Segunda-feira, 27 de Março de 2017
Segunda-feira, 27 de Março, 2017

Vasco Pulido Valente escreve que conhece Jorge Sampaio desde os vinte anos, como se isso o credibilizasse, mas qualquer pessoa sensata saberá que só pode ser uma ressalva. Aliás, a violência contra Sampaio da prosa de Pulido Valente é tal que o primeiro ter dado do segundo a imagem de caloteiro, no primeiro volume da biografia, não é sequer uma explicação  convincente.



Eremita às 21:43
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Segunda-feira, 27 de Março, 2017

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Hoje vesti uma das bebés com um body que tem o "S" do Superman estampado no peito. Não sou grande adepto da roupinha cómica, porque um bebé de fralda - haja pudor - já está plenamente equipado para nos enternecer e fazer sorrir. Se é verdade que me satisfaz mais vesti-las como meninos e roupa descontraída do que abonecá-las, no fundo, por mim, vestia as bebés como se fossem duas velhinhas calvinistas e o assunto ficaria arrumado. Mas quem escolhe a roupa é a mãe e muita da roupa que temos foi oferecida, pelo que as bebés são em grande parte vestidas segundo o gosto de outros. Tem sido assim desde que nasceram e não me incomoda por aí além. O  "S" só é um problema porque há uns tempos um miúdo atirou-se de uma varanda de um prédio vestido de Superman

 

Houve também um pai que se esqueceu do bebé dentro do carro num dia de calor e esta foi uma das notícias mais inesquecíveis de sempre. Enfim, pode nem sequer vir no jornal. Há um pequeníssimo conto de David Foster Wallace, Incarnations of Burned Children, que também se anicha na memória como um vírus crónico. E pode até não ter sido ainda escrito, nem filmado. 

 

Continua


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Eremita às 10:24
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Segunda-feira, 27 de Março, 2017

[actualização permanente]

Alberto Velho Nogueira, que não só leu, como criticou.

Adolfo Mesquita Nunes

António Lobo Xavier

Eremita*

Henrique Manuel Bento Fialho*

João Pereira Coutinho

Miguel Esteves Cardoso

Miguel Sousa Tavares

Paulo Batista

Pedro Boucherie Mendes

Pedro Mexia

Xilre

 

Se é homem e lê Agustina, junte-se ao clube (email: eremitadaplanicie@sapo.pt).

 

* Clube altamente restrito dos homens de esquerda que lêem Agustina.



Eremita às 09:20
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Sábado, 25 de Março de 2017
Sábado, 25 de Março, 2017

Um magnífico debate sobre Direitos do Homem e vida em sociedade.



Eremita às 14:14
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Sexta-feira, 24 de Março de 2017
Sexta-feira, 24 de Março, 2017

Um dos meus guilty pleasures é acompanhar os ódios de estimação. O colunismo nunca mais se recompôs da morte de Eduardo Prado Coelho, um grande dinamizador, na forma activa e passiva, deste género de intervenção pública, hoje reduzido às provocações infantilóides sublimadas pelo humor com que os mais destacados elementos do Gato Fedorento aborrecem Miguel Sousa Tavares. É na blogosfera que encontro o ódio de estimação mais genuíno. Refiro-me, obviamente, aos posts de Valupi sobre Pacheco Pereira. Imperdíveis. 



Eremita às 09:28
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Quinta-feira, 23 de Março de 2017
Quinta-feira, 23 de Março, 2017

Como social-democrata considero a solidariedade extremamente importante. Mas quem a exige, também tem obrigações. Não posso gastar todo o meu dinheiro em álcool e mulheres e continuar a pedir ajuda. Este princípio aplica-se a nível pessoal, local, nacional e, inclusivamente, europeu.”

 

Querem dois bons textos a propósito das declarações de Dijsselbloem? Xilre lembra a efemeridade das ondas de indignação e rui a. recomenda menos bravado aos nossos líderes, porque quando o adversário já está no chão, todo encolhido e a proteger a cabeça com os braços, é muito fácil aplicar-lhe umas biqueiradas. Pior do que a falta de coragem, só mesmo a coragem fora de tempo. Ver os países do Sul da Europa, que foram incapazes de funcionar como uma frente unida durante a crise, a exigir agora, a uma só voz, a demissão de Dijsselbloem, só não é patético e embaraçoso para quem não tiver memória.

