Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2016
Sexta-feira, 02 de Dezembro, 2016

fidel-castro-united-nations-1979.jpgNações Unidas, 1979 NY Daily News 

A resposta estereotipada, que abre com uma falsa equivalência grotesca (a soberba não ajuda):

"Dizer de Fidel Castro, após a sua morte, em artigos de jornal que pretendem (e deveriam) ser de balanço, de avaliação ou de análise da sua vida, que era um ditador e ficar-se por aí é quase a mesma coisa que fazer uma entrada de enciclopédia sobre Einstein dizendo que era um tipo de cabeleira branca e ficar-se por aí." José Vitor Malheiros

A resposta decente (a idade ajuda): 

"Esse aparelho de estado foi Fidel que o criou, como foi Fidel que decidiu as execuções, a repressão, a censura e a prisão política. Sim, em tempo de guerra fria, quando a brutalidade era a norma. Mas também em plenos anos 2000 quando já nem a guerra fria o justificava. Por isso recuso a lógica de reconhecer o lugar de Fidel na história sem ter hoje uma palavra de solidariedade para quem seja reprimido por tentar organizar trabalhadores ou lutar por ideias como Fidel defendia que se pudesse fazer noutros países que não Cuba." Rui Tavares

A resposta inteligente (a cultura ajuda): 

"... Enquanto o luto é um sentimento causado por uma perda real que se supera com o tempo (uma vez feito o “trabalho do luto”), a melancolia é causada por uma perda fantasmática, pela relação com um objecto que nunca teve existência real. A presente circunstância faz-nos ver que a melancolia de esquerda é uma disposição que continua a manifestar-se através de sintomas." António Guerreiro

 

 

 

 



Eremita às 11:19
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Quarta-feira, 30 de Novembro de 2016
Quarta-feira, 30 de Novembro, 2016



Eremita às 13:32
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Terça-feira, 29 de Novembro de 2016
Terça-feira, 29 de Novembro, 2016

Ontem, creio que no telejornal da RTP3, a televisão pública regozijava-se com os resultados de uma sondagem que apontavam Portugal como um dos países com canais públicos de informação mais independentes. Na verdade, a sondagem era sobre a opinião que os cidadãos tinham sobre a independência nos canais públicos de informação, o que não é a mesma coisa. Basta pensar que tal opinião é influenciada pelo grau de independência efectiva e pela percepção que o cidadão tem dessa independência, que pode ser influenciada, entre muitíssimos outros aspectos, pelo estado de amadurecimento de uma democracia. Por outras palavras, a sondagem não explicava nada. Esta confusão entre a realidade e percepção da realidade é cada vez mais frequente, em grande medida porque avaliar a independência de um canal público de informação é uma tarefa complexa, demorada e que custa dinheiro, enquanto saber a opinião das pessoas sobre o que quer que seja é muito simples e o que custa alimenta uma engrenagem em que as rodas dentadas da academia, das instituição que financiam a academia, das empresas de sondagens e dos jornais encaixam na perfeição. Acresce que, sendo a opinião dos cidadãos a essência da democracia, a opinião agregada dos cidadãos sobre qualquer tema ganha de imediato uma respeitabilidade que facilita este gato por lebre. 



Eremita às 09:10
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Segunda-feira, 28 de Novembro de 2016
Segunda-feira, 28 de Novembro, 2016
24.11.16

Só ontem li com alguma atenção o blog Homem à Janela, do escritor Alberto Velho Nogueira (AVN). Encontrei crítica literária séria e demorada, que não se lê nos jornais. Não vão lá hoje, se estão a trabalhar; passem por lá no sábado.

Adenda a 28.11.16

Além do textos originais que o autor publica no blogs, eis o que de essencial se encontra na internet sobre AVN: uma entrevista à Ler, que teve uma reacção elogiosa, uma curta biografia, capas de livros seus publicadas por um fã que o considera "o maior prosador português" e também pela Fundação Troufa Real, um lote de 15 livros seus que um cidadão escalabitano vende por 50 euros, uma notícia do Diário Digital de Castelo Branco sobre um encontro a 27 de Maio de 2014 com o escritor, 11 registos de obras suas no portal Bibliografia Nacional Portuguesa, cinco no DocbWeb e três na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, o livro Grafites Rougets à venda por 30 euros na Bibliofeira e no "shopping online" Coisas, uma entrada ainda sem comentários para o livro Brilhantes no Good Reads, livro também à venda na Bulhosa, juntamente com Câmara Escura, e ainda um exemplar da primeira edição (1987) de Autofagias, que um cidadão de Massamá classificou como "invulgar" e vende por 25 euros no Olx, recensões críticas na Colóquio Letras de obras do autor e três obras suas no Google Books

 

Tirando as duas já muito antigas recensões na Colóquio Letras, a extensa bibliografia do autor não desperta o interesse de ninguém. Parece tratar-se de um escritor "difícil" e hesito em começar um dos seus livros, embora por interesse mercantilista esteja a ponderar investir 50 euros na compra dos 15 títulos de AVN disponibiizados pelo cidadão escalabitano referido no parágrafo anterior. Por outro lado, recomendo sem hesitação e até alguma revolta os textos de crítica que o autor tem vindo a publicar na série "O uso da língua e a sua relação aos leitores". Abarcando sobretudo parte da literatura romanesca de referência dos últimos 50 anos, e também todo o sistema, isto é, os escritores, os editores, a crítica e os leitores, AVN revela-se um crítico marginal (vantagens de viver em Bruxelas há décadas) e exigente, mesmo nos casos mais difíceis, como quando questiona a prosa de Agustina Bessa-Luís. A leitura destas críticas, ainda que atrapalhada por conceitos que o autor define noutros textos seus (o hipertexto seria uma ajuda) e pela falta de um trabalho de edição que elimine muitas redundâncias, é uma experiência nos antípodas da leitura da habitual crítica de semanário, criadora de "mitos literários locais que nada contêm" (AVN). Qualquer leitor interessado nos romancistas tratados por AVN não dispensará a leitura destes textos. Como planeio continuar a (re)ler estes textos nos próximos tempos e o blog de ANV é de navegação difícil, tomei a liberdade de elaborar um índice. Have fun.

