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Ouriquense

20
Jan18

Canta-me histórias

Eremita

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Chagall

 
    - Ide todos à merda!   
   e foi quando os moralistas. Falavam do comportamento humano na família na política nas relações entre os homens, dos pecados circunstanciais para todas as situações e das virtudes, dos benefícios da fornicação livre e à tripa forra e do horror dessa fornicação na perversão dos usos e costumes das sagradas normas para a regulamentação da espécie e da dignidade fora da ligeireza e inconsequência dos cães, da regra contra o destempero na fúria unitiva dos sexos desde a lei incompreensível e pré-histórica do incesto ao namoro delicado e retractivo da janela, e da estupidez dos interditos fabricados por convenção humana para codilho dos homens, da dignidade da família com a autoridade graduada por escalões da hierarquia reaccionária espatifada ou da graduação dos escalões mas ao contrário, da sagrada união familiar e do direito temporão à fugitividade como a família piscícola, da criação dos filhos no choco materno e da criação colectiva nas chocadeiras eléctricas do Estado, da fidelidade matrimonial e da concepção de fidelidade como uma opressão reaccionária finalmente ultrapassada com o direito intervalar de mudar de cama ou o direito de a ir mudando em certos prazos consoante as necessidades comprovadas pelas estatísticas, da anulação simples do acasalamento com o direito à fornicação avulsa e aleatória, da manutenção da rede das ligações familiares - do direito a baralhá-la como os canídeos, do direito à fabricação de filhos com defeitos de fabrico e da necessidade de apuramento da raça com cobridores profissionais, do direito à vida e à morte, ao respeito e ao insulto, à veneração da velhice e à sua segregação profiláctica, à suavidade compreensiva e à chicotada, à paz e à guerra, ao coração e ao fígado,   
   - Para a puta que vos pariu!                

Vergílio Ferreira, Para Sempre

Só mesmo uma criatura viciada em ideologia é capaz de transformar em retórica abjecta o que seria, à partida, um sensato apelo para que os meninos e rapazes sejam educados no respeito pelas mulheres e sem vícios de desigualdade de género não legitimados por diferenças biológicas. O texto é tão desastrado que até Vitor Cunha, habitualmente um polemista gratuito apaixonado pela sua própria incorrecção política, escreveu um texto crítico pertinente e com um parágrafo de bom senso (dois seria impossível). Segundo os conservadores, sobretudo aqueles de pendor religioso, sequiosos de um ajuste de contas com - dizem eles - a cultura de esquerda hegemónica, os Weinsteins deste mundo são uma consequência directa da revolução sexual dos anos sessenta do século passado, que terá trivializado o sexo e removido as "sagradas normas para a regulamentação da espécie e da dignidade fora da ligeireza e inconsequência dos cães". Esta tese, que pode ser lida em múltiplas formas na imprensa conservadora internacional e foi decalcada para Portugal por Rui Ramos e Raposo, seu discípulo, é um surpreendente combinado de efabulação do passado, causalidade para totós, branqueamento das religiões e incapacidade de reconhecer e atacar sem digressões o âmago do problema. O historiador Rui Ramos e o cronista do Expresso começam por ignorar a cultura patriarcal de outrora, rica em abusos sexuais e soluções pouco respeitadoras da sacralização do sexo e da conjugalidade livre de hipocrisia que Raposo promove, como o sexo com a criada, a iniciação sexual no prostíbulo financiada pelo pai, a amante com casa posta, disponível para o patriarca fazer na cama o que não ousava com a imaculada mãe dos seus filhos, ou a "casting couch culture" de Hollywood, que precede o modus operandi de Harvey Weinstein, remontando às origens da indústria cinematográfica norte-americana. Obcecados com a iconografia do "peace and love", o duo fantástico do conservadorismo liberal luso ignora também aquela que foi a herança mais relevante da revolução sexual: a universalização do uso da pílula anticoncepcional, que em poucas décadas terá feito mais pela emancipação da mulher do que milénios de práticas sexualmente repressivas promovidas pelas diferentes religiões. Quanto à causalidade, Ramos e Raposo emergem como historiadores caricaturais, parecendo que vale tudo, desde que a causa preceda a consequência no tempo; ora, se se toma o estritamente necessário por suficiente, é menos absurda - e igualmente reaccionária - a tese de que a entrada em força das mulheres no mercado de trabalho explica Harvey Weinstein. Enfim... No branqueamento, nomeadamente do cristianismo, Henrique Raposo transcende-se, o que, depois de tantos textos seus de fervor religioso, é notável. Raposo encerra um mistério insondável: não sabemos se promove o catolicismo por oportunismo, pois a defesa dos valores religiosos a contracorrente com a secularização, mas num país onde abundam as instituições católicas, forja um nicho e dá cachet (o Raposo do Expresso e da Renascença seria uma versão católica e bem sucedida do blogger blasfemo Vitor Cunha), se ele é um católico convicto ou se apenas vive subjugado por uma sogra beata e despótica que o lê todos os sábados para lhe cobrar satisfações durante o almoço do dia seguinte. No primeiro caso, teríamos um farsante; nos outros, uma figura trágica. Menos dúvidas há quanto ao entendimento que Raposo faz dos seus leitores, pois só os pode tomar por parvos. 