 

Aqui em Ourique, não nos indignámos, em parte porque Dijsselbloem já nos causava repulsa, até mesmo repulsa física, e porque as declarações só indignam quem estiver predisposto para as tresler. Em rigor, o homem usou mesmo a primeira pessoa quando fez a alusão às mulheres e ao álcool. É claro que se pôs a jeito, falava a um jornal alemão e não se lembrou que o rancor que os "PIGS" - o acrónimo diz tudo - têm vindo a acumular nos últimos anos não permite subtilezas de linguagem. Dijsselbloem foi politicamente inábil, mas limitou-se a dizer de nós o que Schäuble pensa, Merkel disse e Passos enfiou pela cabeça, como uma carapuça feita à medida das suas ambições. 



Eremita às 10:05
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Quinta-feira, 23 de Março, 2017

Os funcionários da livraria da Babel, actualmente a editora de Agustina, retiraram das prateleiras os livros da autora. O excelente texto de jornalismo da Sábado, da autoria de Marco Alves, menciona um eventual braço-de-ferro entre os donos da Babel, Álvaro Sobrinho & Paulo Teixeira Pinto, e os representantes de Agustina, cujas declarações à revista são tão contraditórias que alguém estará "muito próximo da inverdade".

 

Creio que os empregados da Babel não chegaram a queimar os livros de Agustina em praça pública porque isso seria danificar a mercadoria, mas o que fizeram tem uma carga simbólica fortíssima para quem reconhece o talento raro da autora. Depois de alguns minutos de reflexão, tentando decidir se, entre inúmeros outros cenários, o melhor seria não fazer nada, protestar nas redes sociais (passe* o pleonasmo), organizar uma manifestação, lançar uma petição, vandalizar as montras da Babel, lançar o boato de que Álvaro Sobrinho e Paulo Teixeira Pinto se dedicam a práticas homossexuais esporádicas num iate luxuoso fundeado ao largo de Sines ou convencer Carlos Santos Silva de que, para justificações alternativas de actos actos passados comprometedores ou alegação de inimputabilidade, lhe seria vantajosa a compra por atacado de todos livros de Agustina disponíveis em território nacional, acabei por decidir que não adquirirei um único livro da Babel na próxima década, nem sequer a um alfarrabista**.  

 

Continua. Explicada a revolta, falta explicar a tristeza, o que é muito mais delicado e talvez peça outro formato, como uma canção ("Agustiiiina já não vende").

* Hugo Pinto Santos, num email muito simpático, alertou-me para a incorrecção de "passo o pleonasmo", apesar de ser a formulação mais frequente (a julgar pelo Google). Aceitei a correcção e ficpu "passe o pleonasmo".

**Excepto se a Babel publicar a obra escrita de Vitor Silva Tavares, uma possibilidade improvável mas que me pareceu prudente acautelar. 



Eremita às 06:17
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Terça-feira, 21 de Março de 2017
Terça-feira, 21 de Março, 2017

Depois de "Quando é que o dinheiro chega? É ter um barco maior, outro Malhoa? É ir aos palácios da luxúria esfregar-se em ruminância alarve no colchão das ganâncias?", Pedro Santos Guerreiro (PSG) ofereceu-nos hoje mais uma pérola: 

 

Jeroen Dijsselbloem sonha com Lucrécias Bórgias e imagina um país de bacos, bacantes e bacanais a gastar em lixos, luxos e luxúrias, de homens lúbricos de prazeres ímpios troando orgasmos fiados com os cantos da boca molhados pela língua a baloiço.

 

Como sabemos, todo o estilo é uma catarse, mas PSG abusa. 

 

 

 

 



Eremita às 21:24
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Terça-feira, 21 de Março, 2017

Pergunta do dia: neste texto de três ilustres professores catedráticos, encontram mais gralhas ou pontos de exclamação?