 

Alguns textos do blog Homem à Janela, de Alberto Nogueira Velho

 

Conceitos recorrentes

Os "actos de linguagem" são signos do mental do escritor 

A Literatura Profissional

O funcionamento ficcional de uma língua dominada 

O que é o sentido literário, a leitura ficcional dos "actos de linguagem" 

A escrita e o mental 

A relação entre literatura profissional e literatura "artista"

A escrita e a narração 

A literatura útil como teoria da literatura industrializada ou pós-industrializada - Definição progressiva 

 O ritual

 

Agustina Bessa-Luís

Antes do Degelo

Embaixada a Calígula 

O Manto

O comum dos mortais

Conversações com Dmitri e outras fantasias  

Os incuráveis

Elogio do inacabado

Correspondência: Agustina-Régio

 

Mário de Carvalho

Ronda das mil belas em frol

A liberdade de pátio

O Varandim seguido de O caso em Carvangel

Quando o Diabo Reza

O Homem do Turbante Verde

 

Vergílio Ferreira

Para sempre

Promessa

Nítido nulo

 

Herberto Helder

Servidões

A morte sem mestre

 

Maria Gabriela Llansol 

Um Arco Singular

 Onde vais, drama-poesia?

 

António Lobo Antunes

Para aquela que está sentada no escuro à minha espera 

Conhecimento do inferno

Sôbolos Rios que Vão

Comissão das Lágrimas

Não é Meia Noite Quem Quer

Caminho como uma casa em chamas

Da Natureza dos Deuses

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

Contos exemplares

Obra poética

 

Rui Nunes

Barro 

 (ou, transigindo, de que lado passarás a morrer, a clarear?)

Nocturno Europeu

 

Fernando Pessoa

Prosa de Álvaro de Campos

Ibéria - Introdução a um imperialismo futuro

Associações secretas e outros escritos

Argumentos para filmes - Fernando Pessoa 

 

Gonçalo M. Tavares

Uma Viagem à Índia

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai 

                                                                                                                                                                             

Teresa Veiga

Uma aventura secreta do Marquês de Bradomín - Teresa Veiga

Gente melancolicamente louca - Teresa Veiga 

 

Outros

Adoecer - Hélia Correia 

A Cidade de Ulisses – Teolinda Gersão  

O Porco de Erimanto - A. M. Pires Cabral

O Murmúrio do Mundo - A Índia Revisitada - Almeida Faria 

O Neo-realismo 

O Retorno - Dulce Maria Cardoso

Pedro Tamen e Tomas Tranströmer 

Objecto Quase - José Saramago

O Lago - Ana Teresa Pereira 

Quando os lobos uivam - Aquilino Ribeiro 

O teu rosto será o último - João Ricardo Pedro 

O físico prodigioso e Os Grão-Capitães - Jorge de Sena 

Fausto - Fernando Pessoa 

Casas pardas - Maria Velho da Costa

As areias do Imperador - Uma trilogia moçambicana - Livro um. Mulheres de cinza - Mia Couto 

Era uma vez em Goa-Paulo Varela Gomes

Impunidade - H. G. Cancela 

Retrato de rapaz - Um discípulo no estúdio de Leonardo da Vinci - Mário Cláudio 

  

Reacções à imprensa

João Tordo e Ricardo Dias Felner 

O Bom Inverno - João Tordo

A literatura "pós-industrial" e de intervenção do "investimento financeiro" - O artigo de Clara Ferreira Alves sobre "O homem de Constantinopla, por José Rodrigues dos Santos 

Uma conversa "doméstica" no Câmara Clara de 19 de Fevereiro de 2012 

Mário Cláudio e o prémio Nobel 

"José e Pilar" – DVD - Filme realizado por Miguel Gonçalves Mendes.

 

 

 

 

 



Eremita às 20:34
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Segunda-feira, 28 de Novembro, 2016

Publicado a 15.6.2013 em permanente actualização 

 

1. Usa adversativas apenas em caso de extrema necessidade.

2. As cacofonias só se apanham lendo em voz alta ou no dia seguinte.

3. Os advérbios de modo estão para a literatura como o pré-fabricado para a arquitectura. 

4. Os tripletos (adjectivos) de Conrad eram de Conrad.

5. O "E" depois do ponto final acelera o texto; convém deixá-lo próximo do fim do parágrafo.

6. Ninguém ainda inventou a mancha gráfica ideal para o diálogo, mas é improvável que sejas tu a fazê-lo.

7. Revê todas as concordâncias como se Manuela Ferreira Leite te tivesse sussurrado o texto ao ouvido.

8. Nunca escrevas uma palavra que acabaste de aprender, mas podes fazê-lo se entretanto vires alguém a usá-la (cf. regra 48).

9. Não tenhas remorsos por usar um dicionário de sinónimos, se a mesa estava mesmo assim tão manca.

10. A gramática nunca deve impedir-te de escrever, só de dar a ler.

11 [com AF] e AG] Faz por te salvares, se tens a sensação de que há uma forte probabilidade de estares refém dos  seguintes verbos: "fazer", "ter", "haver", "estar" e "ser".

12. A principal dificuldade de uma frase longa não é a pontuação, nem sequer a lógica das orações subordinadas, mas como evitar usar mais de um "que" entre dois pontos finais.

13. Polvilhar [ver comentário] o texto com o léxico das corporações obedece às regras da boa culinária; em regra, o do Direito salga e o da Medicina é adstringente.

14. Evita periodicamente os correctores ortográficos, pois não há melhor forma de aprender do que passar vergonhas em público.

15. Assume sempre a inteira responsabilidade pelos erros ortográficos e nunca os equipares a gralhas ou desvarios de correctores automáticos.

16. Aponta num caderninho todas as palavras que desconheces.

17. Não percas o caderninho.

18. Evita fórmulas, como a piada da regra que se refere à regra anterior.

19. Deixa os tempos verbais para o fim, mas não te esqueças de os corrigir, pois o mais provável é estarem errados.

20. Resiste à insegurança de escrever os teus próprios neologismos em itálico.

21. Inventa um numerus clausus para os textos que tens a meio.

22. Evita psiquiatras e parceiros sexuais com ambições literárias.

23. Tudo o que se altera num ápice com um "find" e "replace" nunca definirá um estilo.

24. Não contornes as inseguranças gramaticais com expressões seguras mas que sabes não serem as ideais.

25. [com MV] As orações subordinadas tendem a insubordinar o leitor.

