Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Ouriquense

17
Nov17

Sinais de envelhecimento

Eremita

Um dos modos de fazer opinião mais tentadores consiste em expor as inconsistências ou até as contradições daqueles que embarcam nas ondas de indignação, aproveitando-se o gesto para defender as nossas causas ou a nossa gente. Opina-se assim em todo lado (blogs, redes sociais, jornais e televisão). Sobre a polémica do jantar da WebSummit no Panteão Nacional, Rui Tavares escreveu um exemplo competente desta receita, que deixará em delírio um jovem ateísta. Mas este velho ateísta que vos escreve já não vai na conversa do Rui Tavares e considera deplorável que se force sistematicamente uma leitura segundo as polarizações habituais (a esquerda e a direita, o conservadorismo e o progressismo), sobretudo quando a polémica resulta de uma profunda falta de bom senso (Rui Tavares devia ser o primeiro a perceber que é irrelevante que os túmulos perto das mesas do jantar sejam simbólicos e não reais). Daí eu ter preferido, mas de longe, o laconismo de António Guerreiro na crónica O culto Profano do Património

 

 

17
Nov17

As Mulheres na Ciência

Eremita

1177479.jpg

A escolha de Mónica Bettencourt-Dias para directora do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) é uma excelente notícia, que nos obriga a uma reflexão sobre a imagem da mulher na ciência. Ao contrário do que os mais distraídos poderão pensar, a nomeação de uma mulher para a direcção de um instituto de ciência não é uma novidade. Aliás, os três principais institutos de biomedicina de Lisboa são dirigidos por mulheres: além do IGC, a Fundação Champalimaud é dirigida por Leonor Beleza e a directora do Instituto de Medicina Molecular é Maria Mota. Para os mais cépticos, que verão este facto como uma improvável coincidência, lembro também que o mais prestigiado prémio nacional (o Prémio Pessoa) foi mais vezes atribuído, na área da ciência, a mulheres (Maria de Sousa, Maria do Carmo Fonseca e Maria Mota) do que a homens (Manuel Sobrinho Simões e João* Lobo Antunes). Exceptuando Leonor Beleza, que chega a um cargo de poder por contingências pouco habituais, todas as outras mulheres destacaram-se primeiro como cientistas e as insinuações que já li por aí sobre o nome "brazonado" da nova directora do IGC são ignorantes e absurdas; ninguém da área da ciência negará que os percursos destas mulheres são exemplos perfeitos de uma meritocracia a funcionar. Que isto tenha acontecido num país católico e patriarcal, apenas há pouco mais de uma geração saído de uma ditadura, parece-me suficiente para celebrar e perguntar por que motivo não está a acontecer tão depressa noutras áreas da sociedade.

Tenho muito mais a dizer sobre o tema, mas o montado não pode esperar. A despropósito, relembro que procuro um parceiro para um negócio de produção de porco preto alentejano.

* Ver comentários. Por vezes introduzo erros nos meus textos para testar a concentração do leitores. 

 

15
Nov17

A vingança dos burocratas

Eremita

Ninguém sonha ser burocrata. Um burocrata, mesmo um burocrata de sucesso, é uma pessoa falhada. Já passaram muitos anos, mas lembro-me com um misto de pena, desprezo e sensação de abandono dos meus colegas que fizeram a transição para uma carreira na burocracia ligada à ciência, como comunicadores de ciência, editores de revistas científicas, gestores de projectos, gestores de laboratório, gestores de "recursos humanos", etc., livrando-se assim para sempre da engrenagem da máquina meritocrática que destrói mil egos para parir um cientista premiado. Este desquite só na aparência é amigável. No meu último ano como cientista, recebi um formulário com vinte entradas para eu listar os prémios recebidos nos cinco anos precentes, com a seguinte sugestão assassina no fim da tabela: "se necessário, acrescente mais linhas". É claro que o burocrata se pode sempre escudar no facto de o formulário ter de servir aos cientistas excepcionais que recebem mais de vinte prémios em 5 anos, mas a explicação é outra. O burocrata guarda a frustração de não ter singrado na área com que sonhou e usa os seus pequenos poderes para se vingar naqueles que ainda perseguem o sonho, puxando a meritocracia ao limite do ridículo. Na sua interacção com aqueles que serve, seja nos formulários de avaliação ou nas cartas de rejeição, o burocrata - mesmo o pequeníssimo burocrata que apenas cumpre funções de secretariado - encarna o sistema meritocrático; essa é a sua vingança. Foi por isso que quando desisti da ciência vim para Ourique, rejeitando qualquer actividade para-científica.