Eremita às 17:08
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Terça-feira, 21 de Março, 2017

Certas tribos não têm palavras para números acima de um determinado valor. Os Walpiri, uma tribo de aborígenes australianos, bem como os Pirahã, uma tribo da Amazónia, contam "um", "dois", "muitos", enquanto a nossa Autoridade Tributária e Aduaneira, uma tribo há décadas sob a tutela de governos do Bloco Central, parece ser incapaz de discriminar rendimentos acima de um quinto escalão. Por isso, admitamos que o discurso bacoco de Catarina Martins sobre a limitação de salários em empresas privadas foi uma estratégia calculada de preparação do terreno para serem criados escalões de IRS que taxem acima de 48% os rendimentos superiores a 80.640 €. Se não foi isto, Catarina Martins limitou-se a dizer coisas para que tudo fique exactamente na mesma. 



Eremita às 10:09
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Segunda-feira, 20 de Março de 2017
Segunda-feira, 20 de Março, 2017

discussão sobre até que extremos devemos separar a obra do autor é recorrente. O dilema surge quando o autor de uma obra genial revela ser um crápula ou, no mínimo, defende ideias politicamente incorrectas. Hitler foi - dizem-me - um aguarelista medíocre, mas os exemplos abundam, variando no grau da pulhice e da genialidade, sem que ninguém arrisque apresentar uma correlação entre as duas variáveis: os anti-semitas Richard Wagner e Louis-Ferdinand Céline, o fã dos nazis Knut Hamsun, o nacionalista e belicista Ernst Jünger, o apoiante da ditadura militar argentina Jorge Luis Borges, o violador de uma menor Roman Polanski, o racista e misógino V.S. Naipaul, etc. As opiniões tendem invariavelmente para a seguinte polarização: uns, armados em paladinos da liberdade de expressão e amadores das belas artes, defendem a autonomia da obra face ao carácter do autor versus outros, tão puros e decentes que são incapazes de apreciar a obra de uma besta. Portugal não tem uma grande tradição de artistas controversos, mas, ao declarar que iria votar na extrema-direita holandesa, J. Rentes de Carvalho suscitou entre nós as duas reacções da praxe (1 e 2). Com franqueza, a vida é curta e já não há grande pachorra para esta polarização, que me parece muito burguesa e refém de uma hipocrisia insuportável. Tentemos uma terceira via. Será impensável defender a ideia de que o autor com opiniões controversas ou até abomináveis torna a sua obra muito mais desconcertante, perturbadora e, naturalmente, apetecível ou mesmo irresistível, pois é esse o apelo do fruto proibido? Lobo Antunes bem pode andar a seduzir plateias por aí com a sua voz doce repleta de empatia pelos portugueses remediados, mas não são os bons sentimentos que me farão voltar aos livros dele. Por outro lado, creio que é desta que vou abrir um livro de Rentes de Carvalho e suspender por momentos o juízo que formulei depois de ler uma crítica devastadora. Citando um outro autor polémico, não defendo sequer esta atitude, trata-se simplesmente de descrever a vida como ela é



Eremita às 10:33
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Domingo, 19 de Março de 2017
Domingo, 19 de Março, 2017

 

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Entrevista ao meu amigo Pedro Amaral. A caricatura que ilustra a entrevista é de André Carrilho, um amigo da minha mulher. Portugal é um país minúsculo. 

 



Eremita às 11:28
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Sábado, 18 de Março de 2017
Sábado, 18 de Março, 2017

Daniel Oliveira escreve e fala muito, quase sempre bem. Mas desta vez, creio que devia ter estado calado



Eremita às 10:29
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Quinta-feira, 16 de Março de 2017
Quinta-feira, 16 de Março, 2017

Normalmente, na vida, na presença de dois contrários, é necessário procurar a verdade no meio; na nossa história, tal seria errado. O mais provável é que no primeiro caso ele tenha sido sinceramente generoso e, no segundo, ele tenha sido ignóbil com igual sinceridade. Porquê? Porque ele é, precisamente, uma natureza ampla karamazoviana - é a isso que pretendo chegar -, capaz de conter todo o género de contrários e contemplar de uma só vez ambos os abismos, o abismo de cima, o das ideias superiores, e o abismo de baixo, o da mais ignóbil e fedorenta queda. Dostoiévski, Os Irmãos Karamásov



Eremita às 08:50
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Quinta-feira, 16 de Março, 2017

José Sócrates é mais convincente do que os seus advogados. 


