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Ouriquense

28
Abr17

Júlio e Patrícia (7)

Eremita

Júlio, 32 anos, julgava que ter estado com oito mulheres a impressionaria, pois faria dele alguém experiente aquém de promíscuo. Mas ao olhar para a perversa beleza angelical dela, teve um momento de hesitação e disse: "Sete". Ela mostrou então algum embaraço, que não era propriamente decepção, mas que também o deixou mais nervoso, brotando da sua axila esquerda uma gota de suor que foi escorrendo muito lentamente, como que esticando ainda mais o tempo psicológico criado pela pausa dela. O número lá saiu, bruscamente, só que, em rigor, era uma estimativa: "60 e tal". Júlio encontrara Patrícia numa festa de amigos comuns e ficara siderado com a beleza dela. Alta e esguia, quase sem peito e ancas, era no rosto que se concentrava todo o seu encanto. Um amigo comentou com ele que ela parecia vinda de um quadro de Botticelli, mas Júlio afastou o amigo com delicadeza e nem procurou que ele o ouvisse enquanto avançava para ela e murmurava: "Botticelli, Botticelli o caralho... desde quando a Vénus de Botticelli dá tesão?". Dois dias depois tomavam café juntos. Júlio era bem-parecido e divertido; ela escolhera-o entre a mão cheia de outros homens desemparelhados que na festa também lhe lançaram olhares.

 

A sua pele era de uma cor indefinível e de uma ausência de textura que tentava o toque. Três sinais na cara, em perfeita constelação, contribuíam para o encanto e quando ele conseguia desviar os olhos dos olhos dela - verdes? Azulados? Cor de mel? A luz atraiçoava-o - era nos sinais que descansava a vista, pois fixar-se na sua boca seria denunciar-se ainda mais. Como se ela não soubesse. Patrícia tinha uma boca conspicuamente imoral, com o lábio inferior humedecido e polpudo, que incitava à mordida e o lábio superior em arcada acolhedora, inclassificável segundo os manuais de arquitectura. A resposta de Patrícia fez com que Júlio soltasse um esgar. "60 e tal?" Ela confirmou. "Mas falamos de pessoas com quem tiveste relações sexuais?" Nova pausa. Ela pensara que se tratava de qualquer pessoa que tivesse beijado na boca. Júlio sentiu então algum alívio, mas nem por isso deixou de fazer o seu cálculo segundo tal critério (foram 19). Patrícia tinha 28 anos e fora beijada na boca por mais de 60 miúdos, rapazes e homens. Naquela boca que tanto o fascinava. Um fascínio universall, Q.E.D.. Acusando alguma tristeza, não deixou de reformular a pergunta. "Bem, respondeu ela, nesse caso não foi ninguém". Disse-o com segurança, mas levantou-se de seguida para ir à casa de banho. Ele ainda procurou interpretar as palavras dela de modo a concluir que não estava na presença de uma virgem, mas em vão. Jamais lhe passaria pela cabeça que uma mulher tão atraente, independente e vivendo numa metrópole pudesse ser virgem aos 28 anos, embora tivesse logo acertado no motivo: a religião. E era seguramente uma vingança de Deus por ele se ter lentamente transformado num ateu. "Ou então foi o Botticelli, rancoroso", lembrou-se, sem esboçar um sorriso, no exacto momento em que ela regressava ao seu convívio.

 

 

