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Ouriquense

27
Jun17

Limites da interpretação

Eremita

 

Para o pastor Tiago Cavaco (ver vídeo a partir dos 5' 44''), William Lane Graig ganhou este debate com Christopher Hitchens. Já não tenho vagar para estas discussões, mas ainda "m'espanto às vezes, outras m'avergonho". Quanto à beleza do bebé que mama como prova da existência de Deus, só mesmo pregando para convertidos. A beleza é infinitamente mais bela, misteriosa e controversa do que a explicação da criação divina.  Por fim Tiago, que mau gosto dizeres que "Hitchens já sabe que Deus existe". Não invoques o nome do falecido Hitchens em vão, pá. 

26
Jun17

Chegar aos noventa lúcido

Eremita

Por ter sido um pai tardio e a minha mulher ser mais nova do que eu, como se já não lhe bastasse o vigor de ser mulher, gostaria muito de ultrapassar largamente a minha esperança de vida. Essas são as principais razões para este desejo, que talvez não precise de grandes justificações. Há uma outra razão, infinitamente mais pequena, mas que se destaca do ruído de fundo da indiferença: dar uma segunda oportunidade a João Tordo. Li, há alguns anos, o livro Hotel Memória, uma prosa de noviço que me afastou do autor. Nos últimos tempos, tenho ouvido e lido, aqui e ali, que Tordo amadureceu e fez-se escritor. Mas é verdade que por vezes a crítica não é nada esclarecedora e chega a ser contraproducente. Tordo não galga lugares e, neste momento, a estimativa mais simpática diz-me que o lerei de novo se chegar aos 109 anos.

26
Jun17

Morte e arte kitsch

Eremita

É a doer, tem de ser a doer, morreram 64, ardidos, queimados, a fugir, sufocados em chaminés, encarcerados em carros sobre um talude onde até as jantes de liga leve derreteram (mas a quantas centenas de graus derrete a liga leve?), 64 até agora e provavelmente serão mais, há feridos graves e ainda andam a bater às portas a perguntar se falta alguém, 64 mortos têm de fazer isto andar, tem de ser a doer, não precisamos de chorar mas precisamos do choque, não foi só a mãe natureza que foi filha da mãe natureza com tufões de fogo e trovoadas secas e raios que houve e depois não houve e afinal houve, foi tudo isso mas não foi só isso, isso que o país tem pressa demais para saber e o Estado tem vagar demais para não saber... Pedro Santos Guerreiro

 

Temo pelo que pudesse ler mais neste texto se estivesse publicado na íntegra sem custo, agradecendo ao autor por só disponibilizar um parágrafo à borla. Mas será que este gajo não tem a mínima consciência do gongorismo maníaco da sua escrita, o qual passa como um ruído de fundo folclórico no panorama do jornalismo de opinião mas que configura uma indecência estética quando usa os 64 mortos como carne para o seu canhão narcísico? Valupi

 

E temes bem, caro Valupi, pois o nosso Pedro "Aaron Sorkin" Santos Guerreiro resolveu fazer uma crónica com uma única frase, de dimensão proustiana, sempre no registo insuportável que a tua citação captou, que está para a imprensa escrita como os vídeos de Pedródão Grande com música sentimentalóide estão para a televisão. Por momentos, até José António Saraiva me pareceu uma criatura sensata e com bom gosto. 

 

 

