Sexta-feira, 23 de Setembro de 2016
Sexta-feira, 23 de Setembro, 2016



Eremita às 14:09
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Sexta-feira, 23 de Setembro, 2016

noam-chomsky1.jpg

 

Parece que sim, a acreditar neste epitáfio publicado na Scientific American, que atira a Gramática Universal para o caixote do lixo que contém o Materialismo Histórico e a Psicanálise. Afinal, as crianças não nascem com uma gramática inata, mas aprendem as regras gramaticais a partir de um conjunto de competências cognitivas genéricas, como estabelecer categorias, associações e analogias. É inadmissível que, estando as minhas gémeas praticamente a começar a falar, a comunidade científica venha decretar a morte da Gramática Universal de Chomsky. As bebés precisam de alguma estabilidade curricular nesta fase tão crucial das suas vidas. 



Eremita às 09:21
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Quinta-feira, 22 de Setembro de 2016
Quinta-feira, 22 de Setembro, 2016

"A mera lógica do argumento «não somos censura» para explicar a impotência da editora perante o objecto saraivesco implicaria que a Gradiva teria também de não censurar, e consequentemente publicar, as centenas de livros que decerto autores mais ou menos dotados lhe fazem chegar todos os anos. Se os não publica é porque aplica aquilo a que se chama «critérios editoriais», sejam eles financeiros ou literários.
Não havendo contrato, e tendo em conta que não foram considerados quaisquer critérios editoriais no caso em apreço, restam duas hipóteses: a Gradiva ter José António Saraiva no alto gabarito de autor a quem não se recusa uma obra ou ter feito umas contas a quanto podia arrecadar com tão vil publicação. Das duas hipóteses, a última é apesar de tudo a menos danosa para a reputação da editora." Rui Ângelo Araújo



Eremita às 20:22
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Quinta-feira, 22 de Setembro, 2016

19877042_C2M5b.jpegAcabo de receber o vídeo do lançamento do segundo romance de Álvaro Laborinho Lúcio (ALL), enviado pelo moço de recados, em mais uma missão especial à capital. Ao evento compareceu a fina flor da magistratura, nomeadamente a Dra. Francisca Van Dunem, ministra da Justiça, a Conselheira Joana Marques Vidal, Procuradora-Geral da República e o Juiz Conselheiro António Gaspar, presidente do Supremo Tribunal  (creio que a enumeração não respeita o protocolo, mas sou um cavalheiro), bem como outras destacadas figuras da sociedade, como o ex-presidente General Ramalho Eanes e - salvo erro (o vídeo apenas mostra a sua nuca) - o Juiz Conselheiro Ireneu Cabral Barreto, actual Representante da República para a Região Autónoma da Madeira. Presentes estiveram também alguns escritores da nossa praça, como Francisco José Viegas, na qualidade de editor da Quetzal, e Mário de Carvalho, a quem coube a tarefa de apresentar o livro a uma assistência que lotou o salão dos espelhos da Casa do Alentejo. Foi ontem ao fim da tarde. 

 

Mário de Carvalho cumpriu o seu papel. Leu um texto em que elogia o autor e o livro, sobre o qual mostrou ter reflectido. Falou depois ALL. Friso que ALL, além de destacada figura na área da justiça e da cidadania, é provavelmente o nosso melhor orador vivo - e só discordará quem nunca o ouviu falar. Aliás, se refiro apenas os oradores vivos, não é para excluir os grandes tribunos do século XIX, pois estou seguro de que estes não fariam sombra a ALL, mas para deixar de fora o editor Vítor Silva Tavares, recentemente falecido, e apenas porque uma comparação entre a oratória destas duas personalidades nos distrairia. Porque o que interessa confrontar é a oratória de ALL com a sua escrita. Para as pessoas comuns, escrever permite-lhes alcançar um brilho que não atingem quando falam, como se a lentidão da escrita e o rasto que deixa e se pode voltar a percorrer inúmeras vezes permitisse a expressão de uma inteligência mais profunda, esforçada e vigilante, que na oralidade tende a não comparecer e, quando se manifesta, só atrapalha. Ora, no caso dos grandes oradores, importa saber se o acto de escrita tem sobre eles o mesmo efeito transformador que exerce sobre o pensamento do homem comum, pois fica a impressão de que a oralidade destes sobredotados é animada por uma inteligência que não pode ser superada. A dúvida saiu reforçada pelo contraste entre a leitura de Mário de Carvalho, o escritor firmado, e o improviso planeado de ALL, o debutante, pois a eloquência deste reduziu as páginas de Mário de Carvalho a uma mera redacção de bom aluno.

 

A oratória de ALL tem como traço distintivo o longo raciocínio encadeado que, operando até ao limite da capacidade de apreensão do ouvinte, é sempre resolvido no momento certo, produzindo grande efeito, seja uma graça ou outra iluminação. E mesmo quando se socorre de bordões batidos, como o "tenho um grande futuro atrás de mim", ou do aviso costumeiro de que os agradecimentos, parecendo ser de circunstância, são sinceros, ALL consegue uma originalidade e um apuro estético insuperáveis. À forma e conteúdo, ALL alia um tom absolutamente encantatório. Tudo parece ajudar: os finos traços do rosto de homem nobre, o porte, a voz segura mas intimista, as pausas e os ritmos variados com que se vai expressando. Quando alguém diz "para todos vós e para cada um", há quem no meio da multidão se sinta momentaneamente especial. Mas quando, vários minutos depois de ter começado a sua intervenção, ALL disse também "para todos vós e para cada um", muitos se recompuseram na cadeira, subitamente alertados pelo "todos vós" de que havia mais gente na sala e seria impróprio persistir no estado de relaxamento corporal e sorriso beatífico que caracteriza os seres maravilhados. Por fim, mostrando saber que qualquer bom discurso deve ter humor e emoção, ALL cativa-nos com a sua honestidade, a generosidade reiterada e, sobretudo, o seu desejo, puro e ardente, quase como se um adolescente falasse, de um dia ser reconhecido como escritor, não por capricho de fama, antes por devoção à escrita, que não é passatempo de reformado, mas o ofício de quem depois dos setenta anos resolveu construir uma segunda carreira.  