 A revelação não acelerou a corte de Júlio nem o desencorajou. Dias depois beijavam-se pela primeira vez; Júlio* sentiu um êxtase profundo. E passados mais uns dias foi convidado a subir. Aos poucos ele foi percebendo que estar com uma virgem melhorava a sua técnica sexual, por ser um estímulo permanente à imaginação. Júlio habituou-se a dispensar a penetração e viciou-se na sua virgem. Era aquela boca que o fascinava e um simples beijo valia por qualquer das farras sexuais com as parceiras anteriores. A sua nova sexualidade fascinava-o, dava-lhe uma excentricidade que julgara para sempre perdida desde que se formara em gestão. Sexo com restrições, como o desafio à criatividade que é a métrica do soneto. Só que Patrícia começava a ficar irritada... Ela habituara-se a levar os seus parceiros quase ao desespero por recusar a entrega completa. O imperturbável fascínio de Júlio após meses de cama acabara por frustrá-la. E não havendo o gozo do poder, Patrícia viu-se tomada por um desejo incontrolável de ser possuída por ele. Porém, ele recusava-se a penetrá-la, queria preservar a sua virgem a todo o custo. E ela, consumida em excitação naqueles momentos, sentia que perdia o poder a que se habituara. Decidida a agir, uma noite, no pico do entusiasmo, põe Júlio fora de casa às 3 da manhã e bate à porta de um vizinho que vivia sozinho e a devorava com os olhos todas as manhãs. Aquele gesto precipitado passou a ser a sua rotina. Começava as noites com Júlio, pois mais ninguém a levaria ao grau de excitação que precisava para consumar o acto com o vizinho. Júlio contentava-se com aquela boca e suportava a humilhação de ser posto fora de casa a meio da noite. Afinal, morava perto e naquela cidade quase nunca chovia. É claro que Patrícia não lhe contava o que fazia depois. Para Júlio, ela continuava a ser a mulher imaculada da boca promíscua. Muitos anos depois, quando a vida os tinha separado e mantinham apenas um contacto intermitente e amistoso, ele veio a saber do antigo estratagema dela. Sem acusar grande indignação, a sua única preocupação foi saber se ela também beijava o vizinho ou se apenas fornicavam. Patrícia mentiu.

 

* Na primeira versão, escrevi "Mário". 

28
Abr17

Bruno (6)

Eremita

Bruno, 40 anos, professor primário zeloso e curioso compulsivo, acumulava um conhecimento enciclopédico na vastidão mas de supercifialidade amadora, embora se distinguisse dos diletantes pelo genuíno prazer e nenhuma intenção de impressionar. Achava-se gormand, melómano, cinéfilo, literato, desportista, activista, poliglota, viajante e um bom gestor de condomínio. Frequentava agora um curso de introdução ao Direito. Na semana anterior terminara as aulas de desenho e tinha já em mente a arquitectura paisagista, sempre no mesmo instituto, sempre às Quintas. Na sala de aula, Bruno partilhava a mesa com uma senhora da sua idade, que fazia esquissos de vestidos no caderno de apontamentos, dando mostras de grande aborrecimento. Ele rotulou-a logo de ociosa da vida e concluiu que o curso lhe fora sugerido e pago pelo marido. Não era uma mulher deslumbrante e só começou a sentir-se tentado quando as pernas de ambos se tocaram por acaso. Atraía-o o estatuto de amante. Bruno tinha demasiados interesses para manter uma namorada e trocava de esposa alheia com escrupulosa regularidade, apenas para não se criar uma cumplicidade excessiva que pudesse colocar em risco os seus passatempos. Uma sequência de três mulheres era-lhe menos interessante do que o Desenho, o Direito e a Arquitectura Paisagista. A sua colega de carteira aparecera-lhe quando a rendição da amante já tardava e a proximidade que o curso possibilitava tornara tudo muito fácil; Bruno, tão voluntarioso para a vida quase toda, era um conquistador preguiçoso. Ao fim de umas semanas, ela deu o primeiro sinal claro, quando fingindo brincar com a aliança fez do anel um minúsculo aro que rodou equilibrado pelo tampo da mesa até embater no mostrador do relógio dele, com um clique e depois um rufo em decrescendo. Ele teve então uma hesitação breve, mas decidiu-se por dar ares de não ter reparado em nada. Foi ela que com mão a cair pesada sobre a mesa recuperou o anel. Nessa noite não se despediram como já vinha sendo costume.

 