26. Não uses os parênteses e os travessões indiscriminadamente. Inventa um critério. Eu uso os parênteses para adicionar factos e os travessões para fazer um comentário, mas a única obrigação é a consistência.

27. Parafraseando Miguel Esteves Cardoso, as enumerações devem ser absolutamente sinceras. A honestidade não fica assegurada com o recurso a processos de escrita automática.

28. Um curso de solfejo e a prática de um instrumento são muito mais úteis do que um curso de escrita criativa. 

29. Nunca mintas a um revisor, por maior que seja o teu desejo de lhe dizer que ele é o único e não  apenas uma peça de uma complexa engrenagem assente no princípio da redundância.

30. A principal dificuldade da crónica não é o remate sonante, mas a sua justificação prévia.

31. A musa não deve ser mais do que uma lebre.

32. A terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo "ser", isto é, justamente o "é", é um rasgão na trama acústica da prosa e, por isso, é sempre de evitar.

33. O uso indiscriminado do condicional e do pretérito imperfeito induz no leitor uma espécie de enjoo, que apenas deve ser explorado com total conhecimento das possíveis implicações.

34. Não uses o ponto-e-vírgula até te sentires devidamente preparado.

35. Nunca interpeles o leitor.

36. Define o número máximo de pontos de exclamação que pretendes usar em vida e nunca percas essa contagem (cf. regra 62). 

37. [com AV e jaa] As reticências são o sinal de pontuação mais versátil. Quando usadas no discurso directo ou para truncar citações, não têm substituto; na sua qualidade de points de suspension, podem tornar-se irritantes. Deve evitar-se tudo o que assinale inflexões de natureza emocional, capte as hesitações do autor ou convide o leitor a terminar a frase. A grande discussão centra-se no uso alternativo das reticências e do "etc.". Uma regra (facultativa) é recorrer ao "etc." quando se quer passar a ideia de que a enumeração não se pretende exaustiva e às reticências quando a enumeração se prolonga além do que ficou escrito. Assim, quanto maior for a enumeração mais frequente deve ser o uso das reticências.

38. A definição de literatura dada por Martin Amis - uma guerra ao cliché - não é magnífica por se ter tornado um cliché, antes tornou-se um cliché por ser tão magnífica. Essa guerra, então, não pretende acabar com o cliché, mas conquistar o universo dos clichés possíveis, ganhando aquele que mais clichés colonizar, limitando o seu acesso a outros, que passam a pagar um preço. Esse preço tende a ser a banalização do discurso, mas por vezes pode ser o esforço que se investiu para se transcender o cliché. Por exemplo, "cuspir na sopa" não tem rasgo, mas J'irai cracher sur vos tombes é literatura. Dito isto, é quase uma impossibilidade formal fazer qualquer coisa de jeito com expressões como "a banalidade do mal".

39. Elabora a tua lista palavras proscritas, aquelas que devem permanecer exclusivamente nos dicionários, como certos vírus perigosos que são guardados em locais de acesso muito restrito. Mas viola as listas alheias com a convicção de um terrorista (cf. regra 3).

40. Uma solução radical para aguentar o confronto com erros publicados na última edição publicada passa por introduzir erros no texto propositadamente e às cegas antes de começar a revisão.

41. Ao serviço da opinião, o plural majestático só resulta em cobardia ou banalidade, a menos que estejas em campanha.

42. Lê os teus textos em voz alta, mas apenas quando não tiveres por perto quem o faça para ti.  

43. Não basta que o pensamento sirva a escrita, é também preciso que a escrita sirva o pensamento.

44. Aceita todas as correcções correctas, mas agradece apenas a quem as fez por bem.

45. A vírgula de Oxford é para ser sentida.

46. O pretérito-mais-que-perfeito simples deve ser salvo, não por estar em vias de extinção, mas por soar melhor ao ouvido do que a sua forma composta.

47. Identifica as tuas palavras preferidas. 

48. Define um período de nojo antes de começares a usar palavras recém-aprendidas (cf. regra 8).

49. Sempre que trocares "rapsódia" por "medley" ou "maremoto" por "tsunami", não termines o texto sem utilizares pela primeira vez, mas de forma natural, a palavra portuguesa; assim, contribuirás para a sobrevivência do léxico sem que pratiques o proteccionismo linguístico.

50. Os diálogos não se escrevem, são meras transcrições de vozes que ouves na cabeça.

51. Não pervertas a gramática com marcas pessoais, a menos que sejam originais e lógicas.

52. Corrige em público com laconismo e comiseração.

53. Nunca uses uma palavra que só ainda encontraste num dicionário (cf. regras 8 e 48).

54. O desuso do ponto de exclamação também pode passar de moda. Tal como sucede com o orgasmo feminino, o importante é a sinceridade na exclamação ou a destreza com que é fingida (cf. regra 27).

55. O tempo entre a redacção e a revisão deve ser proporcional à frequência com que tens experiências de vida fortes.

56. Dos outros, usa apenas as metáforas que entretanto esqueceste.

57. Tenta contrariar a vontade de escrever lendo os teus autores preferidos.

58. Distingue a vontade de escrever da vontade de comunicar.

59. Não tentes quiasmos se não és bom em oxímoros.

60. Não faças metonímia do desleixo.

61. "Qualquer acção pode ser expressa por um único verbo" é inferior a "para qualquer acção, um único verbo basta".   

62. O problema do uso do ponto de exclamação não é estético, é ético (cf. regra 36).

63. O abuso do "quase" não te faz rigoroso, mas apenas inseguro (roubado a Alberto Velho Nogueira).

 

 

 

 



Eremita às 12:52
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Sábado, 26 de Novembro de 2016
Sábado, 26 de Novembro, 2016