 

Ainda não li O Homem Que Escrevia Azulejos, mas o livro galgou já vários lugares na lista dos volumes que conto ler, mesmo contendo um verbo no título (estatisticamente, um mau presságio) e, a julgar pelas duas primeiras páginas, a prosa ser animada por uma hiperconsciencialização do acto de escrever, havendo o risco de descambar em pós-modernices. Enfim, em defesa do autor, também Cervantes fez dessas experiências e Dostoiévski, n'Os Irmãos Karamásov, começa por mencionar os "críticos [literários] russos". Importa, isso sim, esclarecer a dúvida que apresentei. O risco, para o leitor, parece ser pequeno. Se se superar na oralidade quando escreve, ALL terá feito uma obra-prima. E se não se ultrapassar, o veredicto fica em aberto. Afinal, diz-se que Stendhal ditou A Cartuxa de Parma e não se saiu nada mal

 



Eremita às 12:32
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Quarta-feira, 21 de Setembro de 2016
Quarta-feira, 21 de Setembro, 2016

A boa poesia, para este filistino que vos escreve, é a que me recompensa do esforço que me exigiu. Segundo este critério, ainda estou indeciso quanto ao valor de Summa Senectutis (recomendado aqui), mas não ter ainda fugido de um blog de poesia é já assinalável. 



Eremita às 09:13
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Terça-feira, 20 de Setembro de 2016
Terça-feira, 20 de Setembro, 2016

A lista é mais longa, meu caro. E não parece resultar apenas das brigadas do politicamente correcto. É que também acusam V.S. Naipaul de ser misógino, sádico e de bater na mulher e na amante (1, 2). 



Eremita às 21:34
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Terça-feira, 20 de Setembro, 2016

Notas a desenvolver nas próximas 48 horas:

- Feminismo anti-feminista

- Um tratado sobre a generosidade

- Contra o romantismo

- Pelo capital e pela propriedade

- Como são, afinal, os olhos de Custódio?

- Serias capaz de desenhar a casa da Vessada?

- Misticismo verosímil, sem pitada de realismo mágico

- Um desprezo pelos acontecimentos da época (Revolução de 1910 e Primeira Grande Guerra)

- Um auto-retrato de Agustina, na pele de Quina e de Germa

- Um impressionante catálogo de verbos

- Haverá quem na literatura portuguesa escreva melhor sobre roupa?

- O prazer das teorias contra-intuitivas

- Aforismos eficazes e intemporais versus sentido de humor limitado e datado.

 



Eremita às 10:46
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Sábado, 17 de Setembro de 2016
Sábado, 17 de Setembro, 2016

A R., que começou a terceira classe, disse ontem ao jantar "palavra-passe". O meu comentário saiu em tom de reprimenda, violando todas as boas práticas pedagógicas. Para mais, a miúda não tem culpa, limitava-se a mostrar o que aprendera na escola. E para agravar o meu caso, vi depois que os dicionários já consagraram "palavra-passe". Assumo a condenação pelo tom, mas ensaio a defesa da substância, não sem antes ressalvar que não sou um especialista. Não tenho qualquer aversão a contaminações vindas de outras línguas. Há estrangeirismos úteis e até inevitáveis, bem como neologismos resultantes de traduções literais ou menos ortodoxas que podem funcionar. Não defendo sequer um embargo a importações linguísticas quando já existem termos portugueses equivalentes. O critério que sigo não é proteccionista, é absolutamente meritocrático. Ora, existe na língua portuguesa um termo superior a "palavra-passe" (tradução literal de password): a palavra "senha". Na comparação com "palavra-passe", "senha" vence por três motivos: 1) não é uma palavra composta; 2) é uma palavra mais curta; 3) tem um significado mais preciso, pois muitas senhas não são necessariamente palavras mas sim associações de letras, números e outros símbolos, já para não falar das vezes em que são frases, como sucede com a senha mais conhecida de todos os tempos: "abre-te, sésamo". 


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Eremita às 09:01
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Sexta-feira, 16 de Setembro de 2016
Sexta-feira, 16 de Setembro, 2016

Caminhava pela rua a ler, uma prática que não recomendo aos lisboetas. Relia a Sibila, de Agustina, levantando a cabeça a cada dez passadas. Porém, a prosa por vezes alheia-nos do mundo e devo ter dado mais do que dez passos sem pausa na leitura quando ouvi uma assobiadela curta mas ainda assim melodiosa, como um alerta sonoro de telemóvel escolhido por alguém com bom gosto. Levantei a cabeça e, a menos de três passos, vi um cego que caminhava na minha direcção varrendo o chão com uma vara e perscrutando o espaço mais à frente com um apuro auditivo sobrenatural. Era um daqueles cegos de peles engelhadas no lugar do globo ocular e que não usam óculos escuros. Suspeito que, ao longo dos anos, o cego foi apurando a melodia do seu assobio para alertar e logo encantar os transeuntes encautos, de modo a que quando erguem a cabeça não se distraiam nem assustem com a figura que lhes surge pela frente e imediatamente abram caminho. Assim se passou.