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Eremita às 07:42
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Segunda-feira, 13 de Março de 2017
Segunda-feira, 13 de Março, 2017

Sabemos que o Correio da Manhã e as fugas ao segredo de justiça são uma vergonha. Sabemos também, a acreditar nos bloggers e colunistas especialistas instantâneos em crimes de colarinho branco, que o Ministério Público tem investigado os casos que envolvem José Sócrates com uma lentidão indigna. Esta estimulação continuada da nossa capacidade de indignação tem por efeito a habituação. Só assim se explica que Miguel Sousa Tavares, que tem laços familiares a Ricardo Salgado, alegadamente o principal corruptor de José Sócrates (em milhões de euros), comente na SIC a operação Marquês, quando deveria estar calado ou, no mínimo, fazer uma declaração de interesses prévia. Enfim, apercebi-me de que já não me sobra indignação e ouvi calado, sem gesticular. Foi preciso Sousa Tavares dizer que o mito de Sísifo é uma história bíblica para voltar a sentir algum sangue nas guelras. Raios, Miguel, então a tua mãe, que amava a Grécia, não te explicou o mito de Sísifo, meu filistino diletante de telegenia perdida? A operação Marquês começa a erodir os pilares da nossa civilização.

 



Eremita às 20:58
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Segunda-feira, 13 de Março, 2017

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Em 1894, o famoso físico Albert Michelson concluiu que a Física esgotara as grandes descobertas que havia a fazer, nada mais restando à disciplina do que a tarefa de acrescentar casas decimais às constantes conhecidas; em pouco mais de uma década, o mundo conheceria o génio de Einstein e depois a revolução da Física Quântica. Também se pensou que a rádio iria matar o romance, mas o romance sobreviveu e tem tido uma curiosa carreira de serial victim, pois, a seguir à rádio, acumulou como carrascos a televisão e o digital, persistindo ainda por aí, dando inclusive a José Rodrigues dos Santos uma oportunidade de fazer fortuna e a Gonçalo M. Tavares um invejável capital social. E em 1989, embriagado com o fim da Guerra Fria, Francis Fukuyama decretou o fim da História, no sentido em que nenhuma forma de organização política iria superar as democracias liberais em sociedades capitalistas, mas a mais recente crise financeira e os movimentos populistas na Europa parecem minar o sistema por dentro e, em todo o caso, o mundo continua animado e imprevisível. Aliás, a dar crédito a algum dos profetas do apocalipse, dos Maias a Nostradamus, sem esquecer Pedro Passos Coelho, a simples existência do mundo causa algum desconcerto. Decretar o fim de algo é um exercício de poder ao alcance de todos a que ninguém resiste, apesar da lição da História, que, por uma vez, é inequívoca.

 

Esta semana, no Público, ainda na esteira do dia internacional da mulher celebrado a 7 de Março, António Guerreiro (AG) entendeu escrever sobre o fim dos homens. Este tópico não é novo, mas pensava que tinha já amadurecido o suficiente para não ser ilustrado com a cena de canibalismo conjugal pós-copulatório em que a fêmea de Louva-a-deus devora o macho que a fecundou ou algum cenário distópico à Doris Lessing em que as mulheres descobrem uma forma de induzir a partenogénese e nascimentos de apenas de meninas, livrando-se para sempre do seu opressor milenar. AG não chega a tais extremos, mas fica perto, ao transformar em profeta Valerie Solanas, uma feminista radical. Quando um homem disserta sobre o fim dos homens, ao gozo de decretar óbitos junta o prazer da autodepreciação. É irresistível, reconheço. 

 

Com a possível excepção da regulação do poder parental, nas sociedades ocidentais os homens não são vítimas de nenhuma discriminação injusta. Naturalmente, os factos não impedem o nascimento de movimentos e opiniões de que estamos a caminhar para uma "feminização" da sociedade. Que esta ideia faça as delícias de polemistas como os franceses Alain Soral e Éric Zemmour e ainda de Pedro Arroja e dos seus acólitos, não surpreende. É mais estranho vermos AG a pegar no tema, mesmo sendo o seu tom lacónico e nada panfletista, nem atribuindo ele à "feminização" da sociedade a carga pejorativa dos outros autores, limitando-se a uma constatação. O problema de AG neste exercício de estilo sobre o fim dos homens é ter partido do princípio de que os seus leitores o interpretariam com a dose de ironia e ligeireza necessárias.  

