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Ouriquense

25
Set17

Certas vozes masculinas

Eremita

É altura de sair do armário e assumir-me como homossexual ao nível do ouvido. Sou sensível às vozes femininas sensuais, mas sem fugir dos estereótipos grosseiros (as vozes graves, a voz de cama, etc.). É nas vozes masculinas que a minha atenção e sentido crítico se concentram, e julgo ter desenvolvido alguma sensibilidade estética. Por exemplo, a voz do livreiro e escritor Rodrigo Magalhães, aqui entrevistado, é absolutamente sedutora. Não é tanto a voz enquanto timbre e tessitura, mas a maneira pausada de falar. Não serei certamente indiferente à boa qualidade do português, mas falar bem é apenas condição necessária. Quando o montado permitir, conto voltar a este tema. 

24
Set17

Portugal e a Catalunha

Eremita

Henrique Monteiro escreveu esta semana uma patetice sobre a Catalunha e o Algarve no nosso semanário "de referência". Felizmente, Pacheco Pereira também escreveu sobre a Catalunha. 

 

No caso português, a minha perplexidade é ainda maior. Parece que os nossos espanholistas se esquecem da história portuguesa, tão recente como o pós-25 de Abril — já não é preciso ir à defenestração de Miguel Vasconcelos e ao papel da Catalunha na Restauração. Como eu o posso dizer com clareza, e admito que os nossos governantes não possam nem devam fazer, é do interesse nacional que não se dê uma concentração do poder centralista em Madrid, e por isso os portugueses sempre viram com simpatia os processos políticos do catalanismo e do galeguismo — o caso basco, por causa do terrorismo, é diferente — e nunca alinharam com a tradição de uma Espanha unitária imposta contra as autonomias ou as nacionalidades. Foi assim durante a guerra civil espanhola, em que o franquismo, de que em muitos aspectos o PP espanhol é herdeiro, esmagou as experiências federalistas e nacionais, e em que mesmo Salazar olhava com muita preocupação para as pretensões de integrar em Espanha a “anomalia” portuguesa. O mesmo tipo de preocupações se reproduziram depois do 25 de Abril, quando uma parte da reacção portuguesa foi organizar-se em Espanha. Depois, embora sempre com muita discrição, nunca se abandonou a ideia de que uma preocupação do “conceito estratégico de defesa nacional” passava por Espanha. E não era Olivença que preocupava os militares e políticos portugueses, era mais a delimitação das fronteiras nas ilhas madeirenses. Por que é que pensam que os presidentes da República mostram uma vontade de visitarem as ilhas Selvagens (e não é por causa das aves)?

 

Por todas as razões, os portugueses são historicamente próximos da Catalunha, embora quem leia a comunicação social veja o mesmo alinhamento com o Estado espanhol e a mesma linguagem autoritária que hoje é infelizmente tão comum na União Europeia (lembram-se da Grécia?). O debate tende a ocultar o aspecto político da questão e, por isso, mostra-se uma grande indiferença à repressão, ao unanimismo e manipulação comunicacional, à agressividade da linguagem centralista e, no fundo, a um atentado à legitimidade do governo catalão e da vontade dos catalães.

É porque o referendo é “ilegal”? Nunca vi tanto apelo à legalidade numa questão política conflitual e em que está em jogo uma vontade política que se quer (ou não) expressar pelo voto. E, se não custa perceber que o referendo pode ser impedido à força, já é difícil perceber como é que se vai governar depois a Catalunha. Não será com ofertas de dinheiro... E se novas eleições reforçarem os partidos independentistas funcionando como um referendo também sobre a independência? E no dia 1 não custa perceber que milhares de pessoas vão proteger os locais de voto e as urnas. Como é que se vai fazer? Prender toda a gente? Prender o governo da Generalitat? À luz do que se passou é já uma hipocrisia não o ter prendido. Como é que se vai lidar com a polícia autónoma, com os Mossos d’Esquadra, etc., etc.?

Os catalães mereciam mais dos portugueses. Por interesse nacional, pela democracia e pela liberdade. Pacheco Pereira, Público

23
Set17

Fart jokes

Eremita

Por volta das seis da manhã, estava eu a ler um belo texto de João Constâncio sobre o pessimismo e niilismo em Nietzsche, precisamente na passagem de contornos schopenhauerianos sobre o conflito entre o nosso papel enquanto membros de uma espécie e indivíduos, uma das gémeas soltou, sem acordar, uma prolongada, sonora e percussiva bufa, mesmo ao meu lado, pois esta noite adormeci no quarto delas, entre as duas caminhas, com a cabeça apoiada numa enorme toupeira de pelúcia. Fiquei então a pensar por que motivo uma bufa minha teria sido menos engraçada e nesta diferença julgo ter encontrado algum conforto existencial. 

22
Set17

Jugar por abajo

Eremita

Sempre que escrevo um texto sobre a actualidade política, experimento uma pequena ressaca. O Ouriquense não foi pensado para comentar a actualidade, é o diário (trasladado) de um homem que trocou as grandes cidades (Paris, Nova Iorque e Lisboa) por Ourique, a vila dos seus avós maternos. A embriaguez da actualidade levou-me em tempos a criar um censor, Nuno Salvação Barreto, e nestas alturas em que me dou conta do desnorte gosto de citar as sábias palavras de Diego Maradona depois de a Argentina que ele treinava ter sido humilhada pela Alemanha no Mundial de 2010: "...Porque no se cumplió el sueño pero se encontró un camino. El de respetar la historia (...), de volver a las raíces, de jugar por abajo". Jugar por abajo, eremita: voltar à biblioteca e ao plátano, esclarecer a morte de Igor, pensar a Espanha e os dedilhados, não temer a solidão da idiossincrasia. Deixa a actualidade para o Seixas da Costa e a socratologia para o Valupi. 

22
Set17

Ideologia de género: os extremos tocam-se na ignorância

Eremita

A ideia base é a de que ‘o género’ é uma orientação que deriva da cultura e não da biologia (feministas como Camille Paglia e Germaine Greer contestam-na violentamente); trata-se de um ‘sentimento’ de pertença, que até pode (como ‘sentimento’, portanto) mudar mais tarde e, creio eu, reverter depois, de acordo com a ‘sensação’ dominante. Francisco José Viegas

  

Para os promotores da ideologia de género, o sexo é uma construção social ou "psicossocial", como se lê no projecto de lei do Bloco de Esquerda que reconhece o direito à autodeterminação de género. Esta tese parece ser essencial para se deixar de considerar a disforia de género uma doença. No campo oposto, os críticos da ideologia de género argumentam com um determinismo biológico simplista e ultrapassado, tanto na distinção binária inequívoca como na definição do sexo a partir do par de cromossomas sexuais. Por exemplo, veja-se o vídeo em que José Manuel Fernandes, recorrendo à teoria da evolução, afirma peremptoriamente que os homens são XY e as mulheres XX - a coisa está para lá de mau jornalismo, é mesmo má propaganda. Não tenho vagar para descrever a complexidade biológica associada à determinação do sexo (este artigo na Nature é excelente), mas basta lembrar que há homens XX, pessoas com uma genitália feminina que têm cromossoma X e outro Y e vários casos de intersexualidade em que a atribuição do sexo a partir das características físicas não é óbvia, nem se clarifica com a análise da composição cromossómica. Enquanto não for trágico, o resultado é curioso: a discussão pública está refém dos pólos definidos pelos ideólogos da ideologia de género e pelos ideólogos da ideologia contra a ideologia de género. Os primeiros ignoram a biologia; os segundos usam uma biologia de café. Resta esperar que quem tem disforia de género consiga sobreviver à militância identitária e à reacção daqueles que aproveitam a ocasião para espadeirar contra os seus inimigos de estimação, como a mão do Estado (Viegas), o politicamente correcto (José Manuel Fernandes) ou o pós-modernismo (Paulo Tunhas), com a ligeireza de equiparar uma transição de sexo, que implica uma coragem e determinação inimagináveis, a um mero capricho. 

 

 

21
Set17

Uma recusa cognitiva

Eremita

São cada vez mais evidentes as diferenças de personalidade das nossas gémeas. Uma é mimosa e inocente, a outra arisca e desconfiada. Podia continuar a descrição, mas não o farei. Há um exercício, entre a ficção e a História, que consiste em imaginar o que teria acontecido se um determinado evento histórico não tivesse ocorrido - por exemplo, The Plot Against America é um desses exercícios de história virtual, pois Philip Roth imagina uns EUA em que Roosevelt perde as eleições presidenciais para Charles Lindbergh, o herói da travessia aérea do Atlântico (Norte) que simpatiza com Adolft Hitler (factual). Enquanto ciência, estes exercícios valem muito pouco, pois nunca são conclusivos, valendo talvez como ferramentas para levantar hipóteses, mas o seu apelo é irresistível. Ora, o crescimento de duas gémeas verdadeiras, que tem semelhanças óbvias com uma experiência controlada (duas réplicas saídas da mesma célula), é sobretudo visto como uma espécie de história virtual em tempo real, pois a tentação de extrair conclusões é demasiado grande para chegar a ser ciência. Um pai, apercebendo-se dessa atmosfera assertiva e sentenciosa em redor das filhas, tem vontade de pegar nelas ao colo e fugir como quem abandona uma casa em chamas. Mas o mais insidioso é que o próprio pai não resiste a categorizar, distinguir, notar e correlacionar o comportamento e a personalidade delas. Ele sabe que a presença de duas gémeas aguça a capacidade de observação. Uma nunca é apenas ela mesma, mas também o que a outra não é. Nesse sentido, a experiência está longe de ser controlada. Não há uma gémea padrão com a qual as duas gémeas possam ser comparadas; cada gémea é simultaneamente o controlo e amostra, o que gera dinâmicas complexas. Um pai, ciente de tudo isto, tenta contrariar os seus sentidos e força-se a abandonar linhas de raciocínio, como se o simples facto de descobrir uma diferença fosse indiciador de uma preferência. Ele sabe que se comporta como a feminista que desvaloriza as diferenças entre os sexos e gostaria era de se parecer com aquele demógrafo famosíssimo que explicou a evidência das diferenças raciais como uma ilusão devida ao enorme desenvolvimento da visão nos primatas e no homem em particular. Que bom seria poder culpar os sentidos. 

20
Set17

Provavelmente o melhor divulgador de Filosofia

Eremita

Para aprender Filosofia, o melhor método é ler o que os filósofos escreveram. Mas como o tempo é limitado, os divulgadores de Filosofia também cumprem um papel. Há uns dias, descobri o podcast Philosophize This! e atrevo-me a dizer que é feito pelo melhor divulgador de Filosofia do mundo ocidental (entendam a afirmação como um desafio). É melhor do que os calhamaços de Bertrand Russell e Anthonny Kenny, melhor do que os vídeos do carismático Rick Roderick, melhor até do que o Philosophy Bites. Salvo erro, é feito exclusivamente por um americano de Seatle, de 28 anos, que não tem sequer educação universitária e entende a divulgação da Filosofia como o seu projecto de vida - seria difícil difícil encontrar alguém com melhor currículo e carta de motivação. E assim, pela primeira vez na vida, senti-me tentado a apadrinhar (monetariamente) um podcaster

 

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