O circuito de manutenção sempre o ajudara a pensar. O ritmo da passada certa e a respiração controlada disciplinavam-no, ajudado pelo desfilar regular dos troncos das árvores, tão próximas do carreiro por onde seguia que lhe davam uma ilusão de velocidade e a sensação de urgência. A mente ia fazendo pausas retemperadoras à custa das visões rotineiras que o animavam: a rapariga encorpada em roupa lycra (à segunda), o velho em esforço no fato de treino Adidas (terça), o gordo que corria sempre em sentido contrário (quarta), dois amigos a correr lado a lado enquanto discutiam empreendedorismo (quinta), os lobitos muito pouco disciplinados, desequilibrando-se mutuamente na travessia da trave de madeira (sexta). Naquela sexta sentia-se muito agitado. Estava quase ofegante e ainda não conseguira perceber a sua recusa da véspera, na aula de introdução ao Direito. Fora um instinto de sobrevivência, mas que devia obedecer a uma lógica por revelar. Tal mistério obrigá-lo-ia a dar uma volta extra ao circuito. E foi só ao crepúsculo que encontrou um princípio de explicação: a chave do enigma estava nas matérias leccionadas durante o curso, em como lhe causara surpresa o artigo 133. Aprendera que os 8 a 16 anos da pena de prisão por homicídio, agravados nos actos mais perversos ou especialmente censuráveis para 12 a 25 anos, são reduzidos nos casos de homicídio privilegiado. Num feito raro de memória conseguiu resgatar uma versão quase fiel do tal artigo e disse-o em voz alta: “Quem matar outra pessoa dominado por compreensível emoção violenta, compaixão, desespero ou motivo de valor social ou moral, que diminuam sensivelmente a culpa, será punido com pena de prisão de 1 a 5 anos”. Para ele, o artigo 133 era revoltante. Imaginou as cenas de cama com as suas várias amantes, subitamente interrompidas por um homem desvairado que os fulmina a tiro de caçadeira. Um cenário de horror. Ele e ela esvaziando-se em sangue e o assassino livre ao fim de 5 anos. De onde vinha este absurdo? Da ideia de paixão, claro. Sorriu discretamente, como quando alguém se deixa seduzir pelo seu próprio pensamento. A paixão, na lei como na mentira, tem a mesma valoração e semelhante efeito: tanto atenua a pena do criminoso, como a má reputação e os remorsos do mentiroso; comparada com outras desonestidades, a mentira passional é facilmente acomodada pela consciência de quem a comete e pela sociedade que julga. Uma pessoa apaixonada pode matar e pode ser desonesta, quase impunemente. A paixão é um estado de loucura passageira que perdoamos aos outros, para que a seu tempo também a possamos gozar sem hipocrisia. Mas o epíteto “passional”, atenuante para o assassino e o traidor, funciona como uma agravante para as vítimas. Desde logo, porque existindo uma atenuante à partida, aumenta probabilidade de haver dois cadáveres na cama ou um traído. E a seguir porque a indignação e dor dos familiares e amigos das vítimas, vítimas em segundo grau, tal como as do traído, são imensas, em contraponto com a cumplicidade da lei e da sociedade com o assassinto e o traidor, como se houvesse uma qualquer lei geral da conservação da indignação e as atenuantes se alicerçassem no sofrimento acrescido das vítimas. Perante estas conclusões novas, Bruno começou a encarar um desafio que havia até então adiado por manifesta falta de tempo: a construção de uma caravela de fósforos.

28
Abr17

Vive la France

Eremita

"Pour ce qui me concerne, je souffre sans haine. J’emprunte cette formule à Antoine Leiris dont l’immense sagesse face à la douleur a tant fait mon admiration que j’avais lu et relu ces lignes il y a quelques mois. C’est une leçon de vie qui m’avait fait tant grandir qu’elle me protège aujourd’hui. Lorsque sont parus les premiers messages informant les Parisiens qu’un événement grave était en cours sur les Champs-Elysées et qu’un policier avait perdu la vie, une petite voix m’a dit que c’était toi. Et elle m’a rappelé cette formule généreuse et guérisseuse: Vous n’aurez pas ma haine. Cette haine, Xavier, je ne l’ai pas parce qu’elle ne te ressemble pas. Parce qu’elle ne correspond en rien à ce qui faisait battre ton cœur, ni ce qui avait fait de toi un gendarme puis un gardien de la paix. (...) A toi, je voudrais te dire que tu vas rester dans mon cœur pour toujours. Je t’aime. Restons tous dignes et veillons à la paix et gardons la paix." Companheiro do polícia assassinado nos Campos Elísios, a 20 de Abril de 2017, Le Monde.