 

 Continua. Lenha para rachar e trabalhos no sistema de irrigação da horta adiam a conclusão desta intervenção.



Eremita às 09:38
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Segunda-feira, 13 de Março, 2017

Afinal ainda há vida num dos meus blogs preferidos do tempo em que só ainda havia blogs



Eremita às 09:24
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Sábado, 11 de Março de 2017
Sábado, 11 de Março, 2017

"A acusação está a ser escrita a 16 mãos por oito procuradores..." Expresso, hoje.

 

 



Eremita às 12:52
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Sexta-feira, 10 de Março de 2017
Sexta-feira, 10 de Março, 2017

Como seria de esperar, a propósito do episódio do cancelamento da conferência de Jaime Nogueira Pinto, escrevemos o óbvio e o único cronista que me surpreendeu foi Francisco Teixeira da Mota, um advogado especialista em liberdade de expressão. Já não contava voltar ao tema, mesmo tendo chegado a imaginar uma hipotética conferência de um historiador na Universidade Católica intitulada "Jesus é uma invenção", só mesmo como teste de stress às convicções pluralistas da direita (incluindo a direita conservadora), porque mais tarde ou mais cedo o tema sempre volta. Mas Teixeira da Mota lembrou-se de um episódio cujo paralelo com a censura promovida pelos estudantes me deixou pensativo.

 

Como é evidente, ninguém concordou com o cancelamento do evento e foram numerosos os comentadores que se pronunciaram com veemência contra esta triste negação do espaço universitário. Mas, o que mais me chocou, foi ver surgir na praça pública, como paladino da liberdade de expressão o político Manuel Alegre que veio lembrar os seus tempos de estudante em Coimbra, no século passado, em que, segundo nos informou: havia colóquios proibidos, mas isso era no tempo da ditadura. Em democracia não é possível, porque a democracia é feita de debate e de pluralismo.

Parece este político querer fazer-nos esquecer que o ano passado, após porfiados esforços, conseguiu nos tribunais portugueses a condenação do tenente-coronel piloto-aviador João José Brandão Ferreira numa pena de multa de 1800 euros acrescida de uma indemnização de 25 mil euros por ter escrito num blogue que o militante socialista era um traidor à Pátria, tendo em conta o que considerava ter sido a actuação do cidadão Manuel Alegre como membro da Frente Patriótica da Libertação Nacional aos microfones da “Rádio Voz da Liberdade” em Argel.

Ora o que pensarão e diriam – muito provavelmente se sobre isso fossem questionados – o politólogo em causa e os direitistas jovens organizadores da conferência sobre o comportamento deste político durante a guerra do ultramar? Como classificariam o facto de Manuel Alegre na "Rádio Voz da Liberdade" com a sua tonitruante voz combater o patriótico regime de Salazar/Caetano e apoiar os movimentos terroristas, enquanto os soldados portugueses morriam às mãos dos guerrilheiros? Não entenderão eles, muito provavelmente, que foi um traidor à Pátria? E, pergunta-se (retoricamente) ao político Manuel Alegre, não podem ter esse entendimento? E expressá-lo publicamente ao abrigo da sua liberdade de expressão?

Moral da história: não se pode dizer Je suis Charlie à terças, quintas e sábados e Pas du tout às segundas, quartas e sextas, deixando os domingos para ir à caça. Francisco Teixeira da Mota

 

Não aplaudi de imediato  esta crónica, apesar da minha profunda aversão a Manuel Alegre, a quem não reconheço a autoridade moral que ele insiste em exigir. 

Continua. O montado não dá tréguas. 



Eremita às 09:15
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Sexta-feira, 10 de Março, 2017

Continuo com os Karamásov, rigorosamente 20 minutos por dia, à sombra do plátano. Podemos concluir que Dostoiévski deu-me a volta, muito à custa dos excelentes diálogos que marcam o último terço do livro, tão bons que compensaram até a desilusão que foi dar com um Ivan fraco de espírito, quando esperava uma personagem com o carisma do niilista Bazarov (deve faltar um acento) de Pais de Filhos. Imagino já a ressaca que experimentarei quando terminar este livro, embora o protocolo seja óbvio: iniciar a leitura de uma novela a poucas páginas do fim de um romance longo.