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Se a mulher se fascina por um pintor, um escritor ou até um cantor de charme, o homem tolera; estatisticamente, o homem é mais filistino do que a mulher e tende a subestimar o poder de sedução da arte. Se a mulher se interessa por um desportista ou actor de cinema, o homem conforma-se; ele sabe que a beleza dos corpos exerce um fascínio irresistível e passageiro. Mas se a mulher se interessa por um humorista, o homem desespera. Se só alguns arriscam um poema de amor e ainda menos confiam no seu olhar, todos esperam que uma piada, uma boutade ou outro aparte, um gesto ou esgar no momento exacto, um trocadilho ou até uma anedota, seja um testemunho sintético da sua grande inteligência e sensibilidade. Uma tese popular, com o poder explicativo ilusório da psicologia evolutiva, diz que o humor é coisa de homens, um talento apreciado pelas fêmeas que se teria apurado ao longo das gerações, isto é, como característica sexual secundária em nada distinta na génese da cauda exuberante do pavão macho. Conheci suficientes mulheres hilariantes para não acreditar neste humor como dimorfismo sexual, retirando da tese apenas a associação do humor à sedução e ao sexo, em todas as combinações de género e número que o leitor conceber. Feita a ressalva, a resposta de Jessica Rabbit, quando interrogada sobre o seu fascínio pelo coelho, encontra-se amiúde nas revistas femininas para mulheres de classe média alta que gostam de fintar as convenções do amor romântico sem ceder à superficialidade da atracção apenas física ou material: "he makes me laugh". Ora, o riso é uma reacção física mais difícil de simular do que outras e, quando suscitado pelo humorista profissional, impõe-se como prova definitiva nos espaços domésticos que tínhamos por inexpugnáveis. É esta associação do humor à sedução e à resposta física irreprimível que faz com que, mesmo sendo o humor uma das artes menos prestigiadas, o humorista seja o mais perigoso dos objectos de desejo entre as profissões, com a possível excepção do cardiologista pediátrico. 

 

Ricardo Pereira Araújo (RAP) é a maior ameaça à paz conjugal dos portugueses na casa dos quarenta por combinar um talento de humorista inquestionável a outras características apelativas, a começar pela fama e o sucesso. Apesar de em muitas fotografias ele surgir com expressões caricaturais à custa de um abuso do sobrolho, trata-se de um homem atraente, com traços másculos e uma altura que nos esmaga, culto e com as opiniões apresentáveis da esquerda bem pensante. Naturalmente, a minha mulher adora RAP, as filhas da minha mulher adoram RAP, as nossas bebés adorarão RAP um dia e a minha mãe adoraria que eu me vestisse como RAP. Este quadro coloca alguns problemas, sobretudo porque eu não consigo deixar de gostar de RAP. Quando percebi que a minha mulher era fã do humorista, tentei forçar o meu desdém pela figura, não indo além de concluir que as suas crónicas - tão apreciadas - veiculam opiniões triviais e sofrem de excesso de técnica, e que, enquanto voz da esquerda, falta estofo ao humorista. Mas quando o ouço falar, é impossível não lhe reconhecer uma graça e inteligência que cedo fizeram dele o herdeiro natural de Herman José. A solução foi evitar escutar ou ver RAP na presença da minha mulher, pois quando a ouvi rir por causa dele com a alegria que me encanta senti algo que apenas conhecia da literatura, do cinema e de alguns desabafos de amigos, mas que me era tão estranho e abstracto como o medo para os Normandos até ouvirem o canto do bardo Assurancetourix: o ciúme. 

 

 

 



Eremita às 20:28
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Sábado, 26 de Novembro, 2016

Assim, também perante os mastins do Engenheiro (e sem dúvida perante os dois setters que estão no café com a jovem amazona), o que intriga é o instinto de classe dos cães das casas abastadas, a maneira como escorraçam o pobre e como emparceiram com o rico, ainda que não o conheçam. Avaliam o suor da miséria pelo faro, é o que se depreende. E pelo olhar, a timidez. (Como se comportarão os dois setters ali, diante do perdigueiro do Batedor?) Até entre os cachorros a lei geral é simples, acompanhando-se ou repelindo-se conforme a autoridade com que vêm dotados, porque todos são portadores dos cheiros da fome ou da abundância dos patrões. José Cardoso Pires, O Delfim



Eremita às 19:32
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Quarta-feira, 23 de Novembro de 2016
Quarta-feira, 23 de Novembro, 2016

 

"A Invisibilidade do Género Feminino em Tintin: a Conspiração do Silêncio"

 fonte



Eremita às 14:49
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Segunda-feira, 21 de Novembro de 2016
Segunda-feira, 21 de Novembro, 2016

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Mytia 

 

Em breve



Eremita às 09:18
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Domingo, 20 de Novembro de 2016
Domingo, 20 de Novembro, 2016

A juventude alimenta-se do que as garras apanham, e os antigos defendem-se das gerações insaciáveis atirando carne podre. Herberto Helder in Photomaton & Vox



Eremita às 08:00
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Sábado, 19 de Novembro de 2016
Sábado, 19 de Novembro, 2016

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Dizem-me que Valério Romão é um dos nossos melhores escritores. A julgar pela citação, estamos bem tramados. O comentário que li no Elogio da Derrota é certeiro: do estilo ao conteúdo, passando pela lógica, nada se salva na passagem cuja única virtude parece ser a síntese difícil de abjeccionismo e conservadorismo. Valério Romão lamenta o desaparecimento de um tempo que só ele se lembra de ter existido. Um tempo em que a foto da pin up servia de musa diante da qual, sozinho no seu quarto, o adolescente borbulhento calejava a mão compondo poemas. Nesse tempo, ninguém tinha a cabeça poluída pelos ícones sexuais promovidos pela cinema e a publicidade, ninguém era escravo de um desejo massificado que o mercado controlava e, em particular, as mulheres, últimas guardiãs do amor romântico, só abriam as pernas diante da criatura singular que seria hoje um amante improvável. Enfim, Valério Romão remata dizendo que não evita a risota. Já somos dois.   

 

 



Eremita às 12:05
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Sexta-feira, 18 de Novembro de 2016
Sexta-feira, 18 de Novembro, 2016

Não sinto a vista cansada quando leio, mas porque adormeço primeiro. A verdade é que já vou afastando rótulos e outros papéis quando preciso de os ler, reproduzindo a postura que denuncia a falta de vista. Ontem a L. deixou-me sobre a secretária um par de óculos de leitura baratos, como forma de me aliciar a marcar uma consulta no oftalmologista. Os óculos cumprem na perfeição essa função: são eficazes q.b. para me convencerem das vantagens de usar óculos, mas tão banais que não haverá o risco de a eles me acomodar. Na passagem que inaugura o período da vida em que passei a ler com óculos, Lise deixa-se beijar por Aliocha, um dos irmãos Karamásov. Quanto à prosa que encerrou o período das leituras sem óculos, creio que foi uma passagem inicial de Disgrace,  de Coetzee, em que se descreve a relação do professor com a prostituta. Os úlitimos pensamentos do dia foram para os grandes polidores de lentes, reais ou apócrifos, como de Antonie Philips van Leeuwenhoek e Baruch Espinoza. Podemos forçar afinidades animados pela megalomania, mas apenas no escuro do quarto. 