 

Qando um católico, quase sempre próximo do êxtase, se refere ao Cântico dos Cânticos, ainda que en passant, há motivo para desconfiarmos. Esse texto, um hino ao amor e sexualidade no casamento, verdadeira preciosidade entre todas as composições bíblicas pelo erotismo de algumas passagens, apesar dos seus quase 3000 anos é de uma adequação notável ao modo como crentes e laicos hoje idealizam o casamento. Sem desenvolver as apreciações estéticas (considero Salomão, esse sábio dos sábios e referência da cultura universal, autor de "Teus peitos são como cachos de uvas", um poeta menos capaz do que o cançonetista de reputação regional que escreveu Espalhem a notícia), convém frisar que o Cântico dos Cânticos pertence ao Antigo Testamento e que só uma interpretação revisionista o reconcilia com a forma como, pelo menos desde Santo Agostinho, a religião católica entende o sexo, isto é, enquanto veículo de propagação hereditária do "pecado original" que foi a desobediência de Adão e Eva quando ainda viviam no Paraíso, a menos que a ideia seja usar o Cântico dos Cânticos apenas como veículo de publicidade enganosa, o que parece ser frequente. O problema do leitor que concorda com o fanático Agostinho e recusa o circunspecto Pelágio (teólogo contemporâneo do primeiro e seu adversário, para quem o homem é livre e responsável pelos seus actos) não está na defesa da sacralização do sexo pela conjugalidade, porque mesmo um ateu consegue investir o sexo conjugal de uma transcendência que a infidelidade mata e arranjos diferentes da monogamia, como a "relação aberta", a poliandria, a poligamia e o poliamor, diluem até concentrações homeopáticas. O problema está em justificar o que toda a evidência empírica indica ser contraproducente, isto é, um entendimento radical do sexo fora do matrimónio como pecado que devemos reprimir a qualquer custo, o que, entre os mais jovens, sobretudo nos EUA, é um estímulo à prática do coito anal e oral como alternativas supostamente menos penalizadoras do que o sexo com penetração vaginal, ou então, entre aqueles que, à custa de sessões de onanismo, acalmam com sucesso a tentação e chegam virgens ao casamento, meio caminho andado para uma incompatibilidade sexual no matrimónio, frustrante e potenciadora de infidelidades futuras. Naturalmente, para um ideólogo como Raposo isto não é razão que chegue para ele se abster de promover implicitamente a abstinência sexual entre os jovens, tal como a Igreja, por alegada consistência teológica que até os intelectuais católicos mais secularizados gostam sempre de realçar, pouco se importa de, ao não promover o uso do preservativo, ter contribuído para que África seja hoje um continente minado pela SIDA. Estas evidências deveriam bastar para não se tentar restaurar a moral religiosa neste período dominado por escândalos sexuais. O sexo é um problema de resolução difícil deixado pela Biologia. Mas o sexo regulamentado pela religião é um problema muito maior. 

 