Eremita às 09:00
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Quinta-feira, 9 de Março de 2017
Quinta-feira, 09 de Março, 2017

Não tenho as devidas leituras que me permitam concordar ou discordar de quem afirma que, nas últimas décadas, em Portugal, as mulheres têm escrito melhores romances do que os homens. Limito-me a constatar que é uma ideia defendida por gente do ofício da escrita e da leitura, como o académico João Barrento e o crítico e escritor Eduardo Pitta. Mas a ser verdade, como se explica a lista dos vencedores do Prémio Literário José Saramago, até hoje apenas dado a seis escritores portugueses homens e a duas escritoras brasileiras? 



Eremita às 10:40
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Quinta-feira, 09 de Março, 2017

[Notas em permanente contradição até Julho de 2017]Ricardo-Araújo-Pereira-1.jpg

Ricardo Araújo Pereira (RAP) frisa que não se trata de um trabalho académico, mas no seu A Doença, o Sofrimento e a Morte... reproduz a tradição académica vetusta dos títulos modestos, tantas vezes iniciados pela expressão "Contributo para" (ou "Contribuição para"), pois lembrou-se de inserir o característico "Uma espécie de..." no subtítulo que explica tratar-se de um "... manual de escrita humorística". A autodepreciação é um traço forte e aborrecido de RAP, mas seria injusto condená-lo pela capa, já que também Mário de Carvalho, quando tentou explicar a sua arte, fez o mesmo: "Quem disser o contrário é porque tem razão". Não vou ao ponto de descrever a incapacidade de um autor dizer ao que vem como um caso de "não-inscrição" lusitana (Zé Gil), pois basta afirmar que o livro de RAP não é um guia, nem um manual, nem uma master class ministrada pelo actual príncipe dos humoristas portugueses, nem sequer um contributo para isto ou aquilo, mas um panegírico ao humor e aos humoristas. E quem disser o contrário é parvo. 

 

O livro colheu comentários muito elogiosos (1, 2, 345 e 6) e é preciso andar pelos blogs para descobrir alguma crítica negativa. Esta unanimidade na imprensa diz muito do prestígio de RAP enquanto humorista sofisticado e culto que "escreve bem", mas diz mais ainda sobre a falta de preparação e de tempo dos críticos que se instalaram na imprensa. Porque A Doença, o Sofrimento e a Morte... só é um bom livro se comparado à produção literária dos pares lusitanos de RAP; como objecto autónomo, dissociado do seu autor e do contexto nacional, trata-se de um livro fraco, para não dizer medíocre, em que o talento está tão presente como a preguiça e a urgência em publicar qualquer coisa que fosse a tempo de ser vendida no Natal de 2016. Na introdução, RAP traça uma panorâmica incompletíssima e desactualizada das teorias sobre o humor. Seguem-se capítulos com títulos inspirados, mas que apenas camuflam a mais estereotipada organização de tópicos que podemos encontrar nos manuais sobre o assunto e na Wikipedia. Sem negar o mérito na cuidada e ampla escolha de exemplos, a análise de RAP vai muito pouco além do óbvio, em parte por não se basear numa verdadeira teoria universal do humor, lembrando algumas aulas que se encontram no Youtube sobre improvisação musical dadas por quem nada sabe de harmonia ou não quer assustar o público com demasiada teoria. No fim, RAP oferece-nos a sua grande ideia, explicando-nos que temos sentido de humor porque é a única forma de lidarmos com a certeza de que vamos morrer, uma tese que elevaria o humor à condição de grande arte, não se desse o caso de o humor já ser, sem ter precisado da ajuda de RAP, uma grande arte, e de a teoria de RAP ser absurda, o que tende a condenar as teorias. Quem quiser saber algo sobre o humor não deve perder tempo com o livrinho de RAP, pois existe um livro infinitamente mais ambicioso, exaustivo e complexo, rico em exemplos analisados à luz de uma verdadeira teoria do humor; chama-se Inside Jokes (creio que não está traduzido, o que é uma pena). 