Eremita às 09:13
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Quarta-feira, 14 de Setembro de 2016
Quarta-feira, 14 de Setembro, 2016

Quando era um jovem adolescente, lembro-me da irritação do meu pai ao ler numa entrevista a Lobo Antunes que o escritor, segundo lhe teriam dito, era "a melhor cama de Lisboa". Aquilo ficou-me para sempre na cabeça. Refiro-me à reacção do meu pai, que durante todos estes anos deu boleia à citação, demasiado imprecisa para ser memorável - à época, Lobo Antunes exercia sexo no Estoril, ou seja, seria a melhor cama da Grande Lisboa. Enfim, a capacidade que Lobo Antunes conquistou de irritar toda a gente sem lhes conceder qualquer hipótese de resposta é admirável. Não há muita gente assim em regimes democráticos e meritocráticos, todos têm de prestar contas. O mérito é dele, mas reconheça-se que uma parte não se deve ao seu talento como escritor e sim à inteligência com que construiu a sua imagem pública. Muito antes de Mourinho, antes até de Pinto da Costa, já Lobo Antunes era um especialista dos "mind games", pelas boutades cirúrgicas com que agitava o meio literário. Fazia-o de modo implacável. Por exemplo, ainda jovem lobo, disse que Vergílio Ferreira era o "Sartre de Fontanelas", para, muitos anos depois, reconhecer que o colega tinha talento. Naturalmente, foi um elogio póstumo, pois nem consagrado Lobo Antunes demonstra especial magnanimidade pelos colegas vivos. Quando lhe perguntaram que jovens escritores ele lia, não avançou nenhum nome e justificou-se dizendo que passa mais tempo a reler-se a si próprio. Ora, este grau de egocentrismo é uma carapaça inviolável, que a pouco e pouco foi desmotivando os críticos da terrinha. Podem dizer que é o Faulkner de Benfica, que os romances mais recentes são uma trapalhada de vozes indistintas, que... Não importa, já ninguém quer saber, nem nós, nem ele. Não há na imprensa recente lusitana crítica literária substancial e, a julgar pelas entrevistas sucessivas, o escritor, que vendeu muito do final dos anos setenta até aos anos noventa, atrai mais quando fala do que quando escreve, o que é um preocupante sinal de efemeridade literária. Abundam as entrevistas e escasseia a crítica. Existe uma crítica pontual e apressada sobre algum romance, sem comparação com outros livros do escritor, nem sequer excertos para exemplificar os reparos, como este texto de António Guerreiro, e um ou outro perfil, como este, de Paulo Nogueira. Existe também uma lobo-antunologia, mas que se suspeita ser demasiado comprometida; até que ponto a dedicação da professora Maria Alzira Seixo e dos seus discípulos à obra de Lobo Antunes, vista como objecto de estudo que deve ser valorizado, não gerará necessariamente uma crítica entusiasta? Ao invés do que lhe foi acontecendo em Portugal, nas últimas duas décadas Lobo Antunes ganhou uma dimensão internacional ímpar. Elogiado por pesos-pesados, como George Steiner, Harold Bloom e J.M. Coetzee, percorre os festivais literários do mundo como uma estrela a quem os entrevistadores atiram soft balls para ele maravilhar a plateia com o seu inegável charme, que passa independentemente da competência com que se expressa em inglês, português, francês e castelhano. Resta apenas saber se o mundo, que conheceu Lobo Antunes depois de Portugal, se vai também fartar dele e se a sua obra resistirá à morte do escritor. Seja como for, a sua independência nos últimos 40 anos é absurdamente invejável. Fez o que quis e como quis, com total independência, superando os rivais e pairando sobre os críticos. Não há melhor definição de vida bem vivida e já é tempo de se perceber que as figuras públicas cumprem um papel social importante ao atraírem a inveja que, de outro modo, recairia sobre aqueles que nos são próximos. 

 



Eremita às 09:08
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Sábado, 10 de Setembro de 2016
Sábado, 10 de Setembro, 2016

Reunião extraordinária marcada para amanhã. Assunto: 1) como piratear uma cópia do filme Cartas de Guerra, de Ivo M. Ferreira - ética e técnica; 2) o "quem, quando e como" de caiar a nossa parede.

 

O cineclube, como projecto para dinamizar a vida cultural de Ourique, não chegou a pegar, em parte por falta de apoios camarários. Mas seria desonesto culpar o poder autárquico por um capricho nosso. Cedo percebemos que as nossas sessões ao relento em noite de Lua Nova, com a imagem projectada na única parede imaculadamente caiada entre as poucas do monte que ainda não ruíram, eram demasiado preciosas para as trocarmos por ciclos de cinema no cineteatro da vila e nenhuma avença demoveria o rapaz do cineclube, que se mantém um espírito livre, apesar de hoje se desgastar numa busca por subsídios estatais, patronos e outros contactos úteis à carreira de um jovem cineasta, azáfama precipitada quando cumpriu um quarto de século por talvez ter sentido a efemeridade da existência e avaliado as hipóteses de ser o próximo Miguel Gomes, esquecendo-se de que Miguel Gomes ainda é suficientemente novo para ser o próximo Miguel Gomes. 

