Sábado, 27 de Agosto de 2016
Sábado, 27 de Agosto, 2016

Bolinha tende a olhar para cima e desde os primeiros meses revelou grande empatia por candeeiros de tecto. Alterna o sorriso inocente e generoso com birras de grande potência vocal. Tem apetência pelos espaços amplos, que abarca abrindo os braços, o que, ao observador menos experimentado, parecerá uma expressão corporal de desconcerto. Mostrou-se interessada pela sua imagem no espelho antes da irmã. Aos doze meses revelou um espírito de exploradora indomável, que a faz rastejar da sala até ao hall de entrada e enfiar a cabeça no balde dos brinquedos, protagonizando cenas muito eficazes de humor físico involuntário. Gosta de imitar com a boca o barulho de um martelo pneumático, expelindo uma quantidade abundante de perdigotos e, por vezes, também de sopa. Há opiniões divergentes quanto à primeira palavra que terá dito, mas "caca" [cáca] é uma hipótese que, mais por desejo de rigor do que deslumbramento galhofeiro, não se deve descartar. Bebe menos água do que a irmã e parece fazer muito mais chichi do que esta, observação que ninguém ainda conseguiu explicar. Gosta de se espojar em superfícies confortáveis e de adormecer acompanhada.  

 

Grãozinho tende a olhar para o chão e a manter a cabeça ligeiramente inclinada para baixo, não alterando a posição quando encara o interlocutor de frente, o que lhe dá o chamado "olhar Lady Di". As feições mais miudinhas fazem com que pareça muito mais pequena do que a irmã, embora a diferença de peso se cifre hoje nuns meros 3-5%. Tem o sorriso maroto e quando morde o lábio lembra Popeye, embora haja quem diga que herdou a expressão da linhagem patronímica, nomeadamente do avô paterno. Revela grande interesse pelos pormenores, das texturas dos materiais aos dedos de uma mão que lhe seja estendida, podendo passar longos períodos quieta e absorta em actividades de observação. Precedeu a irmã no manuseio da chupeta, que continua a manipular com grande virtuosismo. "Atão", pronunciado em jeito interrogativo, vivamente defendido por alguns como uma corruptela de "então", terá sido a sua primeira palavra. Foi ainda a primeira a responder "píu-píu" quando lhe perguntaram "como faz o passarinho?", mas, não havendo pelo menos duas testemunhas, o episódio jamais será homologado. Gosta de adormecer acompanhada, com a barriga a ser massajada suavemente. 


tags:

Eremita às 09:15
# | comentar

Terça-feira, 23 de Agosto de 2016
Terça-feira, 23 de Agosto, 2016

Depois de uma tarde a montar mobiliário da IKEA, voltou uma obsessão velha conhecida: a de construir uma história em torno desta empresa. Pela ubiquidade e peculiaridades da marca, de todos os planos para livros que vou tendo, este seria o mais capaz de atingir o sucesso comercial de que a minha família necessita. Ideias avulsas: 1) talvez abrir com um decalque do relato que Eça faz do Ramalhete, mas em que a casa é um apartamento de classe média totalmente mobilado com móveis da IKEA; progressivamente, o relato começaria a abdicar da descrição pormenorizada dos móveis e a usar os seus nomes emblemáticos ("Billy", "Besta", etc.), numa profusão tal que o leitor teria de recorrer a um catálogo da marca para poder apreender o espaço descrito; 2) incluir nas personagens um homem frustrado por não se conseguir libertar dos móveis IKEA, que montou com entusiasmo ao 24 anos, com alguma indiferença aos 35, algo cansado e aborrecido aos 45 e, desde então, melancólico, desesperado ou enraivecido, menos pelo esforço físico do que pela comprovação do seu imobilismo social, que não lhe permitiu nunca comprar móveis de antiquário, móveis nórdicos mas vintage e de madeira maçica, móveis que seriam estimados, restaurados e figurariam na lista das partilhas; 3) um ex-designer da IKEA, inventor da cómoda modelo MALM associada à morte de três crianças, que se mudou da Suécia para Ourique, tentando fugir da sua consciência; 4) um sem-abrigo, que todos os dias ludibria a segurança e chega a permanecer durante meses no IKEA de Alfragide, que passa a ser o seu ecossistema, pernoitando nas camas e sofás dos expositores e ocupando os dias com estratagemas para amealhar umas moedas ou furtar uns frascos de arenque temperado com mostarda e aneto. 



Eremita às 11:50
# | comentar

Domingo, 21 de Agosto de 2016
Domingo, 21 de Agosto, 2016

Em prosa bem nutrida e militante, a propósito de tweets, gasta-se uma crónica no Guardian para escrever contra a objectificação (sexual) do corpo das atletas olímpicas. É desconsolador testemunhar a defesa de uma boa causa feita sem sentido de oportunidade. Ao contrário de muitas outras áreas, o desporto é implacavelmente meritocrático. Curvas e um palmo de cara podem ganhar contratos publicitários e fazer manchetes, mas não dão medalhas. Acresce que, nos últimos anos, a haver uma tendência, é para a objectificação do corpo dos atletas masculinos. As razões são várias. Por exemplo, objectificar o corpo masculino não é censurável e, para alguns, em nome de uma (caricatural) defesa da igualdade de género, será uma justificação para não se deixar de objectificar o corpo das mulheres. Porém, a razão determinante parece-me ser esta: se, para a generalidade dos desportos, os corpos atléticos masculinos correspondem ao ideal vigente do corpo sensual, o mesmo raramente se aplica ao corpo atlético feminino. O desporto de alta competição não forja mulheres voluptuosas. Os ombros largos das nadadoras proíbem-lhes a graciosidade, os músculos das corredoras velocistas causam admiração sem líbido, os corpos das ginastas, de proporções quase infantis, recomendam pensamentos castos, e a altura da jogadora de volleyball faz com que a sua elegância óbvia seja sobretudo apreciada quando salta e remata, um movimento puramente atlético, sem vestígios de erotismo. Naturalmente, existem adolescentes, existem idiotas e existem as redes sociais, mas a evidência parece-me esmagadora: não havia, nem há, uma onda de comentários objectificadores das atletas, o que há é uma susceptibilização crescente e contraproducente, pois corpos belos, desnudados no espaço público, serão sempre erotizados. De resto, no caso das Olimpíadas, a objectificação de pendor sexual dos corpos femininos nem sequer é a mais marcante, interessante, complexa e polémica. Afinal, haverá outra atleta feminina a ter sido mais coisificada nas últimas décadas do que Jarmila Kratochvílová e Caster Semenya, cujos corpos, masculinizados devido aos altos níveis artificiais ou naturais de androgénios, são as antíteses literais da pin-up?

