o moço de recados
O único surfista vivo de Ourique é o elemento de charneira, embora tenha sido até agora muito poupado. Existe no Ouriquense um desejo de bucolismo, só que assistido por veios capazes de bombear alguma civilização na vila. Esta incapacidade de assumir o interior em toda a sua esplendorosa desolação perdeu entretanto alguma espectacularidade - houve a melhoria dos retransmissores, dos satélites e depois a extensão das redes de televisão por cabo; ainda assim, vem com a lucidez desencantada de quem sabe que a cidade chega hoje à vila com o que tem de bom e também a porcaria que lhe é característica, porque só o correio asseguraria que recebesse em Ourique apenas o tal "génio elegante". Nisso - e no português diminuído - o Ouriquense se distingue de A Cidade e as Serras. Não se acredita aqui que só o campo fosse capaz de recuperar Jacinto, nem se acredita que Jacinto fosse capaz de viver só do campo.
O moço de recados traz a civilização. Na era da tecnologia, ele é mais do que um capricho, é uma excentricidade que corporiza a função redentora do estilo. Porque a tecnologia só encanta quando ainda não existe - os cenários futuristas - ou quando deixou de existir - o "teatrofone" que fazia as delícias de Proust.
Emília
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Emília é a mais importantes das quatro personagens que realmente existiram em Ourique e a que tem já um papel definido na cena final: ela trará uma limonada a Ricardo Chibanga e preferirá saciar a sede ao Chibanga fantasma, deixando o Chibanga real a morrer de sede. Emília aparecerá quase sempre acenando com o afinco daquelas pessoas que imaginamos ficarem ainda a acenar muitos minutos depois de termos saído do seu campo de visão. Este capricho narrativo colocará enormes problemas técnicos ao autor, pois o narrador, ao contrário da criança que foi, quase nunca abandonará Ourique.
Honório
É a segunda das personagens reais em importância. Bêbado e com lugar cativo na taberna do Mira, Honório é uma das tentações negras do narrador, pois chegará a cúmplice e executor nos planos para a morte de Igor. Mas se a consciência do narrador acusa o fardo de Honório, o único peso que este sente - e que apenas lhe aflora o cachaço - é o do gume da espada de Dâmocles com que um juiz em tempos o sentenciou.
Luís
A terceira personagem real em importância, Luís é o menino que nunca viu o mar e com quem o narrador percebe os limites da sua capacidade de expressão, em tentativas reiteradas de lhe explicar por palavras e sem outros meios a sensação de fazer carreirinhas, uma cena decaldada do momento de Children of a Lesser God em que William Hurt tenta explicar a uma surda o que é a música.
Torpes
A quarta personagem real em importância, Torpes, irmão de Emília, é o homem com que voltamos à pesca na barragem e que manifesta uma notável veia aforística sempre que trespassa um peixei-rei com o anzol. Na edição em livro, muitas das Lições da Planície farão parte das intervenções de Torpes.
O cinéfilo
O rapaz do cineclube representa o Ourique positivo, o empreeendedorismo e uma certa rebeldia. O cinéfilo, que gere um cineclube alimentado por cópias de filmes roubadas nos cinemas da capital, está para a oferta cultural em Ourique como Robin Hood estava para o alívio fiscal das populações mais carenciadas de Nottingham.
Maik Magic (e Rosy)
Maik Magic (e Rosy) marcam um instante fundador no Ouriquense.
O ladrão de cuecas
Trata-se da única personagem resgatada a pedido dos leitores e servirá de pretexto a uma trama policial.
LUGARES
A vila
Um sítio feio e onde não acontece nada.
O supermercado
Tatiana trabalha num Pingo Doce e é aí que o narrador normalmente se cruza com ela. A descrição já foi feita: "trata-se de um espaço sobredimensionado, à entrada da vila, que reproduz em Ourique a mesma sensação de total insignificância que experimentei nas grandes superfícies comerciais das cidades americanas. Curioso isto de ter sentido pela primeira vez a angústia da pequenez cósmica naqueles enormes supermercados, no IKEA de Nova Jersey, numa farmácia na periferia de algum subúrbio de alguma cidade de um certo estado (Florida?), e não no planetário nacional onde me levavam quando criança, nem no que depois visitei pelo meu próprio pé, em Nova Iorque; só mesmo no Pingo Doce de Ourique recuperei a escala cósmica. Enfim, de lá trago também os dois litros diários de gaspacho de pacote - vivo a gaspacho e pão, o meu tracto intestinal é como uma viela de Buñol em perpétua última quarta-feira de Agosto (a Tomatina). Mas não trouxe ainda a Tatiana. Das 5 ou 6 empregadas com quem me cruzei, nenhuma tem um rosto passível de ser amado"
O cineclube
Por motivos óbvios, não estou autorizado a revelar a localização do cineclube, local onde se assiste à mais recente oferta cinematográfica, bem como a clássicos e obras entretanto esquecidas, num ambiente de clandestina cumplicidade e em que é permitido fumar. Os filmes são projectados sobre uma parede que é caiada todos os anos pelo rapaz do cineclube.
Cotovio
É no monte arruinado, à sombra de um plátano, que o narrador lê os grandes clássicos e obras de menor alcance, guardadas em tupperwares. É também no monte que se dedica disparar com uma espingarda de pressão-de-ar sobre comprimidos de composição conhecida e posologia incerta. As alterações no caudal da ribeira do Cotovio, uma espécie de rio Sado incipiente, servem para marcar a passagem do tempo.
O cemitério
O cemitério de Ourique lembra uma pedreira de mármore graffitada com as típicas inscrições fúnebres. A compilação dos nomes de todos os ouriquenses falecidos é um dos passatempos do narrador, que inspecciona e fotografa todas as campas, mas evitando sempre o confronto com o jazigo da sua família. Será Ricardo Chibanga que o levará pela mão a perfilar-se diante dos seus antepassados, obrigando-o depois a proferir umas quaisquer palavras simpáticas.
A taberna do Mira
Com mulheres nuas nas paredes e copos de vinho ao balcão, na taberna do Mira todas as dimensões do espaço eram preenchidas por tentações masculinas, vigiadas por uma enorme cabeça de touro. A luz escasseava e entrava sobretudo pelas portas, criando uma atmosfera muito difícil de reproduzir num estúdio de cinema. A luz rasteira acentuava o escavado dos rostos e o contraste do vidro translúcido sobre o mármore opaco. A memória desta taberna, hoje encerrada e nas mãos de uma imobiliária, é imprecisa - não é seguro que o balcão fosse de mármore. O primeiro encontro com o fantasma de Ricardo Chibanga terá lugar diante da porta fechada da taberna e o narrador fará uso de todos os seus recursos para provar que lá dentro se encontra a prova perdida de que Ourique foi vila tauromáquica.
Castro Verde
É a vila rival, o instrumento a que o autor recorre para limitar a simpatia que os nativos poderão sentir pelo Ouriquense.