A escolha de Cartas de Guerra reuniu consenso, embora por motivos diferentes. O rapaz quer tirar medidas ao realizador Ivo Ferreira, o judeu não perde um filme de guerra e eu sofro de um lobotropismo que denuncia uma adolescência vivida nos anos oitenta. Naturalmente, estamos todos predispostos a fazer pontes para as adaptações cinematográficas de três obras do arqui-rival Saramago (A Jangada de Pedra, Ensaio sobre a Cegueira e O Homem Duplicado) e as colaborações entre Agustina e Manoel de Oliveira, e também nos move a curiosidade sobre como terá Ivo Ferreira resolvido a dificuldade que é fazer cinema comercial (isto é,  dependente de uma narrativa) a partir de um autor que despreza as histórias. Muito a propósito, leia-se o competente Carlos Natálio e a Sara Figueiredo Costa.



Eremita às 21:21
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Sábado, 10 de Setembro, 2016

Escrever sobre Israel e a Palestina foi um ritual de passagem para qualquer jornalista ambicioso, mas escrever sobre a indústria da pornografia ainda é um dos exercícios obrigatórios do jornalista (masculino) com pretensões literárias. 

"A pornografia tem desde sempre na sociedade portuguesa uma posição de missionário. Tem inerente um preconceito íntimo, guardado como um animal de estimação, que se torna feroz nas horas vagas. Uma bolinha vermelha que prevalece no canto superior da consciência coletiva." 

Luís Pedro Cabral, hoje, Expresso, numa notável sequência que deixou o seu editor prostrado e a pensar em José Sócrates.

 

"A strange and traumatic experience which one of yr. corrs. will not even try to describe consists of standing at a men’s room urinal between professional woodmen Alex Sanders and Dave Hardman. Suffice it to say that the urge to look over/down at their penises is powerful and the motives behind this urge so complex as to cause anuresis (which in turn ups the trauma). Be informed that male porn stars create around themselves the exact same opaque affective privacy- bubble that all men at urinals everywhere create."

David Foster Wallace nos Annual AVN Awards de 1998 (ensaio reportagem Big Red Soon, que aparece na colectânea Consider the Lobster). 



Eremita às 11:52
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Quinta-feira, 8 de Setembro de 2016
Quinta-feira, 08 de Setembro, 2016

A nossa cozinha tem um chão axadrezado, feito de quadrados brancos e pretos. É um padrão muito comum em cozinhas e dizem-me que surgiu na Holanda, mas não confirmei. A única particularidade é o diminuto tamanho dos quadrados, cujos lados não chegam a um palmo, consonantes com o tamanho de uma cozinha em que a partir do seu centro consigo chegar a todas as bancadas e armários com apenas um passo. Há dois dias, deixei cair um limão e comentei  com a L. que, sobre o xadrez, o citrino - disse "limão", claro - compunha uma imagem muito bonita.  Ela concordou e, por ter uma cultura visual muito mais desenvolvida do que a minha, fiquei orgulhoso. No dia seguinte fiz um corte profundo num dedo indicador, quando a faca resvalou na cabeça do pão. Fui rápido a lavar e estancar a ferida, mas a rotação rápida com que cheguei ao lava-loiças espalhou gotas de sangue por todo o lado. Estava sozinho, a casa acordava, e o meu único impulso foi limpar logo todo o sangue, para não assustar ninguém, não me ocorrendo que, numa casa de mulheres, ainda que nem todas menstruadas, serei talvez eu quem mais se impressiona com o sangue. Foi pena. Agora que reconstituo a cena de cabeça, reparo que as gordas gotas de sangue no axadrezado da cozinha também formavam uma composição bonita. Refiro-me, naturalmente, às gotas que caíram nos quadrados brancos e quase aposto que o limão se imobilizou num quadrado preto. Entretanto está quase a acabar mais um dia e hoje não houve acidentes, pelo que me resta imaginar o axadrezado a ser conquistado por uma mancha de líquido verde soluçando de uma garrafa que tombou sem se quebrar. Os mais novos que googlem "Pisang Anbon".



Eremita às 22:11
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Quinta-feira, 08 de Setembro, 2016

 

Há uma década e tal, jovens literatos, em parte ainda como reacção à prosa "neobarroca" do comunista Saramago, mas sobretudo desejosos de professar a sua anglofilia, tentaram promover o uso da frase curta, coincidindo este movimento algo difuso com uma campanha contra o uso do ponto de exclamação, visto como uma prática datada e algo paternalista ou até ofensiva para o leitor. Pedro lomba, por exemplo, escrevia um blog com frases curtas. Mesmo muito curtas. Curtíssimas! Vivemos hoje tempos menos absurdos. 



Eremita às 12:20
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Quarta-feira, 7 de Setembro de 2016
Quarta-feira, 07 de Setembro, 2016

 

Só por inveja ou estupidez não se poderia reconhecer que o podcast Uma nêspera no cu se alimenta de uma grande ideia, que pela sua simplicidade e eficácia nos parece quase ovo-colombiana. Como é que ninguém se lembrou antes de fazer do jogo dos dilemas um grande programa de entretenimento? O programa terá ainda o mérito de ser falado num português vernacular rico em referências escatológicas e sexuais, e sem receio de usar nomes de figuras públicas na composição de cenários embaraçosos. Mas é pena que a noção de entretenimento e um desejo de originalidade algo infantil transformem quase todos os dilemas em situações elaboradíssimas, porém absurdas, versões barrocas de um  "preferes uma nêspera no cu ou um dióspiro?", quando se sabe que o verdadeiro dilema não é uma escolha entre dois tipos de dor física, dois tipos de humilhação pública ou dois tipos de abstinência sexual eterna, mas encerra sempre um conflito moral. Ora, o conflito moral realmente angustiante, cuja decisão tende a deixar uma ferida que não mais irá sarar, algo ao nível de A Escolha de Sofia, está praticamente ausente do podcast. Apesar das aparências,  "Uma nêspera no cu"  é o exemplo acabado da máxima retrógrada de que não se brinca com coisas sérias. 