Eremita às 09:20
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Quarta-feira, 16 de Novembro de 2016
Quarta-feira, 16 de Novembro, 2016

Bob Dylan, afinal, não vai a Estocolmo. A oscilação de humores do bardo faz-me encarar a velhice com optimismo. 

 

 Adenda crítica de Nuno Salvação Barreto (o censor): devias voltar para o Twitter, aqui exige-se mais. 

 


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Eremita às 16:43
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Quarta-feira, 16 de Novembro, 2016

 

 



Eremita às 10:47
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Terça-feira, 15 de Novembro de 2016
Terça-feira, 15 de Novembro, 2016

Indiquem-me livros em que a madeira (a das árvores, não a ilha) tem uma importância óbvia, por favor. Obrigado. 



Eremita às 22:20
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Segunda-feira, 14 de Novembro de 2016
Segunda-feira, 14 de Novembro, 2016

DesenhoLiaALerNoMar.jpg

A tarde foi de bricolagem no escritório: reforcei os apoios de uma prateleira que havia cedido ao peso de manuais, gramáticas e dicionários; coloquei na parede, à direita de onde me sento, um auto-retrato da L. a ler dentro de água, que muito aprecio, e noutra parede uma ilustração  de cogumelos inglesa, oferecida há muitos anos por um amigo e que andará sempre comigo; fiz ainda algum trabalho de electricista e, com alguma sorte, não haverá curtos-circuitos nos próximos tempos. O escritório é minúsculo, mas começa a ficar confortável, relativamente defendido dos ataques das bebés e tão funcional que voltei a pensar em projectos literários. Falta arrumar melhor os livros, abarrotar as prateleiras e saturar as paredes com fotografias e outra memorabilia - "como no Pavilhão Chinês", disse a L. Isso mesmo, tirando as porcelanas.

 

Durante os trabalhos, ouvi de enfiada vários programas do podcast Biblioteca de Bolso, de Inês Bernardo e José Mário Silva. Foi uma experiência curiosa pela familiaridade. Os vários podcasts literários ou de temas culturais que oiço há vários anos caninamente são quase todos norte-americanos ou franceses, mas a familiaridade de Biblioteca de Bolso vai além da língua mãe. Refiro-me sobretudo ao universo de referências literárias e outras que não encontro nos podcasts estrangeiros, e não penso nos vários os autores portugueses referidos (Maria Gabriela Llandsol, Raul Brandão, etc.), que ninguém conhece lá fora. O cânone literário ocidental real está sujeito a variações regionais e temporais influenciadas por forças difíceis de estimar: terá faltado um homólogo norte-americano ao editor influente que fez de Marguerite Yourcenar uma autora popular em Portugal na década de 80? Ou, existindo um, viu os seus esforços frustrados, já que nos EUA a influência da França na literatura ficou reduzida há décadas a uns quantos guetos universitários intoxicados pela French Theory, ao contrário de Portugal, um país até ao 25 de Abril culturalmente dominado pela França. Mais coisas familiares: alguém seleccionar o livro Cosmos, de Carl Sagan, ou A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro; alguém lembrar a presença de Mário Viegas na RTP; alguém ter publicado um conjunto de cartas ficcionadas entre Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa, provavelmente não com os contornos de um projecto megalómano que alimentei na juventude (Pessoa, o lisboeta séssil, desloca-se a Paris para tentar impedir o suicídio de  Sá-Carneiro), mas que terei de ler; enfim, alguém ter lido uma passagem de Rousseau a expor uma ideia com que, em tempos, não sem um certo dramatismo e até uma inesperada ressaca da minha parte, desafiei os meus alunos, desconhendo que era de Rousseau, embora tivesse a certeza de que não me pertencia, por ser infinitamente mais luminosa e perigosa do que a da ridícula e inóqua lista dos 5 objectos que levaríamos para uma ilha deserta: 

 

Pour moi quand j’ai désiré d’apprendre c’était pour savoir moi-même et non pas pour enseigner ; j’ai toujours cru qu’avant d’instruire les autres il fallait commencer par savoir assez pour soi, et de toutes les études que j’ai tâché de faire en ma vie au milieu des hommes il n’y en a guère que je n’eusse faite également seul dans une île déserte où j’aurais été confiné pour le reste de mes jours. Jean-Jacques Rousseau, Les Rêveries du Promeneur Solitaire.

Poderia continuar esta lista. Aliás, é bem possível que a continue. Biblioteca de Bolso é, a 14 de Novembro de 2016, o melhor podcast nacional. Oxalá os autores continuem e resistam sempre à tentação de convidar celebridades fora do universo que tratam, uma tendência que anda a destruir a sociedade ou pelo menos a esgotar a minha paciência. 

 

Continua 

 



Eremita às 08:25
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Sábado, 12 de Novembro de 2016
Sábado, 12 de Novembro, 2016

Leonard Cohen 1974.jpg

Quando morre alguém que todos admiram menos tu, deves calar-te. Haverá sempre outro melhor e mais justo a morrer nesse mesmo dia, mas nunca instruas os vivos sobre que morte devem chorar. Serias inconveniente e dir-te-iam que és uma besta. Convenhamos que serias mesmo uma besta. Não devemos inquinar a expressão dos bons sentimentos alheios, que são tão raros. Repara: quando morre uma celebridade unanimemente admirada, as pessoas explodem de empatia e parece que se tocam por instantes, como os raios geotrópicos de dois fogos de artifício próximos e síncrones. Não sejas cínico. Não, o choro colectivo por um morto não é apenas a derrareira recompensa de um longo investimento emocional, um sell! sell! de uma marca em acentuada queda bolsista. Até a mais egocêntrica das criaturas te daria a impressão de que as suas preocupações não acabam no seu umbigo, se lesses ou escutasses até ao fim o que disse sobre a relevância da celebridade na sua vida. Em mais nenhum outro momento essa pessoa terá a ocasião de se transcender e, só por isso, a celebridade que desprezas, por lhe faltar talento ou não te parecer sincera, cumpriu uma função. Admite então que este é um problema teu, que deves gerir em silêncio. Naturalmente, podes pedir a Deus, ou fazer figas, para que no dia da tua morte não morra uma celebridade que desprezas. Esse é um anseio tão legítimo e natural como não querer ser morto por uma bala perdida de uma rixa absurda. Quanto ao resto, cala-te. 