25
Jun17

Obviamente, peça a demissão, Sra Ministra

Eremita

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Ao contrário do que ouvi no Bloco Central, um programa que leva o nome à letra, é evidente que a Ministra da Administração Interna tem de pedir a demissão e antes de qualquer conclusão de uma comissão independente ou parlamentar. O Estado falhou. Não é admissível que 47 pessoas morram numa estrada horas depois de um incêndio começar. As comissões, admitindo que chegam a alguma conclusão e não se afundam nas areias movediças da partidarite, apenas nos explicarão como falhou. É óbvio que a Ministra da Administração Interna não é directamente responsável pelo que aconteceu; aliás, com um qualquer encadeamento de causas, neste momento podemos encontrar os culpados que quisermos, como fez Henrique Raposo na edição do semanário Expresso. A responsabilidade é meramente política e, ao demitir-se, a Ministra exerceria a sua derradeira função de representação, concluindo a cena que iniciou quando apareceu nas televisões de colete. Não se trata de encontrar um "bode expiatório", como tenho lido por aí, nem de seguir o caminho mais fácil para depois não se fazer mais nada, como insinuou António Costa. Trata-se apenas de honrar a memória dos cidadãos que o Estado não soube proteger, de respeitar as centenas de cidadãos com familiares que morreram no incêndio de Pedrógão Grande e de restaurar a autoridade do Estado. Não é coisa pouca, mas seria um gesto simbólico que, sendo necessário, não é obviamente suficiente. Parece-me óbvio que não há outra alternativa e entristece-me ver tanta gente a assobiar para o ar só por apoiar o actual Governo. O que diriam eles se o Primeiro-Ministro ainda fosse Passos Coelho? A pergunta é retórica e, para que conste, eu votei no PS, vibrei com a forma como Costa chegou ao poder e provavelmente voltarei a votar em António Costa ou num dos parceiros mais à esquerda.

24
Jun17

Não perder esta oportunidade

Eremita

A empatia e a capacidade de mobilização decaem com a distância física a que a tragédia ocorre e o seu espraiamento no tempo, o número de repetições, o grau de inevitabilidade e a nossa dissemelhança com as vítimas, obedecendo a uma fórmula matemática que podemos não saber deduzir, mas intuímos. Reformulando em lei: quanto mais próxima (no espaço e na História), rara, aguda e evitável a tragédia, maior o seu impacto psicológico. Há razões para que assim seja, incluindo o tribalismo ancestral, que não tem boa imprensa, mas alguém que sinta a morte de um chinês da China como a de um amigo de infância ou que, por suposto respeito pelos milhares que morrem de "doença prolongada", reprima a comoção ao saber de uma catástrofe repentina que vitimou dezenas de pessoas, estará a deixar-se trair pela sua razão e a perder humanidade, sem que se perceba o que ganhou em troca. Isto é óbvio, mas não impediu que António Guerreiro escrevesse um texto informado a lembrar que "a biopolítica das catástrofes é reactiva e funciona à medida do que acontece em tempos curtos", para contrastar a comoção e aparente reacção à fulminante tragédia de Pedrógão Grande com a baixíssima prioridade que damos à lenta desertificação do Alentejo. Também o Xilre se sentiu tentado a fazer um exercício de relativização, chamando a atenção para outras mortes, pois "entre 2005 e 2015 morreram nas nossas estradas 6.694 pessoas, mais do dobro do número de vítimas do ataque às Twin Towers". O exemplo escolhido é infeliz, sendo a principal conclusão que retiramos dos dados da Pordata a grande diminuição do número de mortos na estrada nas últimas três décadas, o que, curiosamente, serviu para que Rui Tavares destilasse alguns ensinamentos para nos livrarmos dos incêndios. Adiante, porque o mais desconcertante nas reflexões de António Guerreiro e Xilre é ambos mostrarem que conhecem a lei do decaimento da empatia e mobilização, mas ainda assim se revoltarem contra ela, como se fosse possível e vantajoso descartá-la. Não é. E não vejo grande vantagem em criticar-se a biopolítica das catástrofes neste momento.

 

A morte de 64 pessoas num incêndio rural é uma tragédia e - muito provavelmente - uma vergonha para o Estado. Estamos perante uma oportunidade rara para mudar a política de prevenção de incêndios, o ordenamento do território e eventualmente a estrutura da propriedade rural. Do que precisamos agora é de uma estratégia para que não se legisle à pressa só para mostrar trabalho, mas sem que se perca também momentum. É preciso muito talento político para encontrar a justa medida numa altura em que todos exigem o apuramento de responsabilidades e uma urgência incompatível com a resolução do problema, que mesmo no melhor dos cenários será lenta e gradual. De resto, não há grande razão para optimismos. Nos EUA, um país politicamente mais evoluído do que Portugal, nem o terrível tiroteio na Sandy Hook Elementary School, em plena governação Obama, fez com que fosse criada legislação para restringir o porte de arma. Mas são também muitos os exemplos por esse mundo fora de legislação e regulamentos, sobretudo na área da segurança, feitos em resposta a catástrofes que se revelaram escolhas sensatas. 