 



Eremita às 08:21
# | comentar

Sexta-feira, 19 de Agosto de 2016
Sexta-feira, 19 de Agosto, 2016

agustina-bessa-luis.jpg

Até há uns dias, sabia de Agustina aquilo que se aprende de ouvido: escrevendo à mão e quase sem emendas, foi prolífica (ao contrário de outros que não resistem à tentação de anúncios que depois não cumprem, apenas reiteram, a autora parece mesmo ter deixado de escrever e desapareceu da vida pública), era coquete nas entrevistas, conservadora sem ser aborrecida, sendo até desconcertante, e muito apreciada pelas raparigas literatas de direita e até algumas de centro-esquerda, tanto pela veia aforística hipertrofiada como por uma valorização das mulheres alheada das vagas feministas do século XX. Mas desconhecia a sua prosa, pois falhei uma primeira tentativa de ler os seus Contos Impopulares, li depois O Livro de Agustina, que me pareceu uma autobiografia escrita de modo displicente, e antes tinha lido um conto, O Rato, sem ter ficado convencido com o sentido de humor da autora. 

 

Depois dos quarenta anos, qualquer escolha de leitura vem com o peso de um item de bucket list. Seleccionei A Sibila (romance de 1954) e A Ronda da Noite (de 2006). A outros autores lusófonos que desconheço ou conheço mal conto dar o mesmo tratamento, isto é, ler duas obras, incluindo a mais emblemática e uma outra, bem afastada da primeira no tempo, tema ou forma. Tudo parecia bem encaminhado: a leitura de A Sibila foi compensadora e preparava-me para atacar a outra obra, mas pensei depois se não deveria reler de imediato o que acabara de ler. É bem possível que a qualidade e a estrutura circular de A Sibila propiciem o embalo para a releitura, mas depois dos quarenta anos qualquer releitura de algo que se acabou de ler é um capricho que a condição de mortal não recomenda. Paciência. Admitindo que, quando chegar de novo fim, conseguirei libertar-me deste livro e não ficarei até à velhice aprisionado por estas páginas, juntarei umas impressões sobre a escrita de Agustina, uma vez concluída a (re)leitura de A Ronda da Noite. 

 

 



Eremita às 09:59
# | comentar

Quarta-feira, 17 de Agosto de 2016
Quarta-feira, 17 de Agosto, 2016

Vão dizendo que sim e tendo a concordar. Se existe um comprimido que cura ou previne, sobra pouca metafísica. Porém, embora seja uma maldade cobrar a um doente o tempo que nos tomou quando precisou da nossa ajuda, um deprimido que passe uns dias acamado e seja tratado por aqueles que mais o amam (uma mãe, a namorada, a mulher) não se livra de, num momento qualquer de domesticidade mais tensa, ser lembrado da situação de dependência em que esteve e do peso que foi para quem dele cuidou e os demais que vivem na sua casa. Ora, estas revelações não me parecem maldosas, são compreensíveis e até previsíveis, a menos que o deprimido viva com mártires. Mas se é assim, então a depressão não pode ser bem uma doença. Aliás, se o deprimido, tentando escapar à cobrança dos seus, imitasse o tuberculoso e partisse para um sanatório remoto em terras altas, não estaria a salvo, pois o mais provável seria criticarem-no pelo capricho de se ausentar. 



Eremita às 12:25
# | comentar

Domingo, 14 de Agosto de 2016
Domingo, 14 de Agosto, 2016

Ontem, vi os Jogos Olímpicos na companhia do Judeu. Depois de ganhar o bronze, a judoca Telma Monteiro mencionou várias vezes o valor da "raça lusitana". Proferida pelo antigo presidente Cavaco Silva, a expressão era grotesca, mas na voz da atleta pareceu-me rigorosa. "Raça", no sentido de "raçudo", bem entendido. O Judeu também gostou. Lancei depois o tema da fraca apetência dos hebreus para o desporto e o Judeu atalhou logo: "não é falta de apetência, é falta de aptidão". A frase ficou a ecoar na minha cabeça como boutade anti-semítica dita por quem de direito. 



Eremita às 14:45
# | comentar

Segunda-feira, 1 de Agosto de 2016
Segunda-feira, 01 de Agosto, 2016

 

No final dos anos 80, a fama de Glenn Gould era imensa e ainda maior entre os músicos.  Por ter convivido de perto com estudantes de piano, também tive a minha fase maníaca por Gould e, naturalmente, ouvi inúmeras vezes as suas interpretações das Variações Golberg (BWV 988). Depois fartei-me do ego de Gould, da sua inteligência superior, da sua excentricidade, enfim, do seu génio transbordante. Discutia-se, na altura, se os ruídos que Gould emitia com a boca quando tocava piano comprometiam a interpretação. Creio que não há um consenso sobre a matéria e, provavelmente, a discussão continua. Mas ninguém discute os sons emitidos por Maurizio Pollini, a sua respiração profunda e as brevíssimas melodias que entoa quando toca O Cravo Bem Temperado. Porque à discrição do intérprete Pollini só podemos responder com reverência. 



Eremita às 13:47
# | comentar

Sábado, 23 de Julho de 2016
Sábado, 23 de Julho, 2016

Pensar a Europa daqui a uns séculos. Pensar as hordas de pretos e indianos e amarelos, de desenfreada proliferação, a inundá-la de vagas e vagas de miséria e degradação e anulação de todos os códigos de convivência. 

 

São palavras de um dos nosssos mais respeitados escritores. Conseguem adivinhar o seu nome? Já morreu, o que pode ajudar. Era branco, o que provavelmente ajuda pouco. 



Eremita às 09:56
# | comentar | ver comentários (5)

Quinta-feira, 21 de Julho de 2016
Quinta-feira, 21 de Julho, 2016

 

Se vivesse sozinho numa ilha deserta, desprezar o meu aniversário seria um acto de resistência, mas em sociedade desprezar os aniversários - o meu e os dos outros - passaria sobretudo por falta de educação. A verdade é que, tirando raríssimas excepções, sempre me pareceu que nenhum aniversário merece ser festejado até se ultrapassar a esperança média de vida. Afinal, a sociedade quer-se meritocrática. Mas como convencer as minhas filhas desta tese sem lhes explicar o que é a morte? Têm quase onze meses e já me vejo aos saltos, batendo palmas, atirando serpentinas e cantando os hits da Baby TV na festa do seu primeiro aniversário. Sou um fraco.