Não precisamos da moral religiosa. Os escândalos sexuais de que vamos tendo conhecimento são muito menos um problema de erotismo ubíquo e promiscuidade legitimada pela cultura do que problemas de abuso de poder. É só isso que está em causa. Que o escândalo tenha rebentado agora diz mais do progresso nos direitos das mulheres do que de uma suposta regressão moral. Há, por isso, razão para optimismo (sem entrar na discussão do enorme potencial de descarrilamento do movimento #MeToo, porque para esse assunto podem ir lendo o Franciso José Vieigas). Se não é certo que possamos falar de evolução no caso das religiões, as sociedades ocidentais têm progredido nas suas formas de organização política, social e jurídica. É isso que conta para resolver abusos de poder socioeconómico, cultural ou físico, que sociedades ditatoriais podem promover e perpetuar, mas que em sociedades democráticas e abertas tenderão para o anacronismo, ainda que muito mais lentamente do que o fervoroso Raposo antecipa. Este combate faz-se sem que deixemos que um sacerdote qualquer, das religiões velhas ou dos movimentos novos, volte a pôr a tampa na panela das pulsões sexuais, pois já se sabe no que deu e no que voltaria a dar. O próprio Raposo o reconhece implicitamente, ao endereçar a sua cartinha aberta aos pais de meninos e rapazes e não a uma sumidade, mas - oh boy -  a tralha ideológica, a revelação involuntária de preconceitos, a bazófia constante por, ao jeito de um cultural warrior, se assumir como crente, e a desconcertante lata com que aborda - digamos, avant la lettre - os pais dos abusadores em potência das suas filhas, num engenhoso exercício que cria uma iusão de superioridade moral, faz do texto um Raposo vintage, horripilante e ridículo. Perante este seu contributo e o de Rui Ramos, só por dever de urbanidade não termino como a personagem de Vergílio Ferreira inicia a citação, mas socorro-me também de uma referência ao mundo animal, sem pretender - seria tão anos 70 - implicar a teoria da evolução no estado das coisas, mas apenas exprimir um desejo: Henrique e Rui, ide, ide dar banho ao cão.

 

16
Jan18

Uma* sms de Jerusalém

Eremita

Eremita,

Não vim para aqui com a ideia de te escrever, mas a toda a hora vejo judeus com o quipá preso ao cabelo por ganchos iguais aos que as tuas gémeas usam, o que me deixa cheio de saudades. 

Judeu

 

*Corrigido a 17.01.18. Ver comentário.

13
Jan18

Para leitores e bibliófilos

Eremita

 

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O livro de estilo do Ouriquense impede-me de fazer ou consultar listas de livros, filmes, discos e canções do ano, mas para me desembaraçar das regras, semicerrei* os olhos e, enquanto cantava em voz alta e fazia exercícios de fortalecimento do dedo anelar da mão esquerda adequados ao melhoramento da técnica do rasgueado, li de baixo para cima este post sobre os melhores livros de 2017, que me pareceu extraordinário no labor, criatividade das categorias e interesse das propostas. Pedro Mexia e demais fazedores de listinhas, aprendam. 

 

* O dicionário da Porto Editora dá como equivalentes "semicerrar" e "entreabrir". Não percebo desta poda como estes senhores (1, 2), mas creio que também um dicionário deve olhar aos meios para atingir um determinado fim, sob pena de estar a contribuir para a decadência moral e lexical das gerações mais novas.  

10
Jan18

#MeToo: Deneuve pode esperar

Eremita

As campanhas americanas de moralização dos comportamentos – daqueles que revelam desigualdades e opressões – tendem muitas vezes a resvalar para o moralismo e a caça às bruxas em nome da liberdade? Sim. As reações francesas aos movimentos igualitários, na forma como crescem em contextos anglo-saxónicos e daí se disseminam, tendem muitas vezes a resvalar para o reacionarismo e o tradicionalismo em nome da liberdade? Sim.

É este curioso duplo movimento que se deteta nalgumas consequências do #MeToo e em reações como a da carta subscrita por Catherine Deneuve [e 99 outras mulheres («Nous défendons une liberté d’importuner, indispensable à la liberté sexuelle»)], deste lado do grande charco.

(...)

Em ambos os lados do charco – dos vários charcos, geográficos ou ideológicos – é fundamental afirmar que o assédio (nem falo do abuso) sucede quando uma relação de poder está subjacente (e dela dependente dinheiro, trabalho, reconhecimento, autonomia, etc.), e o mútuo consentimento não ocorre. Nada a ver com sedução. A maioria das e dos apoiantes do #MeToo sabe isso e defende isso – assim como as signatárias da carta francesa.

Uma defesa do meio termo? Pode parecer, mas não é. Porque, “ao fim do dia”, o #MeToo rompe mais com a hegemonia patriarcal estabelecida (e a sua rede de sustentação feita de silêncios impostos e auto-impostos), do que a “Carta Deneuve”; e o perigo de reprodução do status quo que comporta a posição desta é mais perigoso do que os riscos de puritanismo daquele.