Eremita às 15:55
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Quarta-feira, 07 de Setembro, 2016

Costumam perguntar às crianças, menos por malícia do que simples provocação, se gostam mais do pai ou da mãe. Verdadeira ou falsa, a resposta, como sabemos, nunca varia. As crianças desconhecem a sorte que têm. Porque aos pais de gémeas não chegam a perguntar nada, tal a vontade de interpretar como prova de preferência qualquer pequena diferença de tratamento, do comentário mais entusiasmado sobre uma à ausência da outra na foto enviada a parentes em que  surge a irmã. Ignoram que num pai existe um fortíssimo mecanismo de vigilância interna que mantém a contabilidade dos beijos dados a uma e a outra, dos minutos passados com elas ao colo, das vezes que cada uma, com um sorriso, uma careta ou um gesto inesperado, lhe deu gozo e da qualidade dessa sensação, medida em graus de prazer. Trata-se de uma vigilância permanente e implacável, servida por uma aritmética cega. Embora seguro de que ama as duas com a mesma intensidade, o pai inexperiente não se autoriza a amar de maneira diferente ou por motivos distintos, preferindo o conforto dos elementos de prova objectivos. Neste contexto, exclusivamente neste contexto,  a identidade genética das bebés deixa de ser uma dádiva de Deus para se revelar um desafio, quase uma tentação demoníaca.  


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Eremita às 13:08
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Segunda-feira, 5 de Setembro de 2016
Segunda-feira, 05 de Setembro, 2016

 

 

 

“En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.

 

Podemos ter esperança na humanidade? Esta canção, servida por palavras soberbas, uma voz sublime e um arranjo inteligentíssimo, está no Youtube há mais de 2 anos e não chega às 600 000 visualizações (número modestíssimo para uma canção). Façam a vossa parte. 



Eremita às 11:57
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Segunda-feira, 05 de Setembro, 2016

Herzog, a voz mais apelativa que conheço e um homem que parece estar a envelhecer como poucos, lançou (há já uns meses) mais um filme. Desta vez não foi muito original no tópico. Mas aprendo que desprezou as redes sociais, o que só nos pode deixar com muita vontade de ver o seu documentário sobre a internet.

  



Eremita às 10:13
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Sábado, 3 de Setembro de 2016
Sábado, 03 de Setembro, 2016

Enumerações

Ainda mal refeito do telefonema em que fui informado de que há uma vegan na família (alargada), leio que o porco preto alentejano é exportado para ficar com selo de origem espanhola. O Ouriquense é um blog apolítico ou vagamente niilista, mas não deixa de defender um conjunto de princípios, medidas e acções, incluindo a liberdade, a laicidade e a república, um ateísmo ecuménico e exclusivamente reactivo, a meritocracia, a redistribuição para minorar as desigualdades sociais de berço, a propriedade privada com pesados impostos sobre o capital, os imóveis, a terra, o luxo e as heranças, uma medicina baseada na evidência científica, todo o tipo de humor sobre a homeopatia e demais patranhas, o incentivo constante mas discreto da natalidade, o direito a uma dieta omnívora sem implicar crueldade na hora da morte que dará sentido à vida dos animais domesticados, a promoção da figura paterna em séries de televisão de grande audiência, o ensino de versões dos clássicos da literatura na instrução primária concertado com a queima no Terreiro do Paço de toda a literatura infantil de autores vivos (que seriam poupados), a igualdade de género segundo a máxima anarco-comunista "de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades", a proibição de outdoors com imagens de criaturas sexualmente apelativas virados para estradas, bem como a de anúncios radiofónicos com buzinadelas, e um serviço público de televisão obstinadamente elitista, em que a actual RTP2 substituiria a RTP1 e uma nova RTP2 passaria em horário nobre todo o cinema da colecção Criterion legendado por Maria Velho da Costa, já para não falar num europeísmo anti-federalista e, naturalmente, na identidade nacional. O porco preto alentejano, com o sobreiro, a Laurissilva e os registos audiovisuais deixados pelo saudoso Vítor Silva Tavares, bem como algumas peças do Museu Nacional de Arte Antiga e também as manifestações culturais e o património arquitectónico que receberam ou procuram o selo de qualidade da UNESCO, ou até a Via Verde e - porque não? - verbos especialíssimos que, depois de Agustina Bessa Luís, ninguém mais voltou a conjugar com tanta economia de linguagem... enfim, o porco preto alentejano, dizia, é parte da nossa identidade nacional. 

 

Continua

 



Eremita às 22:01
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Sábado, 03 de Setembro, 2016

Lobo Antunes fala e fuma. Já sei tudo o que ele vai dizer, mas não consigo mudar de canal. As bebés brincam na sala, de costas viradas para a TV. 


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Eremita às 19:42
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Quinta-feira, 1 de Setembro de 2016
Quinta-feira, 01 de Setembro, 2016

Desconfiai daquele que fala melhor do que escreve. 