23
Jun17

Blogs: entradas e saídas

Eremita

[Publicado a 17.6.17; actualizado a 19.6.17 e a 23.6.17]

 

Entraram na lista de blogs:

 

Aspirina B

A Destreza das Dúvidas

Delito de Opinião

Diário do Purgatório

 

Saíram (por inactividade):

 

Vida Breve

Yesterday Man

 

Ao contrário do que escrevi há uns dias, os blogs Homem à Janela, de Alberto Velho Nogueira, e Morre Clara Brow não desapareceram, apenas mudaram de endereço: vão ao Anti-prefácios. (o novo Homem à Janela) e ao novo Morre Clara Bow.

 

 

23
Jun17

A vantagem acidental da hegemonia do "tudólogo"

Eremita

Para que serve um "tudólogo", aquela figura que escreve e fala sobre tudo nos media? Em Portugal, o grande tudólogo é Pedro Adão e Silva, um homem que escreve e fala sobre política, desporto, música pop e surf. Adão e Silva é um caso excepcional entre os "tudólogos", porque percebe mais de política do que o tudólogo típico e tem um discurso muito claro e eloquente. Mas também é um caso exemplar por actuar nas duas arenas de eleição do "tudólogo", a saber, a política e o futebol. Assim de cabeça, lembro-me de Paulo Baldaia, Daniel Oliveira, Pedro Marques Lopes, Joana Amaral Dias, Ricardo Araújo Pereira, Francisco José Viegas... O que fará com que tanta gente se tome por especialista em política e futebol ou, o que me parece mais pertinente, o que nos leva a dar-lhes atenção quando falam e escrevem sobre futebol? Possivelmente, a familiaridade. O "tudólogo" estabelece com o seu público uma relação de empatia (ou antipatia estimada) e não pode assustar pela exibição de um conhecimento que nos pareça inatingível. A identificação com o tudólogo deve ser possível. E uma das utilidades do "tudólogo", ainda que de mérito discutível, é fornecer ao leitor uma opinião fácil sobre qualquer coisa, com base numa afinidade que se vai construindo ao longo do tempo. Por outras palavras, cada leitor identifica-se com um dado "tudólogo" ou com uma constelação de "tudólogos" e sabe-se predisposto a concordar com o que o seu "tudólogo" escreve, qualquer que seja o tema que marque a actualidade. Outra das utilidades do "tudólogo", também de mérito discutível, é a inversa da anterior, isto é, cada leitor pode alimentar um ódio de estimação por um "tudólogo" ou constelação de "tudólogos" e sabe sempre onde encontrar um texto que lhe dará o prazer da irritação e do desprezo. Mas a grande e inequívoca vantagem de uma opinião pública dominada pelos "tudólogos", ainda que totalmente acidental, é o pano de fundo de mediocridade e mediania que cria, perfeito para que brilhe o ocasional especialista. Leiam este texto do economista João Rodrigues sobre Economia, publicado hoje no Público. Leiam-no juntamente com o resto da opinião publicada do dia. Não será preciso acrescentar mais nada.

 
Neoliberalismo para totós
 
 

Tendo como pano de fundo as eleições legislativas britânicas, a The Economist sintetizou assim a história recente da economia política do país: “Nos últimos quarenta anos, o Reino Unido foi dominado pelo neoliberalismo, um credo que procurou adaptar algumas das posições do liberalismo clássico do século XIX a um mundo onde o papel do Estado tinha aumentado”. Esta constatação de facto foi acompanhada pelo mais parecido que o eleitor encontrará ali com uma autocrítica, ou não estivéssemos perante uma revista que condensa semanalmente os argumentos neoliberais sobre tudo que é humano, tendo uma forte influência ideológica em tantos editoriais em Portugal.