O feminismo, nos seus diferentes matizes, é a exigência de igualdade de direitos, reconhecimento e oportunidades entre os géneros – e, na minha perceção, deve ser mesmo um questionamento do género em si como um dispositivo de poder. Não é, obviamente, a inversão da assimetria. Mas não pode olhar para o lado e fingir que o patriarcado já não existe. A “Carta Deneuve”, apesar de algumas preocupações legítimas (ninguém quer o resvalar para uma injusta caça aos bruxos), está demasiado próxima das demasiado fáceis indignações com o politicamente correto: não sabe estabelecer prioridades.

Estratégica e politicamente, acaba fazendo o jogo da violência de género sem se aperceber. Miguel Vale de Almeida

 

É sempre útil ler o Miguel Vale de Almeida, sobretudo nestes temas. Concordo com o que ele escreve; a reacção pode esperar. Até quando? Até ao primeiro caso em que um homem inocente seja linchado por vivermos um período de ajustes de contas. O único aspecto positivo do movimento de reacção que a carta das francesas representa é ter sido escrito por mulheres. Reparemos: decorre um debate público que suscita grande interesse independentemente do sexo e em que os dois pólos da discussão são ocupados por mulheres em exclusivo. Isto já sucedia com certas polémicas entre feministas radicais e feministas moderadas, mas não com a dimensão mediática presente, nem com o entusiasmo das conversas que se desejam e pressentem consequentes, nem - na ressaca pós-weinsteiniana - com um diferencial de autoridade moral tão grande entre mulheres e homens, que os condena a apenas ouvir e nada opinar. Embora seja certo que este estado de desgraça masculina não durará para sempre, a exclusão dos homens da discussão, qualquer que seja o conteúdo da carta das francesas, rompe com a "hegemonia patriarcal estabelecida" e deve ser assinalada. 

 

 

09
Jan18

Literatura e informação

Eremita

Creio ter identificado o principal problema de O Leão de Belfort. Precisarei de rever os índices dos livros sobre escrita de ficção que li (de Mário de Carvalho, Julio Cortázar, E. M. Forster, John Gardner, Stephen King, Milan Kundera, David Lodge e James Wood), pois não me recordo de os ver abordar este problema, o que agora me surpreende e até me indigna (se não se tratar de um lapso de memória meu), pois a minha reacção é tão epidérmica ou até visceral que só a posso entender como universal. Apercebi-me pela primeira vez deste problema num romance de João Tordo (Hotel Memória) e seria injusto não reconhecer que Alexandre Andrade é mais subitl, mas a pele não se engana. O problema surge quando o autor ultrapassa o limite para a quantidade de informação objectiva em bruto que o leitor está disposto a tolerar por página, isto é, a informação que não é imediatamente processada - como se de lixo se tratasse - pelo estilo ou então pela subjectividade do autor ou das suas personagens, obrigando o leitor a consumir uma passagem como se lesse um verbete de enciplopédia, um parágrafo de guia de viagens ou uma entrada da Wikipedia. Evitar este problema está para o escritor nestes tempos de conhecimento universal acessível instantaneamente como "rezar" ou restaurar algum misticismo está para todos nós "na era da técnica", mas se há décadas vemos regurgitações de um ludismo heideggeriano por causa da técnica, ninguém se aplica com o mesmo afinco a teorizar sobre a sobrevivência da imaginação perante a epidemia de factos. Em síntese, como ficcionar na era da informação?

08
Jan18

Annie n'aime plus les sucettes à l'anis

Eremita

 

A morte de France Gal foi pretexto para muitos recordarem a sacanice de Serge Gainsbourg, que pôs uma moça inocente de 18 anos a cantar em dueto versos com um duplo sentido que precedeu em décadas o idêntico duplo sentido usado na publicidade visual a gelados fusiformes. Durante décadas, esta brincadeira engrandeceu a aura de cantor subversivo de Gainsbourg. Nos dias que correm, seria coisa circunscrita ao universo da música pimba ou então as redes sociais acabariam com a carreira de um cantor respeitado. Curiosamente, a contracorrente, a jornalista Inês Nadais, do Público, escreveu um obituário com o título mais patriarcal do jovem século: "Morreu France Gall, menina de Serge Gainsbourg, mulher de Michel Berger". Bem, se a Inês pode, então também eu posso cometer a indelicadeza de aproveitar a morte de France Gal para lembrar o grande Michel Berger, escritor de canções brutalmente otovérmicas. Gostar de Gainsbourg fica sempre bem, mas é Berger quem testa a profundidade da vossa francofilia. 