Eremita às 10:28
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Quinta-feira, 01 de Setembro, 2016

Um romance não serve para nada. António Lobo Antunes

 

Eis a típica patetice lobo-antuniana vocal (a escrita tem outras características) para épater la bourgeoisie. Só a relembro como pretexto para recomendar este livro de Calvino a quem tiver uma habitação. Depois da sua leitura, ficará mais habilitado para lidar com a Autoridade Tributária e Aduaneira, os condóminos e outros vizinhos, os eventuais arrendatários de curta ou longa duração, os empreiteiros que contratar para a realização de obras, os pombos que lhe consporcarem as janelas ou o telhado. Este não é um livro que fará de si uma pessoa necessariamente melhor, mas emergirá como um proprietário mais resiliente e capaz. 

 

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Eremita às 07:43
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Quarta-feira, 31 de Agosto de 2016
Quarta-feira, 31 de Agosto, 2016

Considero que esta nova geração de escritores não é assim tão extraordinária. Bárbara Bulhosa

 

Se tomamos por referência este cenário de fundo, quem se salva hoje em dia? Técnica literária e pirotecnia novelística, temos. Repetição do mesmo, não falta. Mas se um autor estiliza o romanesco cai na individuação – em mitologia ameríndia, o ser sai do mundo – e afasta-se da subjectivação do nós, do todos e todas. Este consenso distraído de escrever bem sem dizer nada instalou-se com inércia. Júlio Gomes

Apesar da opinião e ofício coincidentes, poucas semelhanças haverá entre a pragmática Bárbara Bulhosa e o intelectual Júlio Gomes. As entrevistas são preciosas, sobretudo se lidas de enfiada, mas as duas citações valem como provocação e pouco mais. Bárbara Bulhosa foi buscar o inevitável século XIX, como se uma irrepetível coincidência de romancistas criados por geração espontânea tivessem definido aquele tempo, quando o mais provável é ter sido aquele período, sem oferta audiovisual que secundarizasse o romance, a defini-los. Júlio Gomes ainda teorizou um pouco, mas é pouco esclarecedor. A "individuação" é hoje mais frequente? Não será apenas mais notado o seu efeito eventualmente pernicioso, pela pobre biografia colectiva das gerações que escaparam à guerra colonial, perderam depois o 25 de Abril e cresceram no conforto da adesão à CEE, sem abalos de terra (literais ou de outro tipo)? E será mesmo verdade que não existem escritores lusos contemporâneos capazes de esquecer o cotão do seus umbigos e produzir prosa relevante? Já agora, aproveitando o embalo, será assim tão má, a tal "individuação"? Prefiro o escritor fascinado com a sua imagem no espelho àquele ciente da necessidade de abordar a "condição humana".

 

Na entrevista a Bárbara Bulhosa faz-se ainda referência às décadas douradas de 80 e 90, em que havia Lobo Antunes e Saramago. Dois autores bastam para se falar de uma geração de grandes escritores? Ora, se bastam dois também bastará um e, recorrendo a um critério objectivo, Gonçalo M. Tavares é hoje muito mais conhecido internacionalmente do que os nossos Nobel e quase-Nobel quando estes eram quarentões. Corremos mesmo o risco de passar os próximos cinquenta anos sem que apareça um autor ao nível de Agustina, Vergílio Ferreira, Cardoso Pires, Lobo Antunes e Saramago (admitindo que esta curtíssima lista de consagrados faz algum sentido)? Será que, se formos capazes de corrigir a paralaxe geracional que nos leva a valorizar mais as nossas primeiras leituras, esse autor não apareceu já? Não teríamos até dois, três ou mais, caso os jurados dos concursos literários procurassem prestigiar os prémios sem parasitar o prestígio entretanto alcançado por aquele que volta a ser premiado? E afinal, para o leitor, que importa tudo isto, quando a  finitude da vidinha e os seus afazeres impossibilitam a leitura de todos os livros já publicados que lhe despertam interesse? 

 



Eremita às 09:47
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Sábado, 27 de Agosto de 2016
Sábado, 27 de Agosto, 2016

[Revisto e aumentado a 29.8.16]

Bolinha tende a olhar para cima e desde os primeiros meses revelou grande empatia por candeeiros de tecto. Alterna o sorriso inocente e generoso com birras de grande potência vocal. Tem apetência pelos espaços amplos, que abarca abrindo os braços, o que, ao observador menos experimentado, parecerá uma expressão corporal de desconcerto. Mostrou-se interessada pela sua imagem no espelho antes da irmã. Aos doze meses revelou um espírito de exploradora indomável, que a faz rastejar da sala até ao hall de entrada e enfiar a cabeça no balde dos brinquedos, protagonizando cenas muito eficazes de humor físico involuntário. Gosta de imitar com a boca o barulho de um martelo pneumático, expelindo uma quantidade abundante de perdigotos e, por vezes, também de sopa. Há opiniões divergentes quanto à primeira palavra que terá dito, mas "caca" [cáca] é uma hipótese que, mais por desejo de rigor do que deslumbramento galhofeiro, não se deve descartar. Bebe menos água do que a irmã e parece fazer muito mais chichi do que esta, observação que ninguém ainda conseguiu explicar. Seja como for, é mais uma de tantas outras diferenças inesperadas em gémeas monozigóticas, que levaram o pai à desconfiança - não da sua paternidade, mas da genética enquanto disciplina. Gosta de se espojar em superfícies confortáveis e de adormecer acompanhada.  