 

 



Eremita às 08:41
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Quarta-feira, 9 de Novembro de 2016
Quarta-feira, 09 de Novembro, 2016



Eremita às 17:42
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Quarta-feira, 09 de Novembro, 2016

 

Fui um dos patetas que nunca pensaram que a vitória poderia ser de Donald Trump e nos últimos dias, como o mais arrogante dos idiotas adeptos das teorias da conspiração, convenci-me de que o empate técnico era uma forma de os media manterem o interesse na campanha. A posteriori é fácil explicar o que se passou. A derrota dos Democratas não aconteceu esta madrugada, mas no dia em que Bernie Sanders perdeu para Hillary Clinton. Sanders iria assegurar o grosso do voto dos Democratas e muito do voto de protesto que deu a vitória a Donald Trump. A proverbial prudência e moderação do "centro-esquerda" deu nisto. 



Eremita às 09:15
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Terça-feira, 8 de Novembro de 2016
Terça-feira, 08 de Novembro, 2016

Houve um período em que as minhas filhas diziam "papá" tantas vezes como "mamã". Durou pouco e talvez tivesse coincidido com uma fase em que o ascendente biológico da mãe já não se notava e ainda não se faziam sentir os efeitos da crescente socialização em que a figura materna é omnipresente. Basta lembrar que na Baby TV há uma canção sobre a mãe, mas não sobre o pai, há uma avó (do macaco "MJ") e mesmo um avô (que faz robôs), mas não há um pai. Para a Baby TV, como nas histórias em que os bebés são trazidos pelas cegonhas, os pais são embaraçosas aberrações da natureza de onde saem espermatozóides. Enfim, este viés, que secundariza o pai nos primeiros anos da parentalidade e se entende como uma compensação para as inúmeras injustiças que as mulheres ainda sofrem, não incomoda assim tanto e chega a ter graça, pelo menos até ao dia em que um juiz pergunta à criança em casa de quem quer ficar a viver. 

 


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Eremita às 11:58
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Terça-feira, 08 de Novembro, 2016

Esta peça, escrita originalmente para o violino, tem sido tocado na guitarra clássica pelos melhores intérpretes, pelo menos desde Julian Bream. Quando tiver tempo, conto comparar as melhores versões que estão no Youtube



Eremita às 10:23
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Segunda-feira, 7 de Novembro de 2016
Segunda-feira, 07 de Novembro, 2016

Roland Dyens desapareceu há uns dias. Foi um intérprete, compositor e - sobretudo - um arranjador brilhante, que enriqueceu o repertório da guitarra clássica. Fica a obra.

 



Eremita às 00:09
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Sábado, 5 de Novembro de 2016
Sábado, 05 de Novembro, 2016



Eremita às 23:17
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Sábado, 05 de Novembro, 2016

Um dos traços distintivos dos programas de tertúlia política portugueses há vários anos no ar é a tendência para que, programa após programa, intervenientes de pólos inicialmente distintos se assemelhem cada vez mais nas opiniões. Dizem que o mesmo acontece no plano da fisionomia ou da estética capilar aos cães e seus donos, mas julgo tratar-se de apenas uma coincidência que não nos ajuda a encontrar uma explicação para o fenómeno. O caso mais óbvio é o do programa Bloco Central, da TSF, em que o ouvinte tem a oportunidade de comparar uma opinião dita num português fluído com a mesma opinião num português mais hesitante e pobre, marcado pelo bordão "Estado de direito". Também entre o quarteto do programa Eixo do Mal é raro encontrar quatro opiniões distintas, mas não se julgue que discutir assim não exige técnica e um grande treino. Por exemplo, o treino que faz com que uma pessoa resista ao impulso natural de dizer apenas "concordo em absoluto", que não seria boa televisão. Embora esta prática da não-referenciação seja muito frequente na opinião escrita, apenas só em parte devido ao autismo dos jornais, que tendem a ignorar-se, e à impossibilidade óbvia de se referir na escrita diária quem abordou o mesmo tema nesse dia, na televisão este exercício atinge o apuro que permite ao comentador, perante muitos milhares de espectadores, avançar com a intervenção que tinha arquitectado na cabeça ou nos papéis sem o menor ajustamento em função do que acabou de ouvir de um colega, mesmo se para dizer essencialmente o mesmo. Não sei se esta característica chegará a idiossincrasia nacional, mas creio que não acontece com a mesma frequência nos EUA e na França, países em que o debate político entre comentadores de longa data mantém-se polarizado, como convém (um exemplo: Zemmour e Naullau). Enfim, quem quiser aproveitar o famoso ditado judaico "pergunta a 2 judeus e terás 3 opiniões" para caracterizar o comentário político televisivo em Portugal, só precisa de trocar os números de posição. 



Eremita às 16:13
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Quinta-feira, 3 de Novembro de 2016
Quinta-feira, 03 de Novembro, 2016

Uma mãe esmerada irá talvez a uma loja comprar roupa de bruxa para a filha usar no Halloweeen e, se acordar bem disposta, colará uma verruga no rosto da criança. A L. passou três dias a fazer uma máscara facial de látex e silicone realista, que polimerizou ainda aplicada ao rosto da R., foi depois pintada e recebeu, um a um e à pinça, pestanas e os pêlos das sobrancelhas, sendo depois colada a um volume de espuma expansível que antes tinha crescido dentro de um molde da cabeça da R. O objecto foi depois pintado no pescoço para que parecesse uma cabeça recentemente decapitada e recebeu uma peruca cujo cabelo a mãe cortou para que ficasse com a franja característica da R. Nos tempos mortos deste protocolo, os braços de uma camisa foram sendo acrescentados e usou-se esponja no interior da camisa para encher os ombros e compor um tronco em que a cabeça real da R. estava escondida e espreitava por entre os botões, através de um tule com a mesma cor da camisa. O resultado foi um decapitado a deambular com a cabeça nas mãos, de colarinhos sangrados e desoladoramente vazios. 