27
Abr17

Sónia e Artur (5)

Eremita

Artur estava tão fora de si que mais parecia ter surpreendido a mulher no quarto em intimidades com dois vizinhos. Afinal, limitara-se a abrir uma das gavetas da mesa-de-cabeceira. Se para Sónia já era bizarro que Artur mostrasse ciúmes de um objecto, a acusação de traição parecia-lhe inconcebível. Como sucede com tantos ex-seminaristas, Artur não era uma criatura normal. Para mais, ele sentira o apelo da fé e não o da elevada empregabilidade. Abandonou o seminário quando Sónia engravidou e ainda se penitenciava pelo pecado cometido e a vocação perdida. Ela fizera-se uma mulher despachada e lia as revistas femininas. Amava Artur mas o que ele lhe dava pontualmente nas manhãs de sábado não chegava. O dildo foi uma revelação, que chegou pelo correio. Vinha com livrinho de instruções e os esquemas eram muito didácticos. Sónia  iniciou-se em segredo e com grande satisfação no onanismo assistido. Com o correr dos anos, foi-se tornando menos cuidadosa e passou a não fechar a gaveta da mesa-de-cabeceira à chave. Naquele dia, Artur procurava aspirina para uma dor de cabeça.

 

Primeiro tentou ver-se livre do seu inimigo pela retrete, mas de cada vez que descarregava o autoclismo, o pénis reemergia lentamente, ora pelos testículos, a lembrar o focinho de um enorme rato de água, ora pela cabeça, como uma moreia que sai do buraco. Seguiu-se uma sessão de Judo culminando na imobilização do pénis no colchão da cama, com um testículo a parecer espapar sob o lombo de Artur e a cabeça do pénis sufocando numa chave de braços improvisada, enquanto Artur lançava para o ar perguntas num crescendo de ansiedade, pouco faltando para  dizer as falas do pénis e criar um número de ventríloquo. Chegou depois à sala, perseguindo o pénis que atirava violentamente contra o chão e fazia ricochetes caprichosos, e o espaço mais amplo da divisão despertou nele um deslocado reflexo lúdico, que o surpreendeu a tentar atirar o pénis contra a parede para depois o tentar recuperar sem que caísse ao chão. E veio, por fim, a trágica sessão na cozinha, transformada em sala de tortura, com o objecto a revelar uma resistência notável. Só ao ver o bico de gás aceso Sónia resolveu intervir. Cada um puxou então o pénis para seu lado, que ficou ligeiramente mais delgado e comprido, com uns quase imperceptíveis veios esbranquiçados, mas logo retomando a cor e forma originais quando Sónia cedeu. A resiliência do material estava a par da obsessão de Artur. Legitimado pela força, ele encheu-se de coragem e quis atirar o maldito objecto do nono andar para a rua, não reparando que a janela estava fechada. O pénis fez embate e rachou o vidro, ficando imóvel no axadrezado dos ladrilhos da cozinha. Artur ainda se aproximou embalado pela raiva, mas depois estacou: subitamente, o bicho movia-se e emitia um zumbido! Perante tão inesperada manifestação de animismo, Artur cedeu aos nervos, as suas pernas fraquejaram e também ele se deixou ficar pelo chão, chorando como um menino. Sónia não hesitou em quem socorrer; foi com habilidade que esticou a perna e usando os dedos do pé desligou o dildo, sem folgar o abraço com que consolava o seu homem.

 

Nunca chegaram a aprofundar as causas últimas, mas Sónia tratou de resolver o problema. A solução viria também pelo correio e as instruções eram explícitas, excepto para Artur. Ele não percebia nem a lógica de funcionamento da boneca, nem a lógica da sua mulher. Ela explicou-lhe então que se ele também gozasse o seu brinquedo sexual, talvez viesse a tolerar o brinquedo dela. Foi tal o alívio de Sónia ao reparar na reacção de Artur que não se apercebeu da natureza do seu súbito entusiasmo. Sabendo-o pudico, Sónia saíu do quarto, para que ele explorasse o brinquedo sem inibições. A vida dos dois restaurou-se. Continuaram a fazer amor apenas ao sábado, sem que ela tivesse notado qualquer acrescento de fantasia ou motivação da parte de Artur, mas ele não mais a incomodou por causa do pénis de borracha, que ela continuou a usar. Também Sónia não lhe fazia perguntas sobre a boneca, mas sabia que ele mexia nela. Nunca veio foi a perceber a razão da paz de Artur. Quando se trancava no quarto para brincar com a boneca, Artur usava apenas o brinquedo de Sónia. Aquele exercício restaurava a harmonia doméstica, por lhe dar a estranha sensação de ser ele o único homem da casa que era fiel à sua mulher.