 

07
Jan18

Aviso aos milhões que seguem o Ouriquense

Eremita

Para facilitar as discussões, os comentários deixaram de ser previamente aprovados por mim. Esta decisão deve-se, em grande parte, à confiança que tenho nos comentadores mais habituais. Apagarei qualquer comentário que viole os princípios que a casa defende, a publicidade e as tradicionais manifestações do empreendedorismo cibernético nigeriano, mas creio que recorrerei à censura muito raramente, ainda que sem remorsos. Quanto a comentários que se desviem do tema, só manterei os que forem surpreendentes - isto trouxe-me à lembrança a citação de Saul Bellow com que o Rogério Casanova decorava o seu blog:  "I am for all the good things, against all the bad ones".

05
Jan18

8

Eremita

Oitava entrada de Canhotismo: a Coligação das Minorias ou simplesmente A Coligação das Minorias... ou A Educação de um Revolucionário... ou Julião: um Percurso Político... ou outro título qualquer. A oitava entrada é a primeira prolepse. Tem ainda a particularidade de pertencer à série Canhotismo e também à série Leituras de Cabotagem, que acabo de criar e me obrigará a um trabalho de catalogação de muitos posts antigos.

 

[prolepse]

 

Julião avançava com rapidez pelo corredor definido, à esquerda e à direita, por quinze secretárias perfeitamente alinhadas, cada uma equipada com um computador. Trinta membros do partido trabalhavam ao teclado e mexiam em papéis e dossiers, não parecendo mais atarefados do que nos instantes que precederam a entrada de Julião. O pé-direito era alto, através do picotado das persianas já se percebia o lusco-fusco da rua e, no interior, a luz ambiente vinha apenas dos trinta candeeiros de secretária, modelos cromados de braço em manga maleável, vintage mas baratos. A atmosfera do longo salão só parecia kafkiana no mobiliário, porque as roupas eram modernas e os treze ou quatorze que não trabalhavam com auscultadores chegavam para criar algum burburinho jovial. Depois de estacar diante da quinta secretária da direita e de pegar numa folha, Julião teve de elevar a voz para que os três que o seguiam com o olhar ouvissem o que lia: 

 - "Anaïs era larga de corpo, morena e atlética, delicada de feições excelente ouvinte, assistente social de profissão, canhota, irónica, paciente até ao infinito, porém implacável com os sonsos e com os presunçosos." Gosto. Mata alguém?

- Ainda não acabei a leitura, mas duvido; é uma personagem simpática. 

- Com força moral?

- Sobretudo bondosa e justa; serve a causa. Mas devo precisar que talvez trabalhe em publicidade, não se percebe bem...

- Não é excessivamente grave.

- De quem é?

- De Alexandre Andrade. O livro chama-se O Leão de Belfort

- Não conheço. É dos nossos?

- Ainda não excluí essa possibilidade, mas até agora nada parece confirmá-la. 

- O costume...

- É um físico, autor de culto.

- Já temos um retrato da... Anaïs?

- Talvez amanhã. 

- Façam-na bonita. 

 

Longe iam os tempos em que, sozinho, Julião passava os serões no seu quarto a compor biografias épicas dos  grandes canhotos da História e a catalogar todas as personagens canhotas que encontrava nos livros, filmes, séries, peças de teatro, quadros, fotografias e banda desenhada. Ele não se contentava com as costumeiras listas de canhotos famosos, incompletas, sem critério nem enquadramento. Queria abarcar o mundo inteiro, compor uma História Universal segundo os canhotos, sobre canhotos e para todos, definitiva pelo rigor, o alcance e o aparato teórico, que precisasse apenas de actualização periódica. Sonhava também com "o panteão dos esquerdinos". 

Continua

 

 

 

04
Jan18

Um idiota útil

Eremita

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fonte

 

... Refiro-me à ‘transformação’ de homens em mulheres e vice-versa. Se as intrusões na natureza são sempre duvidosas – quer se trate de mutações do milho ou de raças de cães produzidas artificialmente – as trocas de sexo por via cirúrgica são de uma inaudita brutalidade. 