13
Nov17

O uivo do lobo

Eremita

 

 

  Screen Shot 2017-11-13 at 10.08.11.png

Nuno Ferreira Santos

 

Esse e os que se seguiram marcaram uma geração, chegou a dizer “O Antunes pega-se”. Muitos assumem uma herança.


Pois, aquilo de escrever à Antunes. Sempre foi assim, e acho que continua a ser assim. A gente olha à volta e tudo escreve à Antunes aqui. Entrevista a António Lobo Antunes, Público

 

Em 2016, voltei a pegar pegar num livro de Lobo Antunes, Os Cus de Judas, e a exibição de metáforas provocou-me uma indigestão; soou-me prosa datada e não me parece que tenha feito escola duradoura. Uns anos antes, tentara ler um dos romances então acabados de sair, já da fase em que os títulos são versos, e não tive pachorra para a "polifonia". O Lobo Antunes que recordo é o de As Naus e A Ordem Natural das Coisas. Mas aprendi a adorar as entrevistas ao António Lobo Antunes maduro e magnânimo, já sem necessidade de atacar os consagrados. Admiro a combinação única de arrogância com ternura, megalomania com melancolia, aversão ao intelectualismo que faz o psiquiatra falar como um velho sábio que não foi à escola mas é assistido por uma memória prodigiosa que lhe traz belas citações, e - claro - o mesmo conjunto de referências (o bairro de Benfica, o brilhantismo da família, a "mão" que escreve sozinha, África, a guerra e Melo Antunes), como se o mundo tivesse acabado no final dos anos 70 - ou voltado a existir apenas para o tentar tramar com um cancro. Lobo Antunes dá sempre a mesma entrevista, geralmente a mulheres que não se atrevem a fazer sequer uma pergunta de jeito, pois são primeiro hipnotizadas por aqueles olhos azuis e depois dominadas pelo abraço constritor de um ego predatório. Creio, sinceramente, que o António anda há décadas a gozar connosco e, para disfarçar, só nos resta ir rindo com ele.

 

12
Nov17

Croácia, Argentina e Brasil

Eremita

O tango é um dos géneros de música popular que funcionam muito bem na guitarra clássica. A Jugoslávia (e a Croácia em particular) têm uma longa tradição na guitarra clássica. E no Brasil a guitarra (o violão) é o instrumento nacional. Nas mãos de um extraordinário guitarrista croata, eis como soa um tema de Piazolla arranjado por um guitarrista e compositor brasileiro.  

 

11
Nov17

Não sou de espalhar ciúmes

Eremita

Só há dois bloggers cuja falta de assiduidade me dá sintomas e até sinais de privação: o Plúvio (ausente há demasiado tempo) e o alf (que regressou com um grande post). 