27
Abr17

Elogio do "Tavarismo"

Eremita

Sabemos que João Miguel Tavares é um justiceiro que surfa com competência as ondas de indignação colectiva e que é o melhor no uso da técnica de interpelar directamente outros comentadores. Estas duas características explicam o seu enorme sucesso. Naturalmente, o seu estilo gerou anticorpos, especialmente entre os órfãos de Sócrates, sendo o exemplo mais extraordinário Valupi, o blogger que escreve no Aspirina B com conhecimento de causa e militância. É verdade que Tavares destoa diante dos seus colegas do Governo Sombra, mas insistir nesta tecla seria perpetuar uma irritante discriminação de classe que se pratica de modo quase inconsciente e já vai sendo tempo de notar que não estamos num concurso de regras de etiqueta para comer à mesa quando o rei é o convidado de honra.

 

A minha opinião sobre João Miguel Tavares mudou para melhor ao ler a crónica Dias Loureiro, a Justiça e o Jornalismo. Quando a crónica pretende ir além da inconsequência do mero exercício de estilo ou do picar o ponto na actualidade (que descreve o modo de fazer crónica em Portugal, dos humoristas do regime aos intelectuais públicos consagrados, passando pelos políticos, jornalistas e estetas que dominam o colunismo), deve incomodar. Foi o que aconteceu, como se percebe a partir destes dois textos (1 e 2). É para incomodar que um cronista serve; o resto é conversa para entreter tolos e burgueses. 

 

 

26
Abr17

Macron, evidentemente

Eremita

Apesar da pertinência eterna de um sketch dos Monty Python, nem sempre a esquerda se divide por causa de questiúnculas. No confronto de ideias entre Rui Tavares e Daniel Oliveira, só é possível estar com o primeiro. A diatribe de Daniel Oliveira contra o voto útil, no último Eixo do Mal, que talvez se possa atribuir a um efeito secundário da Geringonça, não é para levar a sério, nomeadamente para quem ainda leva o Daniel Oliveira a sério. De resto, tirando o ocasional voto em branco, não  houve uma eleição em que eu não tivesse recorrido ao voto útil, pois o candidato que idealizei nunca foi a votos e tive de me conformar com a oferta. Sim, Macron é um banqueiro, mas pelo menos toca piano. 

26
Abr17

Mário (5)

Eremita

Ah, as mamas fartas ou juvenis, marmóreas ou acolchoadas, em ninho de andorinha ou geotrópicas, de mamilos indolentes ou voluntariosos, com suas auréolas rosadas ou escuras, quando não indistintas, as mamas que aprisionam odores velhos junto ao tronco ou sempre frescas e asseadas, as mamas em soutiens pensados por engenheiros ou então soltas no trote de alcova, as mamas que são seios para boca e tetas para as mãos, as mamas fartas ou juvenis. Mário apreciava tanto mamas que lhe dava vergonha. Diz-se que gostar de mamas é de homem, mas temia que o seu caso fosse distúrbio. Queria as suas namoradas inteligentes, cultas, dinâmicas, carinhosas, íntegras, simpáticas, e com boas mamas. Queria-as com sentido de humor, diligentes, sensuais, corajosas, e com boas mamas. Ele sabia que a única condição necessária, embora não suficiente, era o par de mamas. Envergonhava-se da inclinação, que interpretava como um atavismo do cérebro primitivo e um resquício do impulso do recém-nascido. Jovem quadro superior vindo de boas famílias e com os contactos certo no partido, maxilar viril e têmporas que daí a três décadas ficariam perfeitas de tom grisalho, receava que tamanha obsessão por mamas comprometesse o seu futuro político promissor. Como manter um casamento? Como evitar um escândalo sexual divulgado em todos os jornais? Como contratar uma secretária segundo os critérios de meritocracia e exigência tão essenciais à imagem de um governante, ao desenvolvimento do país e à convergência europeia? Ainda longe dos holofotes, na intimidade do quarto já ele fazia de paparazzo de si próprio, dispondo sobre a colcha da cama, como cartas de uma paciência, as fotos de todas as namoradas antigas, e compondo na cabeça os títulos boçais com que as revistas de mexericos fariam alusão à característica partilhada por todas aquelas mulheres. Passava o tempo a imaginar cenários, denunciando uma certa megalomania. Pressentia-se ministro. Perdido em tais pensamentos, Mário ia nas nuvens, na verdade, sobre as nuvens, cadeira 23A do voo Lisboa-Nova Iorque-Los Angeles. A viagem surgira na pior altura. Julgava-se apaixonado pela primeira vez e custava-lhe ausentar-se. A sua namorada despertava-lhe uma imensa ternura, um alvoroço tranquilo que para ele era novidade. Sabia que estava perante a mulher da sua vida, a sua companheira. Sabia-a uma preciosidade, uma mulher de aguda consciência social e com um sublime par de mamas. Talvez por isso, preferiu omitir o destino final da sua viagem. Ia para Las Vegas, a uma despedida de solteiro de um amigo norte-americano que conhecera na adolescência durante um curso de Verão. A mentira por omissão não lhe causava grande transtorno e era até um bom treino para a sua vida profissional. Não conseguia era deixar de pensar na ida ao clube de striptease que fazia parte das festividades. Como seria capaz de resistir a tais encantos? E se houvesse por ali portugueses que o viessem a reconhecer numa campanha futura? Uma lap dance é sexo? Sentia-se atraiçoado pelas próprias questões que colocava, derrotado moralmente, indigno de ser uma figura de proa da democracia representativa. E então o amor? Não o deveria preocupar mais o respeito que a sua namorada merecia? Era também uma questão, talvez não a prioritária. Entristecia-o chegar a tal conclusão. Mas talvez a amasse de verdade, um amor só ultrapassado pelo seu patriotismo. Como se esta explicação nem o próprio convencesse, adiou o problema com dois comprimidos para dormir.