 

Grãozinho tende a olhar para o chão e a manter a cabeça ligeiramente inclinada para baixo, não alterando a posição quando encara o interlocutor de frente, o que lhe dá o chamado "olhar Lady Di". As feições mais miudinhas fazem com que pareça muito mais pequena do que a irmã, embora a diferença de peso se cifre hoje nuns meros 3-5%. Tem o sorriso maroto e quando morde o lábio lembra Popeye, embora haja quem diga que herdou a expressão da linhagem patronímica, nomeadamente do avô paterno. Revela grande interesse pelos pormenores, das texturas dos materiais aos dedos de uma mão que lhe seja estendida, podendo passar longos períodos quieta e absorta em actividades de observação. Precedeu a irmã no manuseio da chupeta, que continua a manipular com grande virtuosismo. "Atão", pronunciado em jeito interrogativo, vivamente defendido por alguns como uma corruptela de "então", terá sido a sua primeira palavra. Foi ainda a primeira a responder "píu-píu" quando lhe perguntaram "como faz o passarinho?", mas, não havendo pelo menos duas testemunhas, o episódio jamais será homologado. Gosta de adormecer acompanhada, com a barriga a ser massajada suavemente. 


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Eremita às 09:15
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Terça-feira, 23 de Agosto de 2016
Terça-feira, 23 de Agosto, 2016

[Revisto e aumentado a 29.8.16]

Depois de uma tarde a montar mobiliário da IKEA, voltou uma obsessão velha conhecida: a de construir uma história em torno desta empresa. Pela ubiquidade e peculiaridades da marca, de todos os planos para livros que vou tendo, este seria o mais capaz de atingir o sucesso comercial de que a minha família necessita. Ideias avulsas: 1) talvez abrir com um decalque do relato que Eça faz do Ramalhete, mas em que a casa é um apartamento de classe média totalmente mobilado com móveis da IKEA; progressivamente, o relato começaria a abdicar da descrição pormenorizada dos móveis e a usar os seus nomes emblemáticos ("Billy", "Besta", etc.), numa profusão tal que o leitor teria de recorrer a um catálogo da marca para poder apreender o espaço descrito; 2) incluir nas personagens um homem frustrado por não se conseguir libertar dos móveis IKEA, que montou com entusiasmo ao 24 anos, com alguma indiferença aos 35, algo cansado e aborrecido aos 45 e, desde então, melancólico, desesperado ou enraivecido, menos pelo esforço físico do que pela comprovação do seu imobilismo social, que não lhe permitiu nunca comprar móveis de antiquário, móveis nórdicos mas vintage e de madeira maçica, móveis que seriam estimados, restaurados e figurariam na lista das partilhas; 3) um ex-designer da IKEA, inventor da cómoda modelo MALM associada à morte de três crianças, que se mudou da Suécia para Ourique, tentando fugir da sua consciência; 4) um sem-abrigo, que todos os dias ludibria a segurança e chega a permanecer durante meses no IKEA de Alfragide, que passa a ser o seu ecossistema, pernoitando nas camas e sofás dos expositores e ocupando os dias com estratagemas para amealhar umas moedas ou furtar uns frascos de arenque temperado com mostarda e aneto. 5) uma sociedade civil anémica, que ignora uma petição para impedir a instalação de um IKEA em Paços de Ferreira, a "capital do móvel", levando o seu autor a ponderar um acto terrorista em defesa da identidade nacional; 6) algo sobre o amor, o sexo e modelos de cama IKEA, apenas para reforçar o sucesso comercial; etc. 

 



Eremita às 11:50
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Domingo, 21 de Agosto de 2016
Domingo, 21 de Agosto, 2016

Em prosa bem nutrida e militante, a propósito de tweets, gasta-se uma crónica no Guardian para escrever contra a objectificação (sexual) do corpo das atletas olímpicas. É desconsolador testemunhar a defesa de uma boa causa feita sem sentido de oportunidade. Ao contrário de muitas outras áreas, o desporto é implacavelmente meritocrático. Curvas e um palmo de cara podem ganhar contratos publicitários e fazer manchetes, mas não dão medalhas. Acresce que, nos últimos anos, a haver uma tendência, é para a objectificação do corpo dos atletas masculinos. As razões são várias. Por exemplo, objectificar o corpo masculino não é censurável e, para alguns, em nome de uma (caricatural) defesa da igualdade de género, será uma justificação para não se deixar de objectificar o corpo das mulheres. Porém, a razão determinante parece-me ser esta: se, para a generalidade dos desportos, os corpos atléticos masculinos correspondem ao ideal vigente do corpo sensual, o mesmo raramente se aplica ao corpo atlético feminino. O desporto de alta competição não forja mulheres voluptuosas. Os ombros largos das nadadoras proíbem-lhes a graciosidade, os músculos das corredoras velocistas causam admiração sem líbido, os corpos das ginastas, de proporções quase infantis, recomendam pensamentos castos, e a altura da jogadora de volleyball faz com que a sua elegância óbvia seja sobretudo apreciada quando salta e remata, um movimento puramente atlético, sem vestígios de erotismo. Naturalmente, existem adolescentes, existem idiotas e existem as redes sociais, mas a evidência parece-me esmagadora: não havia, nem há, uma onda de comentários objectificadores das atletas, o que há é uma susceptibilização crescente e contraproducente, pois corpos belos, desnudados no espaço público, serão sempre erotizados. De resto, no caso das Olimpíadas, a objectificação de pendor sexual dos corpos femininos nem sequer é a mais marcante, interessante, complexa e polémica. Afinal, haverá outra atleta feminina a ter sido mais coisificada nas últimas décadas do que Jarmila Kratochvílová e Caster Semenya, cujos corpos, masculinizados devido aos altos níveis artificiais ou naturais de androgénios, são as antíteses literais da pin-up?