 

Os aniversários e todas as séries regulares (férias de Verão, campeonatos do mundo de futebol, jogos olímpicos, etc.) são bons para organizar as memórias, mas a sua previsibilidade acaba por neutralizar o seu potencial como catalizadores de nostalgia ou ansiedade. Os verdadeiros marcos que assinalam a passagem do tempo surgem quando menos se espera. Cumpriu-se entretanto uma década, mas ainda me lembro de quão perplexo fiquei por me ter apercebido que chegara à idade que o meu pai tinha nas primeiras recordações que dele guardo - haverá efeméride mais inesperada e íntima? E há uns dias, iniciada a primeira rotina de férias com as bebés, algo esmagado pela logística dos biberões, mudanças de fralda e vigilância permanente, calculei que quando elas já não quiserem passar férias comigo, nos últimos anos da adolescência, terei mais de 60 anos e uma forma física que me incapacitará para fazer o caminho do Inca e outras aventuras sonhadas. Isto dos filhos obedece a uma artimética simples: por uma persistente ilusão de eternidade, aceitamos picos de agudíssima efemeridade. 


tags:

Eremita às 21:15
# | comentar

Quarta-feira, 20 de Julho de 2016
Quarta-feira, 20 de Julho, 2016

Mais trágico do que um servo voluntarioso, só mesmo um workaholic incompetente.



Eremita às 08:51
# | comentar

Quarta-feira, 13 de Julho de 2016
Quarta-feira, 13 de Julho, 2016

[publicado a 24.6.2016; com adenda a 13.7.2016]

No Público, Diogo Ramada Curto (DRC) iniciou uma campanha de terra queimada com que vem varrendo a historiografia lusa. Depois de ter chamuscado Henrique Leitão (prémio Pessoa) e, de uma assentada, António Barreto e Maria Fátima Bonifácio, aguardo com impaciência o texto em que Ramada Curto tratará alguma obra de Rui Ramos, embora se antecipe que ainda demorará, pois será o derradeiro duelo, à maneira de Highlander*. Entretanto, DRC alimentou de novo a fogueira, desta vez com o pobre Vasco Pulido Valente (VPV), a propósito da publicação do último volume de crónicas deste autor. Se nas anteriores críticas o tom era animado por uma clara antipatia pelos visados, nesta DRC dá mostras de alguma subtileza, pois parece ter genuína admiração por VPV enquanto cronista. Paradoxalmente, o efeito acaba por ser ainda mais devastador, na medida em que à importância de VPV como cronista se contrapõe a sua insuficiência como historiador e o elogio para o primeiro acaba por credibilizar a sentença para o segundo. Para que não fiquem dúvidas, mas revelando algum conflito interior, DRC repete esta ideia num texto relativamente curto. Primeiro, apresenta-a de um modo algo positivo e ambíguo, que ainda salvaria a reputação do VPV historiador, referindo que será escusado "insistir em apreciá-lo enquanto historiador, uma vez que as suas obras de história – pouco importa se muitas, se poucas e em que termos – não estão ao mesmo nível das crónicas que publica nos jornais". A seguir, é claríssimo e demolidor: "É como se VPV não se tivesse conseguido realizar na escrita de livros de história, acabando por encontrar a sua verdadeira forma de expressão em textos de fôlego curto..." Esta ideia, que está longe de ser uma novidade, escrita por um historiador respeitado passa de boutade mesquinha a constatação citável. 

 

Quanto à crítica do historiador como cronista, DRC perdeu uma boa oportunidade. A  tese central de DRC é a de que VPV tem uma "concepção estrutural do passado de Portugal", ou seja, "de estruturas que só são perceptíveis na longa duração, mormente ao longo dos dois últimos séculos", centrada em "aspectos que se mantêm quase imutáveis", sem esquecer a "'essencial contingência' dos sujeitos". Enfim, qualquer leitor atento já tinha reparado que, segundo VPV, no século XIX está a chave para a interpretação de Portugal, a natureza humana é fodida e "shit happens". DRC também não oferece nada de novo quando resume as causas de VPV para a nossa decadência à pobreza do país, debilidade da classe média e peso do Estado. Ora, tirando um apontamento pertinente e informado em que contextualiza o uso do termo "indígena" (uma das raras afectações de estilo de VPV), uma crítica en passant à visão elitista que o cronista tem do ensino e a acusação algo adolescente de que também VPV passou a vida a mamar nas tetas do Estado, DRC é essencialmente descritivo e não lhe ocorreu tentar responder à pergunta essencial: como pode um colunista de tão "vasta cultura" e com a tal "concepção estrutural do passado" ser tão pouco criativo e previsível na interpretação da actualidade? DRC destaca a capacidade que VPV terá para "analisar as grandes estruturas", mas não dá nenhum exemplo que ateste tal dom. Assim, mais até do que o azedume e pessimismo, dir-se-ia que é precisamente a tendência para centrar a análise "nos aspectos que se mantêm quase imutáveis" que ameça transformar o conjunto de crónicas de VPV numa versão erudita e forçosamente mais verborreica da máxima popular "são todos iguais", que descreve à exaustão o pensamento político de grande parte do nosso povo. Ora, este extraordinário caso de extremos que se tocam só não se concretiza porque VPV escreve bem, pelo que importa mais a forma do que o conteúdo, a menos que o leitor vá também à procura da sua irritação predilecta. E é apenas por escrever bem que continua a ser lido, sobretudo por aqueles da sua geração e da geração seguinte, mas sem ser o “colunista mais influente do país", algo que só por dever de ofício alguém - como o organizador do livro de crónicas de VPV - poderia escrever. Mais influente do que VPV é, por exemplo, Pacheco Pereira, não só pela sua presença multimédia e por assinar uma prosa de combate, mas também por fazer da sua vasta cultura uma ferramenta que lhe permite abarcar temas mais variados e apetecíveis do que a enésima crónica de VPV sobre a mecânica do bloco central, produzir também interpretações mais ricas, ainda que não tão bem escritas, e manter uma curiosidade e vontade de partilha que não provocam no espectador ou leitor a desagradável sensação de vergonha alheia, como quando reparamos na jactância de um elitista tão desfasado do mundo em que vive que se julga o único capaz de ler livros estrangeiros entre os indígenas. 

 

* Adenda: por lapso inexplicável, não me apercebi de que, aquando da polémica iniciada por Manuel Loff sobre a História de Portugal coordenada por Rui Ramos, DRC criticou a descrição que Ramos fez da Guerra Colonial. Como DRC entrou tarde neste debate, o tom é mais reconciliador do que lhe é costume. Mas também deixei escapar uma crítica de DRC à opinião de Rui Ramos sobre política de ciência. Nesse texto, sem o espartilho das opiniões precedentes, temos DRC no seu melhor: cáustico, irónico e usando referências literárias com bom gosto. 