 

Mário entra decidido no clube. A sua primeira impressão é de desilusão e alívio. Nada do deboche que imaginara,: salão amplo e moderno, asseado, a meia-luz, muitos neónes, alguns espelhos, sofás espaçosos, muitos obesos e carecas isolados, raparigas seminuas ao balcão, dois gorilas de tuxedo em pontos estratégicos. Não havia música, mas logo percebeu que tinham chegado entre dois actos. Instalam-se todos, começa a tocar Madonna e uma rapariga sobe ao palco para iniciar o seu número. Mário resolve testar-se olhando de imediato para ela. Nada. Nenhuma excitação incontrolável. Seios perfeitos, sim, mas o que lhe chama a atenção é o extremo enfado com que ela dança. “Uma última réstia de orgulho”, pensa Mário. Em vez de excitação, ele sente empatia, compõe-lhe uma biografia trágica e apetece-lhe salvá-la. A noite começou bem, mas as mulheres circulam agora pelos sofás, metendo conversa. Uma preta de olhos verdes e seios hirtos pergunta-lhe de onde ele é. Mário responde a medo e ela afasta-se sem insistir, talvez à espera que a bebida faça efeito, ignorando que ele beberica uma gasosa. Alguns dos seus companheiros não perdem tempo e Mário observa com detalhe uma lap dance. Um dos seus companheiros de farra requisitara os serviços de duas mulheres ao mesmo tempo. Mário via-as de costas, debruçando-se sobre o homem que parecia agrilhoado, pois nem perante os movimentos mais insinuantes delas levantava as palmas das mãos do sofá. Apesar das nádegas proeminentes e das costas nuas das profissionais, a Mário a cena evocava sobretudo um episódio de necrofagia em que duas criaturas debicam um cadáver. Só mesmo ao seu lado não pôde deixar de reparar que o joelho de uma rapariga friccionava o escroto de um outro companheiro. “Lap dance é sexo”, apressou-se a concluir, no preciso momento em que cruzava as pernas. A noite foi avançando, as raparigas viam-no defensivo e deixavam-no em paz. Aos poucos vai dando conta de que ao excesso de oferta não correspondia um estímulo proporcional, antes pelo contrário. Tanta mama à solta desmotivava-o. Mário volta inclusive a pensar na primeira rapariga, que lhe apetecera salvar e não mais voltou a ver. Os seus valores cívicos levavam a melhor sobre os instintos. Nem a pressão dos outros homens o levaria a ceder – não que alguém se preocupasse com ele. E quando a preta dos olhos verdes veio de novo em sua direcção, Mário engoliu a seco mas sentia-se preparado. A sua preocupação não é resistir-lhe, antes não a magoar. Ele sente o seu instinto politico a emergir, preocupa-se em agradar, mesmo diante das franjas excluídas da sociedade. A mulher senta-se com languidez no braço do sofá. Mário toma a iniciativa e apenas lhe diz, quase segredando: és muito bonita, mas eu sou… sou gay, percebes? Só estou aqui por causa dos meus amigos". Ela agradece-lhe o elogio, mas foi a explicação que lhe restaurou o brio. Uma desculpa perfeita. Mário olha para os lados, procurando alguém a quem contar o seu triunfo, mas todos estão ocupados, inclusive o noivo. Opta então por comemorar sozinho, vai até ao bar e pede um Jack Daniels. Finalmente descontraído, protegido pelo seu estatuto forjado e pela língua materna, ao terceiro copo começa a comentar em voz alta as raparigas que sobem ao palco - “sublimes”, “um pouco exageradas”, “boas, mas falsas” – e acaba por ser o último a sair do clube. Adormece dentro do táxi e só acorda com o embate do trem de aterragem na pista. Acabara de aterrar.