11
Nov17

Alberto gonçalves versus Pacheco Pereira

Eremita

Há anos que Alberto Gonçalves se limita a oferecer exercícios de escrita aos fãs (grupo a que pertenço), que de original só têm as figuras de estilo. Exclusivamente assente numa visão depreciativa dos portugueses e no ressentimento por se associar a esquerda aos bons sentimentos, Alberto Gonçalves escreve como Helena Matos escreveria se fosse mais criativa e soubesse usar sinais de pontuação. Já não é nada mau "escrever bem", mas o gozo que uma pessoa sente a ler o Gonçalves fica logo ensombrado pela dúvida: o que defenderia este homem se despisse a armadura do cinismo? É provável que escrevesse as crónicas com o tom usado neste seu ensaio sobre a ditadura do politicamente correcto. Curiosamente, o libertário Gonçalves, que se incomoda tanto com os impulsos censórios das brigadas do politicamente correcto, esta semana mostrou-se muito incomodado com a forma como a sociedade reagiu aos elogios que Jerónimo de Sousa fez à Revolução Russa e à URSS. Não se percebe muito bem de que se queixa Alberto Gonçalves, nem o que pretende. Em primeiro lugar, houve variadíssimas reacções negativas, como a sátira feita pelo Canal Q, a crónica de Henrique Monteiro ou os muitos comentários negativos ao texto de Jerónimo de Sousa publicado no DN. Ao estilo de Vasco Pulido Valente, Alberto Gonçalves faz-se passar pelo único ("Ninguém estranhou") que reparou em algo em que todos reparámos: as inanidades, anacronismos e omissões lamentáveis de Jerónimo de Sousa. Também não se percebe muito bem o que propõe Alberto Gonçalves, esse grande defensor da liberdade de expressão. Que os jornais censurem o discurso do líder de um dos maiores partidos portugueses? Que eu tivesse lido, nas notícias que saíram os jornais limitaram-se a relatar o que aconteceu no Coliseu dos Recreios, onde os comunistas se juntaram, nada mais. Compare-se, a título de exemplo, o registo distante e objectivo da jornalista São José Almeida quando noticia as comemorações com a crítica às ideias de Jerónimo de Sousa que fez na sua coluna de opinião. A meu ver, tudo certo e no lugar certo. 

 

A realidade alternativa inventada por Alberto Gonçalves serve-lhe para não perder muito tempo a escrever uma croniqueta com umas quantas frases bem buriladas a que achamos graça. Mas se era para pegar num tema tão fascinante e já tão discutido como o motivo que faz com que o comunismo e Estaline tenham, em termos relativos, melhor imprensa do que o nacional-socialismo e Hitler, e até mesmo do que o fascismo e Mussolini, ler Alberto Gonçalves é pura perda de tempo. Mais vale ler Pacheco Pereira, que não só sabe sobre o tema infinitamente mais do que Alberto Gonçalves, como prefere os argumentos e as ideias às figuras de estilo. Na comparação destes dois cronistas, torna-se evidente que o engraçadismo não deve ter limites, mas tem limitações óbvias, sem com isto querer dizer que Pacheco Pereira esgotou o tema. Escreve o homem da Marmeleira:

 

A demonização e a santificação deviam levar-nos à conclusão de que o evento permanece vivo. É isso que os que a santificam (o PCP, em primeiro e único lugar, o BE, o esquerdismo, menos) e os que a demonizam (a nossa alt-right que nos “observa”, e a opinião “central” cada vez mais à direita ou pressionada pela direita) acabam por concluir. Ambos acabam por ter um resultado muito semelhante: o legado da Revolução de Outubro está vivo, continua a ter sentido, justifica um combate ideológico e político, ou em sua defesa ou atacando-o. O mesmo já não se passa com a Revolução Francesa, ou a Comuna de Paris, ou, para sermos mais detalhados, com a Revolução Mexicana ou mesmo a Revolução Chinesa. Sobre essas ninguém quer saber.

 

Comecemos pelo remake de uma espécie de anticomunismo combatente que acha que o comunismo ressuscitou com a “geringonça”. Alguém que saiba minimamente de história pode achar que existem bolcheviques escondidos nas pregas da nossa sociedade, prontos a tentar assaltar o Palácio de Inverno? É capaz de haver, a julgar pelo modo como à direita se usam epítetos e imagens para colocar o pacífico António Costa, a expedita Catarina Martins e o bondoso Jerónimo de Sousa como partes de uma sequência em faixa ou bandeirinha que começa em Marx, Engels, Lenine, Estaline e Mao Zedong [uma alusão explícita à capa do último livro de crónicas de Alberto Gonçalves], e chamar ao actual Governo “comunista” e de “extrema-esquerda” . Há que apelar ao Senhor para pedir perdão por eles, porque não sabem o que dizem. Seria a mesma coisa que colocar Mussolini, Hitler, Le Pen, Portas e Passos Coelho numa bandeira amarela, uma patetice semelhante. (...)