 



Eremita às 08:21
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Sexta-feira, 19 de Agosto de 2016
Sexta-feira, 19 de Agosto, 2016

agustina-bessa-luis.jpg

Até há uns dias, sabia de Agustina aquilo que se aprende de ouvido: escrevendo à mão e quase sem emendas, foi prolífica (ao contrário de outros que não resistem à tentação de anúncios que depois não cumprem, apenas reiteram, a autora parece mesmo ter deixado de escrever e desapareceu da vida pública), era coquete nas entrevistas, conservadora sem ser aborrecida, sendo até desconcertante, e muito apreciada pelas raparigas literatas de direita e até algumas de centro-esquerda, tanto pela veia aforística hipertrofiada como por uma valorização das mulheres alheada das vagas feministas do século XX. Mas desconhecia a sua prosa, pois falhei uma primeira tentativa de ler os seus Contos Impopulares, li depois O Livro de Agustina, que me pareceu uma autobiografia escrita de modo displicente, e antes tinha lido um conto, O Rato, sem ter ficado convencido com o sentido de humor da autora. 

 

Depois dos quarenta anos, qualquer escolha de leitura vem com o peso de um item de bucket list. Seleccionei A Sibila (romance de 1954) e A Ronda da Noite (de 2006). A outros autores lusófonos que desconheço ou conheço mal conto dar o mesmo tratamento, isto é, ler duas obras, incluindo a mais emblemática e uma outra, bem afastada da primeira no tempo, tema ou forma. Tudo parecia bem encaminhado: a leitura de A Sibila foi compensadora e preparava-me para atacar a outra obra, mas pensei depois se não deveria reler de imediato o que acabara de ler. É bem possível que a qualidade e a estrutura circular de A Sibila propiciem o embalo para a releitura, mas depois dos quarenta anos qualquer releitura de algo que se acabou de ler é um capricho que a condição de mortal não recomenda. Paciência. Admitindo que, quando chegar de novo fim, conseguirei libertar-me deste livro e não ficarei até à velhice aprisionado por estas páginas, juntarei umas impressões sobre a escrita de Agustina, uma vez concluída a (re)leitura de A Ronda da Noite. 

 

 



Eremita às 09:59
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Quarta-feira, 17 de Agosto de 2016
Quarta-feira, 17 de Agosto, 2016

Vão dizendo que sim e tendo a concordar. Se existe um comprimido que cura ou previne, sobra pouca metafísica. Porém, embora seja uma maldade cobrar a um doente o tempo que nos tomou quando precisou da nossa ajuda, um deprimido que passe uns dias acamado e seja tratado por aqueles que mais o amam (uma mãe, a namorada, a mulher) não se livra de, num momento qualquer de domesticidade mais tensa, ser lembrado da situação de dependência em que esteve e do peso que foi para quem dele cuidou e os demais que vivem na sua casa. Ora, estas revelações não me parecem maldosas, são compreensíveis e até previsíveis, a menos que o deprimido viva com mártires. Mas se é assim, então a depressão não pode ser bem uma doença. Aliás, se o deprimido, tentando escapar à cobrança dos seus, imitasse o tuberculoso e partisse para um sanatório remoto em terras altas, não estaria a salvo, pois o mais provável seria criticarem-no pelo capricho de se ausentar. 



Eremita às 12:25
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Domingo, 14 de Agosto de 2016
Domingo, 14 de Agosto, 2016

Ontem, vi os Jogos Olímpicos na companhia do Judeu. Depois de ganhar o bronze, a judoca Telma Monteiro mencionou várias vezes o valor da "raça lusitana". Proferida pelo antigo presidente Cavaco Silva, a expressão era grotesca, mas na voz da atleta pareceu-me rigorosa. "Raça", no sentido de "raçudo", bem entendido. O Judeu também gostou. Lancei depois o tema da fraca apetência dos hebreus para o desporto e o Judeu atalhou logo: "não é falta de apetência, é falta de aptidão". A frase ficou a ecoar na minha cabeça como boutade anti-semítica dita por quem de direito. 



Eremita às 14:45
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Segunda-feira, 1 de Agosto de 2016
Segunda-feira, 01 de Agosto, 2016

 

No final dos anos 80, a fama de Glenn Gould era imensa e ainda maior entre os músicos.  Por ter convivido de perto com estudantes de piano, também tive a minha fase maníaca por Gould e, naturalmente, ouvi inúmeras vezes as suas interpretações das Variações Golberg (BWV 988). Depois fartei-me do ego de Gould, da sua inteligência superior, da sua excentricidade, enfim, do seu génio transbordante. Discutia-se, na altura, se os ruídos que Gould emitia com a boca quando tocava piano comprometiam a interpretação. Creio que não há um consenso sobre a matéria e, provavelmente, a discussão continua. Mas ninguém discute os sons emitidos por Maurizio Pollini, a sua respiração profunda e as brevíssimas melodias que entoa quando toca O Cravo Bem Temperado. Porque à discrição do intérprete Pollini só podemos responder com reverência. 



Eremita às 13:47
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