 



Eremita às 00:34
# | comentar | ver comentários (2)

Sábado, 9 de Julho de 2016
Sábado, 09 de Julho, 2016
Beijo as bebés nas bochechas, na barriga, no cucuruto, no pescoço, na nuca, nos pés e nas mãos. Também as beijo na boca. Quanto a métrica, fonética e impacto, teria sido melhor abrir o texto com um "beijo as bebés na boca", se não me tivesse censurado, tal como reprimi a vontade pela primeira vez e hesitei antes de concretizar o meu primeiro beijo na boca de uma delas. Agora não hesito, mas tendem a ser beijos furtivos; não me passaria pela cabeça beijá-las na boca na rua, exposto a olhares críticos de transeuntes sedentos de indignação. No dia do meu primeiro beijo na boca, ou logo no dia seguinte, contei o que fizera à L., e se não chegou a ser uma confissão, tinha a expectativa de que ela me autorizasse, me dissesse que era bom para o desenvolvimento psicológico das bebés e o fortalecimento dos laços parentais, nada pensasse sobre a higiene do acto e nem sequer se lembrasse da boca como uma zona erógena. Esta polémica já foi discutida, dividindo a população e a doutrina, mas os exemplos fotográficos documentam apenas casos de pais que beijam filhos pequenos, deixando-me sem saber se beijar bebés é incontroverso ou tão condenável que o Google não apanha o tópico, soterrado algures na deep web.  [continua]

tags:

Eremita às 14:07
# | comentar

Sexta-feira, 8 de Julho de 2016
Sexta-feira, 08 de Julho, 2016



Eremita às 18:50
# | comentar

Sexta-feira, 08 de Julho, 2016

Uma das desilusões de infância e juventude que se mantém, depois de muitas outras terem sido ultrapassadas, fosse pela simples passagem do tempo, alguma epifania  ou  psicoterapia, é a de que sou uma pessoa sem imaginação. Na instrução primária, cada um dos meus coleguinhas pintou o guarda-chuva por colorir com cores garridas e padrões divertidos, mas o meu ficou preto e com o cabo castanho; a dona Natividade não gostou. No liceu, a professora de português elogiou as composições de duas colegas e leu em voz alta uma passagem da minha composição, mas como prémio de consolação, pois a palma do rasgo criativo foi dado apenas às minhas rivais. Nem sequer nos poucos sonhos de que me lembrava encontrei a exuberância barroca dos sonhos que me contavam; todos me pareciam banais e caricaturalmente freudianos, como o sonho em que num jogo de futebol de praia, perseguindo ambos a bola chutada para o mar, o adversário que ganhara vantagem de repente se vira para mim com um falo de um metro erecto. Enfim, para me proteger, provava a mim próprio que era imaginativo, por conseguir transformar as faias que via do meu quarto em foguetões que se libertavam do chão e subiam em direcção ao céu com as raízes flamejantes. Sempre que surgia a dúvida, pensava na mesma imagem das faias estratosféricas, não me ocorrendo sequer que uma pessoa imaginativa seria capaz de apresentar novas provas de imaginação sempre que a dúvida surgisse. De tão gasta, a prova de que tinha imaginação era a demonstração definitiva da minha incapacidade criativa. O resto da vida foi decorrendo sem sinais de imaginação acima da média: não me fiz artista, não assinei patentes, não criei um estilo original de vida, de falar, vestir ou pentear ou cabelo. Convencido e conformado com a falta de imaginação, cheguei a pensar em actos trágicos, num crescendo que foi da ideação dos cortes no antebraço à de me tornar crítico de profissão.  [continua]



Eremita às 09:47
# | comentar

Sábado, 2 de Julho de 2016
Sábado, 02 de Julho, 2016

Os homens gostam de gadgets. Esta é uma frase batida. Mas vejamos como a mesma ideia pode animar uma prosa magnífica, que copiei letra por letra:

 

Ali, ela era bem-vinda, nesses boudoirs negros, assistindo ao demolhar dos calos em água salgada, à aplicação de receitas aparentadas de perto com velhas indicações de magia e a física primitiva - a ruina que suaviza o cieiro da pele, o leite de mulher para as dores de ouvidos, as presas de cornela* como amuleto, fórmulas, preceitos, que mantinham um sabor de harém e de barbárie e elas cumpriam a ocultas, com essa fé pelas coisas em que o mistério é uma garantia de possibilidades. Ainda que simulem obedecer e optar pelo vanguardismo dos costumes, as mulheres são rebarbativas às inovações. No fundo da sua natureza, há um apelo ao primitivo, ao antigo, ao passado, ao já experimentado e, sob esse aspecto, não há fantasias para elas. Talvez vivam mais profundamente integradas nos moldes genéricos da vida; mais do que elas, o homem se influencia pelas suas noções de tempo e de espaço, o que o faz circunscrever-se não à vida, mas a determinada época. A Sibila, Agustina Bessa-Luís 

 

* O vocabulário de Agustina Bessa-Luís cria alguns obstáculos. Se algum leitor souber o que é uma cornela, peço-lhe que se manifeste.

 



Eremita às 12:21
# | comentar | ver comentários (1)

Quinta-feira, 30 de Junho de 2016
Quinta-feira, 30 de Junho, 2016

 