 



Eremita às 10:57
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Sexta-feira, 28 de Outubro de 2016
Sexta-feira, 28 de Outubro, 2016

"Seja como for, tudo o que é apenas ensaiado e fabricado acaba por soar a falso.” José Sócrates

 

José Sócrates é, simultaneamente, um embaraço para a democracia, um problema para a justiça e, a julgar pela citação, um caso clínico. No seu segundo livro, imodestamente intitulado O dom profano - considerações sobre carisma, o antigo primeiro-ministro tenta consolidar a sua imagem de intelectual. Há algo de meritório neste esforço do engenheiro. Primeiro foi estudar para Paris. Depois escreveu uma tese sobre a tortura. Agora disserta sobre o carisma, presume-se que na esteira de Maquiavel. Pessoas com o percurso de Sócrates geralmente vão ganhar dinheiro em cargos de gestão no sector privado quando deixam a política e têm os passatempos estereotipados de quem singrou na vida, como o golf e a vinicultura. Dos poucos que se iniciam na escrita depois dos 50 anos, a maioria dedica-se à (auto)biografia e uns quantos tentam o romance, mas não há políticos engenheiros a abraçar a filosofia política. Sócrates é singular: governou e agora faz-se filósofo. No fundo, segue Platão, apesar de ter invertido a ordem dos factores recomendada pelo grego. 

 

É surpreendente que nenhum dos amigos de Sócrates o alerte para a figura triste que faz sempre que cita, parafraseia ou apenas refere um nome conotado com a "cultura". A sua voz muda, assumindo um tom professoral e pedante, como se não fosse ele a falar mas o modelo de figura culta perseguido por Sócrates - provavelmente alguém com a aura de João Lobo Antunes, ontem falecido, ou outro intelectual de boas famílias lisboetas ou do Porto. Como então explicar que, apesar do estilo postiço, ninguém apanhou Sócrates a dizer que leu um livro inexistente, nem a sugerir música ainda por compor por quem entretanto morreu, nem a trocar apelidos de autores que apenas partilham o nome próprio, gafes famosas de figuras do PSD. Passos Coelho, Santana Lopes e Cavaco Silva têm a ligeireza de quem sabe que não é um intelectual, nem pretende ser. Erram porque são humanos. Pelo contrário, Sócrates trabalha a sua imagem de intelectual e tem a noção de que um erro primário lhe seria fatal. Se errar, é porque foi incompetente. Assim, faz todo o sentido o eventual recurso a um escritor fantasma para assegurar um nível académico decente ao(s) livro(s) de Sócrates. A cultura, em Sócrates, pelo menos desde a célebre entrevista ao Expresso em que de definiu como um animal feroz, nunca foi a manifestação orgânica do "que ficou depois de se esquecer tudo o que foi aprendido" tão reveladora da nossa natureza, mas uma representação orientada por objectivos. 

 

Esta tese cria um paradoxo. Que objectivos? Ainda que em tempos Sócrates tivesse pensado com a Presidência da República e concluído que precisava de um outro grau académico para limpar a licenciatura suspeita, para quê insistir com um segundo livro, agora que a sua carreira política está acabada? Para quê os comunicados ao povo com travo a conferência em que são citadas figuras da ciência política? Enfim, um homem inteligente e vaidoso como Sócrates poderá ter querido dar uma bofetada de luva branca em todos os que com ele gozaram por causa da licenciatura. Porém, o mesmo aconteceu com José Relvas, que nem por isso rumou a Oxford para estudar coisas. Sobra então a hipótese pífia de que Sócrates se representa hoje como intelectual por ter a ambição genuína de ser visto como um intelectual. 



Eremita às 09:14
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Quinta-feira, 27 de Outubro de 2016
Quinta-feira, 27 de Outubro, 2016

Ao ler um artigo de divulgação científico muito bom (cujo link perdi), chorei duas ou três vezes. Restauremos a virilidade: chorei perante factos, porque o homem moderno chora, mas nunca após ler uma figura de estilo. A frequência de gémeos verdadeiros é de cerca de 4 por cada 1000 nascimentos e, quando comparados com os outros bebés, os gémeos estão mais em risco durante a gravidez e o primeiro ano, mas depois têm uma maior probabilidade chegar à velhice. Os dois primeiros factos confirmam a enorme sorte que tive e o último reconfortará um pai de gémeos moribundo, o que explica a emoção que senti. Mas a verdade é que, desde o nascimento das gémeas, já me surpreendi a chorar de felicidade por nenhum motivo imediato. Como são poucos os canais disponibilizados pelas convenções sociais para a exteriorização do amor paterno, só nos resta chorar às escondidas. 


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Eremita às 10:11
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Terça-feira, 25 de Outubro de 2016
Terça-feira, 25 de Outubro, 2016

21.10.16

 

A cultura gay fascina-me, embora só muito recentemente tivesse começado a ler ficção com personagens homossexuais (ou comportamentos homossexuais - não vou entrar nessa discussão) e me pareça que não viverei o suficiente para chegar à leitura dos estudos queer. Creio que este fascínio, isto é, esta mistura de curiosidade e admiração, não é nada invulgar entre os heterossexuais. Mas antes, quem revelasse este interesse seria rotulado de homossexual reprimido, e hoje, depois da revolução nos costumes que vai no sentido da aceitação de qualquer orientação sexual (entre adultos), mostrar curiosidade pelo modo de viver dos homossexuais é coisa de reaccionário, pois já não basta respeitar a diferença, devemos agir como se fôssemos todos iguais. Recuso tal imposição. Admito que este fascínio, tal como o que sinto pelos judeus, resulta sobretudo da atracção natural pelo underdog (homossexuais e judeus foram perseguidos ao longo da História) e de uma associação destas duas condições a manifestações de génio individual, razões em si pouco originais mas plausíveis, que tornam improvável um fundo de homofobia por algum mecanismo psicológico metamorfoseado no seu contrário. 