As “mudanças sísmicas” associadas ao Brexit e ao suposto abandono da herança de Margaret Thatcher pelos dois principais partidos seriam então uma resposta aos “fracassos do neoliberalismo”: da maior crise financeira desde a Grande Depressão ao aumento significativo das desigualdades de rendimento e de riqueza, passando por privatizações que geraram piores e mais caros serviços públicos, mas mais lucros privados, tornando popular a renacionalização de vários sectores.

 

Entretanto, é de registar o inusitado rigor analítico com que o termo neoliberalismo é usado, em linha com o melhor conhecimento nas ciências sociais e humanas, mas em contraste com a repugnância que tal termo ainda causa na ignorante ou cínica sabedoria convencional. O neoliberalismo é de facto a visão do mundo hegemónica nas últimas quatro décadas entre as elites e não só. As suas origens intelectuais remontam aos anos trinta do século XX, começando por ser um esforço minoritário para renovar o liberalismo clássico, tentando dissociá-lo das ideias do laissez-faire e do Estado reduzido a um guarda-nocturno, consideradas incapazes de fazer face aos vários “colectivismos” desglobalizadores que floresciam num contexto de crise generalizada.

 

A intuição central é a de que a reconstrução da ordem capitalista terá de ser o produto de um exercício deliberado de poder político, exigindo intervenções constantes para criar e manter mercados, idealmente exercidas por elites tecnocráticas protegidas da refrega democrática. Tais intervenções passariam pela privatização de activos, pela liberalização e re-regulação financeiras e comerciais conformes à expansão global dos mercados. A liberdade reconquistada de circulação de mercadorias e de capitais exerceria por sua vez um efeito disciplinador sobre os Estados, limitando a democracia, obrigando-os a desenhar políticas monetárias e orçamentais em consonância com os interesses das fracções mais extrovertidas do capital.

 

No entanto, o neoliberalismo foi bem para lá destas últimas opções de política, hegemónicas a partir dos anos oitenta. Tratava-se, e trata-se, também de pensar um lugar para outras intervenções supletivas do Estado, capazes de corrigir eventuais falhas dos mercados em algumas áreas, afirmando a ideologia da concorrência mercantil. Alguns exemplos: na educação defende-se a separação do financiamento, pelo menos parcialmente público, da provisão, fundamentalmente privada, favorecendo assim o capitalismo educativo; no ambiente, corrige-se, supostamente, as chamadas externalidades negativas, como a poluição, com a criação de mercados para as emissões; na política social, defende-se a substituição dos direitos sociais universais por intervenções selectivas e dirigidas, com menor impacto redistributivo. E assim sucessivamente. Sendo um ismo em última instância utópico, o neoliberalismo está sempre por realizar, de forma acabada, na prática.

 

Margaret Thatcher sintetizou de forma impar o que está em causa: “a economia é o método, o objectivo é mudar a alma”, ou seja, convencer-nos de que “a sociedade como tal é coisa que não existe, só existem indivíduos e as suas famílias”, imersos em mercados, incluindo os financeiros, cada vez mais importantes, forçados a aceitar os seus resultados, por mais iníquos que sejam. Para tal foi e é necessário enfraquecer decisivamente todas as formas de acção colectiva que funcionem como freio e contrapeso, em particular os sindicatos, esteios dos direitos de cidadania social, que proclamaram desde o pós-guerra, em tantos países, que a força de trabalho não pode ser tratada como se fosse uma mercadoria. De Thatcher às troikas, passando por Pinochet no Chile, a consistência é espantosa. A austeridade é só um dos meios disponíveis.

 

Tendo sido também responsável, através dos comissários britânicos, pela construção do mercado único europeu nos decisivos anos oitenta, a elite dominante no Reino Unido decidiu ficar de fora da moeda única, dado que tinha confiança no seu poder, não precisando de mais mecanismos disciplinares externos. Afinal de contas, Thatcher tinha declarado que o seu maior triunfo era o novo trabalhismo de Tony Blair, ou seja, a ausência de alternativas. As mais inseguras elites do continente, em particular da França e do Sul, viram no Euro um meio de reforçar a integração supranacional, entregando poderes soberanos decisivos a instituições pós-democráticas e que tinham no seu ADN as regras económicas ortodoxas do ordoliberalismo, ou seja, da versão alemã deste paradigma.