Nos últimos tempos, tenho ouvido alguns intelectuais públicos brasileiros, sobretudo através do Youtube. A motivação inicial foi a crise política que o Brasil atravessa, mas agora escuto apenas palestras sobre História e Filosofia dadas por esses intelectuais para o grande público. Não confirmei a minha conclusão com brasileiros, mas arrisco afirmar que quatro intelectuais dominam este universo muito particular: Mário Sérgio Cortella, Clóvis de Barros Filho, Leandro Karnal e Luiz Filipe Pondé. São todos homens de vasta cultura e eloquência, com idiossincrasias: Cortella, um grande contador de histórias, periodicamente remata a frase subindo a última sílaba um tom, o que dá uma musicalidade especial ao seu discurso; Clóvis é o mais histriónico e adora os crescendos retóricos; Pondé, o típico intelectual de direita que quer retirar à esquerda o monopólio da virtude. Dos quatro, o mais fascinante é Karnal - e não apenas pelo apelido. Este professor de História, que parece ter lido todo o cânone ocidental literário e filosófico, dá umas palestras com um apuro formal que é raro encontrar, inclusive entre professores da Ivy League americana ou do Collège de France. A mensagem impressiona-me menos, sobretudo nas palestras em que Karnal perora sobre ética como um pastor laico ou sobre redes sociais como se não estivesse apenas a dizer banalidades embrulhadas em jargão da sociologia ("modernidade líquida" e afins). Mas mesmo nessas palestras a sua técnica impressiona: domínio total da plateia, gestão dos silêncios, humor cirúrgico, pensamento encadeado, factos transmitidos com grande segurança e no limite do que começaria a ser uma exibição gratuita. Como a língua materna nos protege das comparações com pessoas mais eloquentes do que nós que se expressam noutro idioma, para o meu fascínio contribuía ainda o facto de Karnal falar em português. Não contribui mais? Hesito. Esta semana, ouvi Karnal (ver este vídeo a partir de 1' 41'') a descrever Edward Said, o famoso orientalista, como um "professor em Londres". Não é verdade, pois Said foi professor na Columbia University, em Nova Iorque. O erro é irrelevante, tanto para a tese que Karnal expunha como para a ordem mundial, mas a imagem de infalibilidade que este historiador construiu funcionou como uma caixa de ressonância que deixou este erro a ecoar na minha cabeça. Subitamente, a grande cultura de Karnal deixou de se confundir com o cosmos e passou a corresponder à soma de tudo o que ele sabe com tudo o que pensa que sabe e tanto ele como eu desconhecemos. Naturalmente, sendo esta segunda parcela imensurável, torna-se incomensurável. E não há uma deontologia do fã que nos guie nestes momentos difíceis. 



Eremita às 10:34
# | comentar

Segunda-feira, 27 de Junho de 2016
Segunda-feira, 27 de Junho, 2016

Sobre o uso dos pronomes, há três tipos de pessoas: as que os utilizam bem, as que os utilizam mal com a noção ou suspeita de que estão a cometer um erro e as que erram seguras de que estão certas. Esta série de exemplos vale bem a pena estudar, pois trata-se provavelmente do maior pontapé que andamos (quase todos) a dar na gramática. 



Eremita às 12:06
# | comentar

Terça-feira, 21 de Junho de 2016
Terça-feira, 21 de Junho, 2016

 

fb_UegP7Y1wD1Z2i4HZBfq9

 

 

Tentarei não abusar da meta-escrita, mas convém fixar uma ideia sobre a série "Canhotismo", que conta a educação política de Julião e também poderia ter por título "A Federação das Minorias" ou "O caminho de um radical". A série será um pretexto para ir comentando a actualidade política, uma tentação que venho sentindo há algum tempo e precisava de ser neutralizada de algum modo, isto é, com censura ou ficção. 

 

 



Eremita às 08:55
# | comentar

Segunda-feira, 20 de Junho de 2016
Segunda-feira, 20 de Junho, 2016

Nós já sabíamos que as bebés, projectando as costas contra o encosto, repetidas vezes e violentamente, conseguem deslocar para trás a cadeira das refeições. A cada movimento, a cadeira recua um centímetro ou algo assim. Vamos precipitar o evento: o chão da sala de jantar está um degrau acima da sala de estar e do escritório, comunicando todas as divisões em open space, sem portas, e há uns dias, a L., sempre atenta e atarefada, disse-me para olhar pelas bebés (que estavam nas cadeiras e se se aproximassem do degrau poderiam tombar) o que fiz durante alguns minutos, até a L. me pedir também para talhar a melancia na cozinha, que está separada da sala de jantar apenas por uma bancada. Enquanto talhava a melancia, ouviu-se um grande estrondo. A L. percebeu logo e correu para a sala. Eu demorei e só depois veio o calafrio pela espinha. A L. apressou-se a tirar a bebé da cadeira, que estava por terra. A bebé berrava e a outra bebé juntou-se à berraria. As duas miúdas da L. mexiam-se com aflição de um lado para o outro, a L. dava colo à M., inspeccionando-lhe a cabeça, e eu rondava mãe e filha, acariciando qualquer parte do corpo de M. que estivesse à mão, e sentia uma vontade enorme de pegar na minha bebé. Por sorte, pura sorte, bendita sorte, a M. chorava apenas pelo susto e parecia ter saído do acidente imaculada. Já estava mais calma quando lhe pude pegar para que ela me consolasse. 

 

Pensámos imediatamente em formas de prevenir acidentes futuros. O raciocínio ia veloz. Por fazer: anular os desníveis, desmantelar a salamandra, pôr trincos especiais em todas as janelas e esticar umas redes, forrar os vértices e as arestas com borrachas, almofadar todas as superfícies, enfim, transformar a casa numa daquelas salas acolchoadas das alas de psiquiatria. De noite, no escuro, na cama, tentei de cabeça exercícios de física newtoniana que justificassem a ausência de traumatismo craniano e não era para excluir formalmente a possibilidade de um milagre e poder manter uma visão materialista do mundo, era mesmo para adormecer. Concentrei-me no momento do embate no chão, já depois de a cadeira ter descido o degrau e tombado, imaginando as forças de acção e reacção sobre o corpinho da M. e a sua cabecita, e estimando a relevância do encosto almofadado e dos 9 kg da bebé para aquele desfecho feliz. Assim adormeci e depois a vida prosseguiu. Só hoje, vários dias após o acidente, enquanto recordava o episódio para o descrever, reparei que na altura não acusei a culpa, creio que por causa da adrenalina, e que  a L. não fez me nenhum reparo, creio que por piedade. 

 

As famílias tendem a evitar falar da morte trágica de um dos seus, mas nas famílias sem mortes trágicas nas duas ou três últimas gerações são muito populares as histórias que quase terminaram em tragédia. Na minha famíia, por exemplo, conta-se que quando eu era bebé estive quase a cair ao mar quando o marinheiro que me segurava e se preparava para me passar para terra segura foi surpreendido pela ondulação e o barco de repente se afastou de um dos cais de São Jorge, nos Açores. Que a história do tombo na cadeira, talvez com outro nome para garantir o suspense, não seja substituída por nenhuma outra e tenhamos o privilégio de a contar sempre que nos pedirem. 


tags:

Eremita às 16:11
# | comentar

Sábado, 18 de Junho de 2016
Sábado, 18 de Junho, 2016

Muitos anos depois, voltei a pegar no volume Escrever, de Vergílio Ferreira, que reúne mais de trezentas pequenas reflexões provavelmente escritas pelo autor poucos anos antes de morrer. Até agora, registo duas impressões. A primeira: a prosa é pouco cuidada, com pontuação deficiente e um abuso da conjunção "mas" que fere o leitor e faz de certas passagens uma amálgama de adversativas; convém lembrar que a publicação é póstuma e, apesar do esmero do editor Helder Godinho, nunca saberemos se seria aprovada pelo escritor. A segunda: Schopenhauer só permanece como o exemplo máximo do escritor pessimista porque a obra de Vergílio Ferreira não se internacionalizou. 