 

Depois de ter lido com grande prazer The City and the Pillar, de Gore Vidal, li ontem o primeiro conto da trilogia Persona, de Eduardo Pitta, que tem alguns paralelos com o romance de Vidal. Avancei depois para o romance A Cidade Proibida, também de Pitta, que ainda não concluí. O romance foi elogiado na imprensa de referência pela forma directa e crua como Pitta descreve as cenas sexuais. Na prosa de Pitta, as personagens não "fazem amor". Também não "fornicam" e ainda bem, pois é verbo que me deixa a cabeça povoada de coelhos frenéticos. As personagens de Pitta simplesmente fodem, o que se aplaude. A questão que coloco é se Pitta e outros escritores que descrevem as práticas homossexuais não beneficiarão dentro da comunidade largamente heterossexual daquilo que dá aos canhotos alguma superioridade no desporto. Refiro-me à raridade (há um termo técnico na disciplina da Evolução: frequency-dependent selection), que faz com que o adversário canhoto seja um oponente contra quem se tem menos prática, pois geralmente o adversário é destro, e faz com que a descrição da prática homossexual, tão pouco habitual no romance lusitano, nos pareça à partida superior às sopas de peixe com leite de mama de Rodrigues dos Santos ou ao "pénis a pique húmido de sede, grosso de veias, vermelho em flor de Pessanha" de António Lobo Antunes. 

 

25.10.16

 

Terminei entretanto a trilogia de contos Persona e o romance A Cidade Proibida. O livro dos contos traz uma marginália de crítica seleccionada, com a opinião de Miguel Real, Pedro Mexia, Maria Augusta Silva, Jorge Listopad, Fernando Matos Oliveira, Helena Barbas e Edgard Pereira. Pela qualidade, destacam-se os trechos de Fernando Matos Oliveira e Edgard Pereira, mas os críticos são unânimes a reconhecer as qualidades formais de uma escrita "sóbria, irreprensível", com um "ritmo acelerado" e cheia de "pathos autobiográfico e sobredeterminação erótica", bem como a relevância temática destes "contos tão políticos como morais", "marcados pelo arbítrio e abusos de poder", que serão uma "lbertação sem pudor da vertente gay da literatura".  Estas apreciações são extensíveis a A Cidade Proibida, embora sobre este romance seja ainda necessário frisar a exploração das tensões entre a classe média e a alta burguesia, reveladora de uma Lisboa hiperclassista, que para uns será caricatural, mas talvez não para quem conheça as elites - em todo o caso, a sensibilidade de Pitta lembrou-me a estratificação social no Funchal, paralelo que talvez decorra da influência britânica na Lourenço Marques onde Pitta cresceu e na ilha da Madeira. 

 

A prosa de Pitta é "irrepreensível" na medida em que não há uma passagem críptica, nem se apanha uma frase que seja uma cedência ao lirismo, o que não significa que todas as opções sejam indiscutíveis. A começar, temos um "narrador autoritário", talvez em demasia, sobretudo quando em A Cidade Proibida não deixa que a explosão controlada de uma subalterna, que até então parecia tolerar a orientação sexual do patrão, seja feita em discurso directo, substiuindo-se à personagem no relato desse desabafo, o que resulta numa oportunidade perdida. Porque nesse momento o romance atinge o climáx de um dos temas predilectos do autor: a hipocrisia, tanto dos que escondem as suas práticas homossexuais, como daqueles que na aparência nada têm de homofóbico, antes pelo contrário, até ao dia em que estala o verniz. No romance, há ainda uma passagem que soa deslocada, quando a mãe da personagem principal reflecte sobre as consequências da separação provável do seu filho e do namorado, ocasião para Pitta enfiar de calçadeira a discussão sobre a útima fronteira da inclusão social dos homossexuais, i.e., o direito à parentalidade, sem que nada no romance o pedisse e ainda menos quando, en passant, são referidos episódios concretos recentes envolvendo políticos, como o do argumento de autoridade de Francisco Louçã diante de Paulo Portas por apenas o primeiro ter prole. O romance não precisava desse ruído da actualidade. Também o modo lacónico, sem punch, com que Pitta conclui os três contos e o romance deixa o leitor algo frustrado. Mas é verdade que muito antes do fim o leitor já deu a leitura por compensadora, sobretudo no magnífico Pesadelo, o terceiro e o mais longo conto de Persona, cujas primeiras páginas são um prodígio da arte narrativa ao nível da melhor ficção portuguesa que li até hoje, gerindo Pitta a informação como o mais talentoso dos dealers alicia novos clientes com o fiado das doses de droga, sendo o leitor apanhado num vórtex irresistível desde as primeiras linhas. 

 

 



Eremita às 22:01
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Terça-feira, 25 de Outubro, 2016

Sem plagiar cómicos como Bill Cosby ou Louis C.K., será possível escrever sobre os filhos pequenos de um modo que não seja aborrecido? Duvido. Esta dúvida não é metódica, não é retórica (também as há, como as perguntas), não é sequer uma daquelas frequentes dúvidas empáticas vagamente autodepreciativas com que se pretende seduzir o leitor, nem a sua variante descarada que se lança por aí como isco para pescar elogios. Também não será genuína, mesmo ignorando todas as dúvidas falsamente genuínas que corromperam a expressão. É uma dúvida irresolúvel, de quem se conforma com a perplexidade.

 

Posso perguntar vinte vezes às minhas filhas que idade têm, que à vigésima primeira vez o dedinho singular delas no ar ainda me vai alegrar. Mas sei, acreditem que sei como esta rotina prolongada só me diverte a mim, com a possível excepção do avô paterno, um caso preocupante de embevecimento crónico e agudo. O que fazer? Consideremos os limites socialmente aceitáveis do espectro: Doris Lessing referia-se à maternidade como os "Himalayas of tedium"; pelo contrário, Catarina Furtado falava às revistas da sua maternidade com um encantamento a deixar no ar a ideia de que (roubo a expressão a um blogger retirado) não houve outra mãe antes dela. Quem tem razão? Infelizmente, não é a espirituosa Doris, é mesmo Catarina, a menos que estejamos dispostos a abandonar os filhos, como fez a britânica. Eis o paradoxo que faz do baby blog um género condenado, mas sem alternativa. Se somos bons pais, o relato sincero sairá sensaborão, mas ainda assim será mais válido do que desconsiderar os nossos próprios filhos pequenos e a relação que com eles estabelecemos em prosa ácida falsa ou ritualizada pelo humor, escrita para chocar e entreter a burguesia.


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Eremita às 11:12
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Segunda-feira, 24 de Outubro de 2016
Segunda-feira, 24 de Outubro, 2016

Bach,  Robert de Visée ou Weiss? Não se precipitem. O critério é absolutamente deprimente: qual dos três compositores escreveu a música que mais faz pela produtividade de quem a escuta?

 

 

 

 

 



Eremita às 10:36
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