ALÉM DE QUE são enganosas. São burlas. Embustes. Porque é impossível por via cirúrgica transformar um homem em mulher (ou o contrário), pela simples razão de que homens e mulheres não são apenas diferentes pelo facto de terem pénis ou vaginas: são diferentes em tudo. 
Os cromossomas são diferentes (os homens têm um X e um Y, enquanto as mulheres têm dois X). O cérebro é diferente... José António Saraiva

 

Reagir a uma crónica de José António Saraiva não é um sinal de inteligência, mas serve para partilhar uma perplexidade que julgo ter alguma pertinência. Saraiva critica a transexualidade com uma argumentação contraditória. Não se pode criticar a transexualidade invocando o primado da Natureza e a sua inviolabilidade porque, na esmagadora maioria dos casos, a transexualidade tem uma explicação biológica. Seja por causas genéticas ou perturbações ao longo do desenvolvimento, existem pessoas com um desajuste entre o cérebro e a genitália (e ainda as características sexuais secundárias). Ora, como é possível que, numa sociedade desenvolvida e com informação de grande qualidade à distância de um clique (bom artigo da National Geographic sobre a biologia e complicações sociais), um jornalista de topo ignore esta evidência? Sem esquecer que Saraiva é um conservador cheio de preconceitos e uma figura peculiar, creio que há uma explicação adicional, pois outros menos preconceituosos e mais capazes do que ele incorrem com frequência no mesmo erro. Paradoxalmente, estes críticos foram incubados pelos defensores mais acérrimos da transexualidade, os quais, desejosos de eliminar o estigma de doença, sistematicamente ignoram ou diminuem a importância da biologia neste fenómeno, criando a caricatura do transexual caprichoso. Com o debate dominado por extremistas full of passionate intensity, o grande desafio que se coloca ao moderados é conseguir que alguém os ouça. 

03
Jan18

SIDA e assédio sexual?

Eremita

Nos anos 1980 e 90, a sida dizimou um terço das figuras mais proeminentes da vida cultural americana. Da literatura à fotografia, passando pelo teatro, cinema, música, bailado, artes plásticas, ciência, universidade, jornalismo, publicidade e moda, a lista de mortos é eloquente. Quase todos homens, mas a morte da modelo Gia Carangi, em Novembro de 1986, provou à opinião pública que as mulheres não eram poupadas.

 

Nos últimos três meses, a vaga de denúncias por assédio sexual ameaça fazer o mesmo, mantendo os acusados vivos, para opróbrio universal. Tudo começou em Outubro, quando o produtor Harvey Weinstein foi acusado de abuso por várias actrizes. A vaga não parou. Entre actores, staff dos estúdios, altos responsáveis por instituições culturais, senadores e funcionários do Congresso, são mais de quinhentos os homens acusados nos Estados Unidos. O mais recente em data é o antigo bailarino Peter Martins, director do New York City Ballet, que se demitiu hoje, na sequência da divulgação de uma carta anónima, datada de 9 de Dezembro, na qual é acusado de ter obtido favores sexuais de duas dezenas de bailarinos da companhia. Como o mítico James Levine, director emérito da Metropolitan Opera, já tinha passado pelo mesmo em 3 de Dezembro, quando um homem de 48 anos, antigo aluno seu, o acusou de ter sido molestado durante durante oito anos consecutivos (1985-93), é caso para dizer que foram decapitadas as direcções das duas principais instituições culturais de Nova Iorque. Eduardo Pitta 


Não sei que critério de proeminência cultural Eduardo Pitta seguiu para concluir que a SIDA dizimou um terço das figuras mais proemientes da vida cultural americana nos anos 80 e 90 do século passado e admito, mas sem fazer a conta, que o autor esteja a pensar apenas no universo dos homossexuais proeminentes. Não consigo é explicar o que leva alguém habitualmente sensato a comparar - e mesmo equiparar - a trágica epidemia de SIDA daquele período com a recente onda de denúncias de casos de assédio sexual. É verdade que o sexo, a coscuvilhice e a ligação à cultura das populações atingidas são elementos comuns, mas não vejo mérito em misturar estes acontecimentos, sobretudo sabendo-se que as célebres vítimas de SIDA de então nada fizeram de condenável, enquanto aqueles que agora tombam praticaram (alegadamente) indecências ou barbaridades. Também não me parece excêntrico lembrar que sair da ribalta por se definhar numa cama a caminho da morte certa é bem mais trágico do que ir uns tempos para uma clínica de reabilitação sexual. Enfim, pode ter sido um erro de paralaxe, pois a actualidade embriaga. Felizmente, não tendo este paralelo sido feito por um homem heterossexual, não haverá onda de indignação, mas a orientação sexual não é uma atenuante para o disparate. 

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