 

Nota: o nome desta série com curtas impressões de leitura é roubado da série de diários de Vergílio Ferreira, um escritor muito lido pelo meu pai. 



Eremita às 09:15
# | comentar

Sábado, 18 de Junho, 2016

Saúdo cordialmente o blog Bons Encontros, pois não há nada mais agradável do que uma picardia com alguém que escreve com a arrogância de um jovem adulto e a ortografia de um adolescente.   Mas para que isto não seja só reinação, sugiro que vá entremeando os insultos elaborados com links úteis. Como encontrar o blog da Palmira? E a que acusações de plágio se refere? A frequência da acusação de plágio é proporcional à fama do acusado e se não apresentar a alegada cópia e o original será apenas uma calúnia. 

 



Eremita às 09:15
# | comentar

Sexta-feira, 17 de Junho de 2016
Sexta-feira, 17 de Junho, 2016

Quando, em Lisboa, ainda perseguia aquilo que se entende por uma "carreira", nas discussões entre colegas a dois, que é o número mais propício para as confissões e os desabafos, os colegas com sucesso nunca eram vistos como os melhores. Para explicar o seu sucesso, invocava-se a sorte e características algo tangenciais à corrupção moral, sendo frequente a expressão "sabe vender o peixe". Menos frequente, mas muito reveladora, era a acusação de que eles seriam "demasiado ambiciosos". Ninguém, mas mesmo ninguém, dizia que fulano teve sucesso por ser muito inteligente e criativo, as qualidades mais apreciadas na minha área. Ninguém. Estivesse o dia soalheiro e a pessoa chegasse ao café animada por um sexo matinal inesperado e muito satisfatório, talvez fosse capaz de dizer que o fulano de sucesso era "muito organizado" e "trabalhador", mas embora estas sejam características a que na minha área todos reconhecemos importância, a primeira não arrebata e a segunda tem o travo dos elogios consoladores, como quando se diz de uma rapariga que é "muito simpática". Aqueles tidos como os melhores pelos colegas, os inteligentes e criativos, eram, invariavelmente, pessoas condenadas por um sistema "perverso" ao falhanço ou, pior ainda, à mediania. E a ninguém ocorria a possibilidade de o outro com quem trocávamos ideias estar a pensar precisamente o mesmo que nós, isto é, que ele nos parecia algo invejoso. 



Eremita às 08:44
# | comentar

Sexta-feira, 17 de Junho, 2016

[republicação]

 


Para não perturbar a paz social, tenhamos bem presente que "um gay para o Ouriquense" difere de "um gay para Ourique". Trata-se de incluir um gay neste enredo, se possível sem aumentar o número de personagens. Somos particularmente avessos às grandes sagas familiares que pedem árvore genealógica como auxiliar de leitura, bem como a exibições de grande fulgor - Proust precisava mesmo daquela lista interminável de personagens e figuras reais? Por outras palavras, impõe-se a reciclagem, de preferência escolhendo uma personagem de orientação sexual indefinida, a bem da coerência narrativa. Vejo, à partida, três possibilidades: Jaime, o moço de recados, Gaspar, o rapaz do cineclube, e Adriano, o filho do Judeu. Mas Jaime tem algumas limitações cognitivas, o que complica a construção da personagem e não permite aproveitar plenamente a orientação sexual alternativa. De modo que sobram Gaspar e Adriano, o filho do Judeu. Hesito entre atirar a moeda ao ar ou assumir que "Adriano", um nome escolhido ainda antes de ter sentido a necessidade de uma personagem homossexual, foi uma escolha presciente, pois o nome é esmagadoramente gay.  post de 16.06.2013

 

Adenda: três anos depois, a escolha parece-me óbvia. Gaspar mantém a heterossexualidade (embora não a pratique) e Adriano será o nosso homossexual instrumental. Neste momento, isto é, a 17 de Junho de 2016, Adriano é um homossexual assumido em Lisboa mas ainda não contou ao pai, com quem costuma estar em Ourique de domingo a terça-feira (para não perder as noites de sábado). 



Eremita às 08:18
# | comentar | ver comentários (3)

Quarta-feira, 15 de Junho de 2016
Quarta-feira, 15 de Junho, 2016

De certa forma, fiz o Ouriquense porque não me sinto com estofo para escrever um romance centrado na Reforma Agrária que não soasse a neo-realismo recauchutado com pastiches de Levantado do Chão. Mas vou juntando papéis devagar, muito devagarinho, e quase parece que olho para a reforma e a velhice com a mesma ilusão de eternidade que o estudante durante a época de exames sente ao chegar a noite. Enfim, vou criar uma série e uma secção de links sobre o tema na coluna da direita, e qualquer leitor com algo para contar - de uma sugestão de leitura a uma história pessoal - fica desde já convidado a usar o correio ou a caixa de comentários. 

 

mw-768.jpeg

 

 

"Chega a Portugal e começa a fazer campanha, no início de 1975, e vai para o governo como secretário de Estado do Comércio Externo. Mas é como ministro da Agricultura de Mário Soares que faz a lei da Reforma Agrária. Foi para pôr cobro às ocupações que passou para ministro da Agricultura?

Já tinha um ano de governo, no último provisório, do Pinheiro de Azevedo. Acho que fui convidado porque tinha feito vários trabalhos para o Mário Soares e para o Partido Socialista. Tinha publicado um livro pequenino sobre política económica externa e aquilo tinha ficado na cabeça do Mário Soares e do Jorge Campinos. Ao fim de um ano, passei a ministro do Comércio. O maior problema do governo, tirando o financeiro, que estava entregue a Medina Carreira, era a pasta da Agricultura. Era suposto acabarem as ocupações, devolver reservas que não tinham sido devolvidas.

Era demasiado próximo do PCP, o ministro [Lopes Cardoso]?

Ou outra coisa: ele não queria recorrer aos meios legais, não queria fazer uma lei diferente. Metade das ocupações não estavam de acordo com a lei. A lei visava as terras abandonadas mas as que foram ocupadas eram as melhores, está se bem a ver porquê! E as ocupações continuavam.

Aliás, financiadas pelo Estado.

Sim, pelo Banco de Portugal, pela banca e pelo Ministério da Agricultura. Quando o Soares me convida, a intenção era pôr ordem naquilo.

Depois de aprovada a lei na Assembleia da República, Mário Soares retira-lhe o tapete?