 

Continua.  Continua mesmo, mas preciso de terminar algumas leituras, pois o texto em que pensei obriga-me a recorrer à psicologia evolutiva, o que me deixa a dar voltas na cama. Entretanto, relembro que, apesar de dar ares de estratégia de fidelização de leitores, a ideia do post-folhetim, isto é, um texto que vai crescendo ao longo de alguns dias, já praticada no post "O Problema de Ricardo Araújo Pereira", destina-se a baixar a minha ansiedade e forçar-me a terminar os livros que abro; o Ouriquense, inicialmente pensado como sebenta de escrita, é cada vez mais sobretudo um estímulo às minhas leituras. 

 

 

 

 



Eremita às 09:42
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Quarta-feira, 8 de Março de 2017
Quarta-feira, 08 de Março, 2017

O verdadeiro escritor ambiciona ser lido por estranhos e ignorado pelos seus.



Eremita às 10:08
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Quarta-feira, 08 de Março, 2017

 

Ontem foi a noite que marca a chegada da segunda gémea ao bipedismo, um momento assinalado pela mana com umas amplas palmas, de pé. Há um vídeo e é grande a tentação de o mostrar, mas no que toca à domesticidade o Ouriquense permanecerá irrevogavelmente iconoclasta. 

 

Continua (antes preciso de estudar um pouco de Anatomia e um clássico de Charles Darwin).

 


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Eremita às 08:55
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Terça-feira, 7 de Março de 2017
Terça-feira, 07 de Março, 2017

Há anos que a direita desejava uma boa censura académica, à maneira do que sucede nas universidades norte-americanas. Aconteceu. Ao escrever: "...foi apresentada e aprovada uma moção que vinculava a DAEFCSH a tudo fazer para que o evento promovido pelo núcleo Nova Portugalidade, "Populismo ou Democracia? O Brexit, Trump e Le Pen" [, que teria como orador Jaime Nogueira pinto], a realizar no dia 7 de Março pelas 18h30, não acontecesse", a Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa mais não fez do que promover a associação Nova Portugalidade e a opinião de direita, que vai agora alimentar-se deste episódio até ao tutano. De futuro, lembrem-se que não basta ser pelo pluralismo, é sobretudo fundamental parecer que somos pelo pluralismo.

 

Adenda: com um instinto político aborrecido para o Observador e Helena Matos, a Associação 25 de Abril disponibilizou-se a acolher Jaime Nogueira Pinto nas suas instalações para a realização da conferência. É o final feliz possível. 

 



Eremita às 09:19
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Domingo, 5 de Março de 2017
Domingo, 05 de Março, 2017

Maria Gabriela Llansol actuou com uma linguagem que se aproxima da escrita alucidada mas que se reconduz a uma autoridade profética de quem tem uma capacidade única e demiurga para ler o que os místicos traçaram, numa espécie de linha sensível destinal que a levaria, mais tarde, a ser lida e compreendida. A crítica e os pares juntaram-se para a festividade de uma escritora - e aqui as comparações apareceram: "muito maior" do que Pessoa, afirmava Hélia Correia - que, apesar da demonstração de humildade conventual da sua escrita incólume e sem pecado, atingiu as esferas onde o elogio permanente, definitivo, obrigatório e sem excepção domina. Criou uma áurea ilimitada que garante aos admiradores leitores que a literatura dita portuguesa tem uma escritora "superior a Pessoa". A festividade faz esquecer a análise da literatura da escritora que se instalou num nível intocável. Alberto Velho Nogueira

 

João Barrento, no seu livro A Chama e as Cinzas, e Alberto Velho Nogueira, no blog Homem à Janela, analisam de forma distinta a produção romanesca lusitana das últimas décadas do século XX. Lê-los praticamente ao mesmo tempo, num exercício de leitura comparada, é uma fonte de prazer, mesmo considerando as dificuldades conceptuais e até oculares colocadas pela escrita de AVN, densa e de mancha compacta em fundo escuro. Não desistam à primeira.