 

Considerar que há exploração, mesmo que há exploração implícita na relação capital-trabalho — a tese fundamental de Marx —, ou aceitar que há “luta de classes”, sejam quais forem as variantes de “classes” que se envolvem nessa luta, nada tem que ver com o comunismo, não definem “ser comunista” e muito menos “ser leninista”, seja em que versão for. Todas estas ideias são anteriores a Lenine e, em parte, mesmo a Marx, e fazem parte de um património que esteve na génese da crítica do socialismo nascente à insuficiência do liberalismo político para defrontar os problemas sociais ligados à pobreza, à exploração do trabalho, à desigualdade social. Elas são hoje partilhadas por todas as variantes de socialismo moderado, de social-democracia, estão presentes na doutrina social da Igreja, e não são alheias mesmo ao conteúdo de movimentos como a democracia-cristã originária. Não é por aqui que se é “comunista”, é-se comunista pela ideia de revolução, por uma certa ideia da revolução. (...)

 

...quer Rosa Luxemburgo, quer Lenine, o que diziam é que era impossível realizar-se a nova sociedade sem exploração a não ser por uma revolução, que tinha obrigatoriamente de ser violenta. Lenine traduziu essa distinção nas 21 “condições” para um partido ser considerado comunista e aderir à Internacional Comunista. (...)

 

... o PCP viola as regras básicas das “condições” leninistas para se ser considerado um partido comunista, a começar pela regra clara de que “os comunistas não podem confiar na legalidade burguesa e devem formar em toda parte um aparelho clandestino paralelo que possa, no momento decisivo, ajudar o partido a cumprir o seu dever perante a revolução”. Esta era a “lição” mais importante que os bolcheviques tiravam da Revolução de Outubro e da ruptura com o socialismo “reformista”. Havia toda uma outra série de normas, incluindo a obrigação de fazer propaganda comunista da revolução nos exércitos, a recusa de que alguma organização internacional (na época a Liga das Nações, hoje a ONU) tinha capacidade para impedir as “guerras imperialistas” sem derrube do sistema capitalista, e a necessidade de “depurações” permanentes dos efectivos dos partidos comunistas “para remover sistematicamente os inevitáveis elementos pequeno-burgueses”, que em nada correspondem ao que um partido como o PCP segue. Que eu saiba, o PCP não tem hoje nenhum “aparelho clandestino paralelo que possa, no momento decisivo, ajudar o partido a cumprir o seu dever perante a revolução”.

 

Se ultrapassarmos estes ajustes de contas históricos ou o uso utilitário a favor ou contra da Revolução de Outubro, a sua discussão informada tem todo o sentido. Só que sem voltarmos ao bolchevique de faca na boca, nem aos “amanhãs que cantam”, porque, como diziam os marxistas, “em última instância” isso prejudica a luta pela criação de uma sociedade mais justa, mais igual, onde haja menos exploração e onde “os de baixo” possam encontrar uma escada para se tornarem “os de cima”, sem haver “baixo”. É isso possível sem confrontos e sem violência? Duvido. Nunca aconteceu na história, mas isso está muito para além do que aconteceu num certo dia de Outubro, pelo velho calendário, agora Novembro de 1917, em que um destacamento militar dos sovietes controlados pelos bolcheviques ocupou a sede do governo, defendida por uma mistura de cossacos, cadetes e militares do sexo feminino, quase sem luta. Pacheco Pereira, Público

  

  

 

11
Nov17

Ourique à conquista de Lisboa

Eremita

A convite do Bruno Vieira Amaral, escrevi um texto para a revista Ler que acaba de sair. Não encontrei link actualizado para a revista, mas para não haver dúvidas é um número que tem Frederico Lourenço na capa. Usei um pseudónimo. Relembro os leitores que continuo disponível para trabalhos de escritor fantasma segundo um tarifário que honra esta actividade.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Links

Blogs

Cultura

Ajude Fausto:

  • Uma votação em curso

Ouriquense, S.A, Redacções por encomenda

Séries

Personagens ouriquenses

CineClube- programação

  •  

Filmes a piratear

  •  

Filmes pirateados

Alfaias Agrícolas

Apicultura

Enchidos e Presuntos

Pingo Doce

Imprensa Alentejana

Portal ucraniano

Guitarra

Judiaria

Tauromaquia

Técnicas de homicídio

John Coplans

Artes e Letras

Editoras Nacionais

  •  

Literatura Russa

Leituras concluídas

Leituras em Curso

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D