25
Abr17

A escrita como ela é

Eremita

Entre 1951 e 1961, escrevendo diariamente no jornal Última Hora a coluna A Vida Como Ela É, Nelson Rodrigues inventou quase duas mil histórias sobre o adultério. O número impressiona, como surpreende reparar que mesmo entre as 45 histórias preferidas do autor, algumas têm um fim pífio. Escrever todos os dias não é para todos, nem mesmo para os alguns dos grandes. Dito isto, se houver forma de obter a totalidade destas crónicas e não apenas as selecções que andam por aí, avisem. Até agora, a série Infidelidade: Uma Abordagem Prática não deve nada a Nelson Rodrigues, mas convém conhecer a bibliografia obrigatória e para chegar às cem histórias é muito provável que precise de aproveitar umas ideias alheias e conveniente evitar simples repetições. 

25
Abr17

Estará a crítica de rastos?

Eremita

Tudo mudou muito. O mundo mudou muito, não só em relação à edição de livros. Mas publica-se hoje muito mais. Há mais variedade e isso também no que toca à qualidade. Quanto à receção: a crítica está de rastos, mas a verdade é que neste país nunca foi portentosa. Neste país a literatura sempre foi 100 pessoas a escreverem para as mesmas 100. Não sei se isso se terá alterado muito. Rosa Oliveira, Observador

 

É uma reflexão habitual, creio que já escrevi algo parecido no Ouriquense e não me canso de recomendar o outsider Homem à Janela como exemplo de crítica sem concessões. Mas leiam esta crítica ao último livro de Gonçalo M. Tavares e tentem fazer melhor. 

 

A lógica de conclusão absurda influencia, além da ideia fundamental dos romances, as personagens, o estilo e (menos) o enredo [refere-se a Gonçalo M. Tavares]. A força da lógica torna passivas as personagens, torna-as autómatos obedientes aos desmandos do raciocínio. Falta-lhes, em suma, uma característica humana que passa por resistir à lógica quando ela contraria os nossos interesses. Aquilo que é identificado pelo autor no plano fundamental – a lógica pode dar conclusões contrárias e absurdas – não é cumprido no que toca às personagens – o nexo entre lógica e acção é imediato, se o raciocínio dita, a personagem obedece. Este apelo da lógica dá também à linguagem uma pátina lacónica, jansenista, própria da sobriedade matemática. Só com um verdadeiro talento é possível fazer literatura da linguagem anti-literária; só com uma invulgar segurança é possível criar um estilo a partir da linguagem mais vulgar, sem recurso a tinetas linguísticas próprias; Gonçalo M. Tavares conseguiu criar o estilo a partir da falta dele. E se isto por um lado impressiona, por outro pode criar um problema. Carlos Maria Bobone, Observador

 

Cheguei aos dois links a partir de um post lido n'O elogio da Derrota.

 

 

 

 

 

25
Abr17

A evidência científica

Eremita

Defender o primado da evidência científica no caso da vacinação é canja. As conclusões científicas são tão categóricas e a necessidade de imunidade de grupo tão essencial para defender os mais vulneráveis, que só alguém profundamente equivocado, egoísta ou orgulhoso não se deixará convencer. Com respeito à evidência científica sobre as bases genéticas da inteligência, a defesa da evidência científica não é tão consensual. Para quem se interessa sobre o tema e não se deixou convencer de que os testes de Q.I. não medem a inteligência e de que a genética não tem um peso determinante, recomendo esta entrevista recente de Sam Harris a Charles Murray, co-autor do polémico The Bell Curve

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