O Mário Soares nunca foi ao Parlamento durante essa discussão. Estavam lá todos: os conselheiros de Estado, o Conselho de Revolução, os partidos todos, havia filas até à Rua de São Bento. O Mário Soares nunca lá pôs os pés. O Mário Soares não gostou do excesso de popularidade, dos apelos à Direita, das pessoas que no Partido Socialista estavam contra. Ele ia precisar dali a dois meses do apoio do PCP para aprovar o Orçamento.

Foi instrumentalizado por Soares?

Não. Ele acreditou em tudo até ao dia em que achou que tínhamos de mudar.

Pode-se dizer que a sua ação política é dominada pela vontade de contrariar os desígnios do PCP em Portugal?

É o maior paradoxo da minha vida. Até 1975, eu queria fazer a reforma agrária. Distribuir a terra. O que acabei por fazer foi devolver a terra a quem ficara sem ela. Ainda hoje assumo as razões porque fiz isso. Era mais importante haver Liberdade em Portugal do que haver reforma agrária. Não estou nada arrependido, mas é um paradoxo da História. Foi o contrário do que esperava fazer.

Como reagiu, e a sua família, às pichagens pelo País inteiro com mensagens como “Morte ao Barreto”, “Morte à Lei Barreto”?

Eu não desgostava que houvesse essas coisas todas nas paredes. Era sinal de que eu tinha tocado em alguma coisa de importante, de essencial. Posso-lhe dizer que saí várias vezes, de jeans e de camisa, à noite, para ir fotografar as pichagens. Até achava mobilizador, porque pensava que as pessoas que não eram comunistas acabariam por reagir. Eles exageraram, exageraram contra eles próprios. Custou- -me a parte familiar, eles terem ameaçado os meus pais e os meus irmãos. E as bombas. Duas semanas depois de ocupar a pasta da Agricultura, puseram seis bombas pequeninas em centros da reforma agrária. Não houve feridos, apenas uma senhora que levou com um estilhaço, mas era para intimidar." Entrevista a António Barreto (Visão, 4.6.2016)



Eremita às 22:43
# | comentar

Quarta-feira, 15 de Junho, 2016

Tema

 "Publish or perish"

Variações

 

Publish and perish: a publicação leva à exaustão física e/ou moral; os registos oficiais subestimam estes casos.

 

Perish and publish: pela mão de parentes próximos ou amigos, a obra ganha pertinência após a morte do autor; há exemplos famosos.

 

 



Eremita às 12:04
# | comentar

Sábado, 11 de Junho de 2016
Sábado, 11 de Junho, 2016

 

A história é conhecida: para castigar o filho rebelde, um casal de japoneses em viagem de carro resolveu deixá-lo durante uns instantes na berma da estrada. Correu mal. Antes de os pais voltarem para o meter de novo no carro, o miúdo embrenhou-se na floresta, um lugar que - segundo a imprensa - estava cheio de ursos esfomeados. O final foi feliz: após alguns dias de grande ansiedade, o miúdo foi encontrado. 

 

Não me interessa fazer de pedagogo de sofá. O que sei eu e que autoridade tenho, se poucas semanas bastaram para ter dado uma palmada no rabo de uma das minhas bebés após um período de berraria e choro? O que me fascinou foi o vídeo que mostro, seguramente pelo acréscimo de empatia vindo da minha condição de pai. Mais universal do que a linguagem musical é a linguagem corporal com que um japonês se expressa durante um acto de contrição público, apesar da complexidade dos pedidos de desculpa que a cultura japonesa produziu.

 

Após a Segunda Grande Guerra, um livro popularizou a ideia de que no Japão existiria uma cultura da vergonha, por oposição a uma cultura da culpa, que seria característica dos EUA. Esta dicotomia sempre me pareceu enganadora. Sendo fácil imaginar situações que provocam vergonha sem culpa, como escorregar numa casca de banana perante o olhar de outros, em sociedade é difícil conceber a situação inversa, pois a culpa causará sempre vergonha. Naturalmente, à vergonha associamos a esfera pública e o sentimento de culpa tem uma vivência sobretudo íntima. Lembremos então o confessionário, a engenhosa peça de mobiliário inventada pelos católicos para lidar com a vergonha sem a trazer a público, e aceite-se que no Japão as manifestações públicas de vergonha são mais exuberantes do que no Ocidente (1, 2), mas sem tomar as consciências dos japoneses como menos escrupulosas e libertas de culpa; o grau de exteriorização da vergonha pode resultar apenas de diferenças culturais na definição dos espaços público e privado. Por outras palavras, a dicotomia mais rigorosa seria entre cultura da vergonha versus cultura sem vergonha (no espaço público, entenda-se). Porque se algum antropólogo já se deu ao trabalho de elaborar a geografia da culpa sem um viés eurocentrista ou outro, talvez tenha chegado à conclusão de que a culpa faz parte intrínseca da natureza humana e alicerça as mais elementares e intuitivas noções de justiça, como a ética de reciprocidade. É um sentimento que não teve inventor e precede Abraão, sendo depois trabalhado e instrumentalizado pela cultura, nomeadamente as religiões e a psiquiatria. De onde virá então o fascínio (ocidental) por esta separação entre as culturas da vergonha e da culpa? Muito possivelmente, da vontade de que a tradição judaico-cristã mantenha o monopólio da culpa. A vergonha resulta apenas de uma ferida no orgulho, ou seja, é um sentimento pouco nobre, por ser autocentrado, enquanto a culpa, por implicar empatia com os outros (vítimas dos nossos actos), é um sentimento estimável, que nos humaniza.

 

Bibliografia

Shame and Guilt: A Psychocultural View of the Japanese Self Takie Sugiyama Lebra Ethos Vol. 11, No. 3, Self and Emotion (Autumn, 1983), pp. 192-209

 


tags:

Eremita às 15:58
# | comentar

Sábado, 4 de Junho de 2016
Sábado, 04 de Junho, 2016

Quem, a seguir a António Guerreiro, assina na imprensa lusa os textos mais suculentos ? O implacável Diogo Ramada Curto. Nas página de o Público, o historiador habituou-se a demolir o trabalho dos colegas e não se fica pela arraia-miúda da academia. Há uns dias, en passant acusou Henrique Leitão (prémio Pessoa) de ignorância - e, implicitamente, de desonestidade, pois não se deve escrever o posfácio de uma obra que se desconhece. Esta semana, tendo por pretexto a biografia do sociólogo António Barreto, escrita pela historiadora Maria Fátima Bonifácio, usa a biógrafa como boneco de ventríloco para, com relativa segurança, poder gozar com o biografado, comparando-o a personagens de Eça. Aqui de Ourique, não percebemos se Ramada Curto vai fazendo uns acertos de contas com os colegas, procura quezílias de modo maquavélico ou é simplesmente movido por um espírito corajoso e independente. Em qualquer caso, ganha o leitor.   