Eremita às 20:19
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Sábado, 4 de Março de 2017
Sábado, 04 de Março, 2017

Após uma manhã a ler cronistas lusos, confirmo que Pedro Santos Guerreiro é o nosso Aaron Sorkin. Reconheço algum poder no enlevo moralizador da prosa do director do Expresso, mas creio que o autor se deixa seduzir pelas suas próprias palavras e o texto acaba por soar a discurso para arrebatar plateias, manipulação que este leitor dispensaria. A crónica de hoje, sobre as declarações de Salgado, em que a novidade é ouvir-se o banqueiro a "justificar-se,  em vez de negar", tem uma passagem praticamente gongórica que deixou a milhas a concorrência. A rematar um parágrafo em que Santos Guerreiro se mostra perplexo com aqueles que, ganhando um ordenado chorudo, se deixam corromper por mais alguns milhões, lemos: 

 

Quando é que o dinheiro chega? É ter um barco maior, outro Malhoa? É ir aos palácios da luxúria esfregar-se em ruminância alarve no colchão das ganâncias? Pedro Santos Guerreiro, Expresso

 

Seria mesquinho reduzir a excepcionalidade da frase a negrito à inclusão de uma palavra ("ruminância") ausente dos dicionários que consultei, pois é a imagética onanista, isto é, fálica, alusiva à avareza, luxúria e egocentrismo que a torna singular. 



Eremita às 12:02
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Sábado, 04 de Março, 2017

Vejamos um exemplo. Na edição do Diário de Notícias da passada segunda-feira, o director Paulo Baldaia assinava um artigo de “opinião da direcção”, com um título veemente: “Com base na mentira não há opinião, há mentira”. Aí, referindo-se ao facto de haver quem tenha dito que a notícia do PÚBLICO sobre os 10 mil milhões transferidos para os offshores não fez mais do que retomar uma notícia de Abril, para silenciar o escândalo da CGD, Paulo Baldaia escreveu: “Não lhes ocorre informarem-se para perceber a diferença entre os dez mil milhões de euros que foram notícia em Abril por fazerem parte da estatística e os outros dez mil milhões que foram notícia por terem passado ao largo”. Eu, que nada sabia dessas especulações baseadas numa reclamada repetição manhosa, dez meses depois, da mesma notícia, registei as palavras de Paulo Baldaia. Mas ao fim da tarde do mesmo dia li um artigo de opinião, “O offshore da pós-verdade”, de Henrique Raposo, no Expresso, que começava assim: “Parece que Belém ou São Bento [...] ressuscitaram esta notícia já antiga para folgarem as costas da chibata da Caixa”. Sem mais informações sobre o assunto, perante as duas afirmações contraditórias sinto-me um leitor desprotegido, entregue à intuição, às minhas próprias crenças e ao teor de confiança que o colunista do Expresso, o director do DN e o próprio Público me suscitam (isto é, entregue a tudo aquilo que me incita muito mais a propagar mentiras do que a ler jornais). Ou o pressuposto factual de que partia Henrique Raposo era falso e todo o seu artigo de “opinião” não tinha qualquer legitimidade (por uma destas razões: ignorância? Incompetência? Má-fé? Impostura? Fraude? Calúnia?), ou Paulo Baldaia estava errado no exemplo que deu para defender a sua tese e devia pedir desculpa aos alvos das suas invectivas. Mas a confusão, mesmo para um leitor treinado no exercício indiciário de detective, aumenta quando lemos na mesma edição diária, online, do Expresso, um artigo de Nicolau Santos. O pressuposto factual da sua argumentação, o de os 10 mil milhões, ou parte deles, não “terem sido tratados pela Autoridade Tributária”, (“segundo noticiou o Público”, acrescenta com prudência) desmente toda a base factual de que parte Henrique Raposo: “Estes dez mil milhões de euros foram declarados ao fisco”. Pelo princípio da não contradição, temos de concluir que algum ou alguns destes intervenientes fizeram afirmações falsas. Por falta de informação (mas isso não desculpa a produção jornalística da contra-verdade) ou para produzir um “efeito de verdade” – essa coisa bem antiga a que agora se deu o nome de pós-verdade. É preciso mais para percebermos que a “opinião” é a coveira do jornalismo? António Guerreiro, no Público (os negritos são meus)



Eremita às 10:25
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Sábado, 04 de Março, 2017

Conselho de taróloga sobre “galdérias” revela “machismo entre as mulheres” Público

Quando se perceber que o mais absurdo deste título são as primeiras três palavras, o problema fica resolvido. 



Eremita às 09:56
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