 

Para lá da força dos interesses, o lastro institucional deixado pelo neoliberalismo, em particular na escala supranacional, é uma das razões para a sua resiliência, para a dificuldade em reverter regras que transferem sistematicamente recursos de baixo para cima, mesmo depois dos desastres comprovados. Este é um dos puzzles hoje debatidos na economia política. Creio que a convicção, partilhada por muitos dos seus supostos adversários, de que a globalização, em geral, e as suas expressões radicais no continente europeu são irreversíveis, também é parte da explicação para a dificuldade experimentada. Assim, não há mesmo alternativas decentes para os povos. João Rodrigues, Público.

 

Nota. Este artigo sintetiza alguns argumentos de um capítulo escrito para o livro Economia com Todos, que assinala os dez anos do Ladrões de Bicicletas, blogue de economia política crítica.

 

22
Jun17

"Having rivers of reward without earning reward"

Eremita

Infinite Jest é uma distopia futurista passada num futuro próximo, que provavelmente corresponde já ao nosso passado recente (o romance foi terminado no princípio dos anos 90). Um dos temas centrais do livro é o vício. A seguinte passagem, sobre experiências em que se estimula os centros do prazer, é já uma alusão ao filme Infinite Jest, que tem um papel importante no enredo do livro, por se tratar de uma obra tão hipnótica que o espectador não consegue deixar de a ver e perde o interesse em tudo o resto:  

 

'What happened was that Olders and the Canadian neuroscientists happened to find, during all the trial and error, that firing certain electrodes in certain parts of the lobes gave the brain intense feelings of pleasure.' Steeply looked back over his shoulder at Marathe. 'I mean we're talking about intense pleasure, Rémy. I'm remembering Olders called these little strips of stimulatable pleasure-tissue p-terminals.’

' "P" wishing to mean "the pleasure."

'And that their location seemed maddeningly inexact and unpredictable, even within brains of the same species — a p-terminal'd turn out to be right up next to some other neuron whose stimulation would cause pain, or hunger, or God knows what.’

(...)

'Because they were theorizing that these quote "rivers" or terminals were also the brain's receptors for things like beta-endorphins, L-dopa, Q-dopa, serotonin, all the various neurotransmitters of pleasure.’

'The Department of Euphoria, so to speak, within the human brain.’

There was no hint or suggestion yet of dawn or light.

'But not humans yet,' Steeply said. 'Older's earliest subject were rats, and the results were apparently sobering. The Nu— the Canadians found that if they rigged an auto-stimulation lever, the rat would press the lever to stimulate his />-terminal over and over, thousands of times an hour, over and over, ignoring food and female rats in heat, completely fixated on the lever's stimulation, day and night, stopping only when the rat finally died of dehydration or simple fatigue.’

 

Naturalmente, é o vício em alguma droga dura que mais depressa associamos à total dependência e obsessão com a próxima dose. Mas o grande vício do nosso tempo, pela novidade e abrangência demográfica, é o das redes sociais. Hoje, o leitor de Infinite Jest não deixará de reparar na completa ausência (vou a meio) de referências à internet e, em particular, às redes sociais. De certa forma, não ter previsto no princípio dos anos 90 a explosão da internet, quando já existia em França o precursor Minitel, é um falhanço enorme do autor enquanto futurista. Wallace faz de um filme o grande objecto de perdição, o que não surpreende quem conheça os seus escritos sobre a televisão, e é possível que um autor preocupado com a solidão estivesse pouco predisposto imaginar as redes sociais, que têm uma dimensão ambivalente, por serem capazes de  promover tanto o isolamento como a vivência em comunidade. Por outro lado, o modo como Wallace trata a nossa relação com o prazer não é nada datado e não perde pertinência por não ficcionar as redes sociais, antes pelo contrário, parecendo destilar a essência do nosso tempo ou a própria intemporalidade. Isto confirma a minha suspeita antiga de que tudo o que se tem escrito sobre as redes sociais, num anacrónico estado de espanto permanente, seja em tom catastrofista ou revelador de um entusiasmo incondicional, é uma boa treta. 

 

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