Eremita às 06:35
# | comentar

Quarta-feira, 1 de Junho de 2016
Quarta-feira, 01 de Junho, 2016

(...) Are you sure you want to live like common people
You want to see whatever common people see
You want to sleep with common people,
you want to sleep with common people like me.
But she didn't understand, she just smiled and held my hand.
Rent a flat above a shop, cut your hair and get a job.
Smoke some fags and play some pool, pretend you never went to school.
But still you'll never get it right
'cos when you're laid in bed at night watching roaches climb the wall
If you call your Dad he could stop it all (...)

Common People, Pulp

Há várias boas razões para seguir o blog Em Nome do Pai (grande título), de Rui Brasil. Como sucede na série Tribo do Ouriquense, Rui Brasil escreve sobre paternidade e conjugalidade, embora com uma generosidade e pragmatismo que eu não procuro; ninguém lerá o Ouriquense para saber quais são as melhores creches do Baixo-Alentejo. Num post recente, ele sugere que falemos do divórcio com o nosso parceiro e descreve a sua conversa. O aparente bom senso e as boas intenções de Rui Brasil tornam a proposta ainda mais trágica. Tal como a rapariga com o pai rico na canção dos Pulp não pode realmente saber como vivem e o que sentem as pessoas remediadas, é absurdo pensar-se que aquilo que se decide quando o casamento corre bem será ainda válido quando o divórcio se torna inadiável. Mas o mais trágico não é sequer o plano de Rui Brasil nada valer, e sim o simples facto de ter sido concebido. 

 

Quem, no século XXI, num país ocidental, se casa, inicia uma luta contra a estatística da percentagem  crescente de divórcios e do declínio dos números do casamento, contra a erotização crescente do espaço público, isto é,  contra os outdoors mostrando mulheres em êxtase orgásmico, gelados que nunca são gelados, séries que glorificam ou branqueiam a infidelidade, podcasts e publicações progressistas que promovem o "poli-amor" e o casamento com isenção de monogamia, e luta contra a simplificação burocrática e legal do divórcio, contra a tolerância generalizada em relação à infidelidade, contra o culto da felicidade permanente e da gratificação imediata, contra a novidade do amigo próximo que se divorciou, contra uma sogra, um genro ou por vezes ambos, porque certas tradições são perenes, contra  a memória da vida paralela que imagina para si se não tivesse casado, enfim, contra a realidade e as fantasias. É verdade que não foi ontem que se tentou conjugar o amor romântico, que emana da irracionalidade, com o casamento, que implica sensatez, mas nunca esta quadratura do círculo foi tão evidente. O que fazer? Ninguém sabe. Não casar é capitular, casar é arriscar. Porém, tomemos por certo isto: discutir o divórcio quando o casamento corre bem mata o amor romântico e não garante a salvação do casamento; aqueles casais que pretendem trocam o amor por uma segurança temporária, no fundo não merecem nem o amor, nem a segurança 1. Decidimos casar, hoje, e cumprir os constrangimentos do matrimónio, não por serem fáceis, mas por serem um desafio 2. Entre outros, tais constrangimentos incluem tabus, que uma vez quebrados ensombram a relação, num crescendo de dúvidas que pode até resultar do nada, mas que uma vez iniciado é imparável e deixa o casal numa armadilha de contornos kafkianos em que o pedido de esclarecimentos de dúvidas de um alimenta as dúvidas do outro e vice-versa. Não. Podemos discutir Deus e a virtude; discutir a pátria e a sua história; discutir a autoridade e o seu prestígio; discutir a família e a sua moral; discutir a glória do trabalho e o seu dever 3. Mas não discutiremos o divórcio.

 

1 Paráfrase de Ben Franklin.

2 Paráfrase de JFK.

3 Paráfrase de Salazar.

 

 

 

 

 

 


tags:

Eremita às 21:22
# | comentar

Domingo, 29 de Maio de 2016
Domingo, 29 de Maio, 2016

Ontem, pela primeira vez, aos nove meses e quatro dias de idade, a M. preteriu-me. Aproximei-me já de careta armada, mas com as suas mãozinhas resolutas ela afastou a minha cabeça para libertar o campo de visão e poder continuar a ver a bonecada na TV. É claro que as bebés já tinham revelado tropismos por comida, brinquedos e teclados, sorrisos empáticos, movimentos ritmados em resposta a músicas e outros sinais de contentamento, bem como berrarias de protesto ou desconforto, mas este gesto, por simultanemente manifestar uma opção fora do campo das necessidades fisiológicas e um desejo de emancipação, marca o nascimento de uma personalidade. 


tags:

Eremita às 14:29
# | comentar

Domingo, 29 de Maio, 2016

Uma idosa, de 69 anos, matou outra, de 88 anos, com uma bengala, no domingo à noite, no lar da Santa Casa da Misericórdia de Ourique, no Alentejo, disse hoje à agência Lusa fonte da GNR. DN

 

Sobre esta tragédia, a Misericórdia de Ourique apressou-se a divulgar que a alegada homicida "estava a ser acompanhada pelo serviço de psiquiatria do hospital de Beja, que lhe concedeu altas consecutivas". Entretanto, a Dra. Ana Matos Pires*,  directora do serviço de psiquiatria visado, enviou um esclarecimento ao Diário do Alentejo em que desmente as afirmações levianas da Misericórdia de Ourique e acrescenta algumas considerações que me pareceram pertinentes e exemplares, no teor e na forma, do que deve ser um esclarecimento público.

 

Trabalhar com pessoas com perturbações mentais é uma profissão dura, no sentido em que o risco de uma tragédia nunca pode ser posto de lado. À pergunta "como pôde isto acontecer?", que logo surge nos espíritos com queda para a indignação fácil, deveria imediatamente suceder esta outra: "como é que isto não acontece mais vezes?" 

 

* Declaração de interesses: tornei-me amigo da Dra. Ana Matos Pires quando vivia em Lisboa e admiro-a pela frontalidade e empenho na profissão.



Eremita às 08:23
# | comentar


.pesquisar neste blog
 
.Agosto 2016
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

15
16
18
20

22
24
25
26

28
29
30
31


.posts recentes

. Retrato psicomotor aos do...

. IKEA blues

. Coisificar corpos olímpic...

. Plano pessoal de releitur...

. A depressão é uma doença?

.arquivos
.tags

. todas as tags

.links